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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Amélia...



Amélia. Era exatamente esse o nome. Recordo-me perfeitamente. Os seus cabelos dourados, ondulados como marés obedientes, caiam-lhe nos ombros como cascatas de ouro. Sim era essa mesma. E os olhos? Eram verdes, tão límpidos que parecia ver-se um jardim lá dentro. Que saudades de Amélia. Trazia sempre no seu regaço uma cesta de flores do campo, amarelas, rosas, brancas, lilases, com um rasto de cheiro a campo e perfume da alfazema fresca. Tão bonitas quanto o seu sorriso nobre, limpo e rasgado. Uma pequena flor num jardim maior. Porque falo dela? Bem, isto porque tenho uma história para contar. Mas comecemos de outra forma. Quantas pessoas deixaram passar na vossa vida que vos mudasse? Que vos tornasse alguém melhor? Ou que por causa de outrem tivessem adoptado outra forma de estar e pensar? Pois bem, certamente já houve esse alguém na vossa vida.

Algures no meio de uma tamanha vida de tanta coisa, houve esse alguém por causa de algo. Está a ficar confuso? Pois bem, só quero que parem um pouco para pensar, relembrem o que vos fez bem e por que razão mudou a vossa vida. O que lhe desejaram? Desejem sempre o bem, pois o melhor virá até vós. É que Amélia, uma pequena flor num jardim maior, foi uma dessas pessoas. Na minha vida? Não não, não só da minha mas de muitas vidas, e vejam só, numa vida inteira. Amélia, não era uma flor qualquer, era uma flor que a todos se quer no seu jardim, porque com ela todas as coisas eram sãs e férteis. Vou contar-vos a história da pequena Amélia.


O galo tinha acabado de cantar quando o sol rebentou atrás da montanha e aclareou o caminho da pequena bebé ao mundo. O seu choro não foi de dor, chorava como se cantasse e rapidamente um raio de sol entrou de rompante pela janela do quarto e abençoou a pequenita. De seguida o choro cessou. O sol recuou e ofereceu àquele vale um belo dia de primavera, com rebentos novos nas árvores, pequenas flores amadureceram nas suas cores fortes e vibrantes, os animais ficaram mais formosos e os campos verdejantes e férteis. Tudo mudara quando a pequena bebé nasceu. Foi-lhe dado o nome de Amélia, “aquela que brilha e por ela renasce”. Amélia era uma bebe linda, de faces rosadas.

 A pequena foi crescendo, muito protegida por todos, porque aos olhos de todos, era vista como uma preciosidade, acreditando-se que dela advinham as coisas boas que entretanto ocorreram no vale. E a verdade é que, Amélia era muito doce, educada e muita prestável. Os seus tenros 9 anos eram já ocupados com leituras associadas à arte de curar. Sabia preparar infusões, cataplasmas e remédios medicinais, e ao final da tarde lá ia Amélia, com o seu cesto no regaço, com plantas frescas e frascos de remédios para ajudar a mestra na consulta aos doentes do vale. Por três vezes, enquanto segurara um determinado doente pela mão, aquele se curou. A partir desse momento Amélia era uma adoração viva no vale. E havia quem se arrepiasse e quem se lograsse de tal presença. Mas Amélia era muito simples, não gostava que lhe dessem essa importância, apenas que a deixassem fazer o que tinha de fazer, sem tornar isso, um centro das atenções. 

Gostava de cuidar dos outros discretamente. Não desejava qualquer mal a ninguém e não se queixava. As suas palavras eram especiais, muito cuidadas a quem as ouvia, parecendo preparadas para aquela pessoa em qualquer circunstância que lhe ocorresse. Mas com os anos e a capacidade de cura mais astuta, Amélia começou a ser procurada por outras gentes, de outros vales, de outras terras. Amélia a todos socorria, maravilhada pelo bem que trazia ao mundo, não permitia que a ninguém fosse proibida aceder aos seus bons ofícios. Mas Amélia além de curandeira era dotada de uma beleza que de facto, não era deste mundo. E se havia quem precisasse dos seus remédios, houve outros que a sua intenção fora pretensiosa e desrespeitada. Nessas vezes, Amélia retirava-se educadamente sem atender ao problema que o doente queria ser atendido, mas deixava sempre um remédio para outro qualquer mal que ela sentisse no queixoso pretensioso. Jamais por tal despeito à sua honra, se vingara do doente indicando erradas receitas. 

Um dia, que se mostrou tão cinzento, talvez antecipando um perigo que Amélia pressentiu mas ao qual não fugiu, uma patrulha da guarda real chegara de bandeira em haste e com um despacho real, ordenou a presença da curandeira Amélia no reino, afim de, salvar o rei de uma maleita que nenhum outro sabia como curar. Amélia não se negava a qualquer doente, mas sentiu que tal como o rei, também ela estaria em perigo. Apesar de protegida ali no vale, não se sentiria tão protegida fora dele, ainda que, homens experientes combatessem em favor da sua vida. 

Mas o destino deve ser cumprido como se mostra e se requer e Amélia lá foi. Quando chegara ao reino, todos a esperavam com ânsia e curiosidade. Curiosidade à qual ela não respondeu, mantendo-se discreta por baixo de um véu que ocultava a beleza e identidade. Chegada perto do rei, que sucumbia numa tosse efémera, Amélia, sem tapar o rosto, cuidou daquele homem, banhando-o com ervas e fumos, dando remédios e alimentando-o apenas de caldos. Percebera que aquele homem teria de ser purgado, porquanto o mal, estaria dentro dele. Após 9 dias de tratamento, o rei melhorou. Amélia sentiu-se esgotada mas satisfeita do seu trabalho, e o rei, quis oferecer-lhe o céu se este lhe pertencesse. Quando Amélia se preparava para lhe pedir apenas para voltar ao vale, o rei respondeu divertido que tal beleza e notável dote para a cura, não devia ser desperdiçado num vale de gente tosca e sem riqueza e mandou-a para uma torre onde apenas serviria o rei. Intocável, fora a ordem dada sob pena de morte imediata. Amélia foi deixada de parte, numa torre, bem lá no alto com visitas dos pequenos pássaros, insectos e o rei quando estava doente. No seu regaço apenas carregava a culpa de ter-se deixado aprisionar e do lamento pelo padecimento de doentes que esperavam por ela. 

Com o passar do tempo, Amélia foi perdendo a capacidade que tinha, agora sim, desperdiçada numa torre qualquer, no meio de um grande mundo a precisar dos seus préstimos. E, também aos poucos os cabelos dourados de Amélia foram escurecendo, os olhos foram-se tornando baços e o seu brilho esvaneceu-se, tal como o sol que abandonara aquelas paisagens, dando lugar ao inverno mais frio e tenebroso. Quando o rei vira a mudança de Amélia e do facto de esta não conseguir curar as suas maleitas, o rei mandou-a de novo para o vale. Enjeitada, sozinha e perdida pelas ruas, Amélia chorou. Ganhou forças e continuou a caminhar na esperança que lhe pudesse ser revelado o caminho de volta para casa no vale. Pelo caminho, encontrou gentes errantes, algumas doentes, outras perdidas, outras abandonadas e outras apenas de passagem. 

