quinta-feira, 15 de agosto de 2013

IIº. Parte - Conto: Os filhos de Fgôr - o tesouro de âmbar



A onda de transe vai tomando parte do meu corpo, enturvando-me zonzo com uma certa agonia. Rastejei até às raízes de uma árvore que me pudesse permitir melhor abrigo e aguardei a passagem. Estava a ser puxado, chamado pelo meu rei. As sombras rodearam-me até outro lugar se assumir. E lá estava o meu irmão Lygre, de braços cruzados, numa silhueta escura com um pôr-do-sol recente como pano de fundo. E aos poucos estava no reino de Tharterä, o planeta acima do sol. 

- Ainda bem que chegaste. Temos-te invocado há dias. Parece que estás a perder qualidades. Quanto mais tempo passas no mundo dos humanos mais diminuis – dizia Lygre numa postura tão impaciente que me causou um esgar.

- Chamaste-me para me dar esse recado? Eu que julguei por momentos que sentias saudades minhas irmão.

- Não sejas irónico. Foste tu que abandonaste a tua casa, não eu.

- E eu a julgar que a idade trazia maturidade…os teus dezassete anos estão-se a tornar embirrentos Lygre – este meu irmão parecia sempre distante, olhava sempre pela janela da alta torre, em direção a toda aquela extensão de reino, como se a presença dele quisesse estar em toda a parte, nas ruas, casas, campos. Sempre parecera ciente do seu papel apesar de ser o terceiro na linha ao grande trono. 

Num abraço extremoso meu irmão Fkejjkl aproximou-se retirando-me o fôlego.

- Meu bom irmão, bem-vindo sejas. O pai mandou-te chamar e não está nada contente com o que aconteceu em Artarä. Andas a meter-te em guerras que não são tuas, isso tem-no deixado preocupado – olhei-o espantado.

- Desde quando é que o pai se preocupa comigo? ah desculpa não percebi que ele estava preocupado com o seu bom nome. O mundo dos humanos é um lugar muito propenso a jogos perigosos aqui das nossas gentes, pensei que já sabias disso – ignorei o olhar de meu irmão Lygre enquanto saí daquele aposento escondido.

- Lá estás tu a defender os teus animaizinhos de estimação, também lhes coças a cabeça quando apertas-lhes o pescoço? – perguntava Lygre agitando os braços de forma infantil.

- Não, mas por acaso cheguei a coçar as costas de um guarda traidor das tuas tropas enquanto o via esvair-se em sangue.

- Bem parem lá, é sempre a mesma coisa. Vem Cratwer, o rei está usurpado pelos últimos acontecimentos.

Caminhei recompondo-me para me apresentar ao rei. Enquanto atravessámos o longo corredor da alta torre até ao baixio do salão principal, de frente para a altíssima ravina das grandes montanhas, senti olhares perigosos daqueles que esperava serem os mais fiéis da minha casa. A minha desconfiança, continuava aumentar há medida que, repensava nos acontecimentos em Artarä. Desde há algum tempo confirmara os rumores de que havia um traidor dentro da casa real, a sua identidade até agora é um mistério. Como que um tambor a tocar absorto e imponente, a porta rangeu impondo-se sonora, lembrando-me que estava em casa de deuses. Senti de imediato um respeito imposto pelo poder do grande rei.

- Por momentos julguei que estivesses esquecido do caminho para casa – falava meu pai numa voz equilibrada enquanto vazava licor num copo que brilhou ao cruzar-se com a réstia da luz solar do dia. Voltou-se para mim e vi aquela testa enrugada, a mesma que meu irmão Lygre  dizia-me sempre: vais ter problemas.

- Senhor meu rei – falei vergando-me numa respeitosa vénia esperando a bênção.

- Loyvär qui firlë – abençoou-me - fui chamado a um concelho ainda nem há 3 luas de Mër por causa do teu comportamento em Artarä e acabo de receber uma ordem da convenção de Orchï a exigir que abandones aquelas terras.

Olhei pouco espantado o meu irmão Lygre que se mantinha tão quieto quanto a sua culpa pudesse esconder.

- Perdão senhor meu rei…

- Não me interrompas. Não te chamei para te defenderes. Chamei-te para expor os factos. A deusa Rerwer mostrou-me, interpuseste numa guerra entre Ghibrär e os de D’Ewr, uma guerra que além de não ser tua, não era justa que dela tivesses participação. Por acaso lembraste que tens poderes? – gritou-me fazendo ressoar a sua indignação com um murro na mesa que se prolongou por Tharterä como um bravo trovão – se te permiti conviveres naquele planeta não foi porque achei que precisavas de te distrair com os humanos, mas sim, porque lá habita a tua mãe e eu preciso que alguém controle o seu poder. Como te esqueces? Como te podes esquecer da destruição que quase dizimou aquela raça? Há um tratado entre os povos Cratwer, não interferir no mundo dos humanos em troca de paz para os dois lados. Eles podem não ter poder, mas inconscientemente controlam outros poderes que desconhecem haver em Artarä. Este tratado é tão antigo como tu e se hoje existes foi para que o tratado fosse respeitado pela tua mãe. 

- Já me tinha esquecido que fui concebido como um cabrito no pasto. Interessante saber que os teus adoráveis amigos te exigem que abandone Artarä quando sou eu o equilíbrio daquele planeta. Engraçado saber que eles mandam para lá os seus filhos para aprender as melhores artes de estratégia e aplicam em prática as suas magias com os humanos e puderem divertir-se na sua colónia de férias com as virgens raptadas e depois venham dizer que não lhes interessa a subsistência de Artarä. Engraçado saber também que estás tão cego que ainda nem te apercebeste que me chamaste há dias e só consegui ouvir-te hoje. Parece que há alguém que não me deseja aqui em cima. E eu pergunto: que mais tenho feito em Artarä senão comandar em nome do teu reino pela paz dos dois planetas? Se preferisse o poder de minha mãe já teríeis um planeta de filhos de Oghtêrj raçados com os seus cães. 

- Insolente, ouças ameaçar-me? Sou teu pai, teu rei. Não julgues que por seres meu filho varão que te sentarás naquela cadeira, não enquanto me desafiares como me fazes desde sempre. Enquanto estiveres deste lado estás jubilado ao meu poder e ordem – disse gritando bem de frente do meu rosto apontando para uma cadeira vazia, tão vazia que consegui ver o prodígio da desgraça que cairia sobre ela. 

A sua magia revelou-se púrpura em seu redor numa aura que fez todos refugiarem-se atrás de qualquer coisa. Ninguém o enfrentaria num momento daqueles. Tharterä estava silenciosa.
- Nunca quis a tua cadeira pai, é bastante desconfortável e não é a cadeira da nossa verdadeira casa. Lembraste? Quanto aos teus amigos diz-lhes que se estiverem desagradados com os meus atos, terei todo o gosto em lhes mostrar o que os seus próprios filhos praticam em Artarä. E para a próxima que me chamem a mim para exporem os seus desagrados sobre a minha pessoa, eu quero ver se eles terão a coragem de me enfrentar.

Virei as costas àquele que mais amo e respeito, deixando-o gritar o meu nome até se transformar numa melodia agonizante. Meu bravo irmão Fkejjkl seguiu-me até à alta torre, a mágica Hallvau (a passagem dos deuses) para onde seguiria de imediato para Artarä. Era demasiado perigoso abandonar prolongadamente aquele planeta, nas mãos de minha adorada mãe, sempre pretensiosa em conquistar as terras acima do seu reino, libertando as horrendas e nojentas criaturas que de vez em quando tinha de forçar ao seu buraco. Ciumenta, desgovernada e maldosa, estava sempre desejosa de fazer meu pai soar o grito de guerra. Amor dissera em tempos um padre dos humanos, apenas consegui soar uma gargalhada que se ouviu em Dorskay, a terra abaixo do solo onde um lugar meu permanece à minha espera, em constante espera.

- Cratwer, Cratwer, espera. Espera um pouco, não vás já. 

- Tenho de partir irmão sabes disso – reiterei enquanto o meu irmão abraçara-me. Um arrepio tomou-me e receei a morte deste irmão que amo.

- O pai falou sem pensar, não te zangues com ele. Tem havido muita pressão, sabes como é. Os deuses têm-se reunido, eles acham que não tens feito o suficiente. Ao que parece és tu que andas a brincar por lá.

- A brincar? Sabes o que enfrentei ontem? Um Zargh¨s, não persistiu no ataque contra mim porque reconheceu a Gkäwes. Mas duvido que ele volte a recuar numa próxima vez. Ando a ser perseguido. Ontem se não estivesse na guerra de Mîsk acredito que, parte daquelas gentes, teriam sido totalmente dizimadas.

- Um zargh’s? Como é possível? – reclamava enquanto os olhos abriam-se num espanto medroso- Eles estão todos presos e outros adormecidos aqui em Tharterä. Isso é grave. Porque não contaste ao pai?

- Tu que tens estado permanentemente a seu lado, não notas a diferença no pai? Alguém lhe fala ao ouvido, uma língua venenosa que o está a enfeitiçar.

- Tu sempre tiveste outro olhar, parte do poder de tua mãe, eu não percebo nada dessas coisas. Mas irmão, o que queres insinuar? Uma conspiração contra Tharterä?

- Uma conspiração que visa chegar a Artarä. Um zargh’s não foi liberto pela minha mãe, eu teria sentido se ela o quisesse fazer.

- Quem libertou esse zargh’s sabia que não abandonarias aqueles humanos. Duvido que não venhas a ter mais problemas por isso. Estás a querer dizer que foi alguém de Tharterä? Nem ouses repetir isso nestas paredes. Foste apanhado numa armadilha, disso não restam dúvidas. 

