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domingo, 1 de dezembro de 2013

Vº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



Relembrei atenta a última quadra, juntando as mãos numa esperança renovada:

- “O lobo assombra a noite com o seu uivar, O cavalo vitaliza a força e humildade, Ergue-te meu herdeiro, Sou eu a tua entidade”. 

O uivar do lobo é o presságio na noite escura do tempo, são os desafios que acocoram no nosso caminho, o seu uivo é um símbolo de respeito e de medo. O lobo é a imagem da rebeldia do homem, representa a força exterior, a vontade de exceder os limites humanos e a ambição de ser maior. É a garra necessária para vencer as pretensões ambíguas do inimigo.

O cavalo, símbolo de força, vitalidade, conduz o destino dos homens. Estão ligados às divindades, viajam frequentemente entre o mundo dos homens e o do outro mundo. O lobo e o cavalo correm juntos no meu sangue. O lobo é o antigo símbolo dos primórdios povos da minha família paterna, enquanto que, o cavalo é o símbolo muito guardado e amado pelo lado feminino da família. 

Sangue de grandes amantes e bons cavaleiros, tal como minha mãe, corre-me nas veias a mesma fulminante paixão por brilhantes animais. Por isso herdei o seu cavalo, presente do outro mundo. Eles são o fogo e água das nossas vidas, são a alegria e a tristeza de viver com eles, são o amor e ódio quando partimos juntos para a guerra, são eles que nos conduzem no caminho entre os dois mundos e que por vezes cruzam fronteiras e nos abraçam com as suas transformações.

 Olhei as 5 portas com uma atenção ansiosa. Então tinha duas portas de uma natureza familiar e ambas captavam a minha atenção. Se numa tinha figurado vários cavalos a correrem livres em campo aberto, com pequenos momentos vibrantes na orla de uma floresta; noutra apenas tinha 1 cavalo e 1 homem num laço de amizade. Numa paisagem sem mais pormenor, não haviam lobos em nenhuma parte da escultura que circundava as portas. Decidi que seria esta última que explicaria o significado do cavalo no nosso símbolo da família, o cavalo sendo a união dos dois mundos que liga ao homem. Um elo que existirá para sempre entre os dois seres. 

Amo aqueles seres de mistérios e forças profundas que fazem brotar em mim a mesma força e vitalidade. Juntos somos um só. Tal como aquela imagem tão simples. De facto todas as coisas são simples na sua verdadeira natureza e assim é o amor por todas as coisas. Aquele era o momento grandioso que me ligava à minha mãe e à sua paixão. 

Aquela porta não seria aberta por encontros de lugares mágicos nas suas gravuras, aquela seria aberta por uma chave em si especial. Carinhosamente e sem poupar as lágrimas de saudade, levei a minha mão à bolsa, retirei a criatura do medo e coloquei-a sobre o ombro - Ficas aqui para veres a minha felicidade, apreciares a tua natureza e para veres que não há razões para te sentires feroz.

Levei novamente a mão à bolsa e retirei um pequeno brinquedo tão antigo, elaborado com tanta paixão quanto é possível um homem despender e coloquei-o sobre as duas mãos. A noite já se acomodava no céu tapando uma ténue linha alaranjada no horizonte. Olhei a pequena figura do cavalo e descobri-lhe a linha que unia as duas partes, com um jeito abriu-se, e lá dentro, uma chave em bordado floral. 

Retirei a chave e reparei que no cimo ostentava a cabeça de um lobo, a mesma imagem que no medalhão. Sorri satisfeita e levei-a à fechadura da porta com a mesma paixão pela qual foi feita. Quando a noite por si caia e a porta se abriu, o brilho que se ergueu do interior daquela divisão ocultou a noite e voltou a ser de dia, num esplendor majestoso, onde todas as coisas florescem e crescem saudáveis e férteis. 

Entrei no jardim que vislumbrara tão ao longe. Uma ilusão tão falsa, incomparável com a verdadeira beleza daquele lugar. Uma imensidão de terra que se erguia num manto floral de tantas cores, espécies de flores que jamais sabia existir. Olhei para trás e não via qualquer castelo, somente aquele lugar mágico, um lugar dentro de um outro lugar num outro mundo. 

Um pouco mais à frente rebentava uma nascente onde ouvi tiritar os pássaros numa dança matrimonial. Ajoelhei-me naquela visão tão doce, tão merecida. Tinha passado as provas porque dependiam sobretudo de reavaliar os conhecimentos que já me foram impostos juntando a outros novos. Todos os saberes nos fazem crescer e são elementos essenciais para a concretização do nosso destino. Como todas as coisas crescem dependentes de tantos outros elementos!

Estava tão calma que só depois de um longo tempo lembrei-me de procurar o meu cordão. Voltei a colocar a criatura do medo na bolsa, o qual, dormitava num sono profundo, talvez ele também pudesse sonhar. Uni as duas partes do cavalo e guardei-o. Para maior surpresa, enquanto caminhava por entre a imensidão de cor, vislumbrei que em várias flores, nas suas pétalas, ostentavam pequenos espelhos, e nelas surgiram várias imagens da minha infância, junto das minhas irmãs, com a minha mãe, com o meu pai. Lembranças tão boas que fazem parte de mim.  Permaneci largos momentos olhando e relembrando cada uma.

Refresquei-me na água da pequena nascente. Quando abri os olhos e após lavar o rosto, vislumbrei uma figura refletida na água. Olhei para trás e não vi ninguém. Olhei de novo para as águas suspeitas e vi novamente aquele rosto. E então mesmo ao meu lado ali estava aquela figura, um belo cavalo, cor de âmbar, com os seus cabelos lisos num entrançado com flores do campo. Um espécime saudável e robusto. Uma égua de um olhar terno e fugaz. Estava a lamber-me o rosto e dei uma gargalhada saudosa, e quando lhe levei a mão para acariciar o seu dorso esta tinha o meu cordão. Toquei nele e abracei aquele espécime apaixonante. Então ela baixou-se para eu subir. Assim o fiz e ela levou-me até o fina desta demanda.

Percorremos a vastidão do jardim por entre as flores que dançavam sugando a luz brilhante que vinha de um céu apaixonado. Então chegámos a um rio largo que caia para o abismo do outro lado daquela parede invisível. Perto das águas estava outro belo espécime, um garanhão num castanho avelã escuro, com um cabelo liso dançante ao vento, com reflexos cor de um preto genuíno, tal como nas suas patas. Um guerreiro solitário. 

Desmontei a égua e caminhei em direcção daquele maravilhoso ser, este não aceitava a minha presença, estava nervoso. Então a égua passou por mim e os dois encontraram-se numa saudade conjunta. Entrelaçando as cabeças, percebi naquele momento que eram o símbolo dos dois cavalos no meu medalhão. A confiança e o amor entre o homem e a mulher. Seria o verdadeiro elo, o elo da fertilidade, do amor e confiança. Porque do amor de um casal nasce a união e a sustentabilidade da sua família. A confiança, a família e a honra. Os lemas da minha casa. 

Então empenhei a espada nos céus e os dois cavalos se ergueram e se personificou o símbolo do medalhão. A minha demanda estava cumprida. Aos poucos o jardim foi-se tornando mais pequeno. Até que a visão desvanecera-se. Sorri deixando correr as minhas lágrimas soltas renovando-me o espírito.

IVº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



- “Coração dentro, coração fora, Recolhe-me no teu amor, As espadas são tuas guardiãs, Levanta-as com fé e esplendor”- relembrei a segunda quadra.

Procurei em cada porta as pinturas que se adequavam àquelas palavras. Algumas gravuras continham apenas símbolos com inscrições, outras com barcos no mar, outras com amimais selvagens. Até que, chegando à sétima porta, olhei com atenção. Nesta, apenas continha uma simples gravura mesmo por cima da enorme porta. Três mulheres segurando um bebé. As três mulheres eram iguais, uma amamentava a criança, outra defendia-o de um animal feroz  e por fim a outra abraçava um manuscrito e uma pena. Questionei-me inúmeras vezes se seria esta a porta. Não podia errar ou então estaria tudo perdido. Pensava e observava uma e outra vez as imagens em cada porta. Então ponderei.

