Estamos no ano de
1147 do 1º. Reino de Portugal. O rei, D. Afonso Henriques, trouxera a conquista
de novas terras e com elas a abundância de um reino novo.
As noites de após guerras que até então eram
sombrias e geladas, negras de um gosto amargo, eram agora um pouco mais calmas
acompanhadas de um ligeiro gosto meloso do tempo.
As próprias nuvens afastaram-se brevemente
revelando uma resenha de luar num desígnio que se esperava mudar o reino de
Leão. Olhei para trás como um presságio, fitando os grandes portões. Sentira-o
tão certo quanto a adrenalina antes de uma batalha. Aproximavam-se novos
ventos. Junto com estes viria uma bênção para o rei, honrosas ações que entoariam
nas canções para todos os tempos.
Comecei a caminhar lento e curioso esperando a revelação.
Comecei a caminhar lento e curioso esperando a revelação.
O arqueiro levantou a imponente voz pedindo
para quem lá estivesse se revelasse. “Um mensageiro” gritou. Parei abruptamente
no largo do castelo, enquanto os grandes portões recuavam apressando a entrada
do homem. Olhei o arqueiro que acenou levemente com a cabeça e recuou para
fechar de novo os pesados portões. O mensageiro que se erguia valente e audaz, desceu
do seu garanhão numa mestria prática e rotineira e mostrou-me uma carta com o
selo de D. Pedro Afonso, fitando-me logo de seguida com alguma urgência do
mandato. Como companheiro e homem de confiança de D. Afonso Henriques, rapidamente
fi-lo acompanhar-me até à presença do rei.
- Coimbra é uma cidade bela senhor –
desabafara o mensageiro olhando vislumbrado das abadas do castelo e da
decoração que por ele se mostrava.
Limitei-me a um educado aceno de cabeça e
um sorriso modesto. Junto do grande salão, onde uma fogueira regurgitava de
tamanha força, avancei até o meu rei.
- Vejam só. Entra entra Mem Ramires,
bem-vindo sejas meu caro. Serve-te deste bom vinho e junta-se para ouvir o
bardo e as suas quadras sobre a batalha de Ourique.
- Senhor sabeis que muito me honraria, mas
faço-me acompanhar por um mensageiro enviado por D. Pedro Afonso.
- Meu irmão? – parou abruptamente
fitando-me - Que novidades urgentes serão essas para enviar um mensageiro num
tempo destes? Leva-o para a sala de reuniões.
-Sim senhor, com a vossa licença.
Num rodopio rápido e discreto dirigi-me ao
mensageiro que me seguiu até um compartimento afastado do salão comum. Junto à
porta da sala de reuniões, já aguardavam dois guardas e um criado acabara de se
afastar depois de deixar um jarro de vinho, frutas e carne, e uma lareira que
rapidamente aquecera a divisão. O rei apresentava-se ligeiramente ansioso junto
da janela, escondendo as suas mãos pensativas atrás de umas costas direitas e
imponentes.
- Senhor se me permites.
- Entra Mem Ramires, faz entrar o
mensageiro.
Este entrou e numa vénia absoluta estendera
o envelope visivelmente selado por D. Pedro Afonso. O rei abriu o pergaminho limpo
e aquietara-se.
- Muito bem mensageiro. Podes descer até à
cozinha e toma um bom prato de sopa e vinho. Vou ordenar um farnel para levares
para o caminho. Podes dormir umas horas antes de voltares para casa. Esta
mensagem não precisa de resposta, podes ir.
- Sinto-me honrado com o Vosso gesto Senhor.
Com a vossa licença.
- Espera Mem Ramires, não vás. Senta-te um
pouco.
Olhei a última vez o mensageiro que acelerado
avança direito à cozinha acompanhado de um criado. Quando me voltei vi um rei
absorto em pensamentos, num lugar longínquo dali, onde o fogo era o portal do
tempo a que este deixara-se viajar.
- Sabes meu caro, de uma vontade que trago comigo
no meu peito e que ouço a voz de Deus? Não descansarei enquanto não conquistar
aquelas terras de longos campos onde as searas são ricas, abundantes, onde as
cores do salgueiro se misturam com o verde das sementeiras, o gado gordo e
espalhado pela imensidão das terras negras, as melhoras para as agriculturas. Um
planalto perfeito e estratégico, rodeado por solos férteis, o seu clima? ah..é ameno
e com um rio, extenso e abundante, é de fácil navegação até à foz. Ah meu caro,
que obra que torneou o tempo. E se quero conquistar Lisboa, antes terei de
conquistar aquele ponto tão importante.
- Faleis de Scalabis senhor?
- Sim meu caro. Que as minhas forças sejam
tão poderosas quanto a minha vontade. Meu irmão vem a caminho, dirige-se para
paços de Coimbra com informações antes da próxima lua. Ele sabe quanto a
vontade me encaminha.
- Senhor, lembrais com certeza que Muhamed
deixara a mulher. Os boatos espelham-se que a mulher arde em vingança. Será
neste sentido que vosso irmão o venha visitar, que talvez tenha descoberto
alguma informação e lhe queira dizer? Se assim o é, terá de ser demasiado
importante para vir pessoalmente trazer-lhe boas novas ou informações. Além de que, estamos
em tréguas com Muhamed. Poderá ser demasiado arriscado se lhe chegar aos
ouvidos que tenhais algo a ver com a moura e que alguém, vossa gente, tem
ligações com a mesma.
- As mulheres são boas espias meu caro,
vejo que não desperdiças o teu tempo – ria o rei que estalava a sua euforia
numas pancaditas nas costas erguendo-me – és bastante perspicaz Mem Ramires e
confesso que muito penso nesta vinda inesperada e repentina de Pedro. Enviarei
uma guarda ao seu encontro para os trazer em segurança. Mas algo tem de ser
feito antes da vinda de meu nobre irmão. Sabes que te tenho como confidente,
não poderia confiar esta missão a nenhum outro. As noites têm-me inspirado.
