Julgara-me eu, apenas um velho homem renegado à vontade
do destino.
Fiquei quieto sem ostentar a desonra de uma vida sem ar
ou liberdade. Já perdi a noção do tempo. As paredes já nem me falam ao ouvido,
atormentando-me umas vezes, mostrando-me vãs esperanças noutras.
Eu ali estava, sem brio ou escolha da minha vontade. Mas, nem
que a luz do sol rasgasse a escuridão deste espaço, os olhos se abririam para
este novo mundo de inglória. Por isso, os fecho para não guardar a imagem do
pano de fundo que é a escuridão ou a ilusão de uma miragem.
O coração pesa-me.
Já em tempos a esperança foi embora de mim, não lhe
culpo o abandono se eu próprio me abandonei a mim próprio. Cheguei perto da
loucura uma vez, mas o destino obriga-me a sentir pedaço de cada dor, ou tortura-me
por desejar mais para mim. O leve peso da fé não me permite levantar, faz-me
ficar quieto perante a omissão dos movimentos do meu corpo. Então eu continuo
fechado em mim, fechado para o mundo, isolado nesta sela a que já me habituei.
- Levanta-te miserável – grita-me o soldado
pontapeando-me para um acordar zumbido – levanta-te, estás surdo? Se não queres
comem os ratos.
Mofo com migalhas de pão. Antes comessem os ratos se
até eles odeiam a podridão da vontade miserável de uma inexistente misericórdia,
deitada na mão do mais impuro homem.
Continuei quieto.
Maldita memória que me traz recordações. Ela deita-se bela sobre as areias do
tempo, cantada pelo mais leal vento, aquele que vos traz dentro do meu peito.
O passado trespassou-me afiado no meu peito, o ar
fora-me roubado por instantes, onde me senti sucumbir. Ali, preso no
portal das memórias.
Apareceras tu meu nobre irmão, voltado para mim,
protetor da minha dor. Combateras até ao último instante das tuas forças, e
ainda assim, o teu olhar permaneceu sobre mim, escudando-me de qualquer mal.
Não te consegui proteger, mas dava a vida por ti, não fosse
a morte ser mais rápida que a minha honesta vontade.
Eu lembro-me daquele momento. Mantenho a dor de não
puder ter evitado o teu sofrimento, essa terrível maldição. Eu não só a lamento, como não me perdoo por não
te ter protegido. Com o passar dos anos, tudo começou a parecer um sonho. Mas de
nem todos os sonhos ou pesadelos nós podemos acordar, e naquele em que caíste, eu
não tenho forças para entrar.
Mas espera, algo me escapa. Em tempos contaste-me um
segredo. Um segredo que não era mais do que um assombro de magia. Corajoso eu? Não
meu irmão, desesperado por te salvar.
Lembro-me de arriscar a sensatez procurando desvendar esse segredo, encontrar esse tesouro. Corri ao mais alto dos montes, lutei com todas as malditas bestas
que aquele lugar detinha, aguardando essa magia que não se mostra submissa ao
melhor dos desejos de um homem, muito menos ao mais desesperado.
Sabíeis que a magia é uma força que ganha forma àquilo
que aspiras? Não tem forma até o teu coração se abrir ao meio e revelar os teus
desejos e reais intenções.
Pois foi
exatamente o que aconteceu.
Chegado ao interior da grande montanha, a magia não se
revelou perante mim, fui eu que me revelei. Rasguei o meu peito e abri o meu
coração ao meio. Talvez o sacrifico louco fosse tão honesto que a magia logo se
exaltou e apareceu.
A sua textura brilhante e reluzente surgiu sob a forma
de uma encantadora mulher que me acolheu. Olhou-me por dentro, tocou-me nas
memórias, abraçou-me os sonhos e colheu nas suas próprias mãos o meu desejo. A magia
aceitou o que lhe pedira.
O sangue derramado na sua casa, após tamanha provação,
deu-lhe o alento de manter-me sob a sua alçada e proteção. Jurou caminhar
comigo até ao submundo onde o mal te mantinha preso Josh, meu irmão.