- Pensa, não me estão a deixar entrar em Tharterä, aparece-me um zargh´s, antigo soldado dos deuses. De onde vieram eles? Só pode vir de Tharterä. Aqueles que existem em Artarä estão sob minha guarda e vigília. E aquele conhecia a espada, aquela que, me foi designada no meu nascimento. Apenas os zargh’s que foram derrotados na antiga guerra dos deuses no poderio de Ginralkar conhecem a espada e esses, estão todos presos aqui nos calabouços sob a ordem de nosso pai, o rei.  Alguém com influência em Tharterä libertou um dos maiores poderes que os deuses podem utilizar para dizimar uma raça. Não me julgues louco ou fraco. Alguém quer acabar com o tratado de paz. Tem cuidado contigo, julgo que ninguém está a salvo aqui em Göwer. 

- Sinto-me exasperado. Na assembleia última foram-te feitas acusações que o pai não assinou. Mas ele não espera nada disto, nem desconfia. Como pode a presença de um zargh’s passar-lhe ao lado?

- Quem fez essas acusações?

- Não me é perm…

- Fala, quem fez essas insinuações? - perguntei num esgar arrepiante.

- Tertha e Zimilas.

- Claro, mais velhos que a lua de Brar. Já deviam ter partido para o planeta dos que não têm mais nada para fazer, sentados num banco de pedra a olhar um universo de raças e beber licor de dizâmo, tão doce fruto.

- Um licor de frutas só existente em Strej feito pelos druidas de Morgîl, uma delícia. Julgas que a conspiração vem assinada por eles?

- Não. Tiveram oportunidade de mudar o tratado e escolher o poder de Tharterä. Nunca aconteceu, sempre respeitaram o oráculo e as runas. Julgo que a conspiração vem de um poder novo. Os deuses fazem tantos filhos que já nem lhes conhecem o rosto. E nosso irmão onde estava? 

- Não sei, não me lembro de o ver no conselho. Anda muito ocupado com os seus escribas e a pesquisar sobre o passado. Pára com esse olhar inquisidor, nosso irmão não te deseja qualquer mal, ainda que andem sempre às turras. Continua o teu bom trabalho irmão, gostava de voltar para casa.

- Gostava que isso fosse possível. Ainda sinto a dor da fuga em Morghîl. Se não tivesse sido chamado por minha mãe, teria sido feito prisioneiro ou morto nos xadrezes do maldito Ginralkar.
- Quando me falaste na conspiração, não me falaste que poderia ter sido ele o seu autor. Não faz muito tempo que tentou entrar em Artarä e ainda fez estragos. Se não fosse a tua mãe, já lá nada existia.

- Neste mundo de poder, brinca-se um jogo arriscado, duvido que Ginralkar tenha o discernimento de se arriscar. Além disso, chegar a mim através de um simples zargh´s e dos seus cães? O pretexto é distrair do verdadeiro autor deste ataque e claro se me matarem torna-se tudo mais fácil. O jogo da política: meu senhor rei faz um tratado com a minha senhora rainha, a minha senhora rainha faz um tratado com Ginralkar e eu sou detestado por todos porque eu sou a tinta que faz manter a existência daqueles contratos. O meu sangue de nascido tingiu aqueles pergaminhos. Enquanto eu viver, todos são obrigados a obedecer ao tratado ou a guerra rolará entre e para todos os deuses, porque eu tenho o poder igual ao de todos. Uma rebelião que detestarei deixar como herança. Naquela altura julguei ter sido Ginralkar a entrar em Artarä, mas hoje não tenho tanta certeza. Não lhe cheguei a ver o rosto, e as insignias podem muito bem ser forjadas. Eu pergunto: o que haverá em Artarä para que todos os deuses o desejem?

- Apanhar-te numa armadilha, raptar-te, matar-te. Realmente, quem ganharia com isso neste momento sem violar o tratado?

- Não sei, talvez poder? Mais poder Àquele que desconhecemos haver na gema de Artarä? Mas é o que eu vou descobrir. Se algum zargh´s tiver a coragem de me enfrentar e de conseguir levar-me, podes pensar em aplicar o teu treino, porque os teus poderes não vão chegar.

- Cratwer….espera e eu? – passos repetidos ecoaram pelo extenso corredor.

- Olha a minha adorável irmãzinha, a princesa mais bonita de todos os planetas – e era, não havia dúvidas disso. Beijei-lhe a testa enquanto esta me mordia o queixo e se deitava no meu ombro.

- Tenho saudades tuas Cratwer, eu e a minha litsa queremos ouvir mais histórias.

- A tua boneca sente a minha falta? É de espantar nunca me sorri.

- Ela gosta de ti mano. Olha só o que eu sei fazer…

O truque de magia da minha irmã revelou um futuro poder que receara se não fosse bem controlado. As argolas de fogo apareceram salientes sob as suas pequenas mãos enquanto o seu olhar incendiava. 

Depois de uns avisos e de umas risadas parti para Artarä, meu destino, minha prisão. 
imagem 1: batkya

terça-feira, 13 de agosto de 2013

IIº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



Num emaranhado de sonhos, as imagens começaram a surgir sob a forma de enigma. O lugar era estranho assim como os sons que dele advinha. Num detalhe fabuloso, dei por mim numa floresta abundante, onde as flores cresciam num vaiar de felicidade, onde os ramos e folhagem se misturavam num prazer saudoso.

