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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A lenda de Torfel - Vº. Parte






A virtude está no coração de uma velha sábia….

Adan sentiu um arrepio gelado a percorrer-lhe a espinha até lhe deixar a cabeça com tonturas e alternadas miragens se manifestaram no seu caminho. Miragens ou a manifestação das gentes de Torfel que pela primeira vez em muitos anos se revelaram fora do seu espaço a gentes que não lhe pertencem. As miragens não eram mais do que pequenos pontos de um mapa para que Adan conseguisse encontrar aquela vila, tão difícil de descobrir aos olhos dos comuns.

A urgência nunca ajudou a concretizar de forma positiva qualquer fim. Mas o fim também nunca importou. Não importa lembrar que tudo acaba. Tal como a vida, tudo começa com um nascimento e tudo termina com a morte. Então, sabemos sempre o fim de tudo. Mas o mais importante desta lança que começa e que termina em cada bico afiado, é o caminho que se percorre, são as escolhas, as ações e o que delas aproveitamos e com elas transformamos para o bem ou para o mal. Pois que, o fim, pode ter várias faces e através delas, deixar uma corda ou um rasto de salvação para outras lanças que se venham a erguer atrás de si.

Adan não temia a morte, não a sua, mas a dos seus homens. Sacrificava-se para os ver firmes perante o seu destino, pois ele, já perdera tudo. Para ele, a sua vida encontrava-se sustada no gume da sua lança à espera de cair no abismo da morte. Mas a lança parece querer mantê-lo até achar por bem. Não sabia porque a vida não o levara já para o seu berço eterno, porque para si já não tinha importância no mundo. Mas para aqueles homens, que têm família, este homem que nada tem, é o resultado da fé daqueles homens sequiosos de esperança. Um erário mais valioso que qualquer baú a reluzir riqueza. Para os seus homens, Adan é o seu suporte e esperança para uma Esmania una e em paz e isso, obrigou-o a erguer-se perante uma vida que lhe foi infeliz e suportar a sua dor e a dor dos seus homens só porque, a sua lealdade lhe mostrou que o dever nem sempre é a única e regra máxima para o cumprir. Porque nada tem mais valor que honrar um amigo erguendo a paz e a justiça para a sua vida e daqueles que bem ama. A relativa felicidade, sob a forma de harmonia, paz e partilha, é a melhor recompensa de uma luta feroz pelo bem.

Percebendo que eram seguidos e que os seus passos tornaram-se mais próximos, a correria de Adan e a dos seus homens tornaram-se igualmente mais rápidos, mais audazes por entre a floresta húmida da madrugada. Saltitando por entre ramos caídos, folhagem escorregadia, rios pouco profundos e pontes abandonadas a reluzir pela alvorada ansiosa, a perseguição tornara-se mais sedenta e pretensiosa. O sol já se levantava nos céus de Esmania e mostrava agora o número de homens que corriam entre a ponta de cada lança. O fim era já visto para alguns, mas cada homem teimava a balançar a sua lança, obrigando a tornar a sua caminhada mais longa, um pouco mais prolongada evitando e enganando a morte. A perseguição parecia não terminar nem abrandar. Adan começou a correr desordenadamente por entre as árvores, surpreendendo os seus perseguidores e aniquilando-os. À medida que este e os seus homens combatiam na sua fuga urgente, Adan apercebera-se da violenta verdade e parou abruptamente no meio da floresta nua de arvoredo e seca de uma estação sôfrega. Os seus perseguidores chegavam perto de si e dos seus homens. Confrontados com os seus rápidos predadores, as espadas defrontaram-se violentamente como um forte torvão. Adan lutou contra os poucos e inexperientes perseguidores enquanto confrontava-se com a certeza do seu erro crasso que cometera em não ter olhado antes para trás e perceber que deixara os seus homens para trás. Recuando na sua memória espaçada de enganos, vingou a traição nos perseguidores que não eram mais de quinze homens, jovens Margassa.

- Enganaste-me Flaint – repreendeu Adan, que se mostrava manchado de sangue no braço direito e com um pequeno corte sobre o sobrolho – enganaram-me todos. Onde está Galderc Flaint, diz-me? Onde está o meu irmão? – Adan carregara sobre os ombros de Flaint agitando-o para contar a verdade.

- Galderc sentiu a presença dos Margassa na orla da floresta no inicio da manhã. Apenas quisemos assegurar a tua segurança trazendo-te para fora do local. Zamessa devia estar escondida algures para lá das árvores – contou Flaint enquanto agarrava na mão de Adan obrigando o amigo e chefe a recuar.

- Deixaste-o entregar-se à morte de livre vontade Flaint, temos de voltar – dizia determinado Adan enquanto apanhava as suas armas e todos os sacos de dardos envenenados que repousavam nos corpos gelados dos Margassa.

- Não – correu Flaint agarrando Adan – Não. Foram sacrificadas vidas pela tua segurança – o olhar de Flaint era de tamanha tristeza quanto o de Adan, mas neles trazia o brio da perseverança.

- A minha segurança só é válida para que alguns consigam concretizar um desejo. Um desejo que não é só teu nem meu, é de todos e por isso as decisões sobre tamanha empresa cabe a todos em unânime conselho – Adan estava decidido – eu não o posso viver sozinho e vocês insistem todos em deixar apenas vivo eu, um simples homem sem ninguém no mundo para cuidar – rebentou de fúria sacudido pela última perda que lhe restava sentir.

- Um desejo que só se pode concretizar contigo vivo Adan – desafiou Flaint – tens de chegar a Torfel o quanto antes, sabes que precisamos de asilo ou não seremos poupados – passados uns momentos colocou uma mão sobre o ombro de Adan e apertou-o para o despertar da dor - Pensa nas famílias que seguem naqueles barcos. São eles que ainda tens de cuidar Adan. É por eles que estamos aqui. Estas foram as tuas palavras no dia que os barcos partiram lembraste?

