domingo, 23 de março de 2014

Costa Portuguesa




Não queira o mar engolir essas terras de sumptuosos destinos,
Não lhe queira roubar as honras nem desígnios da sorte,
Não a fira com o seu rasgar de longo manto,
Não lhe esconda os segredos pisados em história,
Não lhe oculte a escultura em costa beijada.

Pois estas, são terras de saudade,
São relatos da verdade,
São tempos que pertencem à sua gente,
E nela conta a sua genuína identidade.

Não queira a terra deslizar sobre o mar que não o alimenta nem consome,
Não planeie prolongar-se no horizonte,
Não varra a natureza triunfante,
Não lhe esconda a majestosidade em bruto.

Queira apenas perder-se no seu regaço,
Queira apenas desprender-se e navegar por outros campos onde triunfa o mar,
Que sirva de manto aos corais e às velas rasgadas em sonhos perdidos,
Que perdure no seu rasto os vestígios de vontades conquistadas,
Que não se esqueça de devolver o que o mar já não carecer dela.

Pois no mar governa o silêncio infinito que não faz ouvir a terra,
e no mar vivem seres que nela não sobrevivem,
pois sem a terra o mar perdia-se no vazio,
e no vazio entristecia a terra sem o mar para brotar vida.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Livro "Terra Fria"

"Uma octogenária em fim de vida recebe a visita de um padre aposentado, para a última confissão, e ambos revisitam o passado na esperança de exorcizarem demónios de consciência. Cinquenta anos antes, a mulher fora denunciada à PIDE por um bufo que depois desapareceu sem deixar rasto juntamente com o agente enviado para investigar a denúncia. Mas o demónio de consciência mais antigo nascera anos antes, dos escombros da Segunda Guerra Mundial, nas ruínas de um coração".


Opinião:


Em tempos de necessidade são tomadas decisões difíceis para encontrar melhores condições de vida. São decisões difíceis, não só, porque obriga deixar quem se ama, como é um risco procurar no desconhecido a salvação. Assim aconteceu a António que partiu clandestinamente para França por uma vida melhor para si e para a sua mulher com vida a gerar dentro dela. 


Chegado à fronteira quis o destino pregar-lhe uma partida. A PIDE. A  Polícia Internacional e de Defesa do Estado que utilizava a tortura para obter informações e foi responsável por alguns crimes sangrentos. 

“Terra fria”retrata esta época de injustiças, opressão, perseguição e forte violência. É um livro duro para recordar duros tempos. A sua história sente-se na própria pele, sente-se a tensão, o receio e a impotência perante os inspetores da PIDE, com tamanha manipulação e poder.

Esta passagem é-nos contada de uma forma envolvente e tocante com especial atenção a uma personagem forte e muito corajosa, a que, vamos assistindo em primeira fila à grande prova que foi viver nestes tempos violentos. Chama-se Esmeralda e a sua luta começou na hora do parto da filha. E, é pelo sangue que também é seu, que vai lutar pela sobrevivência de quem mais ama, mesmo quando, tudo parece ter terminado. 

Nem todos os inspetores tinham coração de pedra, ou será que tinham? É o que vamos descobrir com a personagem Silvério. Apenas um coveiro ou mais do que isso? O passado nem sempre se liberta do presente e parece manter-se até ser necessário. Pois a justiça tem várias faces e fazer justiça, muitas das vezes, obriga  atentar contra a sua própria essência e cometem-se crimes necessários. Só a dor é capaz de causar tal sentença.

Vieira do Minho, “a terriola" , parece ter acordado uma atenção indesejada aos PIDE’s que não se acanham em usar a força para controlar ou eliminar eventuais manifestações de opinião e descontentamentos que se opunham ao regime vigente. Esmeralda vê-se no gume afiado da morte. A agulha conserta a vida, a mola rouba-a e a tesoura sacrifica o corpo e salva coração.

Este livro fala de sacrifício, de dor, tem prova de amor, tem firmeza nas escolhas, tem luta pelo que merece ser lutado, tem prazer em se ler, tem honestidade de ser. As suas palavras são um colo comovente com lágrima derramada onde a verdade é contada como importante lição e esperança de que todo o mal também tem a sua hora. A morte é o fim de tudo, mas não, o fim das lições que ficam para quem as quiser aproveitar para melhorar a sua, e a vida dos outros.

Parabéns Manuel Alves por mais um excelente trabalho....

http://juroqueminto.blogspot.pt/
https://www.goodreads.com/book/show/20804191-terra-fria?from_search=true

domingo, 16 de março de 2014

“O amor é assim”…

- plin plin plin…chamo para mim…plin plin plin eu chamo por ti… - cantarolava a velha sapo.

- Que estás a fazer aí empoleirada? – zurrou o velho sapo na alvorada.

- Estou a chamar a fada? – reclamava a velha sapo num esgar de forma desajeitada.

