Era
meio-dia e o sol brilhou bem alto no céu. Se a felicidade existe, aquele foi o
momento em que de facto a senti pela primeira vez. No meu vestido branco
rodado, o véu confraternizava com o vento que o acalmou, permitindo que aquele
meu dia, fosse perfeito tal como o desejei. Ao fim de um namoro de 3 anos, tudo
me parecia um conto de fadas, encantada por casar com o homem perfeito, que eu
amava, que me amava, que nos dávamos tão bem. Tudo era de facto perfeito, as
viagens curtas pelo nosso país, os jantares românicos, os presentes deixados em
cada canto de uma casa já partilhada há poucos meses. E ali estava ele,
brilhante na sua alegria ansiada junto ao altar, aguardando juntar-se a mim.
Aquele dia, foi um dia feliz. Mas a felicidade tem contornos que não está ao
nosso alcance contrariar. E tal como os ventos, também as manifestações de
felicidade podem gerar estragos na vida de alguém. A felicidade fugiu-me sem
aviso prévio exatamente no 4º. dia de casada de fresco.
Durante
a lua-de-mel, numa instância paradisíaca, tão longe de casa a minha vida mudou.
Se julgara que um simples arrufo ciumento seria motivo de risada, imediatamente
me apercebi que o homem com quem casara não teria a mesma opinião, e que tinha
mudado completamente após o dia que se casou comigo, pois que, tornou-se mais
sério, mais ansioso, menos tolerante. Julgara eu, na minha inocência de
princesa desejada que eram manifestações de preocupações com o trabalho ou
outras tantas coisas que fazem parte da nossa vida rotineira. Mas rapidamente
me apercebi que afinal, o meu marido era um homem obsessivo, ciumento,
irritável com todas as coisas que não achava bem. Ao início tentara
confortá-lo, acarinha-lo, pensando talvez que, apenas precisasse de se sentir
seguro comigo, afinal éramos um casal em que ambos tentariam construir uma vida
juntos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, para o resto dos nossos
dias. Então no primeiro arrufo, tentei acalmá-lo de uma manifestação irritada
sem qualquer sentido.
Nesse
dia, senti a primeira chapada. Depois daquela violência ele continuou
agressivo, mas até aí, as palavras foram ofensivas para aquele que o ofendera.
Quando o vermelhão na minha cara ardia como fogo descoberto, cobrindo a face de
uma cor magoada, o meu marido de olhos boquiabertos apercebeu-se do que tinha
feito, lamentou em lágrimas desenfreadas, agarrado à minha cintura, fazendo
promessas que não o voltaria a fazer, que tinham sido os ciúmes e a raiva que
tomaram controlo das suas ações. Abraçara-me, beijara-me, e acarinhando-me
desculpou-se pelo mal que tinha acabado de fazer. Nos 2 dias seguintes,
senti-me um pouco desconfiada como se receasse que a qualquer momento o meu
marido mudasse de novo. Mas ele fazia todos os esforços para me mimar,
sentia-se arrependido e aos poucos desculpei-o. Afinal de contas, eu amava-o
perdidamente e já o tinha perdoado, mas tinha de mostrar que sentia-me magoada
e que não permitia que tal situação acorresse de novo.
Em
muitos momentos da nossa vida, achamo-nos heróis e heroínas, pensando sermos
capazes de lidar com tudo e que nada nos vai assolar. Esquecemo-nos que há
situações que nos envolvem como teias, ilusões de desejos e pretensões não
correspondidos. Negamo-nos a ver a verdade quando sabemos e sentimos que é
contrário ao que desejamos. Mas a querença de querer tornar o mundo e as
pessoas melhores, levam-nos a cair no erro de que sozinhos conseguimos
contornar tudo e todos.
Aos
poucos esta realidade foi rejeitada pelo meu bem querer pelo marido. Ele que
era tão atencioso e amado por todos. Os 2 primeiros meses de casamento foram
imagem dos tempos de namoro e já eu tinha esquecido aquela triste tarde na
lua-de-mel. Mas tal como a doença que tem as suas (chamadas) melhoras da morte,
também o meu casamento se despedira dos tempos felizes. A felicidade ter-me-ia
abandonado mais uma vez.
Tudo
aconteceu demasiado rápido, só a dor gravou lentamente cada sofrimento sentido.
Satisfeita por ser uma mulher casada, a cuidar do jantar romântico para o meu
marido que chegara a casa depois de um dia de trabalho, acarinhei-o e chamei-o
à mesa. O jantar estava delicioso e a mesa estava decorada com rosas viçosas
numa pequena jarra, duas pequenas velas ardiam numa tacinha de água, onde as
chamas dançavam como bailarinas enquanto o cheiro delicioso da cera perfumava a
casa. Só me apercebi do prato de comer voar pela sala e do som dos estilhaços
da louça espalhados pelo chão, manchado da comida quente. Gritos esvoaçaram da
boca do meu marido. Hoje não consigo relembrar da queixa, apenas vi braços no
ar, a irritação patente no rosto, o movimento agressivo constante. Não consegui
ter reação, porque de imediato me apercebi que se me mexesse aquela raiva seria
descarregada sobre o meu corpo e a lembrança do anterior abuso fez-me sentir
como uma presa prestes a ser aniquilada. Vendo-me sem ação, o meu marido
agarrou-me pelos braços chamando-me inútil, e atirou-me para o chão onde embati
no sofá. De seguida, o abuso foi total, violou-me enquanto me batia no rosto.
