sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Amélia...



Amélia. Era exatamente esse o nome. Recordo-me perfeitamente. Os seus cabelos dourados, ondulados como marés obedientes, caiam-lhe nos ombros como cascatas de ouro. Sim era essa mesma. E os olhos? Eram verdes, tão límpidos que parecia ver-se um jardim lá dentro. Que saudades de Amélia. Trazia sempre no seu regaço uma cesta de flores do campo, amarelas, rosas, brancas, lilases, com um rasto de cheiro a campo e perfume da alfazema fresca. Tão bonitas quanto o seu sorriso nobre, limpo e rasgado. Uma pequena flor num jardim maior. Porque falo dela? Bem, isto porque tenho uma história para contar. Mas comecemos de outra forma. Quantas pessoas deixaram passar na vossa vida que vos mudasse? Que vos tornasse alguém melhor? Ou que por causa de outrem tivessem adoptado outra forma de estar e pensar? Pois bem, certamente já houve esse alguém na vossa vida.

Algures no meio de uma tamanha vida de tanta coisa, houve esse alguém por causa de algo. Está a ficar confuso? Pois bem, só quero que parem um pouco para pensar, relembrem o que vos fez bem e por que razão mudou a vossa vida. O que lhe desejaram? Desejem sempre o bem, pois o melhor virá até vós. É que Amélia, uma pequena flor num jardim maior, foi uma dessas pessoas. Na minha vida? Não não, não só da minha mas de muitas vidas, e vejam só, numa vida inteira. Amélia, não era uma flor qualquer, era uma flor que a todos se quer no seu jardim, porque com ela todas as coisas eram sãs e férteis. Vou contar-vos a história da pequena Amélia.


O galo tinha acabado de cantar quando o sol rebentou atrás da montanha e aclareou o caminho da pequena bebé ao mundo. O seu choro não foi de dor, chorava como se cantasse e rapidamente um raio de sol entrou de rompante pela janela do quarto e abençoou a pequenita. De seguida o choro cessou. O sol recuou e ofereceu àquele vale um belo dia de primavera, com rebentos novos nas árvores, pequenas flores amadureceram nas suas cores fortes e vibrantes, os animais ficaram mais formosos e os campos verdejantes e férteis. Tudo mudara quando a pequena bebé nasceu. Foi-lhe dado o nome de Amélia, “aquela que brilha e por ela renasce”. Amélia era uma bebe linda, de faces rosadas.

 A pequena foi crescendo, muito protegida por todos, porque aos olhos de todos, era vista como uma preciosidade, acreditando-se que dela advinham as coisas boas que entretanto ocorreram no vale. E a verdade é que, Amélia era muito doce, educada e muita prestável. Os seus tenros 9 anos eram já ocupados com leituras associadas à arte de curar. Sabia preparar infusões, cataplasmas e remédios medicinais, e ao final da tarde lá ia Amélia, com o seu cesto no regaço, com plantas frescas e frascos de remédios para ajudar a mestra na consulta aos doentes do vale. Por três vezes, enquanto segurara um determinado doente pela mão, aquele se curou. A partir desse momento Amélia era uma adoração viva no vale. E havia quem se arrepiasse e quem se lograsse de tal presença. Mas Amélia era muito simples, não gostava que lhe dessem essa importância, apenas que a deixassem fazer o que tinha de fazer, sem tornar isso, um centro das atenções. 

Gostava de cuidar dos outros discretamente. Não desejava qualquer mal a ninguém e não se queixava. As suas palavras eram especiais, muito cuidadas a quem as ouvia, parecendo preparadas para aquela pessoa em qualquer circunstância que lhe ocorresse. Mas com os anos e a capacidade de cura mais astuta, Amélia começou a ser procurada por outras gentes, de outros vales, de outras terras. Amélia a todos socorria, maravilhada pelo bem que trazia ao mundo, não permitia que a ninguém fosse proibida aceder aos seus bons ofícios. Mas Amélia além de curandeira era dotada de uma beleza que de facto, não era deste mundo. E se havia quem precisasse dos seus remédios, houve outros que a sua intenção fora pretensiosa e desrespeitada. Nessas vezes, Amélia retirava-se educadamente sem atender ao problema que o doente queria ser atendido, mas deixava sempre um remédio para outro qualquer mal que ela sentisse no queixoso pretensioso. Jamais por tal despeito à sua honra, se vingara do doente indicando erradas receitas. 

