terça-feira, 26 de novembro de 2013

A lenda de Torfel - IIIº. Parte




Viajando pelo sul...

A chegada do outono foi denunciada pela queda das suas primeiras e ligeiras folhas tingidas de um tom alaranjado com traços acastanhados, que desfilam num voo curto até ao conchego de um extenso manto no solo fresco da floresta de Torfel. O vento pareceu pressentir a chegada do jovem herdeiro do norte e assobiou baixinho pela vila, agitando as portadas do grande casebre. Imediatamente a criada da casa, a senhora grande e mais velha dos originais moradores da vila, acorreu à sua horta para colher legumes frescos para o almoço. A noite ainda governa meio céu a sul, e uma candeia foi levada para iluminar o caminho. As hortaliças estão viçosas e frescas nesta hora. Antes de as colher, a Senhora grande juntou as mãos, fechou os olhos e esperou um pouco. Passado uns momentos colheu tudo o que era necessário. A sua cesta ia já carregada quando ouviu o Sr. Olipo afiar as facas para preparar as carnes para o guisado. No rebentar do primeiro raiar do dia, já a vila estava levantada tomando o seu lugar e função coordenada de uma vila obediente aos seus costumes. Enquanto se dirigia ao casebre, a Senhora grande vislumbrava já em toda a vila, o fumo que saía das chaminés que através dele traziam os cheiros frescos e requintados de pão cozido, sopas, guisados, o que tornava o ambiente mais delicioso.

- Bom dia Senhora – acenava levemente a padeira atarefada.

- Bom dia Mena – respondia educadamente a Senhora grande, com um sorriso luminoso no rosto.

O dia iluminou-se, agitando-se de mansinho do vento da madrugada que já passara, não se sentindo já a maresia da noite. O sol aqueceu ligeiramente o tempo.

- Hoje é um bom dia para o gado sair à rua – sussurrou a Senhora ao vento sossegado.
Belmo, o pastor da vila, logo saiu de rompante da sua pequena casa ajeitando o manto nas costas e seguiu direito ao celeiro para preparar os utensílios para encaminhar o gado aos campos férteis de Torfel. Atrás de si, uns pequenos passitos acelerados segui-o, era a sua pequena filhota, Evera que curiosa seguia seu pai de perto por todo o lado. Já o gado percorrera a distância até ao casebre quando a senhora grande reapareceu à porta.

- Bom dia Senhora, vamos levar o gado. O dia vai estar radioso não acha? – falou o homem de meia idade, forte e audaz. Daria um bom guerreiro, pensou a Senhora.

- Bom dia Belmo. Bom dia Evera, é de facto um bom dia para levar o gato ao pasto. A madrugada foi-nos favorável.

A senhora colocou as suas mãos sobre o regalo saudável daqueles animais, fechou os olhos e orou. Repetiu depois o gesto sobre Belmo e Evera. Após uns momentos, entregou o farnel a Evera e cada um seguiu o seu caminho.

- Um dia abençoado para vós, ide em paz – sussurrou a Senhora elevando a mão em direção dos que partiam para mais um dia de trabalho nas terras de Torfel.

Meio dia já passara. Por esta hora, terminadas as primeiras tarefas do dia, os habitantes de Torfel dirigem-se à grande pedra circular à entrada da vila, reunindo-se e dispondo-se nessa forma aguardando o momento repetido e sucessivo de todos os dias. A senhora grande já tinha chegado uns momentos antes e já tinha disposto sobre a pedra os quatro elementos da vida. Recuou até ao círculo, uniu as mãos, fechou os seus olhos e numa prece, todos deram as mãos. Antes de fechado o círculo, juntou-se o recém-chegado herdeiro do rei do norte com os seus fiéis companheiros.

O herdeiro era sobretudo um habitante originário de torfel e era visto mais dessa forma, sem qualquer formalismo. Ali, todos são uma grande e unida família, com os seus direitos e deveres a que nenhuma posição hierárquica tem mais peso. A igualdade é conceito prioritário dos seus costumes.

A senhora grande sorriu sem olhar os recém-chegados. Com o círculo fechado, começou a oração do dia, o agradecimento e reconhecimento de uma vida que apenas poderá ser saudável se for gozada em pleno com a corrente que nos liga ao mundo, à água, terra, ar e fogo. De coração aberto é cumprido pela Senhora o ritual diário à mãe natureza pelas graças que são concedidas aos utentes dos seus recursos.