Durante esses encontros, Amélia ajudara os doentes no que conseguia e aos poucos, Amélia mudou. O seu cabelo começara a ganhar uma cor mais clara, ondulando levemente, os seus olhos já límpidos e brilhantes mostraram um sorriso honesto. Aos poucos Amélia voltou a ter aspecto anterior e conseguia curar todos aqueles que desprovidos de riqueza, precisavam honestamente da sua ajuda. Uma criança voltou andar depois de uma perna partida, um idoso consegui caminhar largando os paus guias de outros tempos e uma mulher conseguiu dar à luz um filho depois de 4 mortes anteriores. Amélia era já conhecida por todos os cantos do continente, mas nenhum dos que a conhecera revelavam o seu paradeiro, dizendo que ela aparecia a quem a invocasse e precisasse dela. 

Finalmente chegara o dia em que os seus passos passaram a fronteira para o vale, a sua casa. Acompanhada de um cajado e de uma cesta colorida com flores, encontrou um vale morto, de ervas secas, animais magros, gentes de nódoas negras encovadas no rosto, as flores despistas de flores e folhas. Amélia sabia que no dia que saíra do vale, causara tal infortúnio, ou talvez tivesse sido no dia da sua prisão na torre. Fosse o quer que fosse, tinha terminado. Assim que caminhara pelo vale, tudo por debaixo dos seus pés ganhava vida, brilho, intensidade e fertilidade. As gentes do vale seguiram-na, agradecendo finalmente o meu regresso. Todas as coisas voltaram a florescer com ajuda das mãos honestas das gentes do vale, os animais ganharam formosura, as árvores ganharam novamente frutos e flores rebentaram ainda mais bonitas e viçosas. Os doentes foram tratados e a Amélia voltou a ser Amélia. 

A partir daquele dia Amélia ausentava-se uns dias para atender os doentes que a invocavam em outras terras, vales e estradas perdidas, e depois voltava ao vale. Afinal de contas, ela fazia parte do mundo e o mundo precisava dela como o sol, a chuva e o vento. Por meados da estação seguinte, soube-se que o rei teria sucumbindo à doença. Não lamentou. O rei teria entendido que o bem do mundo não deve ser fechado nem forçado à vontade do homem, por mais precioso que seja, deve ser deixado em liberdade para desempenhar a sua função no mundo. 

E assim, por onde quer que Amélia passava, quem quer que a ouvisse, ou a quem ela tratasse, curou mais do que um corpo doente, mas também, uma alma necessitada de carinho e fé. 

Hoje Amélia, é uma divindade reconhecida no vale, e muitos lhe pedem auxílio, dentro e fora dele. Os pedidos são todos atendidos.

Recomeçar de novo....



Era meio-dia e o sol brilhou bem alto no céu. Se a felicidade existe, aquele foi o momento em que de facto a senti pela primeira vez. No meu vestido branco rodado, o véu confraternizava com o vento que o acalmou, permitindo que aquele meu dia, fosse perfeito tal como o desejei. Ao fim de um namoro de 3 anos, tudo me parecia um conto de fadas, encantada por casar com o homem perfeito, que eu amava, que me amava, que nos dávamos tão bem. Tudo era de facto perfeito, as viagens curtas pelo nosso país, os jantares românicos, os presentes deixados em cada canto de uma casa já partilhada há poucos meses. E ali estava ele, brilhante na sua alegria ansiada junto ao altar, aguardando juntar-se a mim. Aquele dia, foi um dia feliz. Mas a felicidade tem contornos que não está ao nosso alcance contrariar. E tal como os ventos, também as manifestações de felicidade podem gerar estragos na vida de alguém. A felicidade fugiu-me sem aviso prévio exatamente no 4º. dia de casada de fresco. 

Durante a lua-de-mel, numa instância paradisíaca, tão longe de casa a minha vida mudou. Se julgara que um simples arrufo ciumento seria motivo de risada, imediatamente me apercebi que o homem com quem casara não teria a mesma opinião, e que tinha mudado completamente após o dia que se casou comigo, pois que, tornou-se mais sério, mais ansioso, menos tolerante. Julgara eu, na minha inocência de princesa desejada que eram manifestações de preocupações com o trabalho ou outras tantas coisas que fazem parte da nossa vida rotineira. Mas rapidamente me apercebi que afinal, o meu marido era um homem obsessivo, ciumento, irritável com todas as coisas que não achava bem. Ao início tentara confortá-lo, acarinha-lo, pensando talvez que, apenas precisasse de se sentir seguro comigo, afinal éramos um casal em que ambos tentariam construir uma vida juntos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, para o resto dos nossos dias. Então no primeiro arrufo, tentei acalmá-lo de uma manifestação irritada sem qualquer sentido. 

Nesse dia, senti a primeira chapada. Depois daquela violência ele continuou agressivo, mas até aí, as palavras foram ofensivas para aquele que o ofendera. Quando o vermelhão na minha cara ardia como fogo descoberto, cobrindo a face de uma cor magoada, o meu marido de olhos boquiabertos apercebeu-se do que tinha feito, lamentou em lágrimas desenfreadas, agarrado à minha cintura, fazendo promessas que não o voltaria a fazer, que tinham sido os ciúmes e a raiva que tomaram controlo das suas ações. Abraçara-me, beijara-me, e acarinhando-me desculpou-se pelo mal que tinha acabado de fazer. Nos 2 dias seguintes, senti-me um pouco desconfiada como se receasse que a qualquer momento o meu marido mudasse de novo. Mas ele fazia todos os esforços para me mimar, sentia-se arrependido e aos poucos desculpei-o. Afinal de contas, eu amava-o perdidamente e já o tinha perdoado, mas tinha de mostrar que sentia-me magoada e que não permitia que tal situação acorresse de novo. 

Em muitos momentos da nossa vida, achamo-nos heróis e heroínas, pensando sermos capazes de lidar com tudo e que nada nos vai assolar. Esquecemo-nos que há situações que nos envolvem como teias, ilusões de desejos e pretensões não correspondidos. Negamo-nos a ver a verdade quando sabemos e sentimos que é contrário ao que desejamos. Mas a querença de querer tornar o mundo e as pessoas melhores, levam-nos a cair no erro de que sozinhos conseguimos contornar tudo e todos. 

Aos poucos esta realidade foi rejeitada pelo meu bem querer pelo marido. Ele que era tão atencioso e amado por todos. Os 2 primeiros meses de casamento foram imagem dos tempos de namoro e já eu tinha esquecido aquela triste tarde na lua-de-mel. Mas tal como a doença que tem as suas (chamadas) melhoras da morte, também o meu casamento se despedira dos tempos felizes. A felicidade ter-me-ia abandonado mais uma vez. 