- Jamais me vou perdoar se algo acontecer a Galderc. Agora percebo porque não encontraste o meu manto – confessou Adan numa tristeza tão profunda perante um futuro tão incerto.

- As vidas só valem a pena quando concretizam a vontade do destino ou quando são úteis ou quando se morre sentindo que compensaram a vida ou quando a vida as compensou. A tua tem muito sentido e simbolismo, por isso, não sejas exangue só porque os planos saíram todos frustrados – respondeu desafiante Flaint indicando o avanço para Torfel que se avistava ao longe – muito provavelmente seremos seguidos em breve porque a guarda real já deve ter chegado a Grazil. Quanto ao teu manto, sem ele, Galderc não conseguiria enganar Zamessa. Galderc será poupado até chegar ao rei. Estás a subestimá-lo. Ele saberá safar-se.

Ambos sabiam que as possibilidades de Galderc  sobreviver até chegar à cidadela eram mínimas, mas a esperança é uma chama que arde forte e ilumina o caminho da vontade. O seu coração desejava intensamente que a lança de Galderc ainda fosse longa, longa o suficiente para o reencontrar. Adan aceitou uma derrota que não teria retorno e avançou silencioso e pouco satisfeito a um destino que o esperava com tão poucos homens da sua crença. Decidido não voltou a olhar para trás.

Na sua partida agora ordenada, Adan só pensava que para trás teria ficado Galderc, sacrificado, entregando-se a Zamessa como se dele se tratasse e os seus homens que apesar da honrada luta acabariam por morrer nas mãos do inimigo. Adan não voltaria a ver os seus homens. Silenciosamente, bramia honras ao seu irmão que com a sua fuga, permitira-lhe partir em segurança para Torfel e pedir asilo a si e às famílias órfãos que avançavam pelo mar.

Quis o tempo atraiçoar aqueles que lhes tentam consertar os erros e mal o avanço mostrou a torre de Torfel  revelando-se para si e aos poucos homens sobreviventes da sua guarda, passos e vozes desafiantes fizeram-se ouvir. Adan olhou Flaint e de imediato começou uma nova fuga, até Torfel, revelar-se aceitar receber o seu pedido de ajuda.

Seguiam-lhes vinte homens Margassa que se avistaram como animais velozes, atravessando os campos abertos de ervas altas e secas. Uma menor guarnição da guarda real seguia-os a galope com a bandeira do sul erguida em estandarte. Avançavam com o ritmo da morte. Adan continuou veloz pelos campos desconhecidos pelas memórias, mas familiar pelo instinto e rapidamente encontrou um trilho atalhado, que como um encantamento, o levou diretamente aos portões de Torfel. À sua porta uma grande sombra ergueu-se sobre os céus tornando-o escuro, repleto de nuvens cinzentas que se juntaram assombradas e pesadas. Adan recuou ligeiramente até ver-se cercado pelos Margassa e pelos guardas reais. Alguns dos seus homens estendiam-se pelo trilho que percorrera, agitando-se por um caminho de pedras onde vingavam os tropeções enquanto eram atingidos por dardos venenosos. Flaint e mais os nove sobreviventes da guarda da velha fé, juntaram-se a Adan em circulo, empunhando as espadas. Sentindo no seu cinto os sacos de dados, Adan soprou veloz os dardos dos Maragssa, que contra eles próprios, caíram no chão envenenados enquanto as espadas dos seus homens alcançavam os presunçosos. A guarda real lançou-se a Adan e Flaint cortou as rédeas de um garanhão que se debatera no chão até ser engolido pela própria terra. As árvores agitaram-se e alguns ramos estenderam-se prendendo alguns dos soldados do rei, agitando-os no ar e lançando-os para um horizonte que se sumiu desvanecendo-se. Adan foi surpreendido pela visão e percebeu que as forças de Torfel agiam contra os mendigos do destino e não esperou ser uma vítima. Baixou-se tocando com a palma da sua mão ao solo e com um joelho sobre a terra, orou uma prece em reconhecimento da força do Senhor do Carvalho e invocou que o ajudasse. A espadas continuavam batendo-se num canto tão curto que as partes tocavam-se nas costas e nos membros do inimigo enquanto se tentavam salvar do toque do outro. Adan sentiu uma força estranha vibrar dentro de si e quando se ergueu para lutar, um dos guardas do rei lançou-lhe uma longa lança proferindo-lhe um golpe desde a virilha ao joelho da perna direita. Com o grito de dor de Adan, um trovão ressoou nos céus fazendo sustar a pequena batalha e todos os homens estacarem com o som estridente. Dos olhos de Adan se avistou um brilho verde polido e causado por ele, ergueu os braços aos céus e com umas palavras cantadas, agitaram-se em força as raízes das árvores, espalhando as suas forças em volta dos inimigos e por baixo deles um novo buraco abriu-se engolindo os sedentos do poder.

Flaint e os seus homens encostaram-se às muralhas fortificadas de Torfel protegendo-se da transformação de Adan. Até que, as muralhas moveram-se, abrindo ilusoriamente profundas fissuras e sugando os homens que pareciam querer vencê-las antes de as acreditar.

- Adan! – chamou Flaint sobre o som rugidor de todo aquele movimento da natureza sentindo a sucção da pedra.

Adan olhou-os e disse umas palavras que se agitaram ao vento como um sussurro, palavras numa língua que há muito não se ouvia dentro de Torfel e a pedra libertou os seus homens. Derrotados os inimigos dos fieis da antiga fé, Adan chegara ao coração de Esmania. A sua perna a sangrar fora agora coberta por pequenas plantas que se entrelaçavam pela sua carne e aí mantiveram até terminar a sua cura. Os olhos de Adan voltaram assumir o seu tom azulado e este sentou-se sobre uma rocha, quando ao seu lado, apareceu uma figura de uma senhora muito velha e outra um pouco mais nova.

