quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A lenda de Torfel - Vº. Parte






A virtude está no coração de uma velha sábia….

Adan sentiu um arrepio gelado a percorrer-lhe a espinha até lhe deixar a cabeça com tonturas e alternadas miragens se manifestaram no seu caminho. Miragens ou a manifestação das gentes de Torfel que pela primeira vez em muitos anos se revelaram fora do seu espaço a gentes que não lhe pertencem. As miragens não eram mais do que pequenos pontos de um mapa para que Adan conseguisse encontrar aquela vila, tão difícil de descobrir aos olhos dos comuns.

A urgência nunca ajudou a concretizar de forma positiva qualquer fim. Mas o fim também nunca importou. Não importa lembrar que tudo acaba. Tal como a vida, tudo começa com um nascimento e tudo termina com a morte. Então, sabemos sempre o fim de tudo. Mas o mais importante desta lança que começa e que termina em cada bico afiado, é o caminho que se percorre, são as escolhas, as ações e o que delas aproveitamos e com elas transformamos para o bem ou para o mal. Pois que, o fim, pode ter várias faces e através delas, deixar uma corda ou um rasto de salvação para outras lanças que se venham a erguer atrás de si.

Adan não temia a morte, não a sua, mas a dos seus homens. Sacrificava-se para os ver firmes perante o seu destino, pois ele, já perdera tudo. Para ele, a sua vida encontrava-se sustada no gume da sua lança à espera de cair no abismo da morte. Mas a lança parece querer mantê-lo até achar por bem. Não sabia porque a vida não o levara já para o seu berço eterno, porque para si já não tinha importância no mundo. Mas para aqueles homens, que têm família, este homem que nada tem, é o resultado da fé daqueles homens sequiosos de esperança. Um erário mais valioso que qualquer baú a reluzir riqueza. Para os seus homens, Adan é o seu suporte e esperança para uma Esmania una e em paz e isso, obrigou-o a erguer-se perante uma vida que lhe foi infeliz e suportar a sua dor e a dor dos seus homens só porque, a sua lealdade lhe mostrou que o dever nem sempre é a única e regra máxima para o cumprir. Porque nada tem mais valor que honrar um amigo erguendo a paz e a justiça para a sua vida e daqueles que bem ama. A relativa felicidade, sob a forma de harmonia, paz e partilha, é a melhor recompensa de uma luta feroz pelo bem.

Percebendo que eram seguidos e que os seus passos tornaram-se mais próximos, a correria de Adan e a dos seus homens tornaram-se igualmente mais rápidos, mais audazes por entre a floresta húmida da madrugada. Saltitando por entre ramos caídos, folhagem escorregadia, rios pouco profundos e pontes abandonadas a reluzir pela alvorada ansiosa, a perseguição tornara-se mais sedenta e pretensiosa. O sol já se levantava nos céus de Esmania e mostrava agora o número de homens que corriam entre a ponta de cada lança. O fim era já visto para alguns, mas cada homem teimava a balançar a sua lança, obrigando a tornar a sua caminhada mais longa, um pouco mais prolongada evitando e enganando a morte. A perseguição parecia não terminar nem abrandar. Adan começou a correr desordenadamente por entre as árvores, surpreendendo os seus perseguidores e aniquilando-os. À medida que este e os seus homens combatiam na sua fuga urgente, Adan apercebera-se da violenta verdade e parou abruptamente no meio da floresta nua de arvoredo e seca de uma estação sôfrega. Os seus perseguidores chegavam perto de si e dos seus homens. Confrontados com os seus rápidos predadores, as espadas defrontaram-se violentamente como um forte torvão. Adan lutou contra os poucos e inexperientes perseguidores enquanto confrontava-se com a certeza do seu erro crasso que cometera em não ter olhado antes para trás e perceber que deixara os seus homens para trás. Recuando na sua memória espaçada de enganos, vingou a traição nos perseguidores que não eram mais de quinze homens, jovens Margassa.

- Enganaste-me Flaint – repreendeu Adan, que se mostrava manchado de sangue no braço direito e com um pequeno corte sobre o sobrolho – enganaram-me todos. Onde está Galderc Flaint, diz-me? Onde está o meu irmão? – Adan carregara sobre os ombros de Flaint agitando-o para contar a verdade.