Levou-me consigo pelos caminhos mais recolhidos, onde criaturas de outros mundos se misturavam com este. Percebi que
entrara no sonho onde meu irmão estava preso. Ouvia a sua voz prisioneira na
solidão e na distância da realidade com se fosse o próprio vento que zumbia
numa tempestade que não se mostrava. Um vento preso na loucura de um tempo
mudo.
A minha espada lutou incansável, enquanto, as criaturas
deste sonho maldito se mostravam eficazes na defesa das suas presas. A magia
mantinha-se segura no meu peito aberto até que fosse seguro revelar-se. Chegado
às grutas do submundo, onde o cheiro nauseabundo misturava-se na humidade de
uma nublina que se fazia chegar abruptamente, não havia portas ou ferrolhos que
protegesse as suas portas. Não havia barreira que separasse a prisão da
liberdade.
- Magia negra – sussurrou-me a magia – se entrares não
voltarás a sair.
De facto, a abertura na gruta, nada mostrava no seu
interior, apenas um fumo permanente e grosso que parecia sugar tudo para a sua cegueira.
Um grito soou mais alto e estridente.
- Meu irmão – gritei.
- Espera – a magia saiu de mim e revelou-se novamente
na sua forma.
Aquela mulher, que não mais, que uma bela feiticeira, passou
carinhosamente a mão direita pelo contorno da abertura da gruta e uns símbolos
se revelaram negros e profundos na pedra.
A magia arrancou-me o coração do peito. Este, batia
fervorosamente.
- Queres salvar o teu irmão? Mais do que a tua própria
vida? – olhava-me profundamente a magia sem quaisquer rodeios.
- Sim – confessei sem qualquer réstia de dúvidas.
A magia segurou-me o olhar. O coração foi levantado ao
alto da gruta, as letras ganharam um brilho azulado, no mesmo tom que a magia.
O coração assim se contornou.
As palavras que não entendi foram ditas sem pejo e
quando olhei para mim estava diante de meu irmão ferido e cansado. Retirei-lhe
os ferros dos pés e libertei-o dos que o seguravam pelos pulsos magoados e
levei-o às costas.
- Josh, estou aqui. Aguenta, falta só mais um pouco. Coragem
irmão.
A magia esperava-me à porta, vendo-me pesado, não no
corpo, mas no coração que enfraquecia no alto da gruta, libertara o peso de meu
irmão sobre mim, e colocou a sua magia sobre ele.
As feridas foram cicatrizando, fechando e curando à
medida que a luz da feiticeira o curava.
Levantou-se rápido como uma flecha abraçando-me saudosamente.
Olhou para o meu peito aberto, segurou no meu coração fraco e voltou a
colocá-lo dentro de mim.
- Mark, bem-hajas irmão. Num sonho podemos fazer tudo –
ouvi-o dizer ao coração.
Mas nem a magia tudo salva e a salvação não vale sem pagar
o seu devido preço.
E esse surge caro quando devolvemos a vida a alguém que
o destino decididamente retirou.
Eles chegaram sem aviso prévio. A feiticeira abraçou-me
procurando segurança. Agora não havia tempo de se misturar no meu regaço. As
espadas eram as únicas esperanças naquele sonho que não era meu, e do qual, meu
irmão não tinha poder ou controlo.
A luta foi rápida e derradeira. Eles eram em maior
número que apenas nós os dois, cansados e assustados na prisão de um sonho, um
tempo perdido que o destino trancou sem perdão.
O restolhar de forças era forte e sonoro, as espadas
embateram-se faiscando a sua força. A feiticeira lançava a sua magia, que
porém, pouco efeito tinha sobre aquelas criaturas malditas. A magia negra ainda ali pairava, e com essa, a feiticeira
detinha pouca força dentro de um sonho, que não era dela.
Não havia como salvar-nos aos três, alguém teria de
ficar para guardar a vida dos outros. Abracei a feiticeira que me olhou por
dentro, lamentou não puder salvar-me. Agradeci ter-me salvo o irmão, o único
desejo que trazia dentro do meu peito.