Ali naquele lugar, tudo era mágico. As flores pareciam omitir um ligeiro som, simples e belas notas musicais formando uma graciosa melodia. 

Enquanto explorava o espaço sentia uma sensação de bem-estar única, soava-me a um lugar familiar onde todas as coisas abraçavam a minha presença. Num instante a seguir, surgia uma silhueta desfocada por entre uma ramagem afastada, meio escondida no meio das enormes plantas que circundam o caminho que tomo. Não identifiquei a silhueta e continuei a deambular por aquele lugar maravilhoso. 

Eu saboreava aquele sonho misterioso mas era certo que, mesmo em sonhos, quando viajamos até este lugar, é porque existe uma qualquer mensagem a retirar, um aviso, uma informação. Eu senti-o tão certo como sentia o bater do meu coração acelerado. Continuei a descer um pequeno carreiro, apoiando-me em ramos previamente estendidos para a minha passagem, as folhas largas das plantas selvagens recuavam no vento mandante e lá me emaranhei num outro mundo que não o meu, aguardando qualquer sinal. 

Na estepe pude vislumbrar um extenso mar de cor, um manto de flores variadas, um jardim, bem lá ao longe. E um brilho não comum chamava-me àquele lugar. Então caminhei por carreiros, cruzei caminhos, e quando dei por mim andava em círculos, não conseguia sair da floresta e percebi pelas minhas pegadas que já tinha passado por todos aqueles lugares. Respirei frustrada. Até que um ruído me sobressaltou.

Olhei examinando e procurando a possibilidade de perigo. Estar a sonhar não significa que nada me possa acontecer, ainda mais, quando passamos para um outro mundo, onde as brumas do nosso se afasta e se mostra a magnificência de outros lugares, encantados certamente. Não tendo encontrado a sua origem retirei-me daquele lugar e procurei um outro caminho por onde seguir. Os ramos das árvores eram antigos e sentia que me observam, ouvia os sussurros de umas árvores para as outras. Muito em breve, aquele ruído surdiu no meio da floresta e um vento recente passou-me junto do corpo e então eu vi-o. 

Um belíssimo e enorme corvo que se curvava num tronco de uma árvore bem lá no alto. Voou três vezes sobre mim, corvejou alto e intensamente enquanto voava em direção ao norte e recuava, voltava a voar sobre mim e pairou no ramo da árvore bem próximo do meu rosto. Olhei-o com surpresa. Era o corvo mais bonito que já tinha vislumbrado. Lembrava-me que os corvos eram símbolo de maus presságios e avisos de morte. Aquele, no entanto, que de enormes asas se vangloriava num céu observador, com as asas cintilantes num tom preto azulado de que muito se orgulhava, tinha um ar sereno, bondoso com um porte de senhor da floresta. Ornamentava um ligeiro cordão de prata com um símbolo redondo com uma gravura de folhas rodadas em círculo nele gravado. Talvez este corvo seja o guardião daquele lugar mágico ou guardião das almas que nele caminhava? Arrisquei chegar mais perto daquele maravilhoso ser.

 - Nobre corvo sabes o caminho para chegar aquele jardim? Podes-me levar lá? - Perguntei nos meus olhos luzentes de curiosidade.

O corvo de asas brilhantes voltara aos céus repetindo o voo por cima de mim em direcção ao norte, deixando um rasto da sua cor para não me perder. Segui-o tão rápido quanto as minhas pequenas pernas o permitiam, sentindo os músculos tensos da adrenalina. Chegada à orla da floresta o corvo grasnou e desapareceu em direcção do que me pareceu um gigante de pedra. 

Um colossal castelo erguera-se na minha fronte. Iluminado por um raio de sol exuberante, esse fantástico castelo sobrepunha-se sobre um extenso rio de águas brandas. O corvo grasnou novamente e continuei a segui-lo enquanto controlava a ansiedade. O castelo estendia-se sobre o lago como uma ponte fechada com inúmeras torres e varandas.  
As torres sublimes estendiam-se pelo cumprimento do rio até ao outro lado. As suas muralhas eram graciosas e enamoradas, erguendo-se num céu bem alto como se estivessem prestes a levantar voo. Subi um pequeno monte para chegar aos gigantescos portões. Não se ouvia qualquer som, senão o do corvo que me anunciava a quem quer que fosse que lá vivesse. 

O portão abriu-se sem esforço. Entrei para o átrio sentido os nervos em alerta em cada pedaço do meu corpo trémulo. 

Os pássaros voavam bem lá no alto espectadores desta aventura que eu nem sei. Quando cheguei perto da entrada principal, pude vislumbrar a beleza daquele lugar, as paredes beijadas de rosas e trepadeiras que davam cor à nudez das paredes de pedra, longas extensões de cor vestindo o castelo de uma beleza exuberante. Olhei com atenção os motivos desenhados na porta principal, símbolos estranhos ao mundo dos homens. Empurrei com força a porta e esta rangeu naquela estrutura ecoando por todo o seu composto. 

Vagueei pelo grande salão, observando as folhas das árvores que entravam pelas janelas nuas, dançando com o vento amante naquele lugar. Arrisquei subir as longas escadas. Não se ouvia mais nenhum som, apenas aquele que eu própria fazia com os meus passos. Debrucei-me sob uma varanda que me dava uma vista imensa da floresta sã e viva. Podia ver umas montanhas ao longe com um anel de nuvem rodando ligeiramente no seu pico, o rio que apesar de brando, revelava vida nas águas límpidas e serenas. Respirava-se um ar tranquilo.

Até que surgiu um pequeno felino, grande em comparação com os da sua espécie, com o pêlo cor creme, naquela cor, desenhavam riscas ordenadas ligeiramente num castanho mais escuro. Na sua pequena cabeça ostentava uns símbolos únicos de uma posição importante. Um autêntico guerreiro erudito de quatro patas. Esperava-me no meio de um corredor imenso de janelas do tamanho de 2 homens e meio e de varandas seguras por colossais colunas. Do outro lado corriam inúmeras portas, fechadas ocultando os seus mistérios. Cheguei perto do felino, e este falou-me num tom doce.

- Saudações corajosa alma. Sê muito bem-vinda ao castelo de mont’Guiklwer. Eu sou Twarlik, guardião do grande castelo. Respeitosamente cara alma te pergunto, que te traz aqui?
Respirei tão fundo que ouvi todo o meu corpo naquele que me parecia o movimento mais longo da minha vida.

- Saudações nobre guardião. Por razões que desconheço, fui trazida a este castelo. Procuro o meu medalhão símbolo da minha casa e talvez a resposta esteja num jardim que vislumbrei do interior da floresta, já que um brilho estranho vindo de lá captou a minha atenção. Segui um sumptuoso corvo que me trouxe aqui e acabei por encontrar este maravilhoso castelo e não sei como encontrar esse tal jardim. Talvez me possas ajudar se assim o entenderes. 

- O teu instinto está correcto. O teu medalhão está no jardim num terraço infinito deste castelo. Um lugar onde só é possível lá chegar com anuência. Importa agora saber se mereces ostentá-lo. Conheces o significado das imagens gravadas no teu medalhão cara senhora?

- Perdão querido guardião o meu conhecimento em especifico assunto é menor. Confesso não conhecer a origem do símbolo da minha casa e não me atrevo arriscar qualquer analogia. Somente sei o que meu pai me permitiu. Contara-me em tempos a história da nossa família que sempre viveu nas herdades do sul na costa do grande mar, guardando as suas praias e as suas pequenas ilhas. Por longas décadas garrearam desde as terras da fronteira até à costa para expulsar inimigos antigos, que já lá não estão. 

- Essa história é recente, muito recente comparada com aquela que conta como o primeiro homem do teu sangue chegou às terras de que teu pai hoje é rei. Mas, o significado do símbolo do medalhão, nada tem a ver com guerras terrenas. Por isso estás aqui, foi-te destinada uma demanda. Em breve, muito vai mudar nas herdades do sul, ver-te-ás num abismo sem fim e precisarás do teu medalhão para salvares as tuas origens, mas para isso, tens de merecer o sacrifício dos teus antepassados, tens de entender o mistério do medalhão. Por isso, foste trazida aqui a este mundo, onde nada parece o que é. 

- Uma demanda? Que vai acontecer na herdade? – perguntei horrorizada. Estava a par de algumas situações imediatas que colocavam em risco o meu povo, a minha família, a minha herdade. E do pouco que sabia devia ao meu querido mestre que nas suas lições acabara por gerar em mim alguma atenção para um perigo iminente.

- Sê paciente. Não desesperes, és forte e por isso estás aqui. Mas tens de provar que és aquilo que esperam de ti. Estás preparada Myna? Estás preparada para seres testada?

- Se é importante para a salvação da herdade, do meu povo, da minha família, então não importa o que sinto, tem de ser feito.

- Muito bem. Não espero outra coisa de ti. Despois desta prova começa a tua demanda. Vou entoar uma canção de 3 quadras. Em cada quadra terás a resposta para abrires somente três das 12 portas do castelo. Tens de abrir as portas certas. Lá dentro terás as tuas lições.

- Só três portas de quaisquer das 12? O que acontece se não conseguir caro guardião? – as lágrimas ameaçaram vencer-me, picando-me como agulhas afiadas num rosto quente de preocupação. “Quanto maior o poder, maior a responsabilidade”, dizia o meu coração em tom de segredo, palavras de sábios que ouvira em criança.

- Não podes pensar que não consegues, isso limitar-te-á os sentidos. Porém, se preferes saber, se não abrires as portas certas, ficarás perdida no labirinto do castelo. O medalhão irá desvanecer-se num tempo infinito sem vida, onde ninguém mais passará de um para o outro mundo, e não haverá forma de salvar a herdade, o teu povo e a tua família. Não é isso que queres pois não Myna?

- Não, não posso deixar que isso aconteça – se o meu evento fosse tão determinado como as minhas palavras, então tudo correria bem, mas o meu coração não dava tréguas e batia numa velocidade que me perturbava o pensamento e raciocínio.

- Quando chegares à terceira porta, terás o teu jardim. Nele procura o teu medalhão. Muita atenção minha filha e boa sorte. Precisamos de ti.

O guardião começara a cantar uma doce melodia. Nas paredes do castelo entoavam as notas musicais que lhe davam vida e força. A música parecia entrar dentro do meu corpo elevando-o. Então o pequeno felino foi desvanecendo à medida que a música terminava e eu ficara escutando e decorando as suas palavras:

As borboletas cintilam
Na prisão ordenada
As suas cores são de marfim
E amam a alvorada

Coração dentro, coração fora
Recolhe-me no teu amor
As espadas são tuas guardiãs
Levanta-as com fé e esplendor

O lobo assombra a noite com o seu uivar
O cavalo vitaliza a força e humildade
Ergue-te meu herdeiro
Sou eu a tua entidade


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O acordar dos mortos...



Ela voltou. Eu sinto-lhe o toque, leve, carinhoso. Os seus cabelos caíram como uma cascata no meu peito. A minha mão percorreu-lhe as costas nuas num encontro de saudade. A sua boca rosada beijou-me a face, não resisti ao seu toque, e às escuras procurei-a no paraíso do seu beijo. Mas ela afastou-se para me sussurrar ao ouvido, um lamento de amor, um carinho ansiado:

- Hoje viajei por um tempo sem fim, sem choro, sem medo, um riso tomou-me por completo e eu sinto-me feliz, porque voltei, porque te encontrei, porque voei por lugares inimagináveis. Estarás por aqui sempre que precisar de ti? Amar-me-ás para sempre a minha alma e o meu corpo? Confortar-me-ás nos momentos mais dolorosos e aplaudirás os momentos mais alegres? Isto tudo que peço de ti eu dar-te-ei em dobro. Apenas te quero a ti, no assombro de um amor louco, desejado, sentido e verdadeiro. Porque somos nós que se juntam num só elemento, porque juntamos as peças que nos separaram em tempos. Amas-me?

Confesso que rolaram lágrimas no meu rosto que há muito estavam guardadas e não resisti a um sorriso orgulhoso da lembrança. Recordar tempos de felicidade torna-se numa tormenta quando a realidade é-nos transportada para tão temido pesadelo.

- Deixa-me sonhar, deixa-me permanecer aqui perto de ti.

- Vai meu amor. Eu virei num outro dia. Sê forte. Oro por ti.

E ela partiu, partiu como partira das outras vezes e deixou um vazio tão grande que me senti oco por dentro.

- Lyana?

Chamei-te mas tu já não estavas aqui. Apertei a lembrança junto do meu peito enquanto a aurora fazia as pazes com uma noite longa e fria e elevava-se no alto do céu longo e experiente. E se achava que acordar seria o meu maior pesadelo, pior surgiu com o rebentar da madrugada.

- Senhor, senhor – ouvi o criado que corria pelos degraus até aos quartos de cima. Levantei-me rápido e num passo de gigante estava junto da ombreira da porta até o rosto do criado aparecer branco e a restaurar uma respiração falsa.

- Fala homem, que se passa? – o homem teimava a desfalecer de um susto que previa pelo olhar aberto e brilhante de um terror que me falava sozinho se a sua boca não transmitisse fosse o que fosse o que tinha para me dizer.

– Senhor o mar aproxima-se. Aproxima-se negro e ao longe figura-se uma onde maior que a montanha de Haj’ägar.

- O mar? Onde está Begona, onde está a feiticeira? – perguntei num sussurro que pareceu ser ouvido até aos confins do mundo mas que não chegaram a outros céus.

- Está desaparecida desde que se levantou o nevoeiro da noite – confessou o criado de cariz baixo e amedrontado com tal notícia. - Os guardas foram encontrados mortos e ela fugiu por caminhos onde ninguém descobriu o seu rasto. Dois dos vossos barcos deram à costa completamente em ruínas senhor, em alguns destroços consegui reconhecer um símbolo de uma lua pintada de branco com uma serpente aberta ao meio gravada de fresco.

- Begona aliou a hoste?! Maldita seja. Onde está o mago? Semero, manda chamar os meus homens.

- Quantas guardas pretendeis senhor?

- Não Semero, manda chamar o meu batalhão. Esta batalha não é para ser defrontada por comuns homens.

- Magia? Sim senhor – Semero saiu do quarto sem mais nenhuma pergunta, apesar de na sua mente surgir um turbilhão de questões que não teriam resposta.

- Rápido traz-me a minha armadura, tenho de partir imediatamente para o mar antes que ele nos engula na sobriedade de um tempo rendido – ordenei ao criado enquanto descia a torre.

- O mar senhor? Não estais a pensar ir para o mar com aquela fúria? - Encontrou-o o mago exasperado que numa vénia falou.