- Galderc sentiu a presença dos Margassa na orla da floresta no inicio da manhã. Apenas quisemos assegurar a tua segurança trazendo-te para fora do local. Zamessa devia estar escondida algures para lá das árvores – contou Flaint enquanto agarrava na mão de Adan obrigando o amigo e chefe a recuar.

- Deixaste-o entregar-se à morte de livre vontade Flaint, temos de voltar – dizia determinado Adan enquanto apanhava as suas armas e todos os sacos de dardos envenenados que repousavam nos corpos gelados dos Margassa.

- Não – correu Flaint agarrando Adan – Não. Foram sacrificadas vidas pela tua segurança – o olhar de Flaint era de tamanha tristeza quanto o de Adan, mas neles trazia o brio da perseverança.

- A minha segurança só é válida para que alguns consigam concretizar um desejo. Um desejo que não é só teu nem meu, é de todos e por isso as decisões sobre tamanha empresa cabe a todos em unânime conselho – Adan estava decidido – eu não o posso viver sozinho e vocês insistem todos em deixar apenas vivo eu, um simples homem sem ninguém no mundo para cuidar – rebentou de fúria sacudido pela última perda que lhe restava sentir.

- Um desejo que só se pode concretizar contigo vivo Adan – desafiou Flaint – tens de chegar a Torfel o quanto antes, sabes que precisamos de asilo ou não seremos poupados – passados uns momentos colocou uma mão sobre o ombro de Adan e apertou-o para o despertar da dor - Pensa nas famílias que seguem naqueles barcos. São eles que ainda tens de cuidar Adan. É por eles que estamos aqui. Estas foram as tuas palavras no dia que os barcos partiram lembraste?

- Jamais me vou perdoar se algo acontecer a Galderc. Agora percebo porque não encontraste o meu manto – confessou Adan numa tristeza tão profunda perante um futuro tão incerto.

- As vidas só valem a pena quando concretizam a vontade do destino ou quando são úteis ou quando se morre sentindo que compensaram a vida ou quando a vida as compensou. A tua tem muito sentido e simbolismo, por isso, não sejas exangue só porque os planos saíram todos frustrados – respondeu desafiante Flaint indicando o avanço para Torfel que se avistava ao longe – muito provavelmente seremos seguidos em breve porque a guarda real já deve ter chegado a Grazil. Quanto ao teu manto, sem ele, Galderc não conseguiria enganar Zamessa. Galderc será poupado até chegar ao rei. Estás a subestimá-lo. Ele saberá safar-se.

Ambos sabiam que as possibilidades de Galderc  sobreviver até chegar à cidadela eram mínimas, mas a esperança é uma chama que arde forte e ilumina o caminho da vontade. O seu coração desejava intensamente que a lança de Galderc ainda fosse longa, longa o suficiente para o reencontrar. Adan aceitou uma derrota que não teria retorno e avançou silencioso e pouco satisfeito a um destino que o esperava com tão poucos homens da sua crença. Decidido não voltou a olhar para trás.

Na sua partida agora ordenada, Adan só pensava que para trás teria ficado Galderc, sacrificado, entregando-se a Zamessa como se dele se tratasse e os seus homens que apesar da honrada luta acabariam por morrer nas mãos do inimigo. Adan não voltaria a ver os seus homens. Silenciosamente, bramia honras ao seu irmão que com a sua fuga, permitira-lhe partir em segurança para Torfel e pedir asilo a si e às famílias órfãos que avançavam pelo mar.

Quis o tempo atraiçoar aqueles que lhes tentam consertar os erros e mal o avanço mostrou a torre de Torfel  revelando-se para si e aos poucos homens sobreviventes da sua guarda, passos e vozes desafiantes fizeram-se ouvir. Adan olhou Flaint e de imediato começou uma nova fuga, até Torfel, revelar-se aceitar receber o seu pedido de ajuda.

Seguiam-lhes vinte homens Margassa que se avistaram como animais velozes, atravessando os campos abertos de ervas altas e secas. Uma menor guarnição da guarda real seguia-os a galope com a bandeira do sul erguida em estandarte. Avançavam com o ritmo da morte. Adan continuou veloz pelos campos desconhecidos pelas memórias, mas familiar pelo instinto e rapidamente encontrou um trilho atalhado, que como um encantamento, o levou diretamente aos portões de Torfel. À sua porta uma grande sombra ergueu-se sobre os céus tornando-o escuro, repleto de nuvens cinzentas que se juntaram assombradas e pesadas. Adan recuou ligeiramente até ver-se cercado pelos Margassa e pelos guardas reais. Alguns dos seus homens estendiam-se pelo trilho que percorrera, agitando-se por um caminho de pedras onde vingavam os tropeções enquanto eram atingidos por dardos venenosos. Flaint e mais os nove sobreviventes da guarda da velha fé, juntaram-se a Adan em circulo, empunhando as espadas. Sentindo no seu cinto os sacos de dados, Adan soprou veloz os dardos dos Maragssa, que contra eles próprios, caíram no chão envenenados enquanto as espadas dos seus homens alcançavam os presunçosos. A guarda real lançou-se a Adan e Flaint cortou as rédeas de um garanhão que se debatera no chão até ser engolido pela própria terra. As árvores agitaram-se e alguns ramos estenderam-se prendendo alguns dos soldados do rei, agitando-os no ar e lançando-os para um horizonte que se sumiu desvanecendo-se. Adan foi surpreendido pela visão e percebeu que as forças de Torfel agiam contra os mendigos do destino e não esperou ser uma vítima. Baixou-se tocando com a palma da sua mão ao solo e com um joelho sobre a terra, orou uma prece em reconhecimento da força do Senhor do Carvalho e invocou que o ajudasse. A espadas continuavam batendo-se num canto tão curto que as partes tocavam-se nas costas e nos membros do inimigo enquanto se tentavam salvar do toque do outro. Adan sentiu uma força estranha vibrar dentro de si e quando se ergueu para lutar, um dos guardas do rei lançou-lhe uma longa lança proferindo-lhe um golpe desde a virilha ao joelho da perna direita. Com o grito de dor de Adan, um trovão ressoou nos céus fazendo sustar a pequena batalha e todos os homens estacarem com o som estridente. Dos olhos de Adan se avistou um brilho verde polido e causado por ele, ergueu os braços aos céus e com umas palavras cantadas, agitaram-se em força as raízes das árvores, espalhando as suas forças em volta dos inimigos e por baixo deles um novo buraco abriu-se engolindo os sedentos do poder.

Flaint e os seus homens encostaram-se às muralhas fortificadas de Torfel protegendo-se da transformação de Adan. Até que, as muralhas moveram-se, abrindo ilusoriamente profundas fissuras e sugando os homens que pareciam querer vencê-las antes de as acreditar.

- Adan! – chamou Flaint sobre o som rugidor de todo aquele movimento da natureza sentindo a sucção da pedra.

Adan olhou-os e disse umas palavras que se agitaram ao vento como um sussurro, palavras numa língua que há muito não se ouvia dentro de Torfel e a pedra libertou os seus homens. Derrotados os inimigos dos fieis da antiga fé, Adan chegara ao coração de Esmania. A sua perna a sangrar fora agora coberta por pequenas plantas que se entrelaçavam pela sua carne e aí mantiveram até terminar a sua cura. Os olhos de Adan voltaram assumir o seu tom azulado e este sentou-se sobre uma rocha, quando ao seu lado, apareceu uma figura de uma senhora muito velha e outra um pouco mais nova.

- Mãe? – disse em tom espantado quando viu um rosto que julgara ter sido beijado pelo fim da lança. A velha senhora apenas sorriu, nos seus olhos as palavras atropelavam-se e agitavam o seu olhar sincero. Aos poucos, a senhora velha foi adquirindo o aspeto mais novo, como que, terminado um disfarce longo e cansativo.

- Bem-vindo de volta a casa filho de Torfel - dissera a senhora grande que fechava o trilho à vista dos comuns homens.

O céu voltou a mostrar um dia de outono radioso e já não havia vestígios de uma luta que começara há pouco arriscando a levar consigo a esperança da velha fé. Do outro lado da muralha, Zamessa e os Margassa chegavam às portas de Torfel.

- Os corrompidos não entram em Torfel – sussurrou a nova velha que levantou o braço brandindo um gesto seguro aos homens que se encontravam na vigília mais alta da montanha.