 “Coração dentro coração fora, recolhe-me no teu amor”, simbolizava o amor personificado pelo amor de mãe, o amor mais puro e mais forte, aquele que ama por dentro como sangue do seu sangue e aquele que ama por fora combatendo todo e qualquer perigo que se sobrepor sobre o caminho da sua criança, ou aquele que a acompanha mesmo na distância, seguindo-a através do seu instinto.

“As espadas são as tuas guardiãs”, é o conhecimento que nos liga às ostentações que nos são geradas e o alimento como símbolo de crescimento físico, as verdadeiras e interiores armas de defesa para a nossa vida para combater o mal nas suas inúmeras faces; e a educação, o crescimento erudito de qualquer ser que se prepara para viver num mundo de desafios e vontades impostas, aqui simbolizado pelo manuscrito e a pena que as regista. 

Abracei com força aquela imagem e olhei para dentro de mim, eu detinha a força de minha mãe, a de dentro e da fora, sempre fora educada pelos melhores mestres que ensinam os rapazes novos, tive aulas de geografia e de tantas outras a que nem todos os rapazes têm oportunidade de ter. As minhas guardiãs deram-me todas as armas que preciso, amor, coragem e conhecimento. 

- É apenas necessário levantá-las com fé e esplendor!

 Então coloquei-me em bicos dos pés, sem querer saber que a porta era mais alta do que eu, o suficiente para duvidar de mim. Estiquei-me mais um pouco e com o auxílio do meu pequeno punhal com a lâmina horizontalmente disposta sobrepus a minha força para cima, a imagem levantou numa mestria soberba e a porta abriu. 

Entrei cuidadosamente observando com surpresa o seu interior. Estava perante uma larga varanda com vista para o rio, cheia de folhas de árvores espalhadas pelo vento naquele chão sujo do tempo esquecido. Reconheci que aquela era eu, que há muito não organizava o meu conhecimento, que me tinha desleixado nas minhas lições, não arrumara o que aprendera e que estava assim, suja do tempo que passava sem lhe puder dar alguma cor, algum arrumo, alguma utilidade. 

Então, sem pensar do que dali advinha, limpei aquele espaço, improvisei uma vassoura, varri as folhas devolvendo-as ao vento que as transportaria para a floresta, lavei as pedras dos bancos, bebi da fonte, reguei as lindas flores que coloriam o terraço e sentei-me no banco de pedra, desenhado com motivos belos do campo, as flores e os cereais como alimento da alma. Então no extremo da varanda, deu-se um grande estrondo. Levantei-me sobressaltada.
O muro da varanda caíra nas águas do rio e uma ponte delicada e curta ganhou vida. Sem proteção lateral, eram apenas quadrados que se colocavam em fila. Olhei meditando no que fazer.

- Fé! - lembrei-me. Onde me levará a fé? 

Da minha bolsa soltou-se um rosnar, a pequena criatura do medo estava a manifestar-se então fechei os olhos, respirei mais fundo, levei a mão à criatura e acariciando-a ela se acalmou. Não importariam as vertigens ou o vento que tentaria derrubar-me para a escuridão. A fé era o princípio de tudo e a coragem era a sua mestra. Saltei passo a passo, a cada quadrado que constituía a ponte sem ver fundo ou fim da mesma, apenas prossegui. Sentia que tinha a mente calma, arrumada e sã, e por isso, teria de seguir, perderia mais ao desistir. 

Então lutaria, independentemente, para onde quer que isso me levasse. O vento assoprava cada vez com mais força soltando-me os cabelos deixando-os livres num caramelo radioso. Ao longe vi algo a brilhar. Prossegui sem receio. E quando cheguei mais perto consegui vislumbrar uma majestosa espada de ouro branco com inscrições iguais aos do cavalo do outro mundo, com um cabo belo e forte numa forma circular onde estava desenhado em mestria uma árvore. Percebi que era a espada que está gravada no meu medalhão. Como símbolo do conhecimento, da honra, da família, fruto de tantas demandas que o outro mundo passou para os homens e mulheres que cresceram nas terras do sul. Somos as raízes da grande árvore que dá o fruto às gerações a quem passamos a herança da palavra e da força. 