- Estás afrontado mago? Chega de medos, em tempos foste guerreiro e hoje não é dia de morrer, e se a morte nos quiser levar vai ter de nos enfrentar primeiro. Às armas guerreiros – gritei ao batalhão forte e inigualável que se juntava no pátio pronto para defrontar a hoste de outro mundo.

O som do mar era cada vez mais enfurecedor. A hoste que rompia na fúria do mar parecia apenas uma longínqua alusão do espaço, mas em breve, a sua força chegava em bruto junto das costas de Crazul.

- Senhor, o que fazes é imprudente – seguia-me o mago apavorado - Parai com esta loucura, levais vossos homens para o abismo inevitável.

- Que queres que faça mago? Fostes tu que libertaste a hoste não foi? Que queres que faça agora? Que os deixe levar o que nos resta? Pensas que não sei que os levo para nunca mais pisarem terra firme? Para nunca mais voltarem a ver as suas famílias? Esta desonra foi causada pela tua ambição e a daquela feiticeira. Saiu-lhe falhada a pretensão se acha que vai vencer.

- Subestimais demasiado Begona, meu senhor. Mas tendes razão, eu sou o único culpado. Mas se libertei a hoste não foi porque quis que esta voltasse a trazer a destruição a este mundo, mas porque achei que seria a única raça que poderia fazer frente à feiticeira.

- Mentes, sabes tão bem quanto eu que a feiticeira comanda a hoste. Chega de discursos irresolutos. Utiliza as tuas orações para que o meu batalhão vença esta batalha ou então o banquete da noite será à mesa dos Deuses. Ousaste negociar com os Deuses ao soltar a hoste, sem realmente os conheceres.

- Utilizareis a vossa magia?

- Utilizarei o que for necessário mago. Ou não serei digno do meu reino.

- Senhor tende cuidado, da última vez…

- Da última vez mago? Não ouses sequer lembrar-me do que aconteceu da última vez. Lyana foi levada pela morte num momento de distracção de vossos olhos e dos meus, num momento em que tive pena de quem merecia morrer. Não ousais sequer prenunciar seu nome, não mereceis tal honra. Agora voltai para o castelo e fazei algo de útil – somente o nome era um golpe duro no meu peito. 

O meu batalhão seguiu-me por caminhos até alto mar através de um céu que se mantinha tão silencioso quanto o coração daqueles que rezavam ao nosso sucesso. O mar elevava-se trazendo a hoste na sua espuma. As águas traziam a escuridão do abismo, e com elas, as trevas de Begona. Menores ondas rolavam monstruosas pelo manto de água. O som da hoste era um zumbido aterrador, ecoando por todo o mundo como uma canção de finos e estridentes gritos. No cimo daquele horizonte, surgiu uma imagem que se distorcia da realidade. Lyana, tão bela como outrora, surgiu de braços abertos e chamou por mim:

- Arhägar? Vem, volta para mim.

Uma lágrima rolou debaixo do metal de armaduras vãs, fui incapaz de conter o sussurro ao vento.

- Voltar a uma realidade onde tu não estás, dói imenso no meu peito. Não queria que fosse assim, mas não fui eu que escolhi…amo-te, amar-te-ei sempre, mesmo quando a memória te afastar de mim. No meu coração permanecerás, ainda sem o teu rosto outrora presente. A tua presença é tão forte que continuas a brilhar dentro de mim, passe o tempo que passar. Apareceste no momento que mais precisei, foi a tua maior prova, para mim foi a recompensa por toda a dor, a saudade e o horrível afastamento. Não voltarei a desafiar-te, mas esperarei que voltes para mim, ou pelo menos que me venhas visitar. Estes dois mundos tão distantes, não serão mais longínquos do que tudo aquilo que já vivemos. Então o amor pode perdurar uma eternidade. E não será a eternidade pouco tempo para honrar a nobreza de nosso amor? Talvez estejas longe e eu demasiado perto, talvez tenha de partir e eu ver-te ir, ou talvez seja eu a caminhar para longe e tu a lamentares que assim seja, afinal os dois mundos estão demasiado longe para nos abraçarmos. Que isto não te magoe, e eu não esquecerei que te amo, mas não posso ir, os meus homens precisam de mim, espera só mais um pouco.

Mas eu conheço a minha amada Lyana e bem sei que aquela miragem não era ela, ela não me pedira para partir. Feitiços de Begona. Abri os olhos e antes de um suspiro, surgiu Begona sobre o meu rosto, negra e louca, abrindo a boca numa gargalhada sem escrúpulos onde me golpeou marcando-me o rosto numa cicatriz que perfurou o metal. Levantei a espada que luziu sobre o meu batalhão, ecoando à volta uma magia invocada tapando a escuridão que ela trazia. Begona recuou magoada pela intensidade da corrente que criara e a que a rasgava por dentro. Os guerreiros que se aproximaram, montados nos seus cavalos de brio e coragem, vingavam-se ao lado dos barcos do batalhão de outros mundos, preparado para romper as águas e eliminar a hoste. 

O tempo ali parou, num momento suspenso pelo destino que não quer a morte, mas que desafia ao melhor e pior de cada um. Lá em baixo, nas marés bravas um pequeno barco surgiu. A loucura do insensato bravio daquele que ousa ter fé. 
 