Um dia, que se mostrou tão cinzento, talvez antecipando um perigo que Amélia pressentiu mas ao qual não fugiu, uma patrulha da guarda real chegara de bandeira em haste e com um despacho real, ordenou a presença da curandeira Amélia no reino, afim de, salvar o rei de uma maleita que nenhum outro sabia como curar. Amélia não se negava a qualquer doente, mas sentiu que tal como o rei, também ela estaria em perigo. Apesar de protegida ali no vale, não se sentiria tão protegida fora dele, ainda que, homens experientes combatessem em favor da sua vida. 

Mas o destino deve ser cumprido como se mostra e se requer e Amélia lá foi. Quando chegara ao reino, todos a esperavam com ânsia e curiosidade. Curiosidade à qual ela não respondeu, mantendo-se discreta por baixo de um véu que ocultava a beleza e identidade. Chegada perto do rei, que sucumbia numa tosse efémera, Amélia, sem tapar o rosto, cuidou daquele homem, banhando-o com ervas e fumos, dando remédios e alimentando-o apenas de caldos. Percebera que aquele homem teria de ser purgado, porquanto o mal, estaria dentro dele. Após 9 dias de tratamento, o rei melhorou. Amélia sentiu-se esgotada mas satisfeita do seu trabalho, e o rei, quis oferecer-lhe o céu se este lhe pertencesse. Quando Amélia se preparava para lhe pedir apenas para voltar ao vale, o rei respondeu divertido que tal beleza e notável dote para a cura, não devia ser desperdiçado num vale de gente tosca e sem riqueza e mandou-a para uma torre onde apenas serviria o rei. Intocável, fora a ordem dada sob pena de morte imediata. Amélia foi deixada de parte, numa torre, bem lá no alto com visitas dos pequenos pássaros, insectos e o rei quando estava doente. No seu regaço apenas carregava a culpa de ter-se deixado aprisionar e do lamento pelo padecimento de doentes que esperavam por ela. 

Com o passar do tempo, Amélia foi perdendo a capacidade que tinha, agora sim, desperdiçada numa torre qualquer, no meio de um grande mundo a precisar dos seus préstimos. E, também aos poucos os cabelos dourados de Amélia foram escurecendo, os olhos foram-se tornando baços e o seu brilho esvaneceu-se, tal como o sol que abandonara aquelas paisagens, dando lugar ao inverno mais frio e tenebroso. Quando o rei vira a mudança de Amélia e do facto de esta não conseguir curar as suas maleitas, o rei mandou-a de novo para o vale. Enjeitada, sozinha e perdida pelas ruas, Amélia chorou. Ganhou forças e continuou a caminhar na esperança que lhe pudesse ser revelado o caminho de volta para casa no vale. Pelo caminho, encontrou gentes errantes, algumas doentes, outras perdidas, outras abandonadas e outras apenas de passagem. 

Durante esses encontros, Amélia ajudara os doentes no que conseguia e aos poucos, Amélia mudou. O seu cabelo começara a ganhar uma cor mais clara, ondulando levemente, os seus olhos já límpidos e brilhantes mostraram um sorriso honesto. Aos poucos Amélia voltou a ter aspecto anterior e conseguia curar todos aqueles que desprovidos de riqueza, precisavam honestamente da sua ajuda. Uma criança voltou andar depois de uma perna partida, um idoso consegui caminhar largando os paus guias de outros tempos e uma mulher conseguiu dar à luz um filho depois de 4 mortes anteriores. Amélia era já conhecida por todos os cantos do continente, mas nenhum dos que a conhecera revelavam o seu paradeiro, dizendo que ela aparecia a quem a invocasse e precisasse dela. 

Finalmente chegara o dia em que os seus passos passaram a fronteira para o vale, a sua casa. Acompanhada de um cajado e de uma cesta colorida com flores, encontrou um vale morto, de ervas secas, animais magros, gentes de nódoas negras encovadas no rosto, as flores despistas de flores e folhas. Amélia sabia que no dia que saíra do vale, causara tal infortúnio, ou talvez tivesse sido no dia da sua prisão na torre. Fosse o quer que fosse, tinha terminado. Assim que caminhara pelo vale, tudo por debaixo dos seus pés ganhava vida, brilho, intensidade e fertilidade. As gentes do vale seguiram-na, agradecendo finalmente o meu regresso. Todas as coisas voltaram a florescer com ajuda das mãos honestas das gentes do vale, os animais ganharam formosura, as árvores ganharam novamente frutos e flores rebentaram ainda mais bonitas e viçosas. Os doentes foram tratados e a Amélia voltou a ser Amélia. 

A partir daquele dia Amélia ausentava-se uns dias para atender os doentes que a invocavam em outras terras, vales e estradas perdidas, e depois voltava ao vale. Afinal de contas, ela fazia parte do mundo e o mundo precisava dela como o sol, a chuva e o vento. Por meados da estação seguinte, soube-se que o rei teria sucumbindo à doença. Não lamentou. O rei teria entendido que o bem do mundo não deve ser fechado nem forçado à vontade do homem, por mais precioso que seja, deve ser deixado em liberdade para desempenhar a sua função no mundo. 

E assim, por onde quer que Amélia passava, quem quer que a ouvisse, ou a quem ela tratasse, curou mais do que um corpo doente, mas também, uma alma necessitada de carinho e fé. 

Hoje Amélia, é uma divindade reconhecida no vale, e muitos lhe pedem auxílio, dentro e fora dele. Os pedidos são todos atendidos.

Recomeçar de novo....



Era meio-dia e o sol brilhou bem alto no céu. Se a felicidade existe, aquele foi o momento em que de facto a senti pela primeira vez. No meu vestido branco rodado, o véu confraternizava com o vento que o acalmou, permitindo que aquele meu dia, fosse perfeito tal como o desejei. Ao fim de um namoro de 3 anos, tudo me parecia um conto de fadas, encantada por casar com o homem perfeito, que eu amava, que me amava, que nos dávamos tão bem. Tudo era de facto perfeito, as viagens curtas pelo nosso país, os jantares românicos, os presentes deixados em cada canto de uma casa já partilhada há poucos meses. E ali estava ele, brilhante na sua alegria ansiada junto ao altar, aguardando juntar-se a mim. Aquele dia, foi um dia feliz. Mas a felicidade tem contornos que não está ao nosso alcance contrariar. E tal como os ventos, também as manifestações de felicidade podem gerar estragos na vida de alguém. A felicidade fugiu-me sem aviso prévio exatamente no 4º. dia de casada de fresco. 

Durante a lua-de-mel, numa instância paradisíaca, tão longe de casa a minha vida mudou. Se julgara que um simples arrufo ciumento seria motivo de risada, imediatamente me apercebi que o homem com quem casara não teria a mesma opinião, e que tinha mudado completamente após o dia que se casou comigo, pois que, tornou-se mais sério, mais ansioso, menos tolerante. Julgara eu, na minha inocência de princesa desejada que eram manifestações de preocupações com o trabalho ou outras tantas coisas que fazem parte da nossa vida rotineira. Mas rapidamente me apercebi que afinal, o meu marido era um homem obsessivo, ciumento, irritável com todas as coisas que não achava bem. Ao início tentara confortá-lo, acarinha-lo, pensando talvez que, apenas precisasse de se sentir seguro comigo, afinal éramos um casal em que ambos tentariam construir uma vida juntos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, para o resto dos nossos dias. Então no primeiro arrufo, tentei acalmá-lo de uma manifestação irritada sem qualquer sentido. 

Nesse dia, senti a primeira chapada. Depois daquela violência ele continuou agressivo, mas até aí, as palavras foram ofensivas para aquele que o ofendera. Quando o vermelhão na minha cara ardia como fogo descoberto, cobrindo a face de uma cor magoada, o meu marido de olhos boquiabertos apercebeu-se do que tinha feito, lamentou em lágrimas desenfreadas, agarrado à minha cintura, fazendo promessas que não o voltaria a fazer, que tinham sido os ciúmes e a raiva que tomaram controlo das suas ações. Abraçara-me, beijara-me, e acarinhando-me desculpou-se pelo mal que tinha acabado de fazer. Nos 2 dias seguintes, senti-me um pouco desconfiada como se receasse que a qualquer momento o meu marido mudasse de novo. Mas ele fazia todos os esforços para me mimar, sentia-se arrependido e aos poucos desculpei-o. Afinal de contas, eu amava-o perdidamente e já o tinha perdoado, mas tinha de mostrar que sentia-me magoada e que não permitia que tal situação acorresse de novo. 

Em muitos momentos da nossa vida, achamo-nos heróis e heroínas, pensando sermos capazes de lidar com tudo e que nada nos vai assolar. Esquecemo-nos que há situações que nos envolvem como teias, ilusões de desejos e pretensões não correspondidos. Negamo-nos a ver a verdade quando sabemos e sentimos que é contrário ao que desejamos. Mas a querença de querer tornar o mundo e as pessoas melhores, levam-nos a cair no erro de que sozinhos conseguimos contornar tudo e todos. 

Aos poucos esta realidade foi rejeitada pelo meu bem querer pelo marido. Ele que era tão atencioso e amado por todos. Os 2 primeiros meses de casamento foram imagem dos tempos de namoro e já eu tinha esquecido aquela triste tarde na lua-de-mel. Mas tal como a doença que tem as suas (chamadas) melhoras da morte, também o meu casamento se despedira dos tempos felizes. A felicidade ter-me-ia abandonado mais uma vez. 

Tudo aconteceu demasiado rápido, só a dor gravou lentamente cada sofrimento sentido. Satisfeita por ser uma mulher casada, a cuidar do jantar romântico para o meu marido que chegara a casa depois de um dia de trabalho, acarinhei-o e chamei-o à mesa. O jantar estava delicioso e a mesa estava decorada com rosas viçosas numa pequena jarra, duas pequenas velas ardiam numa tacinha de água, onde as chamas dançavam como bailarinas enquanto o cheiro delicioso da cera perfumava a casa. Só me apercebi do prato de comer voar pela sala e do som dos estilhaços da louça espalhados pelo chão, manchado da comida quente. Gritos esvoaçaram da boca do meu marido. Hoje não consigo relembrar da queixa, apenas vi braços no ar, a irritação patente no rosto, o movimento agressivo constante. Não consegui ter reação, porque de imediato me apercebi que se me mexesse aquela raiva seria descarregada sobre o meu corpo e a lembrança do anterior abuso fez-me sentir como uma presa prestes a ser aniquilada. Vendo-me sem ação, o meu marido agarrou-me pelos braços chamando-me inútil, e atirou-me para o chão onde embati no sofá. De seguida, o abuso foi total, violou-me enquanto me batia no rosto. Os meus gritos foram abafados com uma almofada que me sufocou. Naquele momento julguei morrer. A dor generalizada no meu corpo fizera-me esquecer completamente quem eu era, quem era aquele homem que me maltratava, onde estava e senti-me a fugir do meu próprio corpo. Impotente e dorida, sentia-me um caco estilhaçado como aquele prato que me cortava a pele debaixo de mim.
Nunca chegamos a perguntar porque, porque não existe resposta a tal questão. Se a alguém for feita essa questão, será porque ainda não compreendeu a situação que está a viver, a negação cria a ilusão do momento a torna susceptível de mais manifestações brutais. Ali, naqueles momentos não há porquês. E se há alturas em que a situação é como uma dor de barriga que aparece mas não se trata porque ao fim de um tempo a dor acalma, a violência doméstica é da mesma forma, porque espera-se sempre que aquela dor passe, e, que a outra pessoa mude. Afinal de contas, eles nunca foram sempre assim, ou nunca se mostram como realmente são. Mas enganem-se aqueles que julgam que a mulher aguenta tal situação por amar o homem que a maltrata. É um erro crasso essa confusão. Não é amor. É querença de mudança. É afeto de mulher por todas as coisas, é a natureza da mulher cuidar de outrem. Não se ama o que, e quem, nos faz mal, mas tem-se a querença de o conseguir mudar. Não, não é amor. Percebi isso exatamente no dia que me espancou e violou ao mesmo tempo. 