Maldita seja se for loucura, mas sinto meu caro, que meu irmão me traz boas
novas para a conquista de Scalabis. Em breve a estação irá abrir e afastar os
ventos, não posso tardar mais esta diligência. Com os teus bons ofícios,
envio-te para Scalabis, estuda minuciosamente todos os pontos das muralhas,
estuda a cidade e encontra-me um ponto fraco. Iremos tomar a cidade numa distracção
dos mouros. Conto contigo.
- A vossa ordem honra-me senhor, não vos
deixarei ficar mal. Se me for permitindo, deixai-me partir ao levantar da
alvorada para fazer os preparativos para a minha presença lá, precisarei de uma
carroça e de um disfarce.
- Sempre a surpreender-me soldado? Qual
será o teu papel desta vez? Não será a de um bardo, a tua voz denunciar-te-á
imediatamente pela tua desafinação – sorria-me o rei enquanto me beijava o
rosto - Leva o teu tempo, mas se puderes voa. Esperarei pelos teus resultados,
mas se não chegares dentro de uma lua, receio que novas ordens possam-te
encontrar.
O galo canta rouco e feroz como uma
trombeta à véspera de uma batalha. Sonhara com a bandeira erguida enquanto novas
canções se entoavam por novos campos iluminados de um sol novo. Um sorriso
mudara-me o rosto e eu vi o rei numa satisfação escondida, uma vitória que
abençoada, o fizera agradecer silenciosamente em orações secretas. Presságios de uma noite silenciosa ou desejos de um alma pedinte?
A meu lado a mulher que me traz à vida mesmo na mais pura escuridão, procurou-me no leito, a despedida fora dura. Um beijo prolongado permaneceu apaixonado enquanto a sua ligeira mão tocava-me no peito, abracei-a e apertei-a mais um pouco para mim.
Chegou a hora. Naquele momento, enquanto o sol se erga no pequeno quarto, acordando-me para uma missão iluminada, eu vejo que em vários momentos da vida sentimos o pulsar do destino aproximar-se, e que cada momento poderá ser o último.
A meu lado a mulher que me traz à vida mesmo na mais pura escuridão, procurou-me no leito, a despedida fora dura. Um beijo prolongado permaneceu apaixonado enquanto a sua ligeira mão tocava-me no peito, abracei-a e apertei-a mais um pouco para mim.
Chegou a hora. Naquele momento, enquanto o sol se erga no pequeno quarto, acordando-me para uma missão iluminada, eu vejo que em vários momentos da vida sentimos o pulsar do destino aproximar-se, e que cada momento poderá ser o último.
Com as roupas velhas e rasgadas, no meu
fato disfarçado, pego na carroça escondida nos recônditos na orla da cidade
de Coimbra e começo a minha demanda. Uma viagem que levaria alguns dias até o
seu termo. Evito as estradas para não ser assaltado ou afastado da minha rota,
seguindo caminhos de comércios protegidos por guardas do rei, até entrar em
territórios inimigos.
Quando ao longe vislumbro a cidade Scalabis, tapo
a cabeça com o capuz e simulo a minha personagem, um viajante coxo. De origem moçárabe, entro na cidade
sem problemas, trazendo alguma carga na carroça de produtos mouros. O novo
dialecto indica-me que chegara mesmo ao centro da cidade.
Avanço direito ao largo do mercado, onde as vozes altas se confundem na euforia dos criados que compram os melhores legumes regateando melhores preços. Deposito-me discretamente num canto onde os guardas mouros não se apercebam da minha presença. Começo por desemparelhar o cavalo que se afastara ligeiramente da carga e bebia água de uma poça que ainda não secara e fico a observar. Os guardas mouros circulavam em grupos de 2 ou 3 vigiando a população. Um dos mouros atingido inesperadamente por um encosto de uma criada, rapidamente se voltou e a esbofeteou e com um empurrão a ligeira moça caiu desafortunada no chão lamacento. Decerto teria estragado a mercadoria que trazia no regaço. Disfarçado de bufarinheiro, poucas foram as atenções voltadas para mim e eu pude durante aquele longo dia, contar os mouros que caminhavam pela zona do comércio, segurando a ponta da espada num orgulho acentuado. Depois de vários dias rotineiros naquele espaço, e após pagar bom preço para um guarda mouro oportunista deixar-me ficar ali naquele canto, apurei que os mouros trocavam de turnos após longas horas de trabalho, o que os deixava extremamente cansados.
Avanço direito ao largo do mercado, onde as vozes altas se confundem na euforia dos criados que compram os melhores legumes regateando melhores preços. Deposito-me discretamente num canto onde os guardas mouros não se apercebam da minha presença. Começo por desemparelhar o cavalo que se afastara ligeiramente da carga e bebia água de uma poça que ainda não secara e fico a observar. Os guardas mouros circulavam em grupos de 2 ou 3 vigiando a população. Um dos mouros atingido inesperadamente por um encosto de uma criada, rapidamente se voltou e a esbofeteou e com um empurrão a ligeira moça caiu desafortunada no chão lamacento. Decerto teria estragado a mercadoria que trazia no regaço. Disfarçado de bufarinheiro, poucas foram as atenções voltadas para mim e eu pude durante aquele longo dia, contar os mouros que caminhavam pela zona do comércio, segurando a ponta da espada num orgulho acentuado. Depois de vários dias rotineiros naquele espaço, e após pagar bom preço para um guarda mouro oportunista deixar-me ficar ali naquele canto, apurei que os mouros trocavam de turnos após longas horas de trabalho, o que os deixava extremamente cansados.
Nesta última alvorada passeara pelos campos
alimentando o cavalo e meio perdido desci demasiado a encosta perto do castelo
de Scalabis até ao limiar de uma alta muralha. Por entre altas árvores e
extenso arvoredo que se via pouco amanhado, segui sozinho até uma brisa forte
fazer-me recuar. Avancei mais um pouco e é quando vislumbro uma das mais belas
vistas que os meus olhos tiveram a oportunidade de saborear.