- Mãe? – disse em tom espantado quando viu um rosto que julgara ter sido beijado pelo fim da lança. A velha senhora apenas sorriu, nos seus olhos as palavras atropelavam-se e agitavam o seu olhar sincero. Aos poucos, a senhora velha foi adquirindo o aspeto mais novo, como que, terminado um disfarce longo e cansativo.

- Bem-vindo de volta a casa filho de Torfel - dissera a senhora grande que fechava o trilho à vista dos comuns homens.

O céu voltou a mostrar um dia de outono radioso e já não havia vestígios de uma luta que começara há pouco arriscando a levar consigo a esperança da velha fé. Do outro lado da muralha, Zamessa e os Margassa chegavam às portas de Torfel.

- Os corrompidos não entram em Torfel – sussurrou a nova velha que levantou o braço brandindo um gesto seguro aos homens que se encontravam na vigília mais alta da montanha.

Em volta das muralhas levantou-se uma bruma intensa e desafiante. Os gritos frustrados de Zamessa revelavam duas certezas: um confronto adiado e a morte certa do seu irmão e a dos seus homens. Consigo, Adan levou mais uma dor profunda, uma ferida que teimaria não sarar.

Torfel revelou-se e o seu poder agitou-se com a chegada de Adan. A velha fá reúne o seu sangue e começa a sua desejada mudança.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A lenda de Torfel - IVº. Parte





A traição acorda o vento do sul….

 Um som arrojado soou disfarçado por entre as árvores mudas da noite. Adan encontrava-se a descansar na sua tenda com alguns dos seus homens que se preparavam para o turno seguinte. Desde a partida dos barcos que a caminhada tem sido constante, apressada e sem longas paragens. A sua guarda encontrava-se agora dividida em dois grupos. Um grupo de cinquenta homens mantinha-se espalhado pela colina mantendo a vigia sob a guarda de Galderc e Elsos. O restante grupo de setenta homens, descansava no acampamento improvisado.

O som repetiu-se. Galderc dirigiu-se acautelado à orla das árvores e notou um cheiro ativo que reconheceu ser a de um fruto que apenas conhecia na ilha de Xaghai, onde Zamessa construíra a sua aldeia e constituiu a sua tribo. Subtilmente, disfarçou não se ter apercebido de qualquer perigo e afastou-se dando uma dentada sonora numa maça. Tendo Galderc perceptado a presença de elementos da tribo mandou avisar a Elsos, através de um dos homens que guardavam a entrada da tenda onde Adan pernoitava, da presença inimiga dos Margassa. De seguida, entrou de forma urgente na tenda onde Adan ainda descansava dos últimos dias em claro.

- Acorda Flaint – sacudiu urgente o guarda mais experiente e que melhor conhecia Adan – encontrei alguns Margassa na orla da floresta.

- Margassa? E a Zamessa? – perguntou Flaint enquanto guardava as armas no seu cinto e se preparava para acordar Adan.

- Não o acordes ainda. Não podemos lutar contra eles, são em maior número e…bem, conhecemos os seus métodos de luta. Descobri-os pelo cheiro a gazuba, devem ter extraído o veneno do fruto para os dardos, veneno acabado de extrair é morte imediata Flaint – dizia-o fechando os punhos, sentindo a morte por perto - Estão escondidos prontos a bloquearam-nos a passagem até a guarda real chegar e cumprir com as meticulosas ordens do rei do sul. Adan foi traído – reconheceu Galderc olhando para o seu amigo.

- Esperaram pela partida dos barcos para atacarem. Zamessa não é leal a ninguém mas cumpre sempre os seus tratados desde que lhe paguem bem. Já nos seguem então há 20 dias. Temos de partir já, apesar de em menor número, somos demasiados para não sermos vistos a dar de frosques – resignava-se Flaint esperando uma ideia valiosa.

- Reúne um grupo não mais de trinta homens e leva Adan daqui. Acorda-o e diz-lhe que temos a confirmação que há aproximação do inimigo e que os nossos homens se dividiram em quatro grupos e que nos encontramos mais tarde a oeste da montanha onde Torfel se mostra a norte – Galderc sentiu um arrepio gelado na nuca, sabia que não voltaria a encontrar o seu grande amigo e o seu olhar despedira-se com muito por dizer. Um grande chefe por quem sacrificava a sua vida, o mesmo preço que pagaria Adan pela vida de qualquer um do seu povo.

Flaint reconhecendo o olhar que partilhava, abraçou o corajoso homem que vingava o desejo de mil homens e mulheres que se espalhavam pelo reino do sul - vai em paz e que a tua morte não seja em vão. O teu nome será lembrando. Se conseguires safar-te com vida iremos festejar bem isto com um grande banquete e com o melhor vinho – disse-lhe despedindo-se com um forte abraço.

Galderc voltou as costas e à saída da tenda encontrou o longo manto azul de Adan com o cordão com o símbolo de árvore, o símbolo da antiga Esmania. Pegou no manto e deixou-o cair nas suas costas. Flaint acenou em concordância e em respeito viu Galderc partir.

- Adan, Adan! – Flaint acordava o seu chefe depois dos trinta homens já estarem prontos para o escoltar.

- Passa-se alguma coisa Flaint? Que urgência é esta? – perguntava Adan que se levantara com tamanha urgência que rapidamente se vestiu e se armou – onde está o meu manto?