Tudo aconteceu demasiado rápido, só a dor gravou lentamente cada sofrimento sentido. Satisfeita por ser uma mulher casada, a cuidar do jantar romântico para o meu marido que chegara a casa depois de um dia de trabalho, acarinhei-o e chamei-o à mesa. O jantar estava delicioso e a mesa estava decorada com rosas viçosas numa pequena jarra, duas pequenas velas ardiam numa tacinha de água, onde as chamas dançavam como bailarinas enquanto o cheiro delicioso da cera perfumava a casa. Só me apercebi do prato de comer voar pela sala e do som dos estilhaços da louça espalhados pelo chão, manchado da comida quente. Gritos esvoaçaram da boca do meu marido. Hoje não consigo relembrar da queixa, apenas vi braços no ar, a irritação patente no rosto, o movimento agressivo constante. Não consegui ter reação, porque de imediato me apercebi que se me mexesse aquela raiva seria descarregada sobre o meu corpo e a lembrança do anterior abuso fez-me sentir como uma presa prestes a ser aniquilada. Vendo-me sem ação, o meu marido agarrou-me pelos braços chamando-me inútil, e atirou-me para o chão onde embati no sofá. De seguida, o abuso foi total, violou-me enquanto me batia no rosto. Os meus gritos foram abafados com uma almofada que me sufocou. Naquele momento julguei morrer. A dor generalizada no meu corpo fizera-me esquecer completamente quem eu era, quem era aquele homem que me maltratava, onde estava e senti-me a fugir do meu próprio corpo. Impotente e dorida, sentia-me um caco estilhaçado como aquele prato que me cortava a pele debaixo de mim.
Nunca chegamos a perguntar porque, porque não existe resposta a tal questão. Se a alguém for feita essa questão, será porque ainda não compreendeu a situação que está a viver, a negação cria a ilusão do momento a torna susceptível de mais manifestações brutais. Ali, naqueles momentos não há porquês. E se há alturas em que a situação é como uma dor de barriga que aparece mas não se trata porque ao fim de um tempo a dor acalma, a violência doméstica é da mesma forma, porque espera-se sempre que aquela dor passe, e, que a outra pessoa mude. Afinal de contas, eles nunca foram sempre assim, ou nunca se mostram como realmente são. Mas enganem-se aqueles que julgam que a mulher aguenta tal situação por amar o homem que a maltrata. É um erro crasso essa confusão. Não é amor. É querença de mudança. É afeto de mulher por todas as coisas, é a natureza da mulher cuidar de outrem. Não se ama o que, e quem, nos faz mal, mas tem-se a querença de o conseguir mudar. Não, não é amor. Percebi isso exatamente no dia que me espancou e violou ao mesmo tempo. 


Depois desse dia não sai de casa durante 1semana. Tinha vergonha é verdade, mas sobretudo porque o meu marido avisou-me, “se contas alguma coisa a alguém eu mato-te”. E eu não tinha dúvidas disso. Estava demasiado maltratada, doía-me o corpo. O sangue que foi jorrado do meu corpo manchou a casa, e eu não tinha forças para agir. Estava incapaz de fazer, fosse o que fosse, porque o medo era maior que qualquer vontade de mudar. Eu queria fugir dali. Sim, eu queria, mas as forças estavam bloqueadas à vontade daquele que me ameaçara de morte, como se fosse uma corda que estivesse acorrentada aos meus pés. Ninguém apareceu ao meu auxílio, ninguém pareceu ouvir os meus gritos, aqueles que exteriorizei e aqueles que gritavam dentro de mim, mas que, não ganharam som pelo medo que me assolava e contornava como um casulo. Os vizinhos que os ouviram certamente, morando eu num prédio de vários andares, também não me ajudarem, ou mesmo que o quisessem, eu não teria conseguido abrir a porta, julgando em vez de, ser outro alguém, ser o meu marido a confirmar que ficava caladinha e sossegadinha no meu canto. 

Foi só após longas horas de choque que correram lágrimas pelo meu rosto ferido e cansado. Lágrimas que me doeram tanto quanto as lesões no meu corpo. Foi esse, o único momento, em que me interroguei do que se tinha passado com o meu marido e porque tinha casado com aquele homem. Aos meus olhos não era o mesmo homem com que me apaixonei e tanto amei. Mas amar, é um sentimento que pressupõe sensações boas e puras, e eu já não o amava. Como o poderia amar? O que me ligava a ele naquele momento não era amor ou um casamento que desfeito pudesse trazer tristeza, era o medo, porque para onde quer que fosse eu seria seguida e maltratada. Senti-me só, senti-me envergonhada julgando a culpada ser eu, possivelmente ter-me-ia tornado uma má mulher, mas não, eu sabia que não. Mas as desculpas para perdoar eram muitas. Verdade seja dita, não era a vontade de o perdoar, era que esse perdão o mudasse. A tal crença que tudo melhoraria e que o meu marido voltasse a ser o homem que era. 

Ao fim de duas semanas fui despedida por abandono do posto de trabalho. Não via os meus pais há 6 meses e os meus amigos há 2 anos. Estava isolada dentro de uma casa, amedrontada, violada e abusada. Os maus tratos eram constantes. E se alguém hoje me pergunta: porque não fugiste? O que posso responder é que o meu marido trancou-me dentro de casa. Tentei o suicídio duas vezes. Foram frustradas. A minha vontade de viver era muito grande naqueles primeiros tempos e todos os dias esperançava por uma vida melhor. Também as ajudas de família e amigos frustraram-se igualmente porque meu marido inventara que estava a trabalhar no estrangeiro e que as ligações telefónicas eram de má qualidade. Quis o destino que eu merecesse um final diferente, porque eu queria viver, não queria sucumbir à dor e ao desgosto. 

Mas eu já tinha perdido o amor por mim, o amor pelo meu marido, já estava prestes a perder a esperança. Amar?! Já nem sabia que existia quanto mais lembrar-me como era. As poucas vezes que tentei um afeto fui violentada. As duas vezes que tentei fugir, fui maltratada. Estava entregue a um abandono do espirito. Não era eu. Não era ninguém. Perdida sem ajuda. Sem dormir, em constante dor, porque as minhas feridas não eram saradas, as exteriores e interiores. 

No natal, um casal de amigos de longa data, que nada sabiam da minha nova morada no estrangeiro, foram visitar-me a minha casa. Bateram à porta e ouviram os meus gritos, a minha réstia de força. Felizmente, e porque quem nos ama quer-nos de facto bem, esse meu amigo arrombou a porta e retirou o meu marido de cima de mim. A visão turvou-se e desmaiei. Quando acordara, estava no hospital, completamente envolta em ligaduras, completamente cheia de dores. À minha volta pessoas queridas, encheram-me de mimos, beijos e abraços foram-me oferecidos envoltos em lágrimas. 

Um grande abraço desejei prolongar nos braços daquele meu amigo que me salvou e que me proporcionou a oportunidade de ser feliz e sentir-me de novo um alguém. Tinha costelas partidas, maxilar e nariz partido, estava cheia de mazelas. Sentia-me muito ansiosa, fraca, cansada, mas senti-me bem por finalmente ter saído daquele mundo obscuro que era a minha vida. Finalmente conseguira dormir ao fim de 2 meses de recuperação, com apoio de psicólogos e amigos que acompanharam-me diariamente.
Quanto ao meu marido, hoje está morto. Quando o meu amigo me defendera, o meu marido levantara uma arma para o matar. Finalmente, os meus vizinhos, ganhando coragem para agir, chamaram as autoridades. Quando as mesmas chegaram, conseguiram imobilizar o meu marido, mas acabou por ser morto ao tentar disparar contra as autoridades. O meu grande amigo foi alvejado no braço. 

Hoje, quando ainda falo em marido, tento não guardar a mágoa, pois um dia amei-o, e muito, admirei-o e desejei-o muito para com ele, criar uma vida boa ao seu lado. Mas hoje não o amo, amo o que nós fomos antes de casar, e esses tempos não se esgotaram com a tristeza. Porque no fundo, o homem com quem casei, não foi aquele por qual eu me apaixonei. 

Se fosse vivo, jamais voltaria para ele, viveria amedrontada todos os dias pela possibilidade de o encontrar. Não lhe desejei a morte, mas hoje estou livre, hoje sinto cada pedaço do meu corpo, saudável e livre. Depois de uma recuperação psicológica que demorou longos e duros meses, hoje, voltei a reencontrar a felicidade e com aquela fiz juras de que tudo correrá bem ou caso contrário, serei a primeira a fugir dela.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Tomada de Scalabis




Estamos no ano de 1147 do 1º. Reino de Portugal. O rei, D. Afonso Henriques, trouxera a conquista de novas terras e com elas a abundância de um reino novo.
As noites de após guerras que até então eram sombrias e geladas, negras de um gosto amargo, eram agora um pouco mais calmas acompanhadas de um ligeiro gosto meloso do tempo. 