Para chegar à espada teria de saltar para a última pedra que compunha a ponte, um salto que colocaria em risco a minha vida se não a alcançasse. Por momentos pensei que não iria conseguir e a criatura do medo começou agitar-se na bolsa. Aconcheguei-o o melhor que pude e chamei a coragem, chamei a imagem das três guardiãs e pedi que me ajudassem. Amei a minha linhagem lembrando das provas que todas as outras mulheres teriam provado à Deusa. Então descalcei as botas, larguei a bolsa, retirei a capa e fiquei apenas com a minha túnica simples, leve sem o medo. Recuei um pouco e corri. Quando voava no céu até ao quadrado de pedra onde esperava a espada, surgira o meu companheiro de aventura, o corvo, que se mantinha ao meu lado para não desistir. Vi-me cair aos pés da graciosa espada, minha herança, meu legado, fonte de todos os sacrifícios, da fé, do amor e do conhecimento dos meus antepassados. Peguei nela com o máximo cuidado, era pesada. Mas o seu peso tinha a ver com o seu significado, pois em matéria era leve.

A justiça é um ato de fácil prática, fazer-se justiça já é um ato de tamanha ponderação e risco. Percebi naquele momento o respeito que era merecido impor por todo o significado que tinha aquele elemento.
A ponte outrora em pedaços era agora um caminho seguro, seguido com os ornamentos laterais da varanda. Vesti as roupas, calcei as botas e coloquei a espada presa na bainha do cinto que segurava a túnica. 

A varanda desaparecera e voltei de novo ao corredor do castelo. Até ao momento tinha acertado em duas portas, ou então, estaria perdida num labirinto sem fim perseguida pela criatura do meu próprio medo. Os pássaros cantavam num redopio contra o sol que partia para dar lugar à noite. Sentia-me cada vez mais completa, mais me aproximava do conhecimento que iria precisar quando acordasse no mundo dos homens. Sentia-me cada vez mais ligeira e vigorosa. A criatura do medo estava tão sossegada naquele castelo de paredes tímidas e ocas. Faltava apenas a última quadra da canção e tinha de acertar numa das 5 portas restantes. 

 Continuei mais confiante e ansiosa por terminar aquele desafio.

IIIº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



Enquanto a melodia se atenuou no conforto da minha memória, comecei a minha causa. Tinha 12 portas à minha frente que se estendiam pelo longo corredor. Tinha de escolher somente três. Olhei pela janela sentindo a brisa a beijar-me a face, olhei o horizonte e percebi que não teria muito tempo até o anoitecer. Parecia que ali, o tempo corria mais rápido, ao sabor do destino que se mostrava apressado em se concretizar. Não vislumbrei qualquer archote ou meio de obter luz e imaginei a escuridão imensa naquele castelo assombroso. Então, a altura era bastante para começar. Lembrei-me das palavras da primeira quadra da canção.  

“As borboletas cintilam na prisão ordenada, as suas cores são de marfim e amam a alvorada”. 

Corri à primeira porta, todas elas de madeira de carvalho com um pesado ferrolho preto, diferenciando-se pelo ornamento em volta de cada ombreira. 

Na primeira ombreira podia-se vislumbrar um floreado de rosas e espinhos que percorriam um vasto jardim de onde voavam pássaros vários de diversos tamanhos. Não tinham cor ou distinção. Nada tinha de particular com as palavras transcritas da quadra. Então passei para a porta seguinte. Na segunda ombreira havia apenas pequenas figuras de homens e mulheres na ceifa, outros a acompanhar o gado para o pasto, com um rio generoso que enchia a vista do ornamento. Em nada, igualmente, se mostrava parecer com as palavras da quadra. Chegado à terceira porta havia uns desenhos fundos desenhados em pedra branca. 

- Marfim! – sussurrei no eco do longo corredor. 

Procurei nos seus desenhos algo que se enquadrasse com a canção. Analisei atentamente as formas que se evidenciavam daquele belo ornamento e então contei, haviam desenhadas sete formosas figuras femininas. Estas moviam-se com os seus cabelos num vento seu par numa histeria de cores e símbolos. Todas elas dançavam numa alegre roda, formando um círculo em volta de toda a ombreira. 