- Está lá fora com Ermork. Temos de partir. Galderc recebeu um aviso de um vigia nosso depois de ter avistado possível perigo por perto – Flaint que se mostrava pouco alarmante, mas tenso, desafiou Adan para o exterior enquanto lhe deixava um recado falso, mas que a sua proteção o exigia e desculpava – Galderc mandou dizer que dividiu os homens em 4 grupos e que voltamos a encontrar-nos mais tarde a oeste da montanha até avistar Torfel. Elsos já partiu com um dos grupos. O nosso parte agora pela costa e mais tarde será o de Galderc depois de levantado o acampamento. O outro grupo encontra-se em vigia caso se inicie algum ataque surpresa. Mas temos mesmo de partir já Adan.

- Muito bem, vamos embora então – aceitou Adan a ordem de Galderc, sabia-o como bom estratega e confiava nele. Atento levou os seus homens para uma rota já estrategicamente estudada em caso de haver risco de ataque.

Adan já levava a sua fuga bem longe julgando que todos os seus homens o seguiam espalhados pelas terras da costa quando uma curta batalha ecoou sobre Galderc, nas terras de Wermest.

- Ora ora, vejam só – Zamessa aproximava-se montada no seu cavalo bruto, arfando o cansaço do galope urgente – e não é que achei um tesouro! Um tesouro que o rei do sul me incumbiu de encontrar. És muito valioso para ele seu escumalha burrinho.

Galderc estava firme com o seu manto estendido sobre o seu corpo suado, o capuz escondendo-lhe o rosto. Vendo-a descer num salto equilibrado, Galderc provocou um tribal e este esmurrou-o no peito. Curvando-se com dor, evitara que Zamessa deixasse a descoberto a sua identidade.

- Como sempre muito rebelde hã?! Vá lá, eu tenho de confessar que tens conseguido aborrecer e muito o teu rei. Falta de coragem tu não tens, mas a coragem não é tudo -  dizia agarrando-lhe a cabeça e atirando-o ao chão - Julgavas que me ias enganar com o rapto daquela miúda? – ria energicamente estendendo a graça pela sua tribo – aquela miúda prepotente que tu raptaste depois de me pagares, era uma fugitiva da cidadela. Achavas mesmo que raptavas um dos meus com tamanha facilidade? Estás a ficar cego com a ambição Adan.

Zamessa afastava-se agora para confirmar o que aos ouvidos de Galderc o vento revelou. Como um sussurro, o último suspiro do último dos bravos homens de Adan fez-se ouvir na madrugada rompante. A morte nas mãos dos Margassa era impiedosa e conforme a vontade, podia ser mais penosa e mais prolongada a dor até finalmente o senhor da morte aparecer. Restava apenas a Galderc orar para que Adan tivesse tido tempo suficiente para fugir.

- Vamos! Temos um longo caminho até às terras do sul – a voz de Zamessa rompeu perante um silêncio doloso e Galderc agitou-se na própria verdade do seu destino - Se partirmos já, ainda encontramos a guarda do rei às portas de Grazil, a vila agora deserta desta gente que ousou enfrentar aquele reizinho gordo – assobiava Zamessa agitando o seu traje tribal de peles e penas coloridas, caminhando como uma dança vitoriosa – onde está Lachiki e os aprendizes? – perguntara Zamessa desafiadora para um dos seus capatazes.

- Foram atrás de uns poucos homens que fugiram. Ficam para trás? – perguntou o capataz receando encontrar o olhar de Zamessa.

- Que fiquem para trás e que gozem bem do exercício, já me chega sacrificar homens meus para os seus treinos. Assim ficam-me mais baratos. Atem bem essas cordas a este homem à carroça, que ele é bastante esperto quando pensa – gesticulava exagerada em direção do prisioneiro - Mas o não o vamos deixar pensar sim?! Vamos ocupar a tua mente apenas para manteres o equilíbrio com a caminhada e não acredito que essas pernas aguentem – dizia-o divertida quando ao passar atingira uma perna com um golpe de lança.

Galderc manteve-se forte sem emitir qualquer som para manter o disfarce o maior tempo possível. A sua mente ausentava-se para lá do horizonte, algures onde Adan corria pela vida. Zamessa avançava agora radiante para a cidadela do sul para entregar o seu valioso prémio, satisfeita e certa da identidade que sequestrara.

- Rasakiki, envia uma mensagem bem educadinha para o rei sim? E quero que ele me pague bem ou então ele vai provar da minha fúria, não tenho medinho nenhum do reizinho gordo – dizia rindo bem alto enquanto se dirigia para a fila dianteira da sua tribo.

“Senhor do sul. Vossa subtileza e riqueza são infortúnios para os mais fracos. Provo-vos mais uma vez que a minha lealdade a vós depende da quantia de vosso ouro. O tesouro que levo comigo tem maior valor quanto aquele que me quereis pagar. Espero a vossa sincera gratidão com dois navios novos, 20 fortes homens para os navegar, 1 arca de especiarias e tecidos para a minha tribo. As minhas exigências são merecidas perante o que me exigiste. Para verdes que de tão verdade digo, envio-te um pequeno objeto que julgo reconhecerás o seu possuidor. Assinado Zamessa”.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A lenda de Torfel - IIIº. Parte




Viajando pelo sul...

A chegada do outono foi denunciada pela queda das suas primeiras e ligeiras folhas tingidas de um tom alaranjado com traços acastanhados, que desfilam num voo curto até ao conchego de um extenso manto no solo fresco da floresta de Torfel. O vento pareceu pressentir a chegada do jovem herdeiro do norte e assobiou baixinho pela vila, agitando as portadas do grande casebre. Imediatamente a criada da casa, a senhora grande e mais velha dos originais moradores da vila, acorreu à sua horta para colher legumes frescos para o almoço. A noite ainda governa meio céu a sul, e uma candeia foi levada para iluminar o caminho. As hortaliças estão viçosas e frescas nesta hora. Antes de as colher, a Senhora grande juntou as mãos, fechou os olhos e esperou um pouco. Passado uns momentos colheu tudo o que era necessário. A sua cesta ia já carregada quando ouviu o Sr. Olipo afiar as facas para preparar as carnes para o guisado. No rebentar do primeiro raiar do dia, já a vila estava levantada tomando o seu lugar e função coordenada de uma vila obediente aos seus costumes. Enquanto se dirigia ao casebre, a Senhora grande vislumbrava já em toda a vila, o fumo que saía das chaminés que através dele traziam os cheiros frescos e requintados de pão cozido, sopas, guisados, o que tornava o ambiente mais delicioso.