As próprias nuvens afastaram-se brevemente revelando uma resenha de luar num desígnio que se esperava mudar o reino de Leão. Olhei para trás como um presságio, fitando os grandes portões. Sentira-o tão certo quanto a adrenalina antes de uma batalha. Aproximavam-se novos ventos. Junto com estes viria uma bênção para o rei, honrosas ações que entoariam nas canções para todos os tempos. 

Comecei a caminhar lento e curioso esperando a revelação.

O arqueiro levantou a imponente voz pedindo para quem lá estivesse se revelasse. “Um mensageiro” gritou. Parei abruptamente no largo do castelo, enquanto os grandes portões recuavam apressando a entrada do homem. Olhei o arqueiro que acenou levemente com a cabeça e recuou para fechar de novo os pesados portões. O mensageiro que se erguia valente e audaz, desceu do seu garanhão numa mestria prática e rotineira e mostrou-me uma carta com o selo de D. Pedro Afonso, fitando-me logo de seguida com alguma urgência do mandato. Como companheiro e homem de confiança de D. Afonso Henriques, rapidamente fi-lo acompanhar-me até à presença do rei. 

- Coimbra é uma cidade bela senhor – desabafara o mensageiro olhando vislumbrado das abadas do castelo e da decoração que por ele se mostrava.

Limitei-me a um educado aceno de cabeça e um sorriso modesto. Junto do grande salão, onde uma fogueira regurgitava de tamanha força, avancei até o meu rei.

- Vejam só. Entra entra Mem Ramires, bem-vindo sejas meu caro. Serve-te deste bom vinho e junta-se para ouvir o bardo e as suas quadras sobre a batalha de Ourique.

- Senhor sabeis que muito me honraria, mas faço-me acompanhar por um mensageiro enviado por D. Pedro Afonso.

- Meu irmão? – parou abruptamente fitando-me - Que novidades urgentes serão essas para enviar um mensageiro num tempo destes? Leva-o para a sala de reuniões.

-Sim senhor, com a vossa licença.

Num rodopio rápido e discreto dirigi-me ao mensageiro que me seguiu até um compartimento afastado do salão comum. Junto à porta da sala de reuniões, já aguardavam dois guardas e um criado acabara de se afastar depois de deixar um jarro de vinho, frutas e carne, e uma lareira que rapidamente aquecera a divisão. O rei apresentava-se ligeiramente ansioso junto da janela, escondendo as suas mãos pensativas atrás de umas costas direitas e imponentes.

- Senhor se me permites.

- Entra Mem Ramires, faz entrar o mensageiro.

Este entrou e numa vénia absoluta estendera o envelope visivelmente selado por D. Pedro Afonso. O rei abriu o pergaminho limpo e aquietara-se. 

- Muito bem mensageiro. Podes descer até à cozinha e toma um bom prato de sopa e vinho. Vou ordenar um farnel para levares para o caminho. Podes dormir umas horas antes de voltares para casa. Esta mensagem não precisa de resposta, podes ir.

- Sinto-me honrado com o Vosso gesto Senhor. Com a vossa licença.

- Espera Mem Ramires, não vás. Senta-te um pouco.

Olhei a última vez o mensageiro que acelerado avança direito à cozinha acompanhado de um criado. Quando me voltei vi um rei absorto em pensamentos, num lugar longínquo dali, onde o fogo era o portal do tempo a que este deixara-se viajar.

- Sabes meu caro, de uma vontade que trago comigo no meu peito e que ouço a voz de Deus? Não descansarei enquanto não conquistar aquelas terras de longos campos onde as searas são ricas, abundantes, onde as cores do salgueiro se misturam com o verde das sementeiras, o gado gordo e espalhado pela imensidão das terras negras, as melhoras para as agriculturas. Um planalto perfeito e estratégico, rodeado por solos férteis, o seu clima? ah..é ameno e com um rio, extenso e abundante, é de fácil navegação até à foz. Ah meu caro, que obra que torneou o tempo. E se quero conquistar Lisboa, antes terei de conquistar aquele ponto tão importante.
 
- Faleis de Scalabis senhor?

- Sim meu caro. Que as minhas forças sejam tão poderosas quanto a minha vontade. Meu irmão vem a caminho, dirige-se para paços de Coimbra com informações antes da próxima lua. Ele sabe quanto a vontade me encaminha. 

- Senhor, lembrais com certeza que Muhamed deixara a mulher. Os boatos espelham-se que a mulher arde em vingança. Será neste sentido que vosso irmão o venha visitar, que talvez tenha descoberto alguma informação e lhe queira dizer? Se assim o é, terá de ser demasiado importante para vir pessoalmente trazer-lhe boas novas ou informações. Além de que, estamos em tréguas com Muhamed. Poderá ser demasiado arriscado se lhe chegar aos ouvidos que tenhais algo a ver com a moura e que alguém, vossa gente, tem ligações com a mesma.

- As mulheres são boas espias meu caro, vejo que não desperdiças o teu tempo – ria o rei que estalava a sua euforia numas pancaditas nas costas erguendo-me – és bastante perspicaz Mem Ramires e confesso que muito penso nesta vinda inesperada e repentina de Pedro. Enviarei uma guarda ao seu encontro para os trazer em segurança. Mas algo tem de ser feito antes da vinda de meu nobre irmão. Sabes que te tenho como confidente, não poderia confiar esta missão a nenhum outro. As noites têm-me inspirado. Maldita seja se for loucura, mas sinto meu caro, que meu irmão me traz boas novas para a conquista de Scalabis. Em breve a estação irá abrir e afastar os ventos, não posso tardar mais esta diligência. Com os teus bons ofícios, envio-te para Scalabis, estuda minuciosamente todos os pontos das muralhas, estuda a cidade e encontra-me um ponto fraco. Iremos tomar a cidade numa distracção dos mouros. Conto contigo.

- A vossa ordem honra-me senhor, não vos deixarei ficar mal. Se me for permitindo, deixai-me partir ao levantar da alvorada para fazer os preparativos para a minha presença lá, precisarei de uma carroça e de um disfarce.

- Sempre a surpreender-me soldado? Qual será o teu papel desta vez? Não será a de um bardo, a tua voz denunciar-te-á imediatamente pela tua desafinação – sorria-me o rei enquanto me beijava o rosto - Leva o teu tempo, mas se puderes voa. Esperarei pelos teus resultados, mas se não chegares dentro de uma lua, receio que novas ordens possam-te encontrar.

O galo canta rouco e feroz como uma trombeta à véspera de uma batalha. Sonhara com a bandeira erguida enquanto novas canções se entoavam por novos campos iluminados de um sol novo. Um sorriso mudara-me o rosto e eu vi o rei numa satisfação escondida, uma vitória que abençoada, o fizera agradecer silenciosamente em orações secretas. Presságios de uma noite silenciosa ou desejos de um alma pedinte? 
A meu lado a mulher que me traz à vida mesmo na mais pura escuridão, procurou-me no leito, a despedida fora dura. Um beijo prolongado permaneceu apaixonado enquanto a sua ligeira mão tocava-me no peito, abracei-a e apertei-a mais um pouco para mim. 
Chegou a hora. Naquele momento, enquanto o sol se erga no pequeno quarto, acordando-me para uma missão iluminada, eu vejo que em vários momentos da vida sentimos o pulsar do destino aproximar-se, e que cada momento poderá ser o último.