- Agora, trazes outro, e esse eu não o consigo alcançar
– dizia-me numa lágrima rolada em tristeza.
- Beijei-lhe a
testa – eu espero por ti. Leva o meu irmão até ao mundo real. Eu fico bem.
Ela assim me obedeceu. Pegou meu irmão pela mão e
puxou-o até si, até a sua magia os levar rapidamente para fora do sonho. Deixara de ouvir os seus gritos “Mark, eu não te vou deixar”.
A luta continuou até eu sentir no meu peito que a magia
por fim estava sã e salva, assim como, Josh.
Nesse momento perdi-me no cansaço extremo da minha alma
e caí. Fui levado para este lugar, esta prisão onde a saída não tem portas nem ferrolhos,
mas que a sua passagem é tão impossível quanto passar pelas paredes rochosas da
mais alta montanha que me circunda no oculto.
Preso num sonho que terminou, apenas espero o começo de
um sonho por quem me deseja e que tenha forças suficientes para lutar com aquelas
que me aprisionaram.
A recordação se desvanece, porém, continuo sem
conseguir respirar. Os meus olhos obrigam-se a olhar para o mundo escuro da
minha prisão.
Olhei-me e reparei que o meu peito estava aberto. Meu coração
fora-me roubado. Senti-me a ser puxado até à porta, grito com a dor da maleita.
De imediato uma luz brilhante se assumiu na entrada da gruta.
- Magia. És tu feiticeira?
Ela surge bela como sempre, abraça-me com saudade. Josh
reaparece lutando com os malditos. A magia entrega-me um cordão enquanto se
enrola no meu regaço protetor.
- Este sonho é teu, só tu o poderás controlar –
sussurrou-me a feiticeira.
Levanto o cordão no alto, enquanto que, a magia revela os seus efeitos. Um
círculo é desenhado à nossa volta, a magia profere as palavras fatais. Enquanto
se desmorona o sonho, também aquele lugar tem o seu fim marcado. A magia negra
solta-se e aparece numa sombra audaz. Nenhuma magia negra vence a magia do
cordão, este que agora brilha com mais intensidade.
Enquanto que o sonho se desvanece, somos levados para a
realidade onde surgimos dentro de um grande salão no longínquo castelo dos malditos.
As forças estavam reunidas, o medalhão ganhou mais força. A feiticeira surgiu
poderosa no seu mundo. Enquanto os malditos sucumbiam no pó graças à poderosa magia da feiticeira, a montanha tremeu fazendo enormes pedras caírem sobre o castelo. A sombra
maldita fugiu para o submundo.
O sonho maldito terminou. Estávamos salvos.
A feiticeira abraçou-me. Honrou-me oferecendo-me o medalhão
que carinhosamente sobrepôs no meu pescoço. Rasgou-me o peito, abriu o meu
coração ao meio e a magia voltou para dentro do meu peito, de onde jamais
voltou a sair.
Eu e Josh percorremos o mundo libertando aqueles, que por
sonhos dos malditos, foram aprisionados.
Os sonhos não voltaram a entregar-me aos malditos. Antes, levam-me para lugares misteriosos, onde eu danço com a magia sobre extensos jardins sobre o mar. A feiticeira aguarda saudosa pelo meu sonhar, um reencontro por mim sempre desejado.
Jamais voltei a sentir a escuridão dentro de mim.
Ilustração de Hellstern

Que belo sonho :) se por vezes arrojado e perigoso, termina muito bem
ResponderEliminarGostei muito, parabéns Carla
Espero ver mais sonhos entre a magia, na bela feiticeira e Mark :)
Continua com os teus textos cheios de sentimentos.
Beijinhos
Obrigado amiga ^_^
ResponderEliminarAtendendo ao pedido, irei continuar o conto ;)
Obrigado pelo carinho e apoio de sempre....
Beijinhos e boas leituras :D
Olá miga,
ResponderEliminarPartilha mais dos teus sonhos, revela o que está por trás da sombra, pois algo verdadeiramente maligno por ai anda :D
Gostei, curioso por que partilhes mais desta história :)
Bjs