- Bom dia Senhora – acenava levemente a padeira atarefada.

- Bom dia Mena – respondia educadamente a Senhora grande, com um sorriso luminoso no rosto.

O dia iluminou-se, agitando-se de mansinho do vento da madrugada que já passara, não se sentindo já a maresia da noite. O sol aqueceu ligeiramente o tempo.

- Hoje é um bom dia para o gado sair à rua – sussurrou a Senhora ao vento sossegado.
Belmo, o pastor da vila, logo saiu de rompante da sua pequena casa ajeitando o manto nas costas e seguiu direito ao celeiro para preparar os utensílios para encaminhar o gado aos campos férteis de Torfel. Atrás de si, uns pequenos passitos acelerados segui-o, era a sua pequena filhota, Evera que curiosa seguia seu pai de perto por todo o lado. Já o gado percorrera a distância até ao casebre quando a senhora grande reapareceu à porta.

- Bom dia Senhora, vamos levar o gado. O dia vai estar radioso não acha? – falou o homem de meia idade, forte e audaz. Daria um bom guerreiro, pensou a Senhora.

- Bom dia Belmo. Bom dia Evera, é de facto um bom dia para levar o gato ao pasto. A madrugada foi-nos favorável.

A senhora colocou as suas mãos sobre o regalo saudável daqueles animais, fechou os olhos e orou. Repetiu depois o gesto sobre Belmo e Evera. Após uns momentos, entregou o farnel a Evera e cada um seguiu o seu caminho.

- Um dia abençoado para vós, ide em paz – sussurrou a Senhora elevando a mão em direção dos que partiam para mais um dia de trabalho nas terras de Torfel.

Meio dia já passara. Por esta hora, terminadas as primeiras tarefas do dia, os habitantes de Torfel dirigem-se à grande pedra circular à entrada da vila, reunindo-se e dispondo-se nessa forma aguardando o momento repetido e sucessivo de todos os dias. A senhora grande já tinha chegado uns momentos antes e já tinha disposto sobre a pedra os quatro elementos da vida. Recuou até ao círculo, uniu as mãos, fechou os seus olhos e numa prece, todos deram as mãos. Antes de fechado o círculo, juntou-se o recém-chegado herdeiro do rei do norte com os seus fiéis companheiros.

O herdeiro era sobretudo um habitante originário de torfel e era visto mais dessa forma, sem qualquer formalismo. Ali, todos são uma grande e unida família, com os seus direitos e deveres a que nenhuma posição hierárquica tem mais peso. A igualdade é conceito prioritário dos seus costumes.

A senhora grande sorriu sem olhar os recém-chegados. Com o círculo fechado, começou a oração do dia, o agradecimento e reconhecimento de uma vida que apenas poderá ser saudável se for gozada em pleno com a corrente que nos liga ao mundo, à água, terra, ar e fogo. De coração aberto é cumprido pela Senhora o ritual diário à mãe natureza pelas graças que são concedidas aos utentes dos seus recursos.

A água que é vida, purifica e faz crescer - (levanta a taça da água e bebe)
A terra que é vida, alimenta e multiplica - (levanta a coroa de flores, colocando-a sobre a sua cabeça, levanta uma baga e mastiga)
O ar que é vida, transporta e faz renascer - (acende o incenso de alecrim que ardendo espalha-se sobre o circulo)
O fogo que é vida, transforma e protege - (acende a vela que permanecerá acesa até o final do dia)

Após um silêncio todos prestam uma oferenda sobre a pedra circular, um pão, um pedaço de carne, um legume, uma peça de fruta e um pedaço de linho. Tudo se embrulha sobre a pedra num pano bordado.
Um dar e receber necessário para a sustentabilidade de cada vida. O momento é curto mas sentido de forma pura e profunda. Dadas as graças, o ritual terminou. Abraços e cumprimentos se dirigiram a Dairan, o herdeiro do rei do norte e aos seus companheiros. Voltadas as costas, já as oferendas desapareceram sobre a pedra, restando apenas o pano bordado.

- Senhora – dirigiu-se finalmente Dairan, beijando-lhe a mão, com um sorrindo rasgado pelo reencontro – a vossa bênção.

- Meu querido Dairan – este baixou graciosamente a cabeça recebendo a bênção da Senhora - dou graças por ter ver tão saudável e um homem bonito já feito. E esse sorriso que me faz lembrar tanto o teu pai – com os olhos tão límpidos e alegres, a senhora abraçou as mãos de Dairan nas suas – vens em boa hora, precisamos de falar. As pedras falaram-me esta noite, aproxima-se um inverno rigoroso para as gentes de Torfel.

Dairan gelou perante aquelas palavras. As pedras do círculo apenas se manifestavam quando havia manifesto perigo para Torfel. Precipitando as notícias causadas possivelmente pelo estado de saúde de seu pai, Dairan acenou apenas à Senhora.

- Quando o sol descer a meia tarde traz os teus conselheiros e vem-te reunir aqui no círculo. Esta noite as pedras vão-te falar. És o herdeiro destas terras, tens o dever de as guardar com a tua vida – falava ternamente e de forma profunda a Senhora grande - Mas se a minha visão não me atraiçoa, a tua luta estender-se-á para lá das terras de Torfel. Tens de te preparar meu filho.