Extensos campos prolongavam-se para lá do
rio, onde o gado se misturava em campos agrícolas bem amanhados, desenhando o
solo de uma perfeição fértil. Naquele momento eu ouvia as palavras do meu rei
quando ele mesmo descreveu as terras de Scalabis com tamanha beleza. Pequenos
barcos pescavam no rio que transbordava na abundância das searas, regozijando
as hortas anteriormente assaltadas do seu avanço. Lá no cimo vozes soltavam-se
no céu como a voz do próprio Deus, um aviso.
Percebi que estava mesmo abaixo do planalto
da Alcáçova. Encostei-me à muralha de forma a não ser visto enquanto recuava
ligeiramente trepando uma árvore. Apalpei as muralhas experimentando que delas
me permitia trepar, mas estas eram ásperas, devidamente levantadas sem hipótese
de subir. Do ponto que observava era demasiado arriscado, exposto e demasiado
longe para trazer os homens do rei. Não poderiam tomar de assalto a cidade com
tanta imprudência. Jurei para mim que aquele dia seria decisivo para encontrar
um ponto favorável. Caminhei pela encosta em direção ao baixio da cidade. De encontro
com a zona dos pescadores, ajudei a consertar uma roda que se partira pelo peso
da carga do peixe, recebendo por preço 3 pequenos peixes. Agradeci e acendi uma
ligeira fogueira.
Enquanto saboreava o assado aproveitei para
observar as muralhas, a sua extensão e como eram realmente altas a norte do
castelo. Percebi que à medida que as muralhas subiam no monte, estas iam
ficando igualmente mais altas. Avancei no meu estado de coxo fingido até à beira
do rio onde lavei o rosto e pescoço. Lá no cimo, podia ver que a muralha estava
devidamente defendida na parte norte junto à Alcáçova, e que, ia enfraquecendo
pela lateral, à medida que as muralhas ficavam escondidas pelas altas árvores por onde me
perdi. As mesmas altas árvores que vão completando toda a extensão das muralhas até emaranharem-se na cidade.
Precipitei-me por uma rua suja de lado de uma muralha a sul do castelo, fugindo à normal estrada ao lado das muralhas. Cauteloso, avancei olhando o terreno desnivelado e afastado da muralha, mas que pela visão, não se viam guardas ou mouros que lá circulassem. Não foi o meu espanto quando me dei de caras com uma vigília de guardas que castigavam um mouro ladrão. Quando deram pela minha presença, um dos guardas empurrara-me perguntando: “que estas aqui a fazer, também queres? Chega para ti”. Fingi ser um bêbado coxo que se enganara no caminho e fui obrigado a pontapé a descer a rua oculta para tomar rumo à normal estrada que subia do rio até ao mosteiro, retirando-me para o centro da cidade. Antes da expulsão, reparara que havia uma porta onde não tinha destino a nenhuma casa, apenas depositada ali no baixio da muralha numa rua escondida. Deixei cair a noite depois de uma boa sesta, comi e comecei a pensar naquela porta e se outras existiram que pudessem dar acesso direto ao castelo.
Precipitei-me por uma rua suja de lado de uma muralha a sul do castelo, fugindo à normal estrada ao lado das muralhas. Cauteloso, avancei olhando o terreno desnivelado e afastado da muralha, mas que pela visão, não se viam guardas ou mouros que lá circulassem. Não foi o meu espanto quando me dei de caras com uma vigília de guardas que castigavam um mouro ladrão. Quando deram pela minha presença, um dos guardas empurrara-me perguntando: “que estas aqui a fazer, também queres? Chega para ti”. Fingi ser um bêbado coxo que se enganara no caminho e fui obrigado a pontapé a descer a rua oculta para tomar rumo à normal estrada que subia do rio até ao mosteiro, retirando-me para o centro da cidade. Antes da expulsão, reparara que havia uma porta onde não tinha destino a nenhuma casa, apenas depositada ali no baixio da muralha numa rua escondida. Deixei cair a noite depois de uma boa sesta, comi e comecei a pensar naquela porta e se outras existiram que pudessem dar acesso direto ao castelo.
Quando só as passadas dos guardas
vigilantes se ouviam nas pedras da estrada, bebi um bom trago de vinho, amortecendo
as dores do golpe anteriormente sofrido, e segui acompanhado do silêncio da noite à
descoberta de um ponto fraco no castelo.
Atravessei as ruas curtas da cidade penetrando na escuridão da noite, apalpando as paredes e caminhando com cuidado. Avançando numa rua cruzada com outra, passadas de guardas ouviam-se a descer um atalho vindo de uma ponta da rua lateral, com o cintilar da espada no cinto. As ruas pareciam um labirinto de casas entre ruas estreitas. Recuei velozmente até à ombreira de uma porta que recuava na construção da casa criando um curto telheiro em toda a sua volta. Sustei a respiração a qual obediente respeitou a ordem. Os guardas que passavam por mim caminhavam atentos e silenciosos pela rua acima. Desconfortável na ombreira que mal me tapava, sustentando-me num degrau gasto, a bota escorregou ligeiramente soando um pequeno som. Os guardas pararam abruptamente. Um dos mouros retirou a espada que brilhou como que beijada por uma mecha de luar. Obriguei o corpo a suster mais um pouco a respiração, sentindo já um certo calor na cabeça que me assaltava com mais fervor com o receio de ser descoberto. Quando os guardas estão quase no meu alcance, deixei um pequeno punhal soltar-se na mão preparando-me para um ataque indesejado. Rapidamente calculei a distância até ao rio e como de lá me manteria escondido até puder fugir para Coimbra. O bafo dos mouros chegaram-me às narinas e quando julguei que fora descoberto, um gato assanhando atirou-se para a cabeça do mouro e correu rua acima, enquanto os guardas mandavam pedras ao pequeno animal que me salvara da desgraça. Agradeci a Deus por passar nesta diligência e ordenei-me a ser mais prudente e menos ansioso.