A água que é vida, purifica e faz crescer - (levanta a taça da água e bebe)
A terra que é vida, alimenta e multiplica - (levanta a coroa de flores, colocando-a sobre a sua cabeça, levanta uma baga e mastiga)
O ar que é vida, transporta e faz renascer - (acende o incenso de alecrim que ardendo espalha-se sobre o circulo)
O fogo que é vida, transforma e protege - (acende a vela que permanecerá acesa até o final do dia)

Após um silêncio todos prestam uma oferenda sobre a pedra circular, um pão, um pedaço de carne, um legume, uma peça de fruta e um pedaço de linho. Tudo se embrulha sobre a pedra num pano bordado.
Um dar e receber necessário para a sustentabilidade de cada vida. O momento é curto mas sentido de forma pura e profunda. Dadas as graças, o ritual terminou. Abraços e cumprimentos se dirigiram a Dairan, o herdeiro do rei do norte e aos seus companheiros. Voltadas as costas, já as oferendas desapareceram sobre a pedra, restando apenas o pano bordado.

- Senhora – dirigiu-se finalmente Dairan, beijando-lhe a mão, com um sorrindo rasgado pelo reencontro – a vossa bênção.

- Meu querido Dairan – este baixou graciosamente a cabeça recebendo a bênção da Senhora - dou graças por ter ver tão saudável e um homem bonito já feito. E esse sorriso que me faz lembrar tanto o teu pai – com os olhos tão límpidos e alegres, a senhora abraçou as mãos de Dairan nas suas – vens em boa hora, precisamos de falar. As pedras falaram-me esta noite, aproxima-se um inverno rigoroso para as gentes de Torfel.

Dairan gelou perante aquelas palavras. As pedras do círculo apenas se manifestavam quando havia manifesto perigo para Torfel. Precipitando as notícias causadas possivelmente pelo estado de saúde de seu pai, Dairan acenou apenas à Senhora.

- Quando o sol descer a meia tarde traz os teus conselheiros e vem-te reunir aqui no círculo. Esta noite as pedras vão-te falar. És o herdeiro destas terras, tens o dever de as guardar com a tua vida – falava ternamente e de forma profunda a Senhora grande - Mas se a minha visão não me atraiçoa, a tua luta estender-se-á para lá das terras de Torfel. Tens de te preparar meu filho.

Louvados os chegados e cumprimentados os amigos, rapidamente todos se dirigiram até ao salão do grande casebre e foi servido o almoço delicioso, onde todos cooperaram na elaboração e distribuição da refeição. Apesar de preocupado, Dairan aproveitou a refeição afastando os receios e discussões que a sua mente já colocara a caminho. Hoje seria o dia de revelações e se o seu instinto não o atraiçoasse como pudera ter atraiçoado a visão da mãe do seu pai, a sua vida iria mudar muito em breve, e havia uma centelha de morte que permanecia sobre si.

Saudoso deixou o casebre e seguiu o trilho da vila em direção à floresta de Torfel, deixando-se fluir nos seus sons e cheiros. Inspirou cada partícula e agradeceu puder voltar àquele lugar, àquela paz momentânea que o destino permitiu.

Empoleirado numa árvore alta e astuta, Smerlo agitou as suas pernas, para a frente, para trás, cruzando e descruzando os seus pezitos como uma dança voada, assobiando uma canção que aprendera com o seu pai. As suas pequenas mãos rosadas, criavam com afeito o que viria a ser um pequeno pássaro esculpido de um ramo forte, oferecido por aquela árvore que o deixara cair naquela manhã para alegria do seu pequeno. Era já o terceiro passarito que este esculpia em tão pouco tempo e o seu ninho estava quase pronto. Os galhos tinham já sido depositados em forma de covinha junto de um ramo protegido do vento e da chuva, e lá dentro já se personificam dois pássaros, os pais pássaros. Faltavam os dois filhotes. Portanto, o almoço teria de ficar para mais tarde. Já tinha orado à mãe natureza, bem mais cedo que todos os outros habitantes da vila, e não queria de forma alguma, deixar a meio a sua oferenda à árvore mestra que se regozijava de precioso presente. Não tardara a ser descoberto principalmente pela sua cantarola afinada, alteada pelo vento que com ele levava um lençol de folhas que criavam e recriavam imagens da natureza ao ritmo do assobio. Dairan chegou sorrateiro seguindo as árvores que dançavam ao som da canção, sem qualquer força do vento para que tais se mostrassem. Sorriu vendo o pequeno Smerlo sacudir as mãos e roupa depois de terminado o seu orgulhoso trabalho.

- Amigo Smerlo, então que fazes aí? – perguntou Dairan curioso vendo Smerlo guardar os utensílios que levava na bolsa que o acompanhava sempre. Deixou-se ficar direito com as suas mãos atrás das costas divertido pela descoberta.