Olhei com mais atenção e cada uma estava simbolizada de uma determinada forma que as identificava. Um lenço azul decorado de muitas cores e com pássaros numa histeria de felicidade, um punhal que se desfazia em rosas, um livro com uma grande árvore desenhada numa capa de madeira, uma estátua da deusa mãe, um cavalo pequeno de madeira, as vestes eruditas e por fim…a última figura não tinha qualquer símbolo que a distinguisse das outras. Encerrava o ciclo daquela dança sobre o ferrolho da porta. Então o meu coração acelerou. Aquela dança com aquelas figuras e símbolos fizeram-me recordar um tempo passado. Aquela era uma imagem que conhecia desde muito pequena, uma tapeçaria que respeitosamente se mostrava no grande salão do conselho de meu pai, apenas mudava em um único aspecto. É que não havia aquela última figura. 

Então num sorriso humilde e uma lágrima saudosa percebi, todas aquelas mulheres eram as bravas mulheres da minha família, antepassados meus, mulheres que marcaram o destino no mundo dos homens, todas elas com a sua própria missão. Fiquei emocionada ao puder rever todas elas, porque todas elas, tinham trazido uma história e uma lição ao mundo. 
 
A primeira figura representava a avó da minha avó, a mulher do primeiro homem a pisar as herdades do sul, por quem lutou pelo seu amor trazendo-a para um lugar ainda sem vida. Após o nascimento de vários filhos, e ter-se criado um pequeno povo, Elegra, estava finalmente feliz com o amor do seu homem e dos seus filhos. Era tão jovem quando casou e quando foi levada da sua casa para acompanhar o seu marido para terras desconhecidas e longínquas. Era conhecida como a alegria do povo, corria pelos campos a dançar com os pássaros, e o povo, tinha uma grande afeição por ela. Era atenciosa e ajudava todos os seus súbitos, vivendo no meio deles como se da sua própria família se tratasse. A sua missão fora uma derradeira e sacrificada luta para salvar o seu povo da escravatura de um rei ambíguo que se encontrava fixado ali. Finalmente, e após longas batalhas, mortes sacrificadas e escolhas arriscadas, o reino maldito caiu. A Elegra fora-lhe dada a recompensa vivendo uma vida de paz e felicidade junto de um grandioso homem, seu marido, de nome Alkar, que mais tarde oferecera-lhe um lenço azul com motivos de pássaros vários e belos que lhe abraçavam a sua beleza clara. Hoje é recordada como símbolo de bondade, devoção e distinção. 

A segunda imagem representava a irmã da minha avó, Strela, grande guerreira, comandava um navio de homens. Encontrou uma das muitas ilhas que pertencem ao reino de meu pai. Mas uma em especial era composta por um povo sem igual. A sua missão foi procurar um objeto perdido de seu avô, um belo punhal que naquele detinha as inscrições de uma criatura pertencente ao outro mundo. Nesse povo estrangeiro conheceu um rapaz de uma força brutal e com ele nasceu um amor incomparável. Juntos envolveram-se numa aventura pela ilha misteriosa e quando finalmente Strela encontrou o punhal, este, ganhou a sua forma original de um brilho sem igual, surgindo os símbolos da língua do outro mundo. Este, desvaneceu-se sob rosas belas e brilhantes que rodopiaram num céu agradecido e logo atravessou um portal para o outro mundo. Tratava-se de uma Deusa que fora amaldiçoada e transformada para ser prisioneira no mundo dos homens. Nas mãos erradas aquele punhal teria destruído grande parte do mundo por nós conhecido, se não tivesse sido levado a tempo e seu devido lugar. Strela partiu para as águas dos grandes mares com o seu amado e viveram grandes aventuras, título de canções ainda hoje contadas por todo o continente. É recordada como símbolo de bravura e determinação. 

A terceira figura representa a filha de Strela, a querida e doce Elanora, filha criada nas peripécias do mar, foi uma erudita que encontrou nas histórias correntes as grandes lições da vida registando-as nas suas escritas, que simbolizou na forma de uma árvore, entrelaçada numa coroa de flores, unindo o homem à natureza. Reportou os seus pensamentos, ideias e meditações passando-as para as gerações seguintes. É símbolo do conhecimento e de perseverança. 