Depois desse dia não sai de casa durante 1semana. Tinha vergonha é verdade, mas sobretudo porque o meu marido avisou-me, “se contas alguma coisa a alguém eu mato-te”. E eu não tinha dúvidas disso. Estava demasiado maltratada, doía-me o corpo. O sangue que foi jorrado do meu corpo manchou a casa, e eu não tinha forças para agir. Estava incapaz de fazer, fosse o que fosse, porque o medo era maior que qualquer vontade de mudar. Eu queria fugir dali. Sim, eu queria, mas as forças estavam bloqueadas à vontade daquele que me ameaçara de morte, como se fosse uma corda que estivesse acorrentada aos meus pés. Ninguém apareceu ao meu auxílio, ninguém pareceu ouvir os meus gritos, aqueles que exteriorizei e aqueles que gritavam dentro de mim, mas que, não ganharam som pelo medo que me assolava e contornava como um casulo. Os vizinhos que os ouviram certamente, morando eu num prédio de vários andares, também não me ajudarem, ou mesmo que o quisessem, eu não teria conseguido abrir a porta, julgando em vez de, ser outro alguém, ser o meu marido a confirmar que ficava caladinha e sossegadinha no meu canto. 

Foi só após longas horas de choque que correram lágrimas pelo meu rosto ferido e cansado. Lágrimas que me doeram tanto quanto as lesões no meu corpo. Foi esse, o único momento, em que me interroguei do que se tinha passado com o meu marido e porque tinha casado com aquele homem. Aos meus olhos não era o mesmo homem com que me apaixonei e tanto amei. Mas amar, é um sentimento que pressupõe sensações boas e puras, e eu já não o amava. Como o poderia amar? O que me ligava a ele naquele momento não era amor ou um casamento que desfeito pudesse trazer tristeza, era o medo, porque para onde quer que fosse eu seria seguida e maltratada. Senti-me só, senti-me envergonhada julgando a culpada ser eu, possivelmente ter-me-ia tornado uma má mulher, mas não, eu sabia que não. Mas as desculpas para perdoar eram muitas. Verdade seja dita, não era a vontade de o perdoar, era que esse perdão o mudasse. A tal crença que tudo melhoraria e que o meu marido voltasse a ser o homem que era. 

Ao fim de duas semanas fui despedida por abandono do posto de trabalho. Não via os meus pais há 6 meses e os meus amigos há 2 anos. Estava isolada dentro de uma casa, amedrontada, violada e abusada. Os maus tratos eram constantes. E se alguém hoje me pergunta: porque não fugiste? O que posso responder é que o meu marido trancou-me dentro de casa. Tentei o suicídio duas vezes. Foram frustradas. A minha vontade de viver era muito grande naqueles primeiros tempos e todos os dias esperançava por uma vida melhor. Também as ajudas de família e amigos frustraram-se igualmente porque meu marido inventara que estava a trabalhar no estrangeiro e que as ligações telefónicas eram de má qualidade. Quis o destino que eu merecesse um final diferente, porque eu queria viver, não queria sucumbir à dor e ao desgosto. 