Atravessei as ruas curtas da cidade penetrando na escuridão da noite, apalpando as paredes e caminhando com cuidado. Avançando numa rua cruzada com outra, passadas de guardas ouviam-se a descer um atalho vindo de uma ponta da rua lateral, com o cintilar da espada no cinto. As ruas pareciam um labirinto de casas entre ruas estreitas. Recuei velozmente até à ombreira de uma porta que recuava na construção da casa criando um curto telheiro em toda a sua volta. Sustei a respiração a qual obediente respeitou a ordem. Os guardas que passavam por mim caminhavam atentos e silenciosos pela rua acima. Desconfortável na ombreira que mal me tapava, sustentando-me num degrau gasto, a bota escorregou ligeiramente soando um pequeno som. Os guardas pararam abruptamente. Um dos mouros retirou a espada que brilhou como que beijada por uma mecha de luar. Obriguei o corpo a suster mais um pouco a respiração, sentindo já um certo calor na cabeça que me assaltava com mais fervor com o receio de ser descoberto. Quando os guardas estão quase no meu alcance, deixei um pequeno punhal soltar-se na mão preparando-me para um ataque indesejado. Rapidamente calculei a distância até ao rio e como de lá me manteria escondido até puder fugir para Coimbra. O bafo dos mouros chegaram-me às narinas e quando julguei que fora descoberto, um gato assanhando atirou-se para a cabeça do mouro e correu rua acima, enquanto os guardas mandavam pedras ao pequeno animal que me salvara da desgraça. Agradeci a Deus por passar nesta diligência e ordenei-me a ser mais prudente e menos ansioso.
Deixei os guardas desaparecerem da minha
visão e aguardando um pouco para que estes não recuassem da volta deliberada, voltei
a descer aquele trilho escondido e emaranhei-me numa rua onde acabavam as casas.
Desci urgentemente aquela estrada até perceber que fora ali o exato local onde
naquela tarde eu encontrara o pobre mouro a ser maltratado por manifesto roubo
de um pão.
Olhei as muralhas que se erguiam majestosas
e altivas, adiantadas de um muro baixo com uma casa pegada à fortaleza. Dali
não se via ninguém, havendo indícios que estaria abandonada. Trepei o muro baixio,
e percorri aquela pequena distância de ervas altas e terras um pouco lamacentas. Perto
se ouvia mais uma patrulha de guardas e rapidamente deitei-me entre as ervas
bem recuado perto da abandonada casa. Desta vez não houvera barulhos ou
descuidos e voltei a caminhada até à casa. Circundei a mesma não encontrando a
presença de ninguém, subi ao telhado e calculei, "se conseguirmos erguer umas escadas,
este ponto da muralha é o suficiente para subir até ao castelo".
Permaneci ali algumas horas enquanto a
noite percorria os ventos violentos da estação e percebi que a patrulha dormia
no local não patrulhando durante a noite aquelas zonas. Deixando uma réstia de
luar abandonar os céus desci aquela abada da muralha até à estrada comum quando
olhei de novo aquela porta. Conseguia ver que de alguma forma ela levaria ao
castelo. E subindo o olhar às muralhas outra porta se mostrava mesmo na própria
morada do castelo. Estaria encontrado o ponto fraco da antiga Santa Iria.
Voltando à cidade, peguei na carroça e levei-a até ao castelo fingindo levar
uma oferenda a Muhamed. Sabendo de antemão que seria imediatamente expulso,
encostei-me a um ponto de uma casa encostada às muralhas e calculei o ponto a
tomar de assalto e constatei, este local não é patrulhado de noite tal como lá
em baixo. As muralhas revelavam algumas portas pelas quais poder-se-ia entrar,
mas esta, era de facto a mais exata para o assalto mesmo por cima daquela que
encontrara no baixio.
Pelas minhas contas nem 10 guardas
patrulhavam esta zona do mosteiro de dia. Como esperado, fora imediatamente
expulso do local. Para não levantar suspeitas abandonei a cidade de Scalabis e
parti em direção a Coimbra. A minha demanda estava ali terminada. Precisaria de
chegar até ao rei dentro de poucos dias. Seria uma viagem sem paragens. Vendi a
carroça com as bugigangas a mouros do comércio obscuro, peguei no cavalo e
comecei a viagem de regresso urgente. Em breve estaria de novo em casa.
Finalmente cheguei a Coimbra, vi os portões
serem abertos e esperado pelo próprio Fernando Peres, que num abraço de
boas-vindas encaminha-me a um confortável aposente onde espera-me um saudoso banho
quente e uma refeição reconfortante. Dormo até ouvir o primeiro sino da manhã.
Visto-me a preceito para apresentar-me junto do rei e é quando assisto à
chegada de uma forte hoste que rodeou a larga praça trazendo no seu regaço o
D. Pedro Afonso. Sustive-me numa honrosa vénia onde D. Pedro Afonso cumprimentara-me
com agrado visível.
- Acompanhais-me valente Mem Ramires? Tenho
ouvido excelências de tua pessoa. Este dia será de grande inspiração para o meu
adorado irmão. E espero que estejam todos presentes para a revelação que trago.
- Suponho que esteja tudo a postos senhor.
Meu senhor rei tem estado ansioso pela Vossa chegada, parece que trazes o
milagre que o ajudará a conquistar as terras mais a sul.
- Se a noite não mudar e não levantar
ventos agrestes nesta lua, então podemos viver esperançados que esse dia chegue
soldado. Agora levai-me até Afonso e brindai-me com um bom vinho.
Esta é das mais importantes reuniões a
qual sou sido autorizado assistir. E o tempo passou até que a lua voltou a cruzar o sol nos céus.