O mar agitou-se. 

O negro do abismo abriu o seu ventre e a espuma rasgou o vento para abrir caminho às ondas destruidoras que se aproximavam. O barco teimava a recuar como se o destino não permitisse que o mundo continuasse a girar. Os gritos das bestas fizeram a terra tremer e os barcos rasgavam o céu na sua destemida força. 
 
Os remos não chegavam, a minha força não chegava e a maré subiu até uma onda maior ir crescendo e rebentando bem perto de nós. As hostes pesavam no ar e os homens não tinham força para remar. 

O meu grito de coragem ecoava num espaço tão curto que nem eu próprio me ouvi, muito menos àqueles comuns homens como eu. Os deuses escolheram um dia errado para provar as forças num mundo que não era o seu, cruzar as suas revelias sobre outras gentes corrompia por completo um contrato antigo, tão antigo quando a existência do próprio mundo. Eu sabia que não era digno quando invocara a hoste, quando pedi aos Deuses para permitir a sua libertação. Aos seus olhos foi apenas um divertimento. Mas foi demasiado cedo, eu não estava preparado.

 A maré continuou a subir pelas hostes negras do abismo. O batalhão cresceu num céu maior alertando a sua presença numa trombeta sonora à sua intenção. Então a onda surgiu, tão enorme, tão gigante como um deus e permaneceu por longas distâncias trazendo a hoste negra.

- Remem homens, com mais força. Tremam as entranhas mas remam ou seremos esmagados.

Os homens já não temiam a morte. Agora apenas podiam remar, ou morreriam em vão e os seus nomes não seriam lembrados nas rimas das gentes sedentas por épicas canções.
O milagre seguia nas minhas mãos como um tesouro do qual o próprio mundo dependia para sobreviver. E esta é tão verdade quanto a morte ser também tão certa.

Foi então que um estrondo rebentou sobre as nossas cabeças. O batalhão e a hoste defrontaram-se numa luta pela nobreza do patrono que escolheram. Begona permanecia bem atrás da hoste, onde a magia de Arhägar não lhe chegava. As espadas batiam-se ressoando a sua força num guinchar de metais e de forças de outros lugares que não este, forças recebidas de Deuses esquecidos no tempo. A hoste respondia fortemente ao desafio sobre as ordens aniquiladoras de Begona.

 Arhägar gritava palavras de coragem aos seus bravos homens num agrado pelo seu batalhão e através da sua magia abaterem alguns seres errantes da hoste . Os deuses assistiam a tudo, bebendo e brindando em apostas por quem venceria tal destino. Mas eu sabia, havia apenas uma forma de eliminar a hoste levando consigo Begona para as profundezas do abismo, onde as trevas a engolirão na sua fome e sede de maldade.
Eu sou mago e mago eu sou. Os meus ensinamentos não foram em vão, nem toda esta existência prolongada.

Arhägar defrontava bravamente aquele negro exército, arfando e invocando maiores forças para investir pela vitória. Alguns barcos desceram às marés que se agitavam furiosas enquanto a hoste enrolava os seus ataques em águas negras. Não foi possível esperar mais. Abri cuidadosa e respeitosamente a caixa de madeira, gravada de insígnias honrosas de quem era pertença. Levantei o coração vivo transformado em pedra branca, nele gravado o nome de sua alma.
O coração de Lyana, o mais puro sangue dos homens. Ironicamente, era o sangue de um humano que salvava o mundo governado por forças de Deuses.

A oração é dita três vezes e sobre três vezes é invocado o nome. O coração de Lyana foi adquirindo um raio de luz que cresceu no interior da pedra até a perfurar e então um clarão subiu ao céu. A batalha sustou-se. Permaneceu tão quieta quanto o tempo que não esperava aquele desfecho. O clarão estendeu-se por toda a extensão do céu, a hoste enfraqueceu e diminuía sobre a forte claridade. 

Arhägar olhou-me perplexo, a sua magia era muito poderosa, mas um coração puro, ainda que humano, cria nele o mais poderoso de todos os poderes. Begona recuava à medida que a luz se intensificou. Então a figura de Lyana apareceu de frente a Begona e num grito de bravura, Arhägar ao mesmo tempo que Lyana se lançava à feiticeira, trespassou a sua espada repleta de uma luz invocada de outras magias ao peito de Begona que num olhar de pena, orgulhara-se até à sua morte pela sua luta.

Begona caiu no abismo junto com a hoste que se desvaneceu em pó sobre as águas. As marés recuaram, as trevas desapareceram por baixo de um mar longo e profundo. O céu ganhou a sua claridade natural.

Então sem mais palavras, Lyana acarinhou a face de Arhägar que apenas a sentiu na sua memória. Tão breve quanto aparecera, Lyana partiu.

O mundo voltaria a ver nascer mais um novo dia. E eu e os homens de fé fomos levados pelas marés que honraram o caminho até ao outro mundo onde Lyana nos esperou graciosamente com um sorriso.

Imagem de Dehong He