Em volta das muralhas levantou-se uma bruma intensa e desafiante. Os gritos frustrados de Zamessa revelavam duas certezas: um confronto adiado e a morte certa do seu irmão e a dos seus homens. Consigo, Adan levou mais uma dor profunda, uma ferida que teimaria não sarar.

Torfel revelou-se e o seu poder agitou-se com a chegada de Adan. A velha fá reúne o seu sangue e começa a sua desejada mudança.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A lenda de Torfel - IVº. Parte





A traição acorda o vento do sul….

 Um som arrojado soou disfarçado por entre as árvores mudas da noite. Adan encontrava-se a descansar na sua tenda com alguns dos seus homens que se preparavam para o turno seguinte. Desde a partida dos barcos que a caminhada tem sido constante, apressada e sem longas paragens. A sua guarda encontrava-se agora dividida em dois grupos. Um grupo de cinquenta homens mantinha-se espalhado pela colina mantendo a vigia sob a guarda de Galderc e Elsos. O restante grupo de setenta homens, descansava no acampamento improvisado.

O som repetiu-se. Galderc dirigiu-se acautelado à orla das árvores e notou um cheiro ativo que reconheceu ser a de um fruto que apenas conhecia na ilha de Xaghai, onde Zamessa construíra a sua aldeia e constituiu a sua tribo. Subtilmente, disfarçou não se ter apercebido de qualquer perigo e afastou-se dando uma dentada sonora numa maça. Tendo Galderc perceptado a presença de elementos da tribo mandou avisar a Elsos, através de um dos homens que guardavam a entrada da tenda onde Adan pernoitava, da presença inimiga dos Margassa. De seguida, entrou de forma urgente na tenda onde Adan ainda descansava dos últimos dias em claro.

- Acorda Flaint – sacudiu urgente o guarda mais experiente e que melhor conhecia Adan – encontrei alguns Margassa na orla da floresta.

- Margassa? E a Zamessa? – perguntou Flaint enquanto guardava as armas no seu cinto e se preparava para acordar Adan.

- Não o acordes ainda. Não podemos lutar contra eles, são em maior número e…bem, conhecemos os seus métodos de luta. Descobri-os pelo cheiro a gazuba, devem ter extraído o veneno do fruto para os dardos, veneno acabado de extrair é morte imediata Flaint – dizia-o fechando os punhos, sentindo a morte por perto - Estão escondidos prontos a bloquearam-nos a passagem até a guarda real chegar e cumprir com as meticulosas ordens do rei do sul. Adan foi traído – reconheceu Galderc olhando para o seu amigo.

- Esperaram pela partida dos barcos para atacarem. Zamessa não é leal a ninguém mas cumpre sempre os seus tratados desde que lhe paguem bem. Já nos seguem então há 20 dias. Temos de partir já, apesar de em menor número, somos demasiados para não sermos vistos a dar de frosques – resignava-se Flaint esperando uma ideia valiosa.

- Reúne um grupo não mais de trinta homens e leva Adan daqui. Acorda-o e diz-lhe que temos a confirmação que há aproximação do inimigo e que os nossos homens se dividiram em quatro grupos e que nos encontramos mais tarde a oeste da montanha onde Torfel se mostra a norte – Galderc sentiu um arrepio gelado na nuca, sabia que não voltaria a encontrar o seu grande amigo e o seu olhar despedira-se com muito por dizer. Um grande chefe por quem sacrificava a sua vida, o mesmo preço que pagaria Adan pela vida de qualquer um do seu povo.

Flaint reconhecendo o olhar que partilhava, abraçou o corajoso homem que vingava o desejo de mil homens e mulheres que se espalhavam pelo reino do sul - vai em paz e que a tua morte não seja em vão. O teu nome será lembrando. Se conseguires safar-te com vida iremos festejar bem isto com um grande banquete e com o melhor vinho – disse-lhe despedindo-se com um forte abraço.

Galderc voltou as costas e à saída da tenda encontrou o longo manto azul de Adan com o cordão com o símbolo de árvore, o símbolo da antiga Esmania. Pegou no manto e deixou-o cair nas suas costas. Flaint acenou em concordância e em respeito viu Galderc partir.

- Adan, Adan! – Flaint acordava o seu chefe depois dos trinta homens já estarem prontos para o escoltar.