Foram relatadas novas informações acerca dos mouros na zona circundante a Scalabis. D. Pedro Afonso falava aceso quanto à imprudência de avançar para a conquista sem informações precisas e concretas sobre como diligenciar a empresa, enquanto, Fernando Peres mostrou o seu maior contentamento em avançar para a obra. Também Gonçalo Gonçalves, Lourenço Viegas, Pero Pais e Gonçalo Sousa reforçam o desejo do rei discutindo rotas olhando e expressando as suas ideias no mapa que se estendia longa na grande mesa, submisso e perspicaz nos caminhos até Scalabis. O rei permanecia silencioso, notava-se nas suas olheiras o cansaço e preocupação que o tomara nos últimos dias, talvez desde aqueles em que avancei sozinho para uma perigosa demanda. Voltara vivo e satisfeito com o resultado. Então permanecendo naquela atenção pelo meu rei audaz, este olhou-me e lendo os meus pensamentos, tomou a palavra.
Foram relatadas novas informações acerca dos mouros na zona circundante a Scalabis. D. Pedro Afonso falava aceso quanto à imprudência de avançar para a conquista sem informações precisas e concretas sobre como diligenciar a empresa, enquanto, Fernando Peres mostrou o seu maior contentamento em avançar para a obra. Também Gonçalo Gonçalves, Lourenço Viegas, Pero Pais e Gonçalo Sousa reforçam o desejo do rei discutindo rotas olhando e expressando as suas ideias no mapa que se estendia longa na grande mesa, submisso e perspicaz nos caminhos até Scalabis. O rei permanecia silencioso, notava-se nas suas olheiras o cansaço e preocupação que o tomara nos últimos dias, talvez desde aqueles em que avancei sozinho para uma perigosa demanda. Voltara vivo e satisfeito com o resultado. Então permanecendo naquela atenção pelo meu rei audaz, este olhou-me e lendo os meus pensamentos, tomou a palavra.
- Meu caro Mem Ramires, julgo ser a ocasião
certa para revelar do teu tão falado sumiço. Meus senhores, enquanto todos vós
se debatiam por confrontos diretos, guerras em bandeira a hoste em direção a estas
terras que desejo tomar, enviei Mem Ramires até Scalabis para observar os
mouros, afim de, encontrar um ponto fraco para tomarmos a cidade.
- Mandastes Mem Ramires, um moçárabe? Nem sequer
é cristão – reclamava um dos senhores cuspindo para o lume que pareceu
assobiar.
- Moçárabe ou não, é o homem em que mais
confio nesta sala. Não esquecendo os elos que nos unem a todos, Mem Ramires
converteu-se ao cristianismo e é o meu braço direito, confio na sua missão como
se eu próprio a tivesse tomado. Sei que me traz boas informações. Queiras por
favor apresentá-las, levanta-te e conta-nos.
Começo pelo simples relato da beleza dos
campos, da abundância dos campos e searas e da força do rio, onde enquanto
alguns bocejam do que parecia ser uma alegoria, para o rei pareceu ser a mais
bela de todas as canções épicas:
– Naquela noite observei que, os turnos era
longamente espaçados, e as patrulhas são feitas em grupos de apenas 2 a 3
homens. Durante todo o dia são patrulhadas 6 voltas em cada canto da cidade torneadas
por outra patrulha que se dispõe noutro ponto até se cruzarem e trocarem de posição.
À noite, apenas são patrulhadas as muralhas, nos baixios da cidade os soldados
dormem nos pontos de patrulha. Se conseguirmos neste momento atravessar a
cidade até à muralha conseguiremos chegar a um ponto mais fraco, não só, da
visão dos mouros que patrulham o castelo, como sendo esta a zona menos
amanhada e abandonada pelos habitantes, ficando esta depositada em imensa
escuridão. Teremos de ser precisos e rápidos, avançando em pequenos grupos de
cada vez para não sermos descobertos. Chegados lá acima facilmente tomaremos a
cidade através da porta de Atamarma e levantaremos o estardante de D. Afonso
Henriques no mais alto torreão do castelo.
- As tuas palavras trazem-me a força fugaz
à concretização desta obra. Trazes iluminação de Deus, só ele te podia permitir
ser tão bem sucedido nesta missão Mem Ramires, com a tua cautela e astúcia
trouxeste a lufada de esperança a esta empresa. Muito bem senhores avancemos
para a diligência.
- Assim seja meu irmão, mas se me permites
revelo-te da minha presença aqui em Coimbra nestes iluminados dias, trago
novidades sobre o alcaide de Scalabis.
- Muhamed? Que sabes meu irmão?
D. Pedro Afonso levantara-se rápido em
direção à porta e fez um sinal a um dos seus guardas e no instante a seguir
entrava uma figura completamente escondida por baixo de um vestido e de um véu.
- Como te atreves a trazer Zuleiman até à
minha casa meu irmão? Ousas rebaixar-me? Ousas trazer o inimigo até à minha
própria casa?
- Não me ofenderei por tão grosseiras
palavras quando as mesmas são frutos de sentimentos desprovidos de cuidado, e
não causados pela minha pessoa. Como já deves ter ouvido falar, Muhamed
abandonou esta moura. Despeitada, Zuleiman enviara-me uma mensagem através de
um dos seus guardas e pediu-me um encontro com o rei de Portugal, diz ter
informações importantes sobre a defesa do castelo que vejo, consolidar as
informações de Mem Ramires. Aceitas que a moura apresente o seu testemunho e que
parta livre?
- Arriscas-me a um ato de misericórdia
quando nem sequer confio nas suas palavras?
- Se me permitires meu senhor rei, serei o
seu interprete.
Levanto-me erguendo logo de seguida uma vénia respeitosa.
O rei dirigiu-se a mim e acenou-me positivamente. Nos seus olhos apenas vi uma réstia
de orgulho, não esperava nada de novo, porque na sua postura, D. Afonso
Henriques já estava preparado para tomar Scalabis. Traduzi as palavras da moura
que nunca se mostrou receosa pelas suas palavras brutas ou ofensivas, comovida
e despeitada, Zuleiman revelara melhores informações que as minhas, mas que
reforçavam o ponto de assalto já decidido, as portas que tomaríamos de assalto,
os lugares que não eram patrulhados, o excesso de confiança pelas altas muralhas.