Os meus gritos foram abafados com uma almofada que me sufocou. Naquele momento
julguei morrer. A dor generalizada no meu corpo fizera-me esquecer
completamente quem eu era, quem era aquele homem que me maltratava, onde estava
e senti-me a fugir do meu próprio corpo. Impotente e dorida, sentia-me um caco
estilhaçado como aquele prato que me cortava a pele debaixo de mim.
Nunca
chegamos a perguntar porque, porque não existe resposta a tal questão. Se a
alguém for feita essa questão, será porque ainda não compreendeu a situação que
está a viver, a negação cria a ilusão do momento a torna susceptível de mais
manifestações brutais. Ali, naqueles momentos não há porquês. E se há alturas
em que a situação é como uma dor de barriga que aparece mas não se trata porque
ao fim de um tempo a dor acalma, a violência doméstica é da mesma forma, porque
espera-se sempre que aquela dor passe, e, que a outra pessoa mude. Afinal de
contas, eles nunca foram sempre assim, ou nunca se mostram como realmente são.
Mas enganem-se aqueles que julgam que a mulher aguenta tal situação por amar o
homem que a maltrata. É um erro crasso essa confusão. Não é amor. É querença de
mudança. É afeto de mulher por todas as coisas, é a natureza da mulher cuidar
de outrem. Não se ama o que, e quem, nos faz mal, mas tem-se a querença de o
conseguir mudar. Não, não é amor. Percebi isso exatamente no dia que me
espancou e violou ao mesmo tempo.
Depois
desse dia não sai de casa durante 1semana. Tinha vergonha é verdade, mas
sobretudo porque o meu marido avisou-me, “se contas alguma coisa a alguém eu
mato-te”. E eu não tinha dúvidas disso. Estava demasiado maltratada, doía-me o
corpo. O sangue que foi jorrado do meu corpo manchou a casa, e eu não tinha
forças para agir. Estava incapaz de fazer, fosse o que fosse, porque o medo era
maior que qualquer vontade de mudar. Eu queria fugir dali. Sim, eu queria, mas
as forças estavam bloqueadas à vontade daquele que me ameaçara de morte, como
se fosse uma corda que estivesse acorrentada aos meus pés. Ninguém apareceu ao
meu auxílio, ninguém pareceu ouvir os meus gritos, aqueles que exteriorizei e
aqueles que gritavam dentro de mim, mas que, não ganharam som pelo medo que me
assolava e contornava como um casulo. Os vizinhos que os ouviram certamente,
morando eu num prédio de vários andares, também não me ajudarem, ou mesmo que o
quisessem, eu não teria conseguido abrir a porta, julgando em vez de, ser outro
alguém, ser o meu marido a confirmar que ficava caladinha e sossegadinha no meu
canto.
Foi
só após longas horas de choque que correram lágrimas pelo meu rosto ferido e
cansado. Lágrimas que me doeram tanto quanto as lesões no meu corpo. Foi esse,
o único momento, em que me interroguei do que se tinha passado com o meu marido
e porque tinha casado com aquele homem. Aos meus olhos não era o mesmo homem
com que me apaixonei e tanto amei. Mas amar, é um sentimento que pressupõe
sensações boas e puras, e eu já não o amava. Como o poderia amar? O que me
ligava a ele naquele momento não era amor ou um casamento que desfeito pudesse
trazer tristeza, era o medo, porque para onde quer que fosse eu seria seguida e
maltratada. Senti-me só, senti-me envergonhada julgando a culpada ser eu,
possivelmente ter-me-ia tornado uma má mulher, mas não, eu sabia que não. Mas
as desculpas para perdoar eram muitas. Verdade seja dita, não era a vontade de
o perdoar, era que esse perdão o mudasse. A tal crença que tudo melhoraria e
que o meu marido voltasse a ser o homem que era.
Ao
fim de duas semanas fui despedida por abandono do posto de trabalho. Não via os
meus pais há 6 meses e os meus amigos há 2 anos. Estava isolada dentro de uma
casa, amedrontada, violada e abusada. Os maus tratos eram constantes. E se
alguém hoje me pergunta: porque não fugiste? O que posso responder é que o meu
marido trancou-me dentro de casa. Tentei o suicídio duas vezes. Foram
frustradas. A minha vontade de viver era muito grande naqueles primeiros tempos
e todos os dias esperançava por uma vida melhor. Também as ajudas de família e
amigos frustraram-se igualmente porque meu marido inventara que estava a
trabalhar no estrangeiro e que as ligações telefónicas eram de má qualidade.
Quis o destino que eu merecesse um final diferente, porque eu queria viver, não
queria sucumbir à dor e ao desgosto.
Mas
eu já tinha perdido o amor por mim, o amor pelo meu marido, já estava prestes a
perder a esperança. Amar?! Já nem sabia que existia quanto mