O amor é um viajante que caminha sozinho, por vezes descoberto, outras
vezes acompanhado, sempre aventureiro, caminha ligeiro e cresce velozmente. Amar,
torna-se num momento, sempre marcante, sempre relembrável e sentido em toda a
sua graça. Não pergunta nem avisa, ele surge, pega e abraça. Não sofremos por amar. Sofremos
por esse amor não amar igualmente. E o coração sente, a sensação que rói carne
até doer, o sofrimento tamanho que é querer e da esperança de poder vir a ser. Porque
o amor é intenso no seu impulso, infinito na sua emoção, agradável no
sentimento e quente no coração. Amar não mata gente. Não destrói ou enlouquece.
É por não receber o amor querente que se desfalece. E com o passar do tempo
tudo enfraquece, o sentimento ardente que vinga dentro do peito diminiu, e tudo se
perde. O coração morre. Na memória, sobrevive e permanece o brilho do quanto amou, a chama
que faz perdurar a possibilidade e querença de amar novamente. Fica, no pensamento de quem não
amou, a dúvida do que podia ter sentido pelo sentimento que não aceitou.
domingo, 7 de dezembro de 2014
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Saber ler...
Saber ler a alma das palavras é sentir o apego do sentimento
que as escreveu. A alma que é dor, força a lágrima a escorrer da face do
leitor. A alma sorridente é emoção que se sente. Nenhum vazio é sentido quando
se sabe ler o interior das palavras, a sua confissão, a sua comoção, a sua
mensagem. Conforto é calor sentido no abraço às páginas desenhadas em
histórias, pequenos portais para outros mundos, outros lugares, outras vidas,
onde a experiência é adquirida em vivências apenas imaginadas. Saber ler é viajar
nas asas da imaginação, e, deixar por momentos, a realidade confundir-se com a
ficção.
domingo, 23 de março de 2014
Costa Portuguesa
Não queira o mar engolir essas terras de sumptuosos destinos,
Não
lhe queira roubar as honras nem desígnios da sorte,
Não
a fira com o seu rasgar de longo manto,
Não
lhe esconda os segredos pisados em história,
Não
lhe oculte a escultura em costa beijada.
Pois
estas, são terras de saudade,
São
relatos da verdade,
São
tempos que pertencem à sua gente,
E
nela conta a sua genuína identidade.
Não
queira a terra deslizar sobre o mar que não o alimenta nem consome,
Não
planeie prolongar-se no horizonte,
Não
varra a natureza triunfante,
Não
lhe esconda a majestosidade em bruto.
Queira
apenas perder-se no seu regaço,
Queira
apenas desprender-se e navegar por outros campos onde triunfa o mar,
Que
sirva de manto aos corais e às velas rasgadas em sonhos perdidos,
Que
perdure no seu rasto os vestígios de vontades conquistadas,
Que
não se esqueça de devolver o que o mar já não carecer dela.
Pois
no mar governa o silêncio infinito que não faz ouvir a terra,
e no mar vivem seres que nela não sobrevivem,
pois
sem a terra o mar perdia-se no vazio,
e no vazio entristecia a terra sem o mar para brotar vida.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Livro "Terra Fria"
"Uma octogenária em fim
de vida recebe a visita de um padre aposentado, para a última confissão,
e ambos revisitam o passado na esperança de exorcizarem demónios de
consciência. Cinquenta anos antes, a mulher fora denunciada à PIDE por
um bufo que depois desapareceu sem deixar rasto juntamente com o agente
enviado para investigar a denúncia. Mas o demónio de consciência mais
antigo nascera anos antes, dos escombros da Segunda Guerra Mundial, nas
ruínas de um coração".
Opinião:
Em tempos de necessidade são tomadas
decisões difíceis para encontrar melhores condições de vida. São decisões
difíceis, não só, porque obriga deixar quem se ama, como é um risco procurar no
desconhecido a salvação. Assim aconteceu a António que partiu clandestinamente
para França por uma vida melhor para si e para a sua mulher com vida a gerar
dentro dela.
Chegado à fronteira quis o destino
pregar-lhe uma partida. A PIDE. A Polícia Internacional e de Defesa do Estado que utilizava a tortura para obter
informações e foi responsável por alguns crimes sangrentos.
“Terra
fria”retrata esta época de injustiças, opressão, perseguição e forte violência.
É um livro duro para recordar duros tempos. A sua história sente-se na própria
pele, sente-se a tensão, o receio e a impotência perante os inspetores da PIDE,
com tamanha manipulação e poder.
Esta passagem
é-nos contada de uma forma envolvente e tocante com especial atenção a uma
personagem forte e muito corajosa, a que, vamos assistindo em primeira fila à
grande prova que foi viver nestes tempos violentos. Chama-se Esmeralda e a sua
luta começou na hora do parto da filha. E, é pelo sangue que também é seu, que
vai lutar pela sobrevivência de quem mais ama, mesmo quando, tudo parece ter
terminado.
Nem todos os
inspetores tinham coração de pedra, ou será que tinham? É o que vamos descobrir
com a personagem Silvério. Apenas um coveiro ou mais do que isso? O passado nem
sempre se liberta do presente e parece manter-se até ser necessário. Pois a justiça tem
várias faces e fazer justiça, muitas das vezes, obriga atentar contra a
sua própria essência e cometem-se crimes necessários. Só a dor é capaz de
causar tal sentença.
Vieira do Minho, “a terriola" , parece
ter acordado uma atenção indesejada aos PIDE’s que não se acanham em usar a
força para controlar ou eliminar eventuais manifestações de opinião e
descontentamentos que se opunham ao regime vigente. Esmeralda vê-se no gume
afiado da morte. A agulha conserta a vida, a mola rouba-a e a
tesoura sacrifica o corpo e salva coração.
Este livro fala de sacrifício, de dor, tem
prova de amor, tem firmeza nas escolhas, tem luta pelo que merece ser lutado,
tem prazer em se ler, tem honestidade de ser. As suas
palavras são um colo comovente com lágrima derramada onde a verdade é contada
como importante lição e esperança de que todo o mal também tem a sua hora. A
morte é o fim de tudo, mas não, o fim das lições que ficam para quem as quiser
aproveitar para melhorar a sua, e a vida dos outros.
Parabéns Manuel Alves por mais um excelente trabalho....
http://juroqueminto.blogspot.pt/
https://www.goodreads.com/book/show/20804191-terra-fria?from_search=true
domingo, 16 de março de 2014
“O amor é assim”…
- plin
plin plin…chamo para mim…plin plin plin eu chamo por ti… - cantarolava a velha
sapo.
- Que
estás a fazer aí empoleirada? – zurrou o velho sapo na alvorada.
- Estou
a chamar a fada? – reclamava a velha sapo num esgar de forma desajeitada.
- Mas
estás a chamar a fada para quê? – olhava o sapo surpreendido agarrando o
relógio de bolso que insistia num tic tac aborrecido.
- Olha
é para ver se ela te transforma num sapo mais bonito e menos chato – respondeu
a mulher sapo que via os chamamentos frustrados.
- Então
mas eu não sou bonito? olha para isto – dizia o sapo enquanto rodava uma vez
para um lado e outra vez para o outro, vaidoso e finito.
- Eu só
vejo um sapo gordo, verde e enrugado. Já não és o sapo mais bonito do lago –
resmungou desaforada a velha sapo pouco desejada.
- E tu,
és uma velha enrugada, magra e mal-humorada – contradizia o velho sapo
levantando a sua redonda barriga.
O velho
casal de sapos, chateado e magoado, virou costas um para o outro. Enquanto o
sol irradiava pela janela do velho cogumelo e este regozija-se do calorzinho, o tintilar foi-se ouvindo. De longe fininho, que depois foi-se chegando mais
pertinho.