- Dairan! – espreitou eufórico - eu sabia que estavas a chegar. As folhas disseram-me, aquelas que se soltaram daquela árvore a Madla, estás a ver? -  apontava sorridente e inquieto para a ponta da floresta – fiz um ninho para a árvore mestra. Bem sabes que da estação passada, poucos foram os pássaros que a visitaram e nela fizeram ninho. Esteve doente e por isso nenhum quis arriscar levar a doença para os seus filhotes. Mas já está boa, tenho tomado conta dela e para não ficar triste fiz-lhe um ninho para todo o ano ter companhia. Não os ouves cantarolar? – observou o pequeno chegando-se para a frente para tornar visível o seu ramo – já estão vivos.

Dairan mudou o ângulo e lá viu e ouviu os pequenitos agitarem-se no ninho de galhos que Smerlo arranjou. Não precisariam de comida se eram de madeira, mas Smerlo quis recriar a realidade, deitando-lhes umas migalhas de pão que trouxera às escondidas da cozinha.

- Smerlo, vem desce daí, a tua mãe já chamou por ti há já algum tempo - gesticulou Dairan na sua juventude refletida nas folhas húmidas das árvores. O seu porte atlético e alto, não enganava a sua posição com o seu manto vermelho que o acompanhava nas estações mais frias. Já retirara as adagas e facas que o acompanhavam, bem como, os distintivos próprios da sua posição hierárquica que devem ornamentar o seu manto.

- Eu deixei um recado à minha mãe. Deixei-lhe uma folha no cimo da bancada para dizer-lhe que estaria na floresta – reclamava o pequeno com o sobrolho franzido em trejeito.

- Pois fica sabendo – disse Dairam sorrindo ao pequeno fazendo-lhe um calduço – que tens as árvores como tuas cúmplices porque nenhuma delas revelou onde estavas. Dançaram a tua música e mais não disseram. Que cúmplices tu arranjaste.

- Só não enganaram o seu rei – sorria Smerlo saltitando enquanto se dirigiam ao grande casebre.

- Ao seu rei não Smerlo, ao seu filho. Aliás somos todos filhos de Torfel, somos todos filhos das suas raízes e de tudo o que lhes dá a vida – falava com jeito o herdeiro do norte, o simples Dairan naquelas terras. Humildemente abraçou o pequeno enquanto lhe deixava um sentimento de companheirismo e confiança que entre os habitantes de Torfel era luminoso – A vida de Torfel que flui pelo nosso corpo tal como a Dama luminosa que traz a vida no ar; sábia, tal como o senhor dos carvalhos que traz vida da terra; forte e presente tal como o senhor do ferro representando pelo fogo, que como ele queima os ingratos e impuros eliminando as suas impurezas, e por fim, justa, como a dama da justiça que deve provar de forma límpida como a água a justiça do mundo e deixá-la fluir nas ações dos homens. Afinal pequeno da floresta, todos somos um pouco da terra, do fogo, do ar e da água, fluímos da sua força e com ela devemos saber viver com respeito, humildade e honestidade.

- Só não entendo uma coisa Dairan – o que após um aceno arriscou - Porque razão a senhora grande faz o reconhecimento quando o sol já vai a meio do céu? – desabafa o pequeno olhando o chão de forma pensativa.

- Primeiro as obrigações e depois as devoções – respondeu Dairan a lição há tantos anos aprendida e repetida – no meio dia todos os elementos estão presentes em pleno, com o seu poder e força. Em cada hora do dia, é uma hora própria para cada coisa. Por exemplo, de manhã é a hora indicada para apanhar os legumes frescos da horta. Ao final da tarde é a hora para trazer o gado dos pastos, depois de alimentados entendes? Tudo tem uma hora própria tal como as orações do dia, ainda que as possas fazer ao mesmo tempo que fazes tantas outras coisas. Mas como fazemos a oração em grupo com a Senhora grande, fazemo-la na melhor hora tal como as pedras indicaram. É o momento assinalado no círculo. Sabes que a pedra é a mesa dos grandes senhores?

- Pode ser assim – continuou smerlo – mas eu prefiro desejar boa viagem ao sol quando nasce para chegar bem a meio do céu. Quando a senhora grande o reconhece, já eu o abracei e desejei viagem há muito tempo. E ele vai feliz assim que vê o meu rosto na madrugada clareada.

Dairan sorriu perante a simplicidade e ingenuidade da criança – e mais feliz fica quando nos encontra a todos a meio do caminho – disse ainda o herdeiro - se achas que está certo não o deixes de fazer, em nada ofende o velho costume.