- Passa-se alguma coisa Flaint? Que urgência é esta? – perguntava Adan que se levantara com tamanha urgência que rapidamente se vestiu e se armou – onde está o meu manto?

- Está lá fora com Ermork. Temos de partir. Galderc recebeu um aviso de um vigia nosso depois de ter avistado possível perigo por perto – Flaint que se mostrava pouco alarmante, mas tenso, desafiou Adan para o exterior enquanto lhe deixava um recado falso, mas que a sua proteção o exigia e desculpava – Galderc mandou dizer que dividiu os homens em 4 grupos e que voltamos a encontrar-nos mais tarde a oeste da montanha até avistar Torfel. Elsos já partiu com um dos grupos. O nosso parte agora pela costa e mais tarde será o de Galderc depois de levantado o acampamento. O outro grupo encontra-se em vigia caso se inicie algum ataque surpresa. Mas temos mesmo de partir já Adan.

- Muito bem, vamos embora então – aceitou Adan a ordem de Galderc, sabia-o como bom estratega e confiava nele. Atento levou os seus homens para uma rota já estrategicamente estudada em caso de haver risco de ataque.

Adan já levava a sua fuga bem longe julgando que todos os seus homens o seguiam espalhados pelas terras da costa quando uma curta batalha ecoou sobre Galderc, nas terras de Wermest.

- Ora ora, vejam só – Zamessa aproximava-se montada no seu cavalo bruto, arfando o cansaço do galope urgente – e não é que achei um tesouro! Um tesouro que o rei do sul me incumbiu de encontrar. És muito valioso para ele seu escumalha burrinho.

Galderc estava firme com o seu manto estendido sobre o seu corpo suado, o capuz escondendo-lhe o rosto. Vendo-a descer num salto equilibrado, Galderc provocou um tribal e este esmurrou-o no peito. Curvando-se com dor, evitara que Zamessa deixasse a descoberto a sua identidade.

- Como sempre muito rebelde hã?! Vá lá, eu tenho de confessar que tens conseguido aborrecer e muito o teu rei. Falta de coragem tu não tens, mas a coragem não é tudo -  dizia agarrando-lhe a cabeça e atirando-o ao chão - Julgavas que me ias enganar com o rapto daquela miúda? – ria energicamente estendendo a graça pela sua tribo – aquela miúda prepotente que tu raptaste depois de me pagares, era uma fugitiva da cidadela. Achavas mesmo que raptavas um dos meus com tamanha facilidade? Estás a ficar cego com a ambição Adan.

Zamessa afastava-se agora para confirmar o que aos ouvidos de Galderc o vento revelou. Como um sussurro, o último suspiro do último dos bravos homens de Adan fez-se ouvir na madrugada rompante. A morte nas mãos dos Margassa era impiedosa e conforme a vontade, podia ser mais penosa e mais prolongada a dor até finalmente o senhor da morte aparecer. Restava apenas a Galderc orar para que Adan tivesse tido tempo suficiente para fugir.

- Vamos! Temos um longo caminho até às terras do sul – a voz de Zamessa rompeu perante um silêncio doloso e Galderc agitou-se na própria verdade do seu destino - Se partirmos já, ainda encontramos a guarda do rei às portas de Grazil, a vila agora deserta desta gente que ousou enfrentar aquele reizinho gordo – assobiava Zamessa agitando o seu traje tribal de peles e penas coloridas, caminhando como uma dança vitoriosa – onde está Lachiki e os aprendizes? – perguntara Zamessa desafiadora para um dos seus capatazes.

- Foram atrás de uns poucos homens que fugiram. Ficam para trás? – perguntou o capataz receando encontrar o olhar de Zamessa.

- Que fiquem para trás e que gozem bem do exercício, já me chega sacrificar homens meus para os seus treinos. Assim ficam-me mais baratos. Atem bem essas cordas a este homem à carroça, que ele é bastante esperto quando pensa – gesticulava exagerada em direção do prisioneiro - Mas o não o vamos deixar pensar sim?! Vamos ocupar a tua mente apenas para manteres o equilíbrio com a caminhada e não acredito que essas pernas aguentem – dizia-o divertida quando ao passar atingira uma perna com um golpe de lança.