- Plin
plin plin…alguém chamou por mim? Eu sou a fada, a Cailin! - rodava num vento
majestoso a fada que à janela do cogumelo espreitou e entrou.
A fada
quando chegou, à espera de quem a chamou, o que apenas encontrou foi um casal
de sapos, velhos e enrugados, muito mal-humorados.
- Ora
ora ora..vejam só o que encontro a esta hora. Um casal cheio de amor, mas que
se esqueceu do seu ardor. Sei muito bem do que vocês precisam, apenas de um
toque da minha magia – a sua mão levantou e palavras brilhantes ditou - “De
leve ao de leve, ao profundo do profundo, traz a memória mais preciosa, traz a
aurora mais radiosa”.
O velho
casal de sapos ouviu um estrondo vindo do seu cogumelo-casa e correndo à
janela, viu que mais alguém havia nela. Então num azul reluzindo, dois
passarinhos elevavam o cogumelo e eles voaram pela floresta rindo.
A fada
Cailin, sentada numa prateleira de cetim, cantarolava ao som dos pássaros, enquanto,
a sua magia os levava para longe, bem lá longe. O casal de sapos, agitava-se
assustado, ralhando culpas e amarguras. Uma alta torre rasgou o céu, vestida
por nuvens brancas e os sapos sem querer sorriram um para o outro. Numa dança
de boas-vindas, muitos outros pássaros desenham imagens lindas, dançavam à
aurora recém-nascida e lá iam os sapos deambulando por magia.
O velho
casal de sapos ficou espantado de tão belo cenário. Viram-se entrar para dentro
de uma grande biblioteca e lá adiante aterraram perto de uma ampulheta. O
cogumelo-casa lá ficou numa mesa encantada e aos bocados se separou desamparada. Os passarinhos riam e riam subindo a uma prateleira alta.
Ali
tudo era tão alto. Então a fada do cogumelo saiu e com a sua magia um livro
abriu. O casal de sapos viu-se espantado, não esperava ver-se no passado, ali
mesmo nas páginas velhas de um velho livro, tão velho quanto eles.
A vida do
velho casal apareceu nas velhas páginas e mostrou os momentos mais importantes
da sua união. As páginas eram bem cheirosas e nelas apareciam imagens saudosas.
Lembraram então que viviam há muitos anos juntos e recordaram das muitas
alegrias que juntos tinham vivido. As mãos entrelaçaram-se honestas e
confiantes das suas escolhas. Até o rosto das suas dezenas de filhos viram,
todos elegantes e riginhos, a saltitar alegres e vaidosos.
Então, há medida que os anos passavam naquelas
páginas, o velho casal de sapos foi ficando mais jovem, tão jovem quanto as
páginas daquele livro. Então a graciosidade do tempo, uma nova oportunidade
lhes ofereceu e do encantamento uma nova vida apareceu. O velho casal de sapos
era agora novamente um novo jovem casal de sapos.
- Plin
plin plin…a fada encantou tal como alguém me chamou – dançava a fada esperando
uma resposta.
A jovem
sapo olhou o jovem sapo e pensou, pensou, pensou, enquanto o jovem sapo olhava
triste para o seu corpo, magro e amarelado.
- Fada
Cailin, eu que chamei por ti, errada estava quanto ao encantamento, porque não
contava o meu verdadeiro sentimento. Eu amo o meu sapo, velho e enrugado.
Muitos têm sido os anos de vivência, tantos que me levam à descrença de uma
outra felicidade. Não me importa a velhice, importa o velho brilho do olhar do
velho sapo, que não tem tempo e é o meu amado.
- Plin
plin plin e a fada sabe que sim. Um velho teste para um velho amor, que dure
sempre com ardor, longo e com esplendor – com o brilho de uma nova dança fez-se
uma nova magia que brotou numa renovada esperança.
Então o
jovem casal de sapos perdeu o encantamento ilusório e satisfeitos voltaram a
ser velhos sapos, felizes e juntinhos.
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