- Sabes Dairan? – contou o pequeno Smerlo que parara abruptamente em frente ao circulo de pedra – ontem durante a noite ouvi sussurros no circulo mas não vi ninguém.

Dairan arremelgou os olhos e disfarçou olhando o circulo iluminado por um raio de sol, lembrando as palavras da Senhora grande.

Continuou o pequeno – sei que estás a pensar e as árvores concordam comigo. Devias juntar o conselho – e partiu para casa, correndo e cantarolando alegremente.

- Os sinais foram provados Dairan – falava tranquilamente a senhora grande que o esperava – Torfel sente a mudança.

Aproximou-se uma rapariga aprendiz da Senhora e entregara-lhe um cesto cheio de flores frescas do campo.

- Obrigado Malva - acenou levemente numa graça à jovem que recuou e desapareceu por detrás de uma casa cheia de flores coloridas que ainda sobrevivem ao frio da noite.

A Senhora encaminhou Dairan ao círculo e juntos seguiram em silêncio a caminho até lá. Chegados à pedra circular, grande parte das gentes de Torfel se reuniam para ouvir falar as pedras. Muitos eram aqueles que a sua idade já ia avançada e com eles pertencia a história daquelas terras. Ao círculo juntou-se uma senhora idosa que Dairan reconheceu ser a que seu pai acolhera depois de ter deixado as terras do sul.

- Caros companheiros de vida e conhecimento, reunimo-nos aqui neste dia, chamados pelas pedras deste circulo. Os sonhos tem-nos revelado a urgência, e com eles trouxe Dairan, responsável pelo futuro das nossas terras, ainda que, meu filho seja ainda o Rei do Norte. Mas a hora chega, e a cada dia, mais se junta profundamente ao senhor dos carvalhos. Irei mais tarde prestar-lhe uma oração para que parta em paz – dizia solenemente a Senhora grande, fazendo a introdução viral da reunião – Malva faz as cortesias por favor.

Malva aparecera no meio do círculo e sobre a pedra circular sobrepôs uma taça de água, em sua volta as flores do campo e uma linha de legumes entrançados, numa ponta velas acesas e na outra ponta, incenso.

Erguendo as mãos voltadas para cima, a Senhora orou e pediu – que os teus elementos nos sejam fiéis e nos revelem para nossas palavras o caminho que havemos de seguir para proteção dos velhos costumes, para a proteção das nossas terras, das nossas gentes, e porque somos um pouco de cada elemento, a eles nos juntamos em graça para nos unirmos em prol de um futuro comum, certo e saudável. Que estas pedras nos falem hoje e nos revelem as indicações dos senhores de Torfel – terminada a oração, todos aguardaram em silêncio.

A senhora grande sentou-se e gesticulou em ordem na direção de Nadel, outro aprendiz que se levantou em direção à pedra circular. Fechou os olhos e orou, de seguida a pedra rugiu, uma pequena ranhura se mostrou. As suas mãos procuraram o pequeno saco feito de pele de urso e fio de linho. Levantou o saco em direção à senhora grande que autorizou Nero a continuar. Abriu solenemente o saco, agitou o seu conteúdo e de seguida deixou cair as pedras na pedra circular.

- As pedras falam-nos – começou por dizer Nero – uma morte revela-se hoje aqui na pedra. O coração do norte vai sentir uma profunda perda e com ela os ventos vão assolar as terras do norte e com a sua força destruir as suas casas.

- Guerra! – sussurrou um dos conselheiros.

 A senhora grande continuou silenciosa traduzindo para si o resultado das runas. Nada revelou no seu rosto perante as primeiras revelações. Dairan encheu-se de questões e antes da pergunta ganhar voz, Nero continuou.

- Muitos dos que sentam à mesa do rei, comem com duas línguas e escondem as suas garras como um animal feroz pronto atacar. Muitas portas irão fechar-se àquele que se sentará no trono do norte. Sangue que não é sangue do norte, não se conseguirá erguer com a força dos senhores e comandar as gentes dos velhos costumes, a antiga tábua do conhecimento.

Dairan arregalou os olhos – como não poderei sentar-me na cadeira de meu pai? Sou legítimo herdeiro – vociferou nervoso perante a desconfiança da sua nascença.

Tem calma Dairan – falou seriamente a Senhora grande – as pedras não falam de ti. Parece que há outro que pretende o teu lugar. Não é difícil adivinhar que após a morte de teu pai, o rei do sul irá certamente querer conquistar aquelas terras. O passado nem sempre termina nele próprio. E poucos são os senhores do norte que tal como o teu pai, ainda respeitam os velhos costumes acima dos costumes ambiciosos do poder.

- Chegará aquele que dividirá o trono e com os velhos costumes irão prevalecer sobre toda a Esmania. As runas parecem-se como uma visão apenas – avançou Nero – os senhores revelam a sua vontade em reunir Esmania. No entanto, a nova estação será demasiado rigorosa e um nevoeiro assola a visão para o futuro.

- As runas não revelam o futuro. Significa que, tudo dependerá de como cada um dos protagonistas do destino se moverem perante as circunstancias – revelava a Senhora grande enquanto via a água na taça mover-se – Dairan, és demasiado jovem para tal destino, mas vem aí uma guerra que mudará o rosto da própria Esmania – os conselheiros agitaram-se sussurrando uns aos outros nos seus bancos – segue imediatamente para a cidadela e reúne os conselheiros mais leais de teu pai. E meu filho, desconfia de todos. Alguns não te acharão capaz de enfrentar o futuro, e poderão negociar com o rei do sul, o que muito me preocupa. As runas revelaram traição dentro da tua própria casa.

- Quando acontecerá tudo isto? É ao mesmo tempo? É daqui a quantos anos? – perguntou Dairan à senhora grande.

Uma folha minguada e manchada de um castanho demasiado escuro da estação que ainda agora começou, veio descendo até meio do circulo e pairou na pedra, extinguindo-se no vento que a espalhou.

Antes da estação terminar – disse a Senhora grande perante a revelação do senhor dos carvalhos - antes das primeiras neves e depois das primeiras chuvas do inverno. Acontecerá tudo logo após a morte do rei do norte. A notícia espalha-se demasiado rápido, mais para quando a pretensão errada move-se com desejo. Demasiado rápido para o tempo que temos para agir.

- As pedras dizem que o trono vai ser dividido, que quer isso dizer? – perguntara Dairan a Nero.

- Nero lançara novo lançamento e traduzia o resultado – aproximam-se gentes do sul para Torfel, mas a pretensão não me parece ser a de guerra, mas também não revelam porque vêem.

- O que significa que não se opõem à vinda dessa gente? – questionou a senhora grande.

- Fazem parte do enigma. Também nada dizem que devem entrar – respondia Nero tranquilamente – devemos fazer novo lançamento quando chegarem e explicarem o motivo da sua vinda. Parece que as intenções ainda são irrelevantes para o que se segue, o rumo pode mudar a qualquer momento se as vidas de cada um mudarem também. Mas se tudo correr de forma positiva e aos bons ventos forem aceites em Torfel, simboliza que também eles têm as rédeas do destino sobre o norte. De qualquer modo, Dairan não irá governar sozinho o norte, o que pode significar muitos caminhos possíveis desta guerra.

- Senhora – falou Dairan, tomado pela emoção, preocupado, sentindo o peso de um futuro sem ponta de conselho plausível para tomar uma decisão válida - sabeis melhor a vida que meu pai levou antes e mesmo depois de se ter tornado rei do norte, quereis contar-me algum segredo de família? Algum filho fora do casamento com minha adorada mãe? Será que a morte que as pedras revelam é a minha e os abutres irão gozar do trono espezinhando o corpo efémero de meu pai no leito com o sangue ainda quente da presença de vida? Como será possível dividir-se um trono? Dois reis? Nem nos velhos costumes é possível, ou será esta revelação uma metáfora de coisas sobrenaturais que não conheço?

- As pedras revelaram-te o mesmo que me revelaram a mim Dairan – respondeu séria e solene a Senhora – quanto ao ser possível ou não pelos velhos costumes, estes já subsistem apenas aqui em Torfel, e se, em todo o norte elas ainda se cumpram como uma chama ardente, é porque o seu rei assim o quis e o seu povo também. Nada nos leva a crer que com o governo de outros os mesmos se cumpram. Aqui em torfel, só entra quem os senhores deixarem, caso contrário desfalecerão às suas portas e nada podemos fazer contra isso. Não existe nenhum descendente senão tu que corra o sangue do teu pai. Mas o sangue da minha família ainda corre por toda a Esmania, e nada te posso garantir que não haja quem de direito tenha ao trono do teu pai, desde que, seja dado termo a tua vida, enquanto único filho legítimo do rei. Por isso, a tua vida neste momento é tão importante quanto Torfel. Sobre ti recai as forças dos senhores, sobre ti recai uma coroa invisível escolhido pela história desta terra que tem mais força do que qualquer desejo de qualquer outro em tomar o teu lugar. Entende Dairan, a vida deve correr conforme as escrituras dos senhores, caso contrário o rumo do mundo corre o risco de se desviar e a desordem pode ser fatal para todos. Todo o ser tem o seu lugar próprio no mundo, a sua missão e nada o deve mover em contrário sob pena de mudar o rumo de tantos outros e tudo se perde num destino demasiado longo em se cumprir. Gostaria de te ver antes mesmo de tudo acontecer, mas nada é certo quanto eu gostaria. Deves partir já Dairan, e daqui em diante, apenas segues os caminhos de Torfel até chegares à cidadela, a ti eles não te são ocultos e são bem mais seguros do que qualquer outro. A tua cabeça é agora um prémio para o rei do sul.

Quando a lua atravessou os céus de Torfel, já Dairan atravessara o trilho da montanha a caminho da Cidadela do norte. Em breve tudo iria mudar. Continuaria Torfel a ser um lugar seguro? Será ele capaz de proteger aquelas terras e o trono a que tem direito governar? As muitas questões tornaram-se espinhos afiados na sua mente.

- Volta para casa filho – Dairan sentiu o chamamento forte no seu coração. O seu passo tornou-se grave.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A lenda de Torfel - IIº. Parte



Olhando o sul…..

A noite transforma os pensamentos em segredos negros, medos que se misturam em visões turvas de um futuro incerto. A maioria dos homens sonharia assim, com batalhas não vividas, outras pressentidas, outras apenas desejadas. Nas noites errantes pelas estradas, o pensamento do guerreiro não seguiria outro rumo senão o da guerra. Nos últimos três anos, Adan não conhecia outra vida senão a de contínuas batalhas pela liberdade das terras do sul. Neste pólo, era uma constante desafiar o rei com batalhas nas cidades em volta da cidadela. O sul estava em guerra dentro de si mesmo, quando a pretensão do rei era reunir todos os seus homens e partir à conquista das terras mais a norte. Não havendo união no seu próprio pólo, o sul encontra-se com sérios problemas políticos, o que tem custado inúmeras perdas e prejuízos ao reino. A revolta pela inquisição ainda presente, provocou um motim em algumas aldeias, julgadas condenadas pelo passado de perseguições. Nasceu uma causa com força e vontade maior em lutar contra a opressão e impetuosidade do governo. Apesar do pequeno batalhão de Adan assegurar, desde esse tempo, a segurança destas terras esquecidas, o rei não tem poupado tal desobediência e mandou a sua melhor guarda para acabar definitivamente com o problema. Um espião de confiança de Adan, que vive na cidadela, fizera chegar a grave e rápida noticia.

Adan não dormia há já duas noites, absorto em pensamentos, olhando para mapas e conferenciando com os seus mais leais homens. Um destes homens, Galderc, tinha o seu chefe em conta, a sua lealdade e orgulho vibravam como centelhas nos seus olhos e ouvia paciente toda uma história que recaia sobre a causa que os levaram até ali. E agora acompanhava-o para tomar a derradeira decisão do futuro da sua causa. Adan era um chefe ponderado, respeitado por toda a Esmania, o grande continente. Seu pai garreara há muitos anos pela liberdade do povo do sul e o sangue de seu filho pulsa com a vibração dos seus antepassados à concretização de tal fim. Mas Adan está cansado das inúmeras baixas dos seus homens e duvidava que qualquer estratégia dentro das terras do sul iria de alguma forma ser suficiente para salvar os seus protegidos e trazer a paz a todo o seu povo. As pessoas enfraqueciam perante as ameaças vindas do reino e alguns desistiam de querer juntar-se à causa e submetiam-se à opressão. Adan não tem homens suficientes para fazer frente às próprias guardas do rei. Chegava o momento de ser arrojado e fazer um acordo com o rei do norte, inimigo do reino do sul.

Galderc obrigara Adan a beber um golo de hidromel e depois entrou na tenda onde estavam reunidos todos os chefes do seu batalhão e outros leais conselheiros. Na sua mão, um rolinho de pergaminho tinha sido aberto e lido inúmeras vezes nos últimos dias.

- Trago-vos notícias de Lorä – começou Adan por dizer – uma mensagem escrita diretamente pelo conselho do rei. Propõe entregarmo-nos as armas e lutar sob a sua ordem ou virá varrer-nos literalmente para o mar - todos se inquietaram no seu lugar.

Elsos deixou fugir uma gargalhada sonora, e outros seguiram a graça do momento. Adan continuou sério exigindo aos seus homens que se restabelecem.

continuou - Recebi informações de que saíra de Lorä há cinco dias um batalhão de 15000 homens e que já se vislumbram na estrada do rei a caminho da vila – todos assumiram uma postura mais séria ao que todos visionam decorrer dali – não terei outra solução que pedir o auxilio do rei do norte. Estamos completamente cercados. Não vou desistir daquilo por que tenho lutado durante estes anos.