A quarta figura representa a irmã de Elanora, segunda filha de Strela a mais nova de 5 irmãos rapazes. A Shafirgia foi designada para uma missão divina, sendo-lhe incumbido de procurar a estátua da deusa mãe, tão antiga, perdida num mercado negro dos piratas. Navegou por mares bravos até ilhas perdidas das cartas dos navegadores. Comandou 5 navios, conheceu e combateu piratas e outros homens desafortunados. Encontrou poucos os que se mostravam ser de confiança, e menos ainda os de coração puro. Shafirgia foi a que mais sofreu na sua missão. Sacrificou a sua pureza por um resgate exigido e lutou durante anos pela segurança da estátua até esta ser entregue ao povo a quem lhe era devido. No fim, atracou nas terras longínquas para lá do continente onde conheceu um homem honesto, de puro coração que lutou por conquistar a confiança de Shafirgia e após muito lutar por ela, voltaram para casa satisfeitos por começar uma nova vida juntos, abraçando um amor tão sincero, uma confiança a qual se trabalhava diariamente. Tendo encontrado a estátua e esta ter sido entregue ao seu lugar, que não é conhecido até aos presentes dias, Shafirgia viveu uma longa vida numa herdade tranquila longe do mar. É recordada com símbolo de coragem, força e capacidade de perdoar.          
                                                                                                                      
A quinta mulher representa a minha querida mãe, muito amada pelo seu povo e que teve um tempo tão curto neste mundo dos homens. Chamava-se Tynia, a grande mãe dos cavalos como era conhecida. A sua missão começara bem cedo, nos seus tenros dez anos. Entrou erradamente no outro mundo, de antigos Deuses esquecidos da história, onde combateu contra as forças de uma terrível conspiração contra o mundo dos vulneráveis homens. Sofrera perdas e desilusões e já só quando era uma mulher feita, ela venceu o seu sofrimento, derrotou as malícias existentes e aquele reino maldito tivera fim. O verdadeiro herdeiro ao trono pedira-lhe em casamento, mas esta recusou dizendo que deixara no mundo dos homens um grande amor. Então foi-lhe presenteado um belo espécime de cavalo cor da noite, com os seus cabelos formosos, os seus olhos de uma força bruta e autêntica, de uma força semelhante àquela que minha mãe sustinha no seu peito, no seu coração tão forte e honesto. No místico cavalo denotavam-se insígnias do seu povo, palavras de protecção e bênçãos para acompanhar e proteger aquela que agora era meio humana, meio sangue de Deuses. Quando a bela Tynia chegara ao mundo dos homens, num mundo que não conhecia de tantos anos de ausência, reencontrou meu pai, um nobre guerreiro que lutara longos anos pela paz do seu povo. Juntos tiveram 5 filhas. É recordada como símbolo do amor eterno, honestidade e a protectora dos cavalos.

A figura da mulher com as vestes eruditas representa a minha irmã mais velha Nwema, uma estudiosa que partira jovem para a ilha dos druidas. A sua missão colocara em prova a sua devoção durante o caminho para o seu destino, ofertas que os Deuses lamentavelmente nos assombram nas utópicas oferendas, certamente onerosas. Nunca saiu do seu rumo, é hoje chamada para qualquer conselho como figura de forças maiores que acompanham o homem no seu destino, símbolo de fé, segue as linhas de conhecimento de Strela. São desconhecidas as suas provações, pois que, jamais as contou, apenas a Deusa lhe é testemunha. Sabe-se apenas que a marcou duramente.

A última figura sem discrição na pedra só poderei ser eu. Sem qualquer símbolo, apareço a fechar o círculo e por isso estou aqui. Não há nada que me distinga das outras, sem ser o facto de estar apenas da cor de puro marfim, mas eu sou a última mulher nascida no seio da minha família. Tão certo, que recordei o nome que meu pai dá às mulheres da minha família, as "Khelsäar" - as borboletas, porque todas elas ganharam asas e voaram num destino desafiador. 