Mas eu já tinha perdido o amor por mim, o amor pelo meu marido, já estava prestes a perder a esperança. Amar?! Já nem sabia que existia quanto mais lembrar-me como era. As poucas vezes que tentei um afeto fui violentada. As duas vezes que tentei fugir, fui maltratada. Estava entregue a um abandono do espirito. Não era eu. Não era ninguém. Perdida sem ajuda. Sem dormir, em constante dor, porque as minhas feridas não eram saradas, as exteriores e interiores. 

No natal, um casal de amigos de longa data, que nada sabiam da minha nova morada no estrangeiro, foram visitar-me a minha casa. Bateram à porta e ouviram os meus gritos, a minha réstia de força. Felizmente, e porque quem nos ama quer-nos de facto bem, esse meu amigo arrombou a porta e retirou o meu marido de cima de mim. A visão turvou-se e desmaiei. Quando acordara, estava no hospital, completamente envolta em ligaduras, completamente cheia de dores. À minha volta pessoas queridas, encheram-me de mimos, beijos e abraços foram-me oferecidos envoltos em lágrimas. 

Um grande abraço desejei prolongar nos braços daquele meu amigo que me salvou e que me proporcionou a oportunidade de ser feliz e sentir-me de novo um alguém. Tinha costelas partidas, maxilar e nariz partido, estava cheia de mazelas. Sentia-me muito ansiosa, fraca, cansada, mas senti-me bem por finalmente ter saído daquele mundo obscuro que era a minha vida. Finalmente conseguira dormir ao fim de 2 meses de recuperação, com apoio de psicólogos e amigos que acompanharam-me diariamente.
Quanto ao meu marido, hoje está morto. Quando o meu amigo me defendera, o meu marido levantara uma arma para o matar. Finalmente, os meus vizinhos, ganhando coragem para agir, chamaram as autoridades. Quando as mesmas chegaram, conseguiram imobilizar o meu marido, mas acabou por ser morto ao tentar disparar contra as autoridades. O meu grande amigo foi alvejado no braço. 

Hoje, quando ainda falo em marido, tento não guardar a mágoa, pois um dia amei-o, e muito, admirei-o e desejei-o muito para com ele, criar uma vida boa ao seu lado. Mas hoje não o amo, amo o que nós fomos antes de casar, e esses tempos não se esgotaram com a tristeza. Porque no fundo, o homem com quem casei, não foi aquele por qual eu me apaixonei. 

Se fosse vivo, jamais voltaria para ele, viveria amedrontada todos os dias pela possibilidade de o encontrar. Não lhe desejei a morte, mas hoje estou livre, hoje sinto cada pedaço do meu corpo, saudável e livre. Depois de uma recuperação psicológica que demorou longos e duros meses, hoje, voltei a reencontrar a felicidade e com aquela fiz juras de que tudo correrá bem ou caso contrário, serei a primeira a fugir dela.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Abraçar a vida....

Passamos uma vida inteira a procurar razões para a nossa existência, que nem reparamos em quanta magia nos rodeia nem as bênçãos que recebemos em tantos momentos em que julgamos apenas respirar. Não se julguem loucos aqueles que sentem mais do que uma vida que se vê, pois há aquela que se sente, profunda e sábia, é uma constante para os corações de fé. O sopro da vida rodeia os que a olham de olhos fechados e de coração aberto, porque a visão que se requer é uma mais extensiva que a leveza que se mostra aos nossos olhos quando abertos. E, porque há coisas que a ver não se sente, como um toque enamorado, um sorriso radioso, um abraço querido. Não é porque os olhos somente vêm, mas sim, porque é o coração que sente. Por isso, quando sentires que a visão está cheia de névoa e de solidão, fecha os olhos e deixa o coração agir, deixa apenas o corpo sentir a parte da vida que vibra numa constante à espera de ser amada.