Louvados os chegados e cumprimentados os amigos, rapidamente todos se dirigiram até ao salão do grande casebre e foi servido o almoço delicioso, onde todos cooperaram na elaboração e distribuição da refeição. Apesar de preocupado, Dairan aproveitou a refeição afastando os receios e discussões que a sua mente já colocara a caminho. Hoje seria o dia de revelações e se o seu instinto não o atraiçoasse como pudera ter atraiçoado a visão da mãe do seu pai, a sua vida iria mudar muito em breve, e havia uma centelha de morte que permanecia sobre si.

Saudoso deixou o casebre e seguiu o trilho da vila em direção à floresta de Torfel, deixando-se fluir nos seus sons e cheiros. Inspirou cada partícula e agradeceu puder voltar àquele lugar, àquela paz momentânea que o destino permitiu.

Empoleirado numa árvore alta e astuta, Smerlo agitou as suas pernas, para a frente, para trás, cruzando e descruzando os seus pezitos como uma dança voada, assobiando uma canção que aprendera com o seu pai. As suas pequenas mãos rosadas, criavam com afeito o que viria a ser um pequeno pássaro esculpido de um ramo forte, oferecido por aquela árvore que o deixara cair naquela manhã para alegria do seu pequeno. Era já o terceiro passarito que este esculpia em tão pouco tempo e o seu ninho estava quase pronto. Os galhos tinham já sido depositados em forma de covinha junto de um ramo protegido do vento e da chuva, e lá dentro já se personificam dois pássaros, os pais pássaros. Faltavam os dois filhotes. Portanto, o almoço teria de ficar para mais tarde. Já tinha orado à mãe natureza, bem mais cedo que todos os outros habitantes da vila, e não queria de forma alguma, deixar a meio a sua oferenda à árvore mestra que se regozijava de precioso presente. Não tardara a ser descoberto principalmente pela sua cantarola afinada, alteada pelo vento que com ele levava um lençol de folhas que criavam e recriavam imagens da natureza ao ritmo do assobio. Dairan chegou sorrateiro seguindo as árvores que dançavam ao som da canção, sem qualquer força do vento para que tais se mostrassem. Sorriu vendo o pequeno Smerlo sacudir as mãos e roupa depois de terminado o seu orgulhoso trabalho.

- Amigo Smerlo, então que fazes aí? – perguntou Dairan curioso vendo Smerlo guardar os utensílios que levava na bolsa que o acompanhava sempre. Deixou-se ficar direito com as suas mãos atrás das costas divertido pela descoberta.

- Dairan! – espreitou eufórico - eu sabia que estavas a chegar. As folhas disseram-me, aquelas que se soltaram daquela árvore a Madla, estás a ver? -  apontava sorridente e inquieto para a ponta da floresta – fiz um ninho para a árvore mestra. Bem sabes que da estação passada, poucos foram os pássaros que a visitaram e nela fizeram ninho. Esteve doente e por isso nenhum quis arriscar levar a doença para os seus filhotes. Mas já está boa, tenho tomado conta dela e para não ficar triste fiz-lhe um ninho para todo o ano ter companhia. Não os ouves cantarolar? – observou o pequeno chegando-se para a frente para tornar visível o seu ramo – já estão vivos.

Dairan mudou o ângulo e lá viu e ouviu os pequenitos agitarem-se no ninho de galhos que Smerlo arranjou. Não precisariam de comida se eram de madeira, mas Smerlo quis recriar a realidade, deitando-lhes umas migalhas de pão que trouxera às escondidas da cozinha.

- Smerlo, vem desce daí, a tua mãe já chamou por ti há já algum tempo - gesticulou Dairan na sua juventude refletida nas folhas húmidas das árvores. O seu porte atlético e alto, não enganava a sua posição com o seu manto vermelho que o acompanhava nas estações mais frias. Já retirara as adagas e facas que o acompanhavam, bem como, os distintivos próprios da sua posição hierárquica que devem ornamentar o seu manto.

- Eu deixei um recado à minha mãe. Deixei-lhe uma folha no cimo da bancada para dizer-lhe que estaria na floresta – reclamava o pequeno com o sobrolho franzido em trejeito.

- Pois fica sabendo – disse Dairam sorrindo ao pequeno fazendo-lhe um calduço – que tens as árvores como tuas cúmplices porque nenhuma delas revelou onde estavas. Dançaram a tua música e mais não disseram. Que cúmplices tu arranjaste.

- Só não enganaram o seu rei – sorria Smerlo saltitando enquanto se dirigiam ao grande casebre.

- Ao seu rei não Smerlo, ao seu filho. Aliás somos todos filhos de Torfel, somos todos filhos das suas raízes e de tudo o que lhes dá a vida – falava com jeito o herdeiro do norte, o simples Dairan naquelas terras. Humildemente abraçou o pequeno enquanto lhe deixava um sentimento de companheirismo e confiança que entre os habitantes de Torfel era luminoso – A vida de Torfel que flui pelo nosso corpo tal como a Dama luminosa que traz a vida no ar; sábia, tal como o senhor dos carvalhos que traz vida da terra; forte e presente tal como o senhor do ferro representando pelo fogo, que como ele queima os ingratos e impuros eliminando as suas impurezas, e por fim, justa, como a dama da justiça que deve provar de forma límpida como a água a justiça do mundo e deixá-la fluir nas ações dos homens. Afinal pequeno da floresta, todos somos um pouco da terra, do fogo, do ar e da água, fluímos da sua força e com ela devemos saber viver com respeito, humildade e honestidade.

- Só não entendo uma coisa Dairan – o que após um aceno arriscou - Porque razão a senhora grande faz o reconhecimento quando o sol já vai a meio do céu? – desabafa o pequeno olhando o chão de forma pensativa.