- Então as “borboletas cintilam” representa as mulheres da minha família; “na prisão ordenada”, as suas missões que lhe foram destinadas, onde a sua vontade foi suspensa até se concretizar um objetivo divino; a sua “cor de marfim”, só há uma imagem cor de marfim, a minha, e “ama a alvorada”, sim confirma-se que aquela última imagem aparece abraçar um sol nascente sobre a noite que termina. 

Toquei com tanto amor naquele pequeno espaço na pedra, que esta recuou. A porta rangeu e abriu. Antes de entrar meditei. Todos nós somos alvos de lições, todos nós temos algo de aprender e com isso ajudar a completar um mundo que precisa de ser aperfeiçoado. Essas lições enchem-nos a vida e a vida dos outros. Completam-nos e completam o mundo com as suas palavras e simbolismos. Devemos ter fé e amor para enfrentar o que diariamente nos é reservado para merecer a felicidade de uma vida maravilhosa com aqueles que amamos e queremos bem. Quanto à demanda de cada pessoa, esta é desenhada conforme o nosso carácter, a nossa força e o que temos de melhor para trazer a este mundo. Todas estas mulheres foram mulheres de grande coragem porque aceitaram o que lhes fora imposto e venceram atravessando todos os seus desígnios, mudando as suas vidas e as vidas dos que as rodearam, para melhor. Um sacrifício para a uma eterna ordem.

Entrei empurrando a porta o mais quanto possível para passar para o interior, e lá dentro, descobri uma sala vazia de emoções. As paredes recolhidas de um tempo de solidão, não escondiam a saudade de ouvir as alegrias da sua gente. A sala apenas sustinha a presença de uma mesa de pedra fria que continha 7 objetos. Uma flecha, um cajado, uma pena, um jarro vazio, uma pedra, um cobertor e uma folha. Olhei todos com tamanha atenção, não sabendo eu o que fazer. Eram objectos muito distintos de utilização. As paredes estavam silenciosas aguardando qualquer coisa. Então ouvi um rugido. As palavras ecoaram estridentes no meu ouvido: “escolhe um objeto”. Por momentos permaneci quieta, olhando em redor procurando presenças, as quais, nunca se mostraram. Não sabendo qual escolher, porque também não sabia o que se seguia, admiti o instinto e peguei no cobertor, talvez por sentir um frio interior. 

Então tudo desapareceu e vi-me perdida numa floresta gelada numa noite que cobria a imensidão daquele lugar. Estava aterrorizada por me ver sozinha num lugar com este, com o silêncio da noite, o frio gelado que encurralava a minha coragem. Enrolei-me no cobertor e vi-me presa nas raízes de uma árvore. Respirei com calma enquanto as lágrimas caiam num rosto seco naquele vento gelado. Descalcei a bota do pé preso e com jeito fui soltando o membro do peso da raiz, estava tanto frio que me cortava as forças. Então sem pensar na dor, dei um puxão e soltei-me da árvore seca, caindo naquele chão branco e frio. Tinha marcado a carne sentindo o frio anestesiar-me o ferimento. Calcei de novo a bota e aproveitando a luz da lua segui um qualquer caminho que não conhecia. Ouvia ruídos dos animais da noite que assistiam à visita estranha e curiosamente aproximavam-se para ver melhor. Então parei, pensado no que fazer. À minha frente surgira uma criatura que nunca vi, uma mistura de lobo e homem. O seu tamanho e porte era maior que qualquer ser que já tivesse visto. Rosnou num eco memorial e só tive tempo de tapar os ouvidos. Então olhei de novo aquela criatura que se colocava em situação de ataque e que ia crescendo à medida que o meu terror aumentava bloqueando-me. Olhei as criaturas que assistiam e todas elas tinham um olhar que ecoava a ansiedade pelo combate inevitável. Seria um festim como não havia há muito. 