Com as roupas velhas e rasgadas, no meu fato disfarçado, pego na carroça escondida nos recônditos na orla da cidade de Coimbra e começo a minha demanda. Uma viagem que levaria alguns dias até o seu termo. Evito as estradas para não ser assaltado ou afastado da minha rota, seguindo caminhos de comércios protegidos por guardas do rei, até entrar em territórios inimigos.

Quando ao longe vislumbro a cidade Scalabis, tapo a cabeça com o capuz e simulo a minha personagem, um viajante coxo. De origem moçárabe, entro na cidade sem problemas, trazendo alguma carga na carroça de produtos mouros. O novo dialecto indica-me que chegara mesmo ao centro da cidade. 

Avanço direito ao largo do mercado, onde as vozes altas se confundem na euforia dos criados que compram os melhores legumes regateando melhores preços. Deposito-me discretamente num canto onde os guardas mouros não se apercebam da minha presença. Começo por desemparelhar o cavalo que se afastara ligeiramente da carga e bebia água de uma poça que ainda não secara e fico a observar. Os guardas mouros circulavam em grupos de 2 ou 3 vigiando a população. Um dos mouros atingido inesperadamente por um encosto de uma criada, rapidamente se voltou e a esbofeteou e com um empurrão a ligeira moça caiu desafortunada no chão lamacento. Decerto teria estragado a mercadoria que trazia no regaço. Disfarçado de bufarinheiro, poucas foram as atenções voltadas para mim e eu pude durante aquele longo dia, contar os mouros que caminhavam pela zona do comércio, segurando a ponta da espada num orgulho acentuado. Depois de vários dias rotineiros naquele espaço, e após pagar bom preço para um guarda mouro oportunista deixar-me ficar ali naquele canto, apurei que os mouros trocavam de turnos após longas horas de trabalho, o que os deixava extremamente cansados. 

Nesta última alvorada passeara pelos campos alimentando o cavalo e meio perdido desci demasiado a encosta perto do castelo de Scalabis até ao limiar de uma alta muralha. Por entre altas árvores e extenso arvoredo que se via pouco amanhado, segui sozinho até uma brisa forte fazer-me recuar. Avancei mais um pouco e é quando vislumbro uma das mais belas vistas que os meus olhos tiveram a oportunidade de saborear.
Extensos campos prolongavam-se para lá do rio, onde o gado se misturava em campos agrícolas bem amanhados, desenhando o solo de uma perfeição fértil. Naquele momento eu ouvia as palavras do meu rei quando ele mesmo descreveu as terras de Scalabis com tamanha beleza. Pequenos barcos pescavam no rio que transbordava na abundância das searas, regozijando as hortas anteriormente assaltadas do seu avanço. Lá no cimo vozes soltavam-se no céu como a voz do próprio Deus, um aviso.

Percebi que estava mesmo abaixo do planalto da Alcáçova. Encostei-me à muralha de forma a não ser visto enquanto recuava ligeiramente trepando uma árvore. Apalpei as muralhas experimentando que delas me permitia trepar, mas estas eram ásperas, devidamente levantadas sem hipótese de subir. Do ponto que observava era demasiado arriscado, exposto e demasiado longe para trazer os homens do rei. Não poderiam tomar de assalto a cidade com tanta imprudência. Jurei para mim que aquele dia seria decisivo para encontrar um ponto favorável. Caminhei pela encosta em direção ao baixio da cidade. De encontro com a zona dos pescadores, ajudei a consertar uma roda que se partira pelo peso da carga do peixe, recebendo por preço 3 pequenos peixes. Agradeci e acendi uma ligeira fogueira.

Enquanto saboreava o assado aproveitei para observar as muralhas, a sua extensão e como eram realmente altas a norte do castelo. Percebi que à medida que as muralhas subiam no monte, estas iam ficando igualmente mais altas. Avancei no meu estado de coxo fingido até à beira do rio onde lavei o rosto e pescoço. Lá no cimo, podia ver que a muralha estava devidamente defendida na parte norte junto à Alcáçova, e que, ia enfraquecendo pela lateral, à medida que as muralhas ficavam escondidas pelas altas árvores por onde me perdi. As mesmas altas árvores que vão completando toda a extensão das muralhas até emaranharem-se na cidade. 
Precipitei-me por uma rua suja de lado de uma muralha a sul do castelo, fugindo à normal estrada ao lado das muralhas. Cauteloso, avancei olhando o terreno desnivelado e afastado da muralha, mas que pela visão, não se viam guardas ou mouros que lá circulassem. Não foi o meu espanto quando me dei de caras com uma vigília de guardas que castigavam um mouro ladrão. Quando deram pela minha presença, um dos guardas empurrara-me perguntando: “que estas aqui a fazer, também queres? Chega para ti”. Fingi ser um bêbado coxo que se enganara no caminho e fui obrigado a pontapé a descer a rua oculta para tomar rumo à normal estrada que subia do rio até ao mosteiro, retirando-me para o centro da cidade. Antes da expulsão, reparara que havia uma porta onde não tinha destino a nenhuma casa, apenas depositada ali no baixio da muralha numa rua escondida. Deixei cair a noite depois de uma boa sesta, comi e comecei a pensar naquela porta e se outras existiram que pudessem dar acesso direto ao castelo.

Quando só as passadas dos guardas vigilantes se ouviam nas pedras da estrada, bebi um bom trago de vinho, amortecendo as dores do golpe anteriormente sofrido, e segui acompanhado do silêncio da noite à descoberta de um ponto fraco no castelo. 
Atravessei as ruas curtas da cidade penetrando na escuridão da noite, apalpando as paredes e caminhando com cuidado. Avançando numa rua cruzada com outra, passadas de guardas ouviam-se a descer um atalho vindo de uma ponta da rua lateral, com o cintilar da espada no cinto. As ruas pareciam um labirinto de casas entre ruas estreitas. Recuei velozmente até à ombreira de uma porta que recuava na construção da casa criando um curto telheiro em toda a sua volta. Sustei a respiração a qual obediente respeitou a ordem. Os guardas que passavam por mim caminhavam atentos e silenciosos pela rua acima. Desconfortável na ombreira que mal me tapava, sustentando-me num degrau gasto, a bota escorregou ligeiramente soando um pequeno som. Os guardas pararam abruptamente. Um dos mouros retirou a espada que brilhou como que beijada por uma mecha de luar. Obriguei o corpo a suster mais um pouco a respiração, sentindo já um certo calor na cabeça que me assaltava com mais fervor com o receio de ser descoberto. Quando os guardas estão quase no meu alcance, deixei um pequeno punhal soltar-se na mão preparando-me para um ataque indesejado. Rapidamente calculei a distância até ao rio e como de lá me manteria escondido até puder fugir para Coimbra. O bafo dos mouros chegaram-me às narinas e quando julguei que fora descoberto, um gato assanhando atirou-se para a cabeça do mouro e correu rua acima, enquanto os guardas mandavam pedras ao pequeno animal que me salvara da desgraça. Agradeci a Deus por passar nesta diligência e ordenei-me a ser mais prudente e menos ansioso.

Deixei os guardas desaparecerem da minha visão e aguardando um pouco para que estes não recuassem da volta deliberada, voltei a descer aquele trilho escondido e emaranhei-me numa rua onde acabavam as casas. Desci urgentemente aquela estrada até perceber que fora ali o exato local onde naquela tarde eu encontrara o pobre mouro a ser maltratado por manifesto roubo de um pão.

Olhei as muralhas que se erguiam majestosas e altivas, adiantadas de um muro baixo com uma casa pegada à fortaleza. Dali não se via ninguém, havendo indícios que estaria abandonada. Trepei o muro baixio, e percorri aquela pequena distância de ervas altas e terras um pouco lamacentas. Perto se ouvia mais uma patrulha de guardas e rapidamente deitei-me entre as ervas bem recuado perto da abandonada casa. Desta vez não houvera barulhos ou descuidos e voltei a caminhada até à casa. Circundei a mesma não encontrando a presença de ninguém, subi ao telhado e calculei, "se conseguirmos erguer umas escadas, este ponto da muralha é o suficiente para subir até ao castelo".
Permaneci ali algumas horas enquanto a noite percorria os ventos violentos da estação e percebi que a patrulha dormia no local não patrulhando durante a noite aquelas zonas. Deixando uma réstia de luar abandonar os céus desci aquela abada da muralha até à estrada comum quando olhei de novo aquela porta. Conseguia ver que de alguma forma ela levaria ao castelo. E subindo o olhar às muralhas outra porta se mostrava mesmo na própria morada do castelo. Estaria encontrado o ponto fraco da antiga Santa Iria. Voltando à cidade, peguei na carroça e levei-a até ao castelo fingindo levar uma oferenda a Muhamed. Sabendo de antemão que seria imediatamente expulso, encostei-me a um ponto de uma casa encostada às muralhas e calculei o ponto a tomar de assalto e constatei, este local não é patrulhado de noite tal como lá em baixo. As muralhas revelavam algumas portas pelas quais poder-se-ia entrar, mas esta, era de facto a mais exata para o assalto mesmo por cima daquela que encontrara no baixio.

Pelas minhas contas nem 10 guardas patrulhavam esta zona do mosteiro de dia. Como esperado, fora imediatamente expulso do local. Para não levantar suspeitas abandonei a cidade de Scalabis e parti em direção a Coimbra. A minha demanda estava ali terminada. Precisaria de chegar até ao rei dentro de poucos dias. Seria uma viagem sem paragens. Vendi a carroça com as bugigangas a mouros do comércio obscuro, peguei no cavalo e comecei a viagem de regresso urgente. Em breve estaria de novo em casa.

Finalmente cheguei a Coimbra, vi os portões serem abertos e esperado pelo próprio Fernando Peres, que num abraço de boas-vindas encaminha-me a um confortável aposente onde espera-me um saudoso banho quente e uma refeição reconfortante. Dormo até ouvir o primeiro sino da manhã. Visto-me a preceito para apresentar-me junto do rei e é quando assisto à chegada de uma forte hoste que rodeou a larga praça trazendo no seu regaço o D. Pedro Afonso. Sustive-me numa honrosa vénia onde D. Pedro Afonso cumprimentara-me com agrado visível.

- Acompanhais-me valente Mem Ramires? Tenho ouvido excelências de tua pessoa. Este dia será de grande inspiração para o meu adorado irmão. E espero que estejam todos presentes para a revelação que trago.

- Suponho que esteja tudo a postos senhor. Meu senhor rei tem estado ansioso pela Vossa chegada, parece que trazes o milagre que o ajudará a conquistar as terras mais a sul.

- Se a noite não mudar e não levantar ventos agrestes nesta lua, então podemos viver esperançados que esse dia chegue soldado. Agora levai-me até Afonso e brindai-me com um bom vinho.

Esta é das mais importantes reuniões a qual sou sido autorizado assistir. E o tempo passou até que a lua voltou a cruzar o sol nos céus.

Foram relatadas novas informações acerca dos mouros na zona circundante a Scalabis. D. Pedro Afonso falava aceso quanto à imprudência de avançar para a conquista sem informações precisas e concretas sobre como diligenciar a empresa, enquanto, Fernando Peres mostrou o seu maior contentamento em avançar para a obra. Também Gonçalo Gonçalves, Lourenço Viegas, Pero Pais e Gonçalo Sousa reforçam o desejo do rei discutindo rotas olhando e expressando as suas ideias no mapa que se estendia longa na grande mesa, submisso e perspicaz nos caminhos até Scalabis. O rei permanecia silencioso, notava-se nas suas olheiras o cansaço e preocupação que o tomara nos últimos dias, talvez desde aqueles em que avancei sozinho para uma perigosa demanda. Voltara vivo e satisfeito com o resultado. Então permanecendo naquela atenção pelo meu rei audaz, este olhou-me e lendo os meus pensamentos, tomou a palavra.

- Meu caro Mem Ramires, julgo ser a ocasião certa para revelar do teu tão falado sumiço. Meus senhores, enquanto todos vós se debatiam por confrontos diretos, guerras em bandeira a hoste em direção a estas terras que desejo tomar, enviei Mem Ramires até Scalabis para observar os mouros, afim de, encontrar um ponto fraco para tomarmos a cidade. 

- Mandastes Mem Ramires, um moçárabe? Nem sequer é cristão – reclamava um dos senhores cuspindo para o lume que pareceu assobiar.

- Moçárabe ou não, é o homem em que mais confio nesta sala. Não esquecendo os elos que nos unem a todos, Mem Ramires converteu-se ao cristianismo e é o meu braço direito, confio na sua missão como se eu próprio a tivesse tomado. Sei que me traz boas informações. Queiras por favor apresentá-las, levanta-te e conta-nos.
Começo pelo simples relato da beleza dos campos, da abundância dos campos e searas e da força do rio, onde enquanto alguns bocejam do que parecia ser uma alegoria, para o rei pareceu ser a mais bela de todas as canções épicas:

– Naquela noite observei que, os turnos era longamente espaçados, e as patrulhas são feitas em grupos de apenas 2 a 3 homens. Durante todo o dia são patrulhadas 6 voltas em cada canto da cidade torneadas por outra patrulha que se dispõe noutro ponto até se cruzarem e trocarem de posição. À noite, apenas são patrulhadas as muralhas, nos baixios da cidade os soldados dormem nos pontos de patrulha. Se conseguirmos neste momento atravessar a cidade até à muralha conseguiremos chegar a um ponto mais fraco, não só, da visão dos mouros que patrulham o castelo, como sendo esta a zona menos amanhada e abandonada pelos habitantes, ficando esta depositada em imensa escuridão. Teremos de ser precisos e rápidos, avançando em pequenos grupos de cada vez para não sermos descobertos. Chegados lá acima facilmente tomaremos a cidade através da porta de Atamarma e levantaremos o estardante de D. Afonso Henriques no mais alto torreão do castelo.

- As tuas palavras trazem-me a força fugaz à concretização desta obra. Trazes iluminação de Deus, só ele te podia permitir ser tão bem sucedido nesta missão Mem Ramires, com a tua cautela e astúcia trouxeste a lufada de esperança a esta empresa. Muito bem senhores avancemos para a diligência.

- Assim seja meu irmão, mas se me permites revelo-te da minha presença aqui em Coimbra nestes iluminados dias, trago novidades sobre o alcaide de Scalabis.

- Muhamed? Que sabes meu irmão?

D. Pedro Afonso levantara-se rápido em direção à porta e fez um sinal a um dos seus guardas e no instante a seguir entrava uma figura completamente escondida por baixo de um vestido e de um véu. 

- Como te atreves a trazer Zuleiman até à minha casa meu irmão? Ousas rebaixar-me? Ousas trazer o inimigo até à minha própria casa?