- Um batalhão de três para um Adan, não temos a mínima hipótese – dizia o seu conselheiro mais velho, afrontado com a possibilidade do confronto.

- Bem, não me parece ser uma solução – dizia Elsos um dos cinco chefes do batalhão de Adan recompondo-se nervosamente após olhar o mapa de Esmania - é mais uma alternativa para juntar duas vontades com o mesmo fim. Mas não estás à espera que o rei do norte te aceite de braços abertos, esperará uma armadilha e aniquilar-te-á assim que entrares nas suas terras, ainda que, o teu nome seja respeitado por todo o continente.

- É uma ideia insana Adan. E o que mais me preocupa é que conhecendo-te desde tenra idade, essa ideia não é fruto de desespero, mas sim, inteira vontade em reunires-te às terras do norte. A guerra com o norte será de uma estrutura colossal comparada com o que andamos a lutar – confessava o seu melhor amigo Galderc, profundamente calmo, com as mãos fechadas em punho no cimo da mesa afastando um mapa desordenado – que estás a pensar exatamente fazer? Virar as costas à lealdade com os teus antepassados?

Adan baixou a cabeça olhando mais uma vez o extenso mapa à sua frente, parecia reunir todos os seus pensamentos e relembrar todas as pontas da sua decisão.

- Quero que entendam que amadureci esta ideia em muitos dias e noites - levantou ligeiramente a voz, determinada e audaz - temos poucos homens e gentes corajosas a lutarem ao nosso lado pela liberdade de Lorä, aquela cidadela que o rei mudou à sua vontade. Bem sei que desonrarei o meu sangue juntando-me ao rei do norte. Mas sabeis, que a minha oposição dirige-se apenas ao rei do sul e ao seu governo, não a Lorä em si, terra de meu sangue. Lembrem-se que o rei do norte ainda segue os velhos costumes, portanto, vivem da mesma forma que todos nós, ainda que o façamos em cuidada discrição. Quanto a isto não posso ser condenado pela minha linhagem por tal decisão.

- Porque foges? Temes a inquisição? – perguntara Patro, o conselheiro.

Todos já tinham presenciado os atos imaculados e injustos da inquisição, e alguns teriam no sentido na própria pele. Aos poucos, tornava-se uma vingança pessoal do Rei do que o próprio propósito em criar uma linha de pensamento comum. E os esquadrões do Rei tinham legitimidade para aniquilar qualquer suspeita de desobediência à sua autoridade. À pequena denúncia, ainda que, injusta e irreal, o alvo era imediatamente abatido, bem como, os seus familiares que lhe fossem cúmplices. As violações eram práticas comuns e aceite pelo Rei aos seus esquadrões. Uns dos numerosos esquadrões do Rei aproveitavam as suas viagens para assaltos a famílias abastadas em troca da vida. Facto mais tarde conhecido pelo Rei e facto poupado ao seu esquadrão que continua a sua prática errante.  

- Temo pelo meu povo, seja, o mal que os possa assolar - dizia Adan absorto em memórias e lembranças de passados negros. Voltando-se para o mapa, assinalou com pena o caminho para o norte - O norte desconhece a intenção do nosso rei em partir à sua conquista, tenho conhecimento de conspirações e traições dentro de alguns fiéis da casa do Rei do norte. Irei pedir asilo em troca de informações e colocarei os meus homens à sua ordem - os seus homens olhavam-no atento - Já enviei um homem a Torfel para apresentar a minha proposta. Situa-se praticamente a meio do caminho e parece-me ser o melhor local para negociar com o Rei.

- Torfel? – vociferou alto Tatus, outro chefe do batalhão de Adan – Uma negociação estratégica num lugar assombrado? Nem sabes se existe, enviaste o homem para uma longínqua extensão de campos perdidos entre as migalhas das montanhas. E como pensas deslocar-nos para o norte? O batalhão do rei deverá chegar em menos de uma lua. Ou partimos já ou ainda estaremos a levantar o acampamento quando chegar a inquisição.

- Eu já vi Torfel Tatus - tranquilamente Adan apoiou-se na mesa juntando as mãos como que contando uma história ao seu fiel companheiro de lutas - não só existe como requer o teu maior respeito. De facto é um lugar que ultrapassa toda e qual compressão humana. E, nunca deves subestimar o que não conheces. Dentro daquele lugar não há guerra e o rei do norte a mantém assim, será um lugar neutro para ouvir a nossa proposta. Quanto ao que iremos fazer, esta noite chegam dois barcos vindos de Ardulia, levarão as vossas mulheres, crianças e homens que não estejam capazes de lutar. Com eles mandarei Sardeg com alguns homens para os protegerem.