- Mas estás a chamar a fada para quê? – olhava o sapo surpreendido agarrando o relógio de bolso que insistia num tic tac aborrecido.

- Olha é para ver se ela te transforma num sapo mais bonito e menos chato – respondeu a mulher sapo que via os chamamentos frustrados. 


- Então mas eu não sou bonito? olha para isto – dizia o sapo enquanto rodava uma vez para um lado e outra vez para o outro, vaidoso e finito.

- Eu só vejo um sapo gordo, verde e enrugado. Já não és o sapo mais bonito do lago – resmungou desaforada a velha sapo pouco desejada.

- E tu, és uma velha enrugada, magra e mal-humorada – contradizia o velho sapo levantando a sua redonda barriga.

O velho casal de sapos, chateado e magoado, virou costas um para o outro. Enquanto o sol irradiava pela janela do velho cogumelo e este regozija-se do calorzinho, o tintilar foi-se ouvindo. De longe fininho, que depois foi-se chegando mais pertinho.

- Plin plin plin…alguém chamou por mim? Eu sou a fada, a Cailin! - rodava num vento majestoso a fada que à janela do cogumelo espreitou e entrou.

A fada quando chegou, à espera de quem a chamou, o que apenas encontrou foi um casal de sapos, velhos e enrugados, muito mal-humorados.

- Ora ora ora..vejam só o que encontro a esta hora. Um casal cheio de amor, mas que se esqueceu do seu ardor. Sei muito bem do que vocês precisam, apenas de um toque da minha magia – a sua mão levantou e palavras brilhantes ditou - “De leve ao de leve, ao profundo do profundo, traz a memória mais preciosa, traz a aurora mais radiosa”.

O velho casal de sapos ouviu um estrondo vindo do seu cogumelo-casa e correndo à janela, viu que mais alguém havia nela. Então num azul reluzindo, dois passarinhos elevavam o cogumelo e eles voaram pela floresta rindo. 

A fada Cailin, sentada numa prateleira de cetim, cantarolava ao som dos pássaros, enquanto, a sua magia os levava para longe, bem lá longe. O casal de sapos, agitava-se assustado, ralhando culpas e amarguras. Uma alta torre rasgou o céu, vestida por nuvens brancas e os sapos sem querer sorriram um para o outro. Numa dança de boas-vindas, muitos outros pássaros desenham imagens lindas, dançavam à aurora recém-nascida e lá iam os sapos deambulando por magia.

O velho casal de sapos ficou espantado de tão belo cenário. Viram-se entrar para dentro de uma grande biblioteca e lá adiante aterraram perto de uma ampulheta. O cogumelo-casa lá ficou numa mesa encantada e aos bocados se separou desamparada. Os passarinhos riam e riam subindo a uma prateleira alta.
Ali tudo era tão alto. Então a fada do cogumelo saiu e com a sua magia um livro abriu. O casal de sapos viu-se espantado, não esperava ver-se no passado, ali mesmo nas páginas velhas de um velho livro, tão velho quanto eles.

A vida do velho casal apareceu nas velhas páginas e mostrou os momentos mais importantes da sua união. As páginas eram bem cheirosas e nelas apareciam imagens saudosas. Lembraram então que viviam há muitos anos juntos e recordaram das muitas alegrias que juntos tinham vivido. As mãos entrelaçaram-se honestas e confiantes das suas escolhas. Até o rosto das suas dezenas de filhos viram, todos elegantes e riginhos, a saltitar alegres e vaidosos.

Então, há medida que os anos passavam naquelas páginas, o velho casal de sapos foi ficando mais jovem, tão jovem quanto as páginas daquele livro. Então a graciosidade do tempo, uma nova oportunidade lhes ofereceu e do encantamento uma nova vida apareceu. O velho casal de sapos era agora novamente um novo jovem casal de sapos.

- Plin plin plin…a fada encantou tal como alguém me chamou – dançava a fada esperando uma resposta.

A jovem sapo olhou o jovem sapo e pensou, pensou, pensou, enquanto o jovem sapo olhava triste para o seu corpo, magro e amarelado.

- Fada Cailin, eu que chamei por ti, errada estava quanto ao encantamento, porque não contava o meu verdadeiro sentimento. Eu amo o meu sapo, velho e enrugado. Muitos têm sido os anos de vivência, tantos que me levam à descrença de uma outra felicidade. Não me importa a velhice, importa o velho brilho do olhar do velho sapo, que não tem tempo e é o meu amado. 

- Plin plin plin e a fada sabe que sim. Um velho teste para um velho amor, que dure sempre com ardor, longo e com esplendor – com o brilho de uma nova dança fez-se uma nova magia que brotou numa renovada esperança.

Então o jovem casal de sapos perdeu o encantamento ilusório e satisfeitos voltaram a ser velhos sapos, felizes e juntinhos.