- Não me ofenderei por tão grosseiras palavras quando as mesmas são frutos de sentimentos desprovidos de cuidado, e não causados pela minha pessoa. Como já deves ter ouvido falar, Muhamed abandonou esta moura. Despeitada, Zuleiman enviara-me uma mensagem através de um dos seus guardas e pediu-me um encontro com o rei de Portugal, diz ter informações importantes sobre a defesa do castelo que vejo, consolidar as informações de Mem Ramires. Aceitas que a moura apresente o seu testemunho e que parta livre?

- Arriscas-me a um ato de misericórdia quando nem sequer confio nas suas palavras?

- Se me permitires meu senhor rei, serei o seu interprete.

Levanto-me erguendo logo de seguida uma vénia respeitosa. O rei dirigiu-se a mim e acenou-me positivamente. Nos seus olhos apenas vi uma réstia de orgulho, não esperava nada de novo, porque na sua postura, D. Afonso Henriques já estava preparado para tomar Scalabis. Traduzi as palavras da moura que nunca se mostrou receosa pelas suas palavras brutas ou ofensivas, comovida e despeitada, Zuleiman revelara melhores informações que as minhas, mas que reforçavam o ponto de assalto já decidido, as portas que tomaríamos de assalto, os lugares que não eram patrulhados, o excesso de confiança pelas altas muralhas. Melhor, Zuleiman especificou exatamente a forma como eram mudados os turnos das patrulhas e quais os caminhos mais e menos percorridos. Como conhecia toda a cidade pelos dias que lá percorri, rapidamente tracei o percurso até à orla da muralha onde haveríamos de subir.

Decididos os companheiros de jornada e organizadas as necessárias provisões, o Rei, e os seus bravos homens, bem como, os seus cavaleiros, os presentes senhores na reunião anterior com excepção de D. Pedro Afonso, partimos de Coimbra ao dia 10 de Março de 1147. A hoste seguia lenta pelos caminhos fora da estrada do comércio.
No segundo dia de marcha, ouvi o senhor rei chamar Martim Mohab, e pouco tempo depois saiu do acampamento com mais dois homens a passo largo. Sabia de antemão que estes iriam anunciar aos mouros que as tréguas ficavam suspensas durante três dias. O risco era grande e a diligência era agora urgente. Chegados a uma cidade próxima do destino, o rei convocou todos os homens e proferir o discurso de rei antes do assalto final: 

“Combatei por vossos filhos e descendentes, que convosco eu próprio estarei e nada haverá, na vida ou na morte, que de vós me possa apartar(....)”. 

Num discurso onde senti um rubro da adrenalina e felicidade que se via o rei viver, confortei-me com um aperto de uma mão junto ao peito lembrando a bela mulher que deixara para trás sem despedida. “O homem para morrer honrado tem de morrer na tormenta de um aguçado gume de uma espada e não num peito deleitoso de uma mulher”, dissera um homem velho em tempos. Hoje, julgo que todas as batalhas são necessárias ao homem, mesmo aquelas, que passem apenas por ganhar um gesto carinhoso de uma mulher. Sentiria a sua falta. Mas sentia que tinha de honrar o meu senhor rei, que de tamanha confiança, confiou-me a mais importante tarefa e aquela que seria o ganho da diligência pela tomada de Scalabis. Depois de 4 séculos seria finalmente nossa.

A cidade já se vislumbrava ao longe quando no limiar da noite o rei mandou-nos refugiar num recatado monte onde num baixo arvoredo nos instalámos. Não foram acesas fogueiras. Foram dispostas pequenas patrulhas. Quanto aos restantes, pudemos dormir para recuperar as forças, comer o pão e carne duras e o vinho velho dos alforges. Chegada a alvorada do dia seguinte, o rei ainda andava de pé rondando de um lado para o outro onde se viam homens a fabricar várias escadas. Avancei direito a D. Afonso que estava ansioso.

- Meu senhor rei, vejo que o descanso não te tomou mesmo no silêncio da noite. Devíeis descansar para bem de vosso corpo. 

- Deus iluminou a minha diligência meu nobre cavaleiro, e sua força alimentou-me. Não tenho sono ou fome, senão aquela que me sustenta em tomar aquelas terras. Olha para esta brisa Mem Ramires, o rio acolhe a maresia da noite e a restante beijou os campos recompondo-os de frescura. Mandei os homens fabricar 10 escadas para cada uma ser confiada a cada dúzia de homens, e assim, é mais fácil trepar as muralhas, uma vez que, disseste que eram inacessíveis a pé. Já ordenei o avanço dos melhores 120 homens. Ao anoitecer seguiremos a marcha e tu irás conduzir-nos o resto do caminho até ao ponto decido meu companheiro. Revelo-te meu caro que na serra dos Albardos prometi erguer um mosteiro se Deus me permitir a vitória.

- Farei o meu melhor meu Rei, isso eu vos prometo a vós. Levarei os vossos homens a salvo rumo e trazer-vos-ei para vosso orgulho e honra a conquista de Scalabis.

- Eu também lutarei Mem Ramires, é um sonho meu, são homens meus que se arriscam pela loucura deste seu rei.

 - Senhor ireis arriscar-vos numa diligência que ainda desejada ao seu sucesso, tem o seu risco? Não permitirei que a morte vos assole.

O rei sobrepôs uma mão em cada ombro, segurando-me firmemente.

- Prefiro morrer a não tomar esta cidade. Não há qualquer motivo ou razão que mude a minha ideia. Além de que, os monges de santa cruz rezam pela nossa vitória. Que rei sou eu que entrega um sonho nas mãos de outrem sem erguer a minha espada pelo seu sucesso? Porque razão chegámos até aqui hoje Mem Ramires? Se é loucura ou orgulho não sei, mas acredito que o nome dos heróis que ouvimos entoados nas canções não atingiram a sua popularidade por ordens medrosas de perderem suas vidas, antes desafiaram a riqueza das suas inspirações, iluminados por forças que transcendem à sua própria existência e alcançaram grandes feitos, julgo já não ser apenas a minha vontade que comanda a minha mão. 

- Então serei o primeiro cavaleiro a trepar as muralhas que se virem ser tomadas fazendo erguer as escadas ao seu assalto. Dizei-me senhor, hoje é o último dia dos 3 dias de suspensão das tréguas que desejais fazer?

- Sei que não é digno de um rei conquistar um castelo enganando o seu alcaide, mas não há alternativa nem outra forma de o fazer. Pela informação que me chegou, como não atacamos dentro deste prazo, o alcaide diminuiu o reforço das patrulhas e voltou tudo ao normal, atacaremos amanhã quando todos acharem que não haverá qualquer perigo para eles.

O rei abraçou-me recolhido nas minhas palavras enquanto o meu coração se apertou de tamanha responsabilidade.

Procurei igualmente arranjar inspiração em alguma mestria do destino, mas esta mantinha-se em segredo, por isso, ajudei no arranjo das escadas e rapidamente a lua levantou nos céus. 

Chegou a hora. 

A ordem não foi dada, porque parecíamos todos ouvir no silêncio da noite que aquela era a hora que o rei ordenara para avançar. Seguimos por monte iraz e passamos à fonte de Tamarmá. Ao longe no alto do horizonte erguia-se a alcáçova do castelo de Scalabis. O nosso destino. Teriam nesta altura, já terminado os 3 dias de suspensão das tréguas.

Chegados perto do ponto que se estabelecera, comigo avançou uma pequena hoste até ao muro baixio. Pelas contas a patrulha mudaria de turno e cruzar-se-ia ali mesmo, e quando assim o foi, escondemo-nos nas ervas altas na escuridão da noite. Confirmei que os mouros andam calmos pelas ruas da cidade, a confiança e uma segurança certa por não esperar qualquer ataque, tal como, a moura revelou no seu arejo ao Rei em Coimbra.