Gelava de frio, e agora gelava de medo. Ecoaram na minha mente as palavras de meu pai: “por vezes as adversidades da vida surgem personificadas de criaturas horrendas que nos perseguem em sonhos. Eles aparecem para testar a nossa força e a nossa coragem. Vencer essas criaturas é vencer os nossos medos e abraçar o infinito do conhecimento”. Após uns momentos era a minha irmã mais velha “ não deixes influenciar-te pelo medo, não deixes os teus sentidos paralisarem, somos compostos de uma fibra de forças infinitas, procura a força, a humildade e honestidade que crescem dentro de ti”. As palavras aqueceram-me o coração. Percebi que ninguém vive sozinho nas suas ideias, nas suas ideologias, nas suas escolhas. Ninguém vive sozinho neste mundo ou no outro. Precisamos da força dos outros, das experiencias dos outros para nos orientaram na nossa própria vida. Depois somos nós que escolhemos por onde queremos e podemos seguir. Eu não teria medo do meu próprio medo, porque aquele era meu, e eu controlo-me a mim própria. Então dei um passo. A criatura zumbia. Larguei o cobertor, despi a roupa e deixei a minha nudez ser iluminada pela lua que se acentuava. Aprendera uma grande lição em tempos: “ o mal não se vence pela força, mas sim pelo amor”. Deixei que a criatura me olhasse perigosamente perto, e falei-lhe numa voz calma, uma voz que era tão minha quanto a daquela criatura. 

- Eu sou parte do teu corpo, o genuíno que se transforma naquilo que a sensação força a mudar. Tu és a imagem dos meus medos, mas eu continuo a ser aquilo que tu te mostras, completa de tantas outras faces. Por isso, caminha comigo, deixa-me ver a tua verdadeira natureza, dá-me a tua mão oh medo e eu proteger-te-ei, não permitirei que sejas preciso na grande batalha da vida, serás apenas o meu conselho para recuar na certeza e me aproximares da verdade levando-me à vitória. 

A criatura levantara-se mostrando a sua altura magnífica, os dentes rangendo e babando-se e de imediato atacou-me o braço deixando a marca das suas garras. Sentia o ardor das suas unhas ainda gravadas na minha pele. O meu medo era poderoso, não admirava a minha inação perante muitas situações da minha vida. Então fechei os olhos e acalmei-me, dei mais um passo sentindo-me gelada no frio cortante, e esquecendo o que pudesse acontecer aproximei-me da criatura até lhe tocar. Tinha de ter fé se queria passar nestas lições necessárias para a salvação do meu povo, tinha de ser forte. Num toque suave, acariciei-lhe os braços, olhei nos seus olhos e falei:

Vem comigo doce medo, deixa-te levar pela minha coragem, ela é tão bela quanto o jardim que quero alcançar, podes caminhar connosco, não mais te abandonarei neste lugar. Preciso de ti tal como preciso da coragem, são a lua e o sol que fazem florescer as plantas do campo, são como a água e o fogo, necessários à sua medida e força para fazer crescer o alimento para o meu corpo. 

Então a criatura amansou, suavizou a sua postura e diminui até ao tamanho que desse para o suster na minha mão. Sorri-lhe e arrisquei um carinho na sua cabeça felpuda. Vesti-me e coloquei a criatura dentro da minha bolsa, seria guardado com o carinho que precisará para ser utilizado no momento certo e propósito digno. Então a floresta foi clareando, as pequenas criaturas que jubilavam com aquela criatura transformaram-se em pó, e tal como a escuridão que desapareceu, dando lugar à força da luz de um sol renovador, também a floresta trocava o pesado manto branco por um manto colorido de flores e relvado. Ali eu me descobri, era símbolo de renovação. Eu trarei ao meu povo um novo mundo, um mundo onde tudo se transforma, onde se afastam as incertezas e o medo e se abraça a uma nova força, a coragem e o brilho de um novo dia. Trarei as recordações e lições de um passado em que todos assemelham a sua própria vida e aprendem em conjunto. 

A imagem desaparecera por completo e dei por mim de novo no corredor do castelo sem conseguir recuar. O ferimento sarara mas a cicatriz ficou marcada na minha pele, uma medalha de uma vitória que só eu vivi. Olhei para a pedra de marfim, e lá estava eu, de inúmeras cores, e lá estava o sol a raiar por cima da noite. Estava completo o círculo. Olhei de novo o céu exterior. As árvores cantavam com o vento. As águas do rio por baixo do castelo estavam tão sossegadas como o meu coração. 

Então vendo a linha do horizonte, continuei a minha lição.