Galderc manteve-se forte sem emitir qualquer som para manter o disfarce o maior tempo possível. A sua mente ausentava-se para lá do horizonte, algures onde Adan corria pela vida. Zamessa avançava agora radiante para a cidadela do sul para entregar o seu valioso prémio, satisfeita e certa da identidade que sequestrara.

- Rasakiki, envia uma mensagem bem educadinha para o rei sim? E quero que ele me pague bem ou então ele vai provar da minha fúria, não tenho medinho nenhum do reizinho gordo – dizia rindo bem alto enquanto se dirigia para a fila dianteira da sua tribo.

“Senhor do sul. Vossa subtileza e riqueza são infortúnios para os mais fracos. Provo-vos mais uma vez que a minha lealdade a vós depende da quantia de vosso ouro. O tesouro que levo comigo tem maior valor quanto aquele que me quereis pagar. Espero a vossa sincera gratidão com dois navios novos, 20 fortes homens para os navegar, 1 arca de especiarias e tecidos para a minha tribo. As minhas exigências são merecidas perante o que me exigiste. Para verdes que de tão verdade digo, envio-te um pequeno objeto que julgo reconhecerás o seu possuidor. Assinado Zamessa”.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Reflexões...

"Can a man still be brave if he's afraid?"

"That is the only time a man can be brave."
 by ~McNealy


 
 

 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Vº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



Relembrei atenta a última quadra, juntando as mãos numa esperança renovada:

- “O lobo assombra a noite com o seu uivar, O cavalo vitaliza a força e humildade, Ergue-te meu herdeiro, Sou eu a tua entidade”. 

O uivar do lobo é o presságio na noite escura do tempo, são os desafios que acocoram no nosso caminho, o seu uivo é um símbolo de respeito e de medo. O lobo é a imagem da rebeldia do homem, representa a força exterior, a vontade de exceder os limites humanos e a ambição de ser maior. É a garra necessária para vencer as pretensões ambíguas do inimigo.

O cavalo, símbolo de força, vitalidade, conduz o destino dos homens. Estão ligados às divindades, viajam frequentemente entre o mundo dos homens e o do outro mundo. O lobo e o cavalo correm juntos no meu sangue. O lobo é o antigo símbolo dos primórdios povos da minha família paterna, enquanto que, o cavalo é o símbolo muito guardado e amado pelo lado feminino da família. 

Sangue de grandes amantes e bons cavaleiros, tal como minha mãe, corre-me nas veias a mesma fulminante paixão por brilhantes animais. Por isso herdei o seu cavalo, presente do outro mundo. Eles são o fogo e água das nossas vidas, são a alegria e a tristeza de viver com eles, são o amor e ódio quando partimos juntos para a guerra, são eles que nos conduzem no caminho entre os dois mundos e que por vezes cruzam fronteiras e nos abraçam com as suas transformações.

 Olhei as 5 portas com uma atenção ansiosa. Então tinha duas portas de uma natureza familiar e ambas captavam a minha atenção. Se numa tinha figurado vários cavalos a correrem livres em campo aberto, com pequenos momentos vibrantes na orla de uma floresta; noutra apenas tinha 1 cavalo e 1 homem num laço de amizade. Numa paisagem sem mais pormenor, não haviam lobos em nenhuma parte da escultura que circundava as portas. Decidi que seria esta última que explicaria o significado do cavalo no nosso símbolo da família, o cavalo sendo a união dos dois mundos que liga ao homem. Um elo que existirá para sempre entre os dois seres. 

Amo aqueles seres de mistérios e forças profundas que fazem brotar em mim a mesma força e vitalidade. Juntos somos um só. Tal como aquela imagem tão simples. De facto todas as coisas são simples na sua verdadeira natureza e assim é o amor por todas as coisas. Aquele era o momento grandioso que me ligava à minha mãe e à sua paixão. 

Aquela porta não seria aberta por encontros de lugares mágicos nas suas gravuras, aquela seria aberta por uma chave em si especial. Carinhosamente e sem poupar as lágrimas de saudade, levei a minha mão à bolsa, retirei a criatura do medo e coloquei-a sobre o ombro - Ficas aqui para veres a minha felicidade, apreciares a tua natureza e para veres que não há razões para te sentires feroz.