- Primeiro as obrigações e depois as devoções – respondeu Dairan a lição há tantos anos aprendida e repetida – no meio dia todos os elementos estão presentes em pleno, com o seu poder e força. Em cada hora do dia, é uma hora própria para cada coisa. Por exemplo, de manhã é a hora indicada para apanhar os legumes frescos da horta. Ao final da tarde é a hora para trazer o gado dos pastos, depois de alimentados entendes? Tudo tem uma hora própria tal como as orações do dia, ainda que as possas fazer ao mesmo tempo que fazes tantas outras coisas. Mas como fazemos a oração em grupo com a Senhora grande, fazemo-la na melhor hora tal como as pedras indicaram. É o momento assinalado no círculo. Sabes que a pedra é a mesa dos grandes senhores?

- Pode ser assim – continuou smerlo – mas eu prefiro desejar boa viagem ao sol quando nasce para chegar bem a meio do céu. Quando a senhora grande o reconhece, já eu o abracei e desejei viagem há muito tempo. E ele vai feliz assim que vê o meu rosto na madrugada clareada.

Dairan sorriu perante a simplicidade e ingenuidade da criança – e mais feliz fica quando nos encontra a todos a meio do caminho – disse ainda o herdeiro - se achas que está certo não o deixes de fazer, em nada ofende o velho costume.

- Sabes Dairan? – contou o pequeno Smerlo que parara abruptamente em frente ao circulo de pedra – ontem durante a noite ouvi sussurros no circulo mas não vi ninguém.

Dairan arremelgou os olhos e disfarçou olhando o circulo iluminado por um raio de sol, lembrando as palavras da Senhora grande.

Continuou o pequeno – sei que estás a pensar e as árvores concordam comigo. Devias juntar o conselho – e partiu para casa, correndo e cantarolando alegremente.

- Os sinais foram provados Dairan – falava tranquilamente a senhora grande que o esperava – Torfel sente a mudança.

Aproximou-se uma rapariga aprendiz da Senhora e entregara-lhe um cesto cheio de flores frescas do campo.

- Obrigado Malva - acenou levemente numa graça à jovem que recuou e desapareceu por detrás de uma casa cheia de flores coloridas que ainda sobrevivem ao frio da noite.

A Senhora encaminhou Dairan ao círculo e juntos seguiram em silêncio a caminho até lá. Chegados à pedra circular, grande parte das gentes de Torfel se reuniam para ouvir falar as pedras. Muitos eram aqueles que a sua idade já ia avançada e com eles pertencia a história daquelas terras. Ao círculo juntou-se uma senhora idosa que Dairan reconheceu ser a que seu pai acolhera depois de ter deixado as terras do sul.

- Caros companheiros de vida e conhecimento, reunimo-nos aqui neste dia, chamados pelas pedras deste circulo. Os sonhos tem-nos revelado a urgência, e com eles trouxe Dairan, responsável pelo futuro das nossas terras, ainda que, meu filho seja ainda o Rei do Norte. Mas a hora chega, e a cada dia, mais se junta profundamente ao senhor dos carvalhos. Irei mais tarde prestar-lhe uma oração para que parta em paz – dizia solenemente a Senhora grande, fazendo a introdução viral da reunião – Malva faz as cortesias por favor.

Malva aparecera no meio do círculo e sobre a pedra circular sobrepôs uma taça de água, em sua volta as flores do campo e uma linha de legumes entrançados, numa ponta velas acesas e na outra ponta, incenso.

Erguendo as mãos voltadas para cima, a Senhora orou e pediu – que os teus elementos nos sejam fiéis e nos revelem para nossas palavras o caminho que havemos de seguir para proteção dos velhos costumes, para a proteção das nossas terras, das nossas gentes, e porque somos um pouco de cada elemento, a eles nos juntamos em graça para nos unirmos em prol de um futuro comum, certo e saudável. Que estas pedras nos falem hoje e nos revelem as indicações dos senhores de Torfel – terminada a oração, todos aguardaram em silêncio.

A senhora grande sentou-se e gesticulou em ordem na direção de Nadel, outro aprendiz que se levantou em direção à pedra circular. Fechou os olhos e orou, de seguida a pedra rugiu, uma pequena ranhura se mostrou. As suas mãos procuraram o pequeno saco feito de pele de urso e fio de linho. Levantou o saco em direção à senhora grande que autorizou Nero a continuar. Abriu solenemente o saco, agitou o seu conteúdo e de seguida deixou cair as pedras na pedra circular.

- As pedras falam-nos – começou por dizer Nero – uma morte revela-se hoje aqui na pedra. O coração do norte vai sentir uma profunda perda e com ela os ventos vão assolar as terras do norte e com a sua força destruir as suas casas.

- Guerra! – sussurrou um dos conselheiros.

 A senhora grande continuou silenciosa traduzindo para si o resultado das runas. Nada revelou no seu rosto perante as primeiras revelações. Dairan encheu-se de questões e antes da pergunta ganhar voz, Nero continuou.

- Muitos dos que sentam à mesa do rei, comem com duas línguas e escondem as suas garras como um animal feroz pronto atacar. Muitas portas irão fechar-se àquele que se sentará no trono do norte. Sangue que não é sangue do norte, não se conseguirá erguer com a força dos senhores e comandar as gentes dos velhos costumes, a antiga tábua do conhecimento.

Dairan arregalou os olhos – como não poderei sentar-me na cadeira de meu pai? Sou legítimo herdeiro – vociferou nervoso perante a desconfiança da sua nascença.

Tem calma Dairan – falou seriamente a Senhora grande – as pedras não falam de ti. Parece que há outro que pretende o teu lugar. Não é difícil adivinhar que após a morte de teu pai, o rei do sul irá certamente querer conquistar aquelas terras. O passado nem sempre termina nele próprio. E poucos são os senhores do norte que tal como o teu pai, ainda respeitam os velhos costumes acima dos costumes ambiciosos do poder.