Melhor, Zuleiman especificou exatamente a forma como eram mudados os turnos das
patrulhas e quais os caminhos mais e menos percorridos. Como conhecia toda a
cidade pelos dias que lá percorri, rapidamente tracei o percurso até à orla da
muralha onde haveríamos de subir.
Decididos os companheiros de jornada e
organizadas as necessárias provisões, o Rei, e os seus bravos homens, bem como, os seus
cavaleiros, os presentes senhores na reunião anterior com excepção de D. Pedro
Afonso, partimos de Coimbra ao dia 10 de Março de 1147. A hoste seguia lenta
pelos caminhos fora da estrada do comércio.
No segundo dia de marcha, ouvi o senhor rei
chamar Martim Mohab, e pouco tempo depois saiu do acampamento com mais dois
homens a passo largo. Sabia de antemão que estes iriam anunciar aos mouros que
as tréguas ficavam suspensas durante três dias. O risco era grande e a
diligência era agora urgente. Chegados a uma cidade próxima do destino, o rei
convocou todos os homens e proferir o discurso de rei antes do assalto final:
“Combatei por vossos filhos e descendentes,
que convosco eu próprio estarei e nada haverá, na vida ou na morte, que de vós
me possa apartar(....)”.
Num discurso onde senti um rubro da
adrenalina e felicidade que se via o rei viver, confortei-me com um aperto de
uma mão junto ao peito lembrando a bela mulher que deixara para trás sem
despedida. “O homem para morrer honrado tem de morrer na tormenta de um aguçado
gume de uma espada e não num peito deleitoso de uma mulher”, dissera um homem
velho em tempos. Hoje, julgo que todas as batalhas são necessárias ao homem,
mesmo aquelas, que passem apenas por ganhar um gesto carinhoso de uma mulher.
Sentiria a sua falta. Mas sentia que tinha de honrar o meu senhor rei, que de
tamanha confiança, confiou-me a mais importante tarefa e aquela que seria o ganho
da diligência pela tomada de Scalabis. Depois de 4 séculos seria finalmente
nossa.
A cidade já se vislumbrava ao longe quando
no limiar da noite o rei mandou-nos refugiar num recatado monte onde num baixo
arvoredo nos instalámos. Não foram acesas fogueiras. Foram dispostas pequenas
patrulhas. Quanto aos restantes, pudemos dormir para recuperar as forças, comer
o pão e carne duras e o vinho velho dos alforges. Chegada a alvorada do dia
seguinte, o rei ainda andava de pé rondando de um lado para o outro onde se
viam homens a fabricar várias escadas. Avancei direito a D. Afonso que estava ansioso.
- Meu senhor rei, vejo que o descanso não
te tomou mesmo no silêncio da noite. Devíeis descansar para bem de vosso corpo.
- Deus iluminou a minha diligência meu nobre
cavaleiro, e sua força alimentou-me. Não tenho sono ou fome, senão aquela que
me sustenta em tomar aquelas terras. Olha para esta brisa Mem Ramires, o rio
acolhe a maresia da noite e a restante beijou os campos recompondo-os de
frescura. Mandei os homens fabricar 10 escadas para cada uma ser confiada a
cada dúzia de homens, e assim, é mais fácil trepar as muralhas, uma vez que, disseste
que eram inacessíveis a pé. Já ordenei o avanço dos melhores 120 homens. Ao
anoitecer seguiremos a marcha e tu irás conduzir-nos o resto do caminho até ao
ponto decido meu companheiro. Revelo-te meu caro que na serra dos Albardos
prometi erguer um mosteiro se Deus me permitir a vitória.
- Farei o meu melhor meu Rei, isso eu vos
prometo a vós. Levarei os vossos homens a salvo rumo e trazer-vos-ei para vosso
orgulho e honra a conquista de Scalabis.
- Eu também lutarei Mem Ramires, é um sonho
meu, são homens meus que se arriscam pela loucura deste seu rei.
- Senhor
ireis arriscar-vos numa diligência que ainda desejada ao seu sucesso, tem o seu
risco? Não permitirei que a morte vos assole.
O rei sobrepôs uma mão em cada ombro,
segurando-me firmemente.
- Prefiro morrer a não tomar esta cidade.
Não há qualquer motivo ou razão que mude a minha ideia. Além de que, os monges
de santa cruz rezam pela nossa vitória. Que rei sou eu que entrega um sonho nas
mãos de outrem sem erguer a minha espada pelo seu sucesso? Porque razão chegámos
até aqui hoje Mem Ramires? Se é loucura ou orgulho não sei, mas acredito que o
nome dos heróis que ouvimos entoados nas canções não atingiram a sua
popularidade por ordens medrosas de perderem suas vidas, antes desafiaram a
riqueza das suas inspirações, iluminados por forças que transcendem à sua
própria existência e alcançaram grandes feitos, julgo já não ser apenas a minha
vontade que comanda a minha mão.
- Então serei o primeiro cavaleiro a trepar
as muralhas que se virem ser tomadas fazendo erguer as escadas ao seu assalto.
Dizei-me senhor, hoje é o último dia dos 3 dias de suspensão das tréguas que
desejais fazer?
- Sei que não é digno de um rei conquistar
um castelo enganando o seu alcaide, mas não há alternativa nem outra forma de o
fazer. Pela informação que me chegou, como não atacamos dentro deste prazo, o
alcaide diminuiu o reforço das patrulhas e voltou tudo ao normal, atacaremos
amanhã quando todos acharem que não haverá qualquer perigo para eles.
O rei abraçou-me recolhido nas minhas
palavras enquanto o meu coração se apertou de tamanha responsabilidade.
Procurei igualmente arranjar inspiração em
alguma mestria do destino, mas esta mantinha-se em segredo, por isso, ajudei no
arranjo das escadas e rapidamente a lua levantou nos céus.
Chegou a hora.
A ordem não foi dada, porque parecíamos todos ouvir no silêncio da noite que aquela era a hora que o rei ordenara para avançar. Seguimos por monte iraz e passamos à fonte de Tamarmá. Ao longe no alto do horizonte erguia-se a alcáçova do castelo de Scalabis. O nosso destino. Teriam nesta altura, já terminado os 3 dias de suspensão das tréguas.
Chegou a hora.
A ordem não foi dada, porque parecíamos todos ouvir no silêncio da noite que aquela era a hora que o rei ordenara para avançar. Seguimos por monte iraz e passamos à fonte de Tamarmá. Ao longe no alto do horizonte erguia-se a alcáçova do castelo de Scalabis. O nosso destino. Teriam nesta altura, já terminado os 3 dias de suspensão das tréguas.
Chegados perto do ponto que se estabelecera,
comigo avançou uma pequena hoste até ao muro baixio. Pelas contas a patrulha
mudaria de turno e cruzar-se-ia ali mesmo, e quando assim o foi, escondemo-nos
nas ervas altas na escuridão da noite. Confirmei que os mouros andam calmos
pelas ruas da cidade, a confiança e uma segurança certa por não esperar
qualquer ataque, tal como, a moura revelou no seu arejo ao Rei em Coimbra.
Julgando Muhamed que o rei desistira de
qualquer confronto, diminuiu o número de guardas e aliviou a patrulha numa
certeza tranquila de que o castelo não sofria qualquer perigo. Ainda que este
se tenha tornado um factor a nosso favor, o céu esta noite foi liberto do
manto de chuva e o luar reluzia com mais luz o que se tornou num risco para denunciar
a nossa presença.
Parecíamos reluzir no espelho do céu. Seria
apenas necessário que os mouros olhassem para cima para prever o prévio ataque.
Nesse momento tive a certeza que o Rei tinha razão, já não éramos apenas
seguidos pela vontade de um só homem, uma vontade superior comandava as nossas
forças.
Aguardámos um pouco e então a patrulha veio
descendo a rua, parou ali mesmo em frente para beber um gole do alforge, enquanto
a hoste sustinha-se silencioso e quieto nos seus lugares. Reparo que aquela
não era uma paragem temporária, mas um local de vigia.
- Que vamos fazer Mem Ramires? – perguntou
um soldado gelado no meio da erva fresca da noite.
- Vamos aguardar que os mouros adormeçam. E
espero mesmo que assim seja ou teremos de mudar os planos.
Esperamos gelados os soldados que ocultos,
olham atentos os mouros que no posto de vigia teimam em não adormecer. Senti friamente o sangue gelado do Rei e o coração tremeu-me se a diligência se
revelasse frustrada logo no começo. Puxei de um punhal que vigorosamente juntou-se
ao nível da perna e comecei a esgueirar-me pelo arvoredo. Não tinha alternativa
senão matar os mouros ou em breve o sol rebentaria no horizonte e então seria
muito mais difícil concretizar a obra. Moqueime agarrou-me no braço e puxou-me
para baixo mesmo a tempo. Uma patrulha desceu a rua e parando perto desta
vigília, levou dois mouros que lá estavam. Restando apenas outros dois de
guarda. Aguardámos enfim que estes adormecessem, encontrando-se um dos mouros
completamente bêbado.
Quando desta feita, e tomada a certeza do silêncio, prova que os mouros negligenciavam da vigília, aproximei-me da casa abandonada, subi ao seu telhado e puxei de uma lança. Prendi com segurança a escada ao topo do muro e suspirei enquanto os meus companheiros olhavam em volta, subi para a estrutura.
Ao subir a escada,
sinto os pés escorregarem num castigo horrendo e juntamente com tal estrutura
caio num estrondo imenso mesmo no telhado da casa. Rapidamente fui puxado para
dentro do arvoredo onde consigo vislumbrar que o mesmo fora igualmente feito à
escada.
Os mouros de vigia levantaram-se num
sobressalto. Voltei-me sorrateiramente para estes que olhavam em redor. Vi o
resto da hoste completamente oculta como se dali tivessem desaparecido como um bafo
mágico. Os mouros caminharam para cada ponta da rua, conversando e observando
sobre alguma irregularidade. Aquele momento pareceu durar uma eternidade. Dali
a instantes os mouros voltavam às suas tendas e dali nada se viu ou ouviu.
- Estás bem Mem Ramires?
- Não temos mais tempo. Chega-te aqui
Moqueime.
Subi rapidamente para os ombros de Moqueime,
um soldado de uma estrutura larga e atlética, o qual me permitiu prender uma
escada ao topo do muro. De imediato, sentindo a escada segura subi sem hesitação
pela estrutura sentido de perto as histórias que as muralhas contavam. Seguido
por mais alguém, levei comigo o pendão real.
Num esforço prolongado tentei abrir a porta
da muralha e quando assim o fiz os mouros que acordados pelo barulho e aqueles
que vigiavam no cimo da muralha, gritavm em ordem: “Manhu? Manhu”. Do cimo da
escada olhei a hoste do rei e fiz sinal para avançarem, dali consegui descobrir
um intenso brilho do olhar de D. Afonso Henriques que no momento parecia
vingar-lhe no sangue a vontade do próprio Deus.
Não chegara a traduzir a pergunta “quem
está ai”.
As restantes
escadas forram içadas Às muralhas e soldados cresceram-lhe nas suas estruturas.
Atrás de mim seguiram os meus companheiros de luta que empunhando a espada,
vingávamos as nossas gentes e conquistávamos a frutuosa cidade dizimando as
gentes mouras. Enquanto seguimos a mote matando quem de sangue mouro se
apresentasse, atrás desciam alguns soldados que se dirigiram à porta de
Atamarma para fazer entrar a restante hoste e nosso rei.
Numa luta que de rápida adrenalina cresceu,
a bruta força onde sustinha a audácia e orgulho pelo rei, olhava a mote daqueles
mouros e num tomar de outras forças garrado de inspiração e bravura o sangue
bombeou forte e entusiasmante e gritei em sinal do ataque: “Santiago e rei Afonso”.
Os mouros confusos e surpreendidos apenas
gritavam: “Nazarenos, Nazarenos”, nome pelo qual, somos conhecidos. Agitados e
não estando preparados, poucos eram os mouros que naquele momento ostentavam as
armas em defesa do castelo, o que se tornou facilmente domável. Lá em baixo ouvi
a voz do meu rei senhor erguendo-se e o céu abriu para ecoar as suas palavras:
- Por Santiago e a Virgem Maria, caros
companheiros de luta avançai ao inimigo e expulsai-o destas terras. Matem todos
os mouros, tomemos Scalabis.
Os gumes das espadas cantavam numa força bruta
entre a vontade e o horror, assumidas de um tom sangrento onde esquecêramos as
lamentações daqueles que retiramos a vida, ecoando apenas a voz do rei, da
razão do ataque, enquanto uma estranha melodia esvoaçava pelos céus como um
lamento pelo passado, pela tomada dos mouros e todos os anteriores desonrosos
governos de Scalabis.
Esta é uma terra de Deus e apenas aos
cristãos é permitida a sua entrada e subsistência. Essa certeza erguia-se na
força das espadas que bravamente debatiam-se por uma vitória mais que desejada,
os mouros igualmente viam o seu fim, e dali apenas restava lutar pelas suas
vidas e do seu patrono.
Ouviam-se finalmente os gritos fervorosos
dos soldados que conseguiram partir os ferrolhos da porta de Atamarma com ajuda
de um malho de ferro, assim gritava Moqueime, e a hoste entrou decidida pela
ruma acima matando todos os mouros que se opunham ao ataque. Rapidamente muitos
soldados, meus companheiros da obra, lutavam a meu lado, enquanto grande parte
da hoste já seguia direito à cidade completando a ordem do Rei.
Quando me dirigi finalmente ao alto torreão
do castelo vi o meu senhor rei de joelhos orando a Deus num profundo agradecimento
pela vitória. Ergui-o enquanto levantava o seu estandarte e cumpri a minha
promessa. Enquanto o estandarte real dançava num vento orgulhoso,
personificando a alegria da nossa vitória, todos nós assistimos ao soberbo
amanhecer do altivo castelo com vista para os campos de Scalabis.
Uma salva ecoou pelos campos que
resplandeciam na sua cor laranjada na matina anteriormente húmida e fresca. Uma
brecha de sol reluziu para o castelo abençoando o rei e a sua hoste. Das mãos
do Rei concretizara-se uma vontade divina e um futuro reluzente se apresentou
nas asas do destino que em breve se mostraria completamente concretizado do seu
prenúncio. Conseguia sentir o rubor do Rei que dali, seguiria para a conquista
de Lisboa.




Através da pessoa de Mem Ramires, e utilizando um pouco de ficção, compus este conto sobre a tomada de Scalabis por D. Afonso Henriques que data a 1147.
ResponderEliminarCom base no relato de Alexandre Herculano e de várias pesquisas, que infelizmente, de pouca existência e descrição.
As minhas pesquisas tiverem em conta os seguintes sites:
http://castelos2deportugal.no.sapo.pt/santarem.htm
http://andancasmedievais.blogspot.pt/2011/07/conquista-de-santarem-iii-o-ataque.html
Espero que gostem...:)
Acrescento um link que me faltava:
Eliminarhttp://www.ribatejo.com/hp/base/cgi-bin/ficha_facto.asp?cod_facto=43
Excelente texto Carla, gostei muito.
ResponderEliminarDesconhecia por completo a história da tomada de Santarém.
De facto os portugueses desse tempo, eram uns bravos.
Parabéns :)
obrigado São..^_^
EliminarSó lamento já não existir o castelo de Santarém..
Fica a história, prova dos feitos dos corajosos e bravos Portugueses.
Olá,
ResponderEliminarBolas que belo conto Carla, mesmo sendo baseado em factos verídicos, gostei bastante da forma como descreveste a tomada de Santarém.
Bela personagem Mem Ramires :)
Muito bem parabéns pelo texto ;)
Obrigado Fiacha. Gostava de ter passado mais informações sobre Santarém naquele tempo, mas confesso que, não existem relatos, e presumo que Santarém esteja bastante diferente do que era em 1147, começando logo pelo facto de já não existir o castelo.
ResponderEliminarExistem limitadas referências e garanto que se eu não fosse desta zona, jamais encontraria o que em tempos foi a porta de Atamarna.
Mas enfim, fica uma pequena e simples descrição do que se passou :D
Bem-vindos a Scalabis com recantos medievais lindíssimos :)
Miga está muito bonito o conto, e como o Fiacha disse bela personagem Mem Ramires. :)
ResponderEliminarCriaste uma bela hestoria sobre a tomada de Scalabis até porque realmente não existe muitos relatos. E a imagem que escolhes te das muralhas, as portas de sol, ta muito gira. Pena ja ter o castelo mas sem duvida miga que a nossa zona é muito bonita, e Santarém tem muitas coisas que vale a pena ver. :) Santarém a capital do gótico.
Belo conto miga, a sério.
Miga obrigado :D tal como eu, conheces bem a beleza da nossa terra, mesmo há pouco tempo, tivemos na Fonte das Figueiras, outro lugar lindíssimo perdido no arvoredo das estradas de Santarém, um resto de uma muralha com uma fonte que escorre alegorias de outros tempos ^_^
ResponderEliminarInfelizmente não consigo imaginar ali o castelo, muito menos o que dele rodeava, de tão diferentes que eram aquelas ruas/esquinas/cantos e portas, não obstante, julgo ser possível viver, imaginando, o encanto que naquele tempo já era Santarém, a para sempre Scalabis..:D
Ois,
ResponderEliminarRealmente um pormenor me escapou o desenho feito pela Ana, eu que adoro o bom vinho Lezirias :D, que foi o seu desenho no final, mais uma vez tenho que lhe dar os parabens, tem imenso talento para o desenho.
Justa homenagem Carla ;)
Bjs e queremos mais novidades :D