Tatus deixou-se cair no entusiasmo de uma empresa que começava a ganhar uma proporção bem mais arriscada e prática do que a esperada.

- Estás louco Adan. Foste pedir ajuda à tribo de Zamessa? – Elsos parecia zonzo com tal ideia, agitando-se no banco que rugia ao peso do homem - A tribo de Zamessa é um povo sem lealdade que vive numa ilha a oeste da cidadela de Lorä, como podes ter a certeza que assim que os barcos levantarem para o mar não sejam as nossas gentes entregues direitinhas nas mãos do rei? Além de que, utilizarão as nossas gentes como reféns?

- Paguei um bom preço para que eles cumpram com o combinado e só paguei para utilizar os barcos, não para eles conduzirem os mesmos, muito menos irem lá dentro. Já me devias conhecer melhor Elsos. Tento ser o mais ponderado possível mas sei sacrificar a minha vida pela vida dos outros, mesmo que para isso tenha de ir contra os meus valiosos princípios. Estamos em guerra e não é minha vontade que o nosso povo sofra com as minhas decisões. E, digamos que tenho um tesouro bem guardado que pertence àquela tribo. O seu valor é uma garantia para que Zamessa cumpra o acordado - a voz de Adan era firme e decidida. Todos começaram acenar afirmativamente que aquela seria certamente a melhor solução para a situação em que se encontravam. Elsos e Tatus ainda franziam o sobrolho, falando entre si de consequências graves se Zamessa cometesse o erro de os denunciar ao Rei e deitar por terra a empresa.

Galderc sentindo algumas dúvidas no ar, levantara-se e dirigiu-se a Adan. Todos se silenciaram.

- Esta é uma decisão urgente - dizia sobrepondo a sua mão no ombro de Adan - Só nos espera a morte ou a compreensão daquele que nos permita juntar à sua ordem. Eu confio nas tuas decisões, nunca nos deixaste ficar mal e se hoje estes poucos homens e estas gentes, que dormem lá fora, são livres, deve-se à tua luta para ver as terras do sul finalmente livres. Já perdeste mais do que a maioria dos homens que estão aqui, e sei que não nos deixarás ficar mal. Eu confio-te a minha vida como o tenho feito até agora. Devo-te a minha vida e a dos meus. E se a tua luta foi considerada loucura ao início por alguns, é hoje a prova de que vale a pena lutar pela liberdade, estes três anos são resultado disso, tens honrado o nome de teu pai sem quaisquer dúvidas.

Todos se levantaram perante o discurso de Galderc que recuara agora de um abraço de companheirismo a Adan. Um pouco reticentes com o plano, mas seguros a quem confiar a sua lealdade e por quem seguirão os seus passos, todos brandiram a espada e levantaram em unânime acordo e oraram:

- Por Adan! Que a dama luminosa estenda o seu manto e proteja o nosso chefe, que o senhor dos carvalhos lhe traga a sabedoria no sono, que o senhor do ferro lhe confira a espada mais poderosa e que a dama da justiça lhe assegure a honrosa vitória. Eu te sigo, eu te confio e por ti luto pela liberdade de Lorä e de todas as terras do Sul.

Adan deixou fugir um sorriso orgulhoso, mas o franzido da sua testa revelava o peso das suas decisões e o desejo de as ver honestamente cumpridas. Todas as criaturas silenciaram-se perante a oração destes homens.

- Meus caros fiéis companheiros partimos de madrugada para Torfel. Espero que, quando lá chegarmos, nos seja concedido abrigo e seja aceite a nossa proposta. Que o senhor dos carvalhos mostre os nossos bons desígnios ao rei do norte e que permita que lhes juntemos na sua luta. O tempo é de viragem e parece-me que o futuro das gentes de Esmania vai sofrer uma profunda reviravolta. Seja eu o seu causador ou não, que o futuro seja de paz e de bonança.

A noite caíra em absoluta ânsia pelo desejo bravo de Adan e ao longe no mar, um ponto luminoso se mostrou.

- Os barcos chegaram Adan – confirmara Galderc – e com a sua chegada começa um caminho novo pela liberdade de Lorä. Espero estarmos fora do perigo ao final do dia.

- O caminho ainda é longo Galderc – revelou Adan tranquilo - Que a mão da Dama luminosa nos proteja. Mas uma coisa te posso garantir, em Torfel há perigos maiores a recear que o próprio rei do sul. Se não formos aceites, a morte será certeira encurralando-nos entre dois juízes. Revistam os barcos, não quero ter surpresas desagradáveis, partimos assim que os barcos levantarem âncora.