- Chegará aquele que dividirá o trono e com os velhos costumes irão prevalecer sobre toda a Esmania. As runas parecem-se como uma visão apenas – avançou Nero – os senhores revelam a sua vontade em reunir Esmania. No entanto, a nova estação será demasiado rigorosa e um nevoeiro assola a visão para o futuro.

- As runas não revelam o futuro. Significa que, tudo dependerá de como cada um dos protagonistas do destino se moverem perante as circunstancias – revelava a Senhora grande enquanto via a água na taça mover-se – Dairan, és demasiado jovem para tal destino, mas vem aí uma guerra que mudará o rosto da própria Esmania – os conselheiros agitaram-se sussurrando uns aos outros nos seus bancos – segue imediatamente para a cidadela e reúne os conselheiros mais leais de teu pai. E meu filho, desconfia de todos. Alguns não te acharão capaz de enfrentar o futuro, e poderão negociar com o rei do sul, o que muito me preocupa. As runas revelaram traição dentro da tua própria casa.

- Quando acontecerá tudo isto? É ao mesmo tempo? É daqui a quantos anos? – perguntou Dairan à senhora grande.

Uma folha minguada e manchada de um castanho demasiado escuro da estação que ainda agora começou, veio descendo até meio do circulo e pairou na pedra, extinguindo-se no vento que a espalhou.

Antes da estação terminar – disse a Senhora grande perante a revelação do senhor dos carvalhos - antes das primeiras neves e depois das primeiras chuvas do inverno. Acontecerá tudo logo após a morte do rei do norte. A notícia espalha-se demasiado rápido, mais para quando a pretensão errada move-se com desejo. Demasiado rápido para o tempo que temos para agir.

- As pedras dizem que o trono vai ser dividido, que quer isso dizer? – perguntara Dairan a Nero.

- Nero lançara novo lançamento e traduzia o resultado – aproximam-se gentes do sul para Torfel, mas a pretensão não me parece ser a de guerra, mas também não revelam porque vêem.

- O que significa que não se opõem à vinda dessa gente? – questionou a senhora grande.

- Fazem parte do enigma. Também nada dizem que devem entrar – respondia Nero tranquilamente – devemos fazer novo lançamento quando chegarem e explicarem o motivo da sua vinda. Parece que as intenções ainda são irrelevantes para o que se segue, o rumo pode mudar a qualquer momento se as vidas de cada um mudarem também. Mas se tudo correr de forma positiva e aos bons ventos forem aceites em Torfel, simboliza que também eles têm as rédeas do destino sobre o norte. De qualquer modo, Dairan não irá governar sozinho o norte, o que pode significar muitos caminhos possíveis desta guerra.

- Senhora – falou Dairan, tomado pela emoção, preocupado, sentindo o peso de um futuro sem ponta de conselho plausível para tomar uma decisão válida - sabeis melhor a vida que meu pai levou antes e mesmo depois de se ter tornado rei do norte, quereis contar-me algum segredo de família? Algum filho fora do casamento com minha adorada mãe? Será que a morte que as pedras revelam é a minha e os abutres irão gozar do trono espezinhando o corpo efémero de meu pai no leito com o sangue ainda quente da presença de vida? Como será possível dividir-se um trono? Dois reis? Nem nos velhos costumes é possível, ou será esta revelação uma metáfora de coisas sobrenaturais que não conheço?

- As pedras revelaram-te o mesmo que me revelaram a mim Dairan – respondeu séria e solene a Senhora – quanto ao ser possível ou não pelos velhos costumes, estes já subsistem apenas aqui em Torfel, e se, em todo o norte elas ainda se cumpram como uma chama ardente, é porque o seu rei assim o quis e o seu povo também. Nada nos leva a crer que com o governo de outros os mesmos se cumpram. Aqui em torfel, só entra quem os senhores deixarem, caso contrário desfalecerão às suas portas e nada podemos fazer contra isso. Não existe nenhum descendente senão tu que corra o sangue do teu pai. Mas o sangue da minha família ainda corre por toda a Esmania, e nada te posso garantir que não haja quem de direito tenha ao trono do teu pai, desde que, seja dado termo a tua vida, enquanto único filho legítimo do rei. Por isso, a tua vida neste momento é tão importante quanto Torfel. Sobre ti recai as forças dos senhores, sobre ti recai uma coroa invisível escolhido pela história desta terra que tem mais força do que qualquer desejo de qualquer outro em tomar o teu lugar. Entende Dairan, a vida deve correr conforme as escrituras dos senhores, caso contrário o rumo do mundo corre o risco de se desviar e a desordem pode ser fatal para todos. Todo o ser tem o seu lugar próprio no mundo, a sua missão e nada o deve mover em contrário sob pena de mudar o rumo de tantos outros e tudo se perde num destino demasiado longo em se cumprir. Gostaria de te ver antes mesmo de tudo acontecer, mas nada é certo quanto eu gostaria. Deves partir já Dairan, e daqui em diante, apenas segues os caminhos de Torfel até chegares à cidadela, a ti eles não te são ocultos e são bem mais seguros do que qualquer outro. A tua cabeça é agora um prémio para o rei do sul.

Quando a lua atravessou os céus de Torfel, já Dairan atravessara o trilho da montanha a caminho da Cidadela do norte. Em breve tudo iria mudar. Continuaria Torfel a ser um lugar seguro? Será ele capaz de proteger aquelas terras e o trono a que tem direito governar? As muitas questões tornaram-se espinhos afiados na sua mente.

- Volta para casa filho – Dairan sentiu o chamamento forte no seu coração. O seu passo tornou-se grave.