Julgando Muhamed que o rei desistira de qualquer confronto, diminuiu o número de guardas e aliviou a patrulha numa certeza tranquila de que o castelo não sofria qualquer perigo. Ainda que este se tenha tornado um factor a nosso favor, o céu esta noite foi liberto do manto de chuva e o luar reluzia com mais luz o que se tornou num risco para denunciar a nossa presença.

Parecíamos reluzir no espelho do céu. Seria apenas necessário que os mouros olhassem para cima para prever o prévio ataque. Nesse momento tive a certeza que o Rei tinha razão, já não éramos apenas seguidos pela vontade de um só homem, uma vontade superior comandava as nossas forças.
Aguardámos um pouco e então a patrulha veio descendo a rua, parou ali mesmo em frente para beber um gole do alforge, enquanto a hoste sustinha-se silencioso e quieto nos seus lugares. Reparo que aquela não era uma paragem temporária, mas um local de vigia. 

- Que vamos fazer Mem Ramires? – perguntou um soldado gelado no meio da erva fresca da noite.

- Vamos aguardar que os mouros adormeçam. E espero mesmo que assim seja ou teremos de mudar os planos.

Esperamos gelados os soldados que ocultos, olham atentos os mouros que no posto de vigia teimam em não adormecer. Senti friamente o sangue gelado do Rei e o coração tremeu-me se a diligência se revelasse frustrada logo no começo. Puxei de um punhal que vigorosamente juntou-se ao nível da perna e comecei a esgueirar-me pelo arvoredo. Não tinha alternativa senão matar os mouros ou em breve o sol rebentaria no horizonte e então seria muito mais difícil concretizar a obra. Moqueime agarrou-me no braço e puxou-me para baixo mesmo a tempo. Uma patrulha desceu a rua e parando perto desta vigília, levou dois mouros que lá estavam. Restando apenas outros dois de guarda. Aguardámos enfim que estes adormecessem, encontrando-se um dos mouros completamente bêbado.

 Quando desta feita, e tomada a certeza do silêncio, prova que os mouros negligenciavam da vigília, aproximei-me da casa abandonada, subi ao seu telhado e puxei de uma lança. Prendi com segurança a escada ao topo do muro e suspirei enquanto os meus companheiros olhavam em volta, subi para a estrutura.
Ao subir a escada, sinto os pés escorregarem num castigo horrendo e juntamente com tal estrutura caio num estrondo imenso mesmo no telhado da casa. Rapidamente fui puxado para dentro do arvoredo onde consigo vislumbrar que o mesmo fora igualmente feito à escada.

Os mouros de vigia levantaram-se num sobressalto. Voltei-me sorrateiramente para estes que olhavam em redor. Vi o resto da hoste completamente oculta como se dali tivessem desaparecido como um bafo mágico. Os mouros caminharam para cada ponta da rua, conversando e observando sobre alguma irregularidade. Aquele momento pareceu durar uma eternidade. Dali a instantes os mouros voltavam às suas tendas e dali nada se viu ou ouviu.

- Estás bem Mem Ramires?

- Não temos mais tempo. Chega-te aqui Moqueime.

Subi rapidamente para os ombros de Moqueime, um soldado de uma estrutura larga e atlética, o qual me permitiu prender uma escada ao topo do muro. De imediato, sentindo a escada segura subi sem hesitação pela estrutura sentido de perto as histórias que as muralhas contavam. Seguido por mais alguém, levei comigo o pendão real.

Num esforço prolongado tentei abrir a porta da muralha e quando assim o fiz os mouros que acordados pelo barulho e aqueles que vigiavam no cimo da muralha, gritavm em ordem: “Manhu? Manhu”. Do cimo da escada olhei a hoste do rei e fiz sinal para avançarem, dali consegui descobrir um intenso brilho do olhar de D. Afonso Henriques que no momento parecia vingar-lhe no sangue a vontade do próprio Deus.
Não chegara a traduzir a pergunta “quem está ai”.
As restantes escadas forram içadas Às muralhas e soldados cresceram-lhe nas suas estruturas. Atrás de mim seguiram os meus companheiros de luta que empunhando a espada, vingávamos as nossas gentes e conquistávamos a frutuosa cidade dizimando as gentes mouras. Enquanto seguimos a mote matando quem de sangue mouro se apresentasse, atrás desciam alguns soldados que se dirigiram à porta de Atamarma para fazer entrar a restante hoste e nosso rei.

Numa luta que de rápida adrenalina cresceu, a bruta força onde sustinha a audácia e orgulho pelo rei, olhava a mote daqueles mouros e num tomar de outras forças garrado de inspiração e bravura o sangue bombeou forte e entusiasmante e gritei em sinal do ataque: “Santiago e rei Afonso”. 

Os mouros confusos e surpreendidos apenas gritavam: “Nazarenos, Nazarenos”, nome pelo qual, somos conhecidos. Agitados e não estando preparados, poucos eram os mouros que naquele momento ostentavam as armas em defesa do castelo, o que se tornou facilmente domável. Lá em baixo ouvi a voz do meu rei senhor erguendo-se e o céu abriu para ecoar as suas palavras:

- Por Santiago e a Virgem Maria, caros companheiros de luta avançai ao inimigo e expulsai-o destas terras. Matem todos os mouros, tomemos Scalabis.

Os gumes das espadas cantavam numa força bruta entre a vontade e o horror, assumidas de um tom sangrento onde esquecêramos as lamentações daqueles que retiramos a vida, ecoando apenas a voz do rei, da razão do ataque, enquanto uma estranha melodia esvoaçava pelos céus como um lamento pelo passado, pela tomada dos mouros e todos os anteriores desonrosos governos de Scalabis. 

Esta é uma terra de Deus e apenas aos cristãos é permitida a sua entrada e subsistência. Essa certeza erguia-se na força das espadas que bravamente debatiam-se por uma vitória mais que desejada, os mouros igualmente viam o seu fim, e dali apenas restava lutar pelas suas vidas e do seu patrono.

Ouviam-se finalmente os gritos fervorosos dos soldados que conseguiram partir os ferrolhos da porta de Atamarma com ajuda de um malho de ferro, assim gritava Moqueime, e a hoste entrou decidida pela ruma acima matando todos os mouros que se opunham ao ataque. Rapidamente muitos soldados, meus companheiros da obra, lutavam a meu lado, enquanto grande parte da hoste já seguia direito à cidade completando a ordem do Rei.
Quando me dirigi finalmente ao alto torreão do castelo vi o meu senhor rei de joelhos orando a Deus num profundo agradecimento pela vitória. Ergui-o enquanto levantava o seu estandarte e cumpri a minha promessa. Enquanto o estandarte real dançava num vento orgulhoso, personificando a alegria da nossa vitória, todos nós assistimos ao soberbo amanhecer do altivo castelo com vista para os campos de Scalabis.

Uma salva ecoou pelos campos que resplandeciam na sua cor laranjada na matina anteriormente húmida e fresca. Uma brecha de sol reluziu para o castelo abençoando o rei e a sua hoste. Das mãos do Rei concretizara-se uma vontade divina e um futuro reluzente se apresentou nas asas do destino que em breve se mostraria completamente concretizado do seu prenúncio. Conseguia sentir o rubor do Rei que dali, seguiria para a conquista de Lisboa.



É com muito orgulho que partilho aqui uma belíssima pintura, da perspetiva dos campos da lezíria para as portas do sol, no altivo monte, onde outrora existiu o castelo de Santarém, da autoria de Ana Simões. 
Obrigado Ana.