Levei novamente a mão à bolsa e retirei um pequeno brinquedo tão antigo, elaborado com tanta paixão quanto é possível um homem despender e coloquei-o sobre as duas mãos. A noite já se acomodava no céu tapando uma ténue linha alaranjada no horizonte. Olhei a pequena figura do cavalo e descobri-lhe a linha que unia as duas partes, com um jeito abriu-se, e lá dentro, uma chave em bordado floral. 

Retirei a chave e reparei que no cimo ostentava a cabeça de um lobo, a mesma imagem que no medalhão. Sorri satisfeita e levei-a à fechadura da porta com a mesma paixão pela qual foi feita. Quando a noite por si caia e a porta se abriu, o brilho que se ergueu do interior daquela divisão ocultou a noite e voltou a ser de dia, num esplendor majestoso, onde todas as coisas florescem e crescem saudáveis e férteis. 

Entrei no jardim que vislumbrara tão ao longe. Uma ilusão tão falsa, incomparável com a verdadeira beleza daquele lugar. Uma imensidão de terra que se erguia num manto floral de tantas cores, espécies de flores que jamais sabia existir. Olhei para trás e não via qualquer castelo, somente aquele lugar mágico, um lugar dentro de um outro lugar num outro mundo. 

Um pouco mais à frente rebentava uma nascente onde ouvi tiritar os pássaros numa dança matrimonial. Ajoelhei-me naquela visão tão doce, tão merecida. Tinha passado as provas porque dependiam sobretudo de reavaliar os conhecimentos que já me foram impostos juntando a outros novos. Todos os saberes nos fazem crescer e são elementos essenciais para a concretização do nosso destino. Como todas as coisas crescem dependentes de tantos outros elementos!

Estava tão calma que só depois de um longo tempo lembrei-me de procurar o meu cordão. Voltei a colocar a criatura do medo na bolsa, o qual, dormitava num sono profundo, talvez ele também pudesse sonhar. Uni as duas partes do cavalo e guardei-o. Para maior surpresa, enquanto caminhava por entre a imensidão de cor, vislumbrei que em várias flores, nas suas pétalas, ostentavam pequenos espelhos, e nelas surgiram várias imagens da minha infância, junto das minhas irmãs, com a minha mãe, com o meu pai. Lembranças tão boas que fazem parte de mim.  Permaneci largos momentos olhando e relembrando cada uma.

Refresquei-me na água da pequena nascente. Quando abri os olhos e após lavar o rosto, vislumbrei uma figura refletida na água. Olhei para trás e não vi ninguém. Olhei de novo para as águas suspeitas e vi novamente aquele rosto. E então mesmo ao meu lado ali estava aquela figura, um belo cavalo, cor de âmbar, com os seus cabelos lisos num entrançado com flores do campo. Um espécime saudável e robusto. Uma égua de um olhar terno e fugaz. Estava a lamber-me o rosto e dei uma gargalhada saudosa, e quando lhe levei a mão para acariciar o seu dorso esta tinha o meu cordão. Toquei nele e abracei aquele espécime apaixonante. Então ela baixou-se para eu subir. Assim o fiz e ela levou-me até o fina desta demanda.

Percorremos a vastidão do jardim por entre as flores que dançavam sugando a luz brilhante que vinha de um céu apaixonado. Então chegámos a um rio largo que caia para o abismo do outro lado daquela parede invisível. Perto das águas estava outro belo espécime, um garanhão num castanho avelã escuro, com um cabelo liso dançante ao vento, com reflexos cor de um preto genuíno, tal como nas suas patas. Um guerreiro solitário. 

Desmontei a égua e caminhei em direcção daquele maravilhoso ser, este não aceitava a minha presença, estava nervoso. Então a égua passou por mim e os dois encontraram-se numa saudade conjunta. Entrelaçando as cabeças, percebi naquele momento que eram o símbolo dos dois cavalos no meu medalhão. A confiança e o amor entre o homem e a mulher. Seria o verdadeiro elo, o elo da fertilidade, do amor e confiança. Porque do amor de um casal nasce a união e a sustentabilidade da sua família. A confiança, a família e a honra. Os lemas da minha casa. 

Então empenhei a espada nos céus e os dois cavalos se ergueram e se personificou o símbolo do medalhão. A minha demanda estava cumprida. Aos poucos o jardim foi-se tornando mais pequeno. Até que a visão desvanecera-se. Sorri deixando correr as minhas lágrimas soltas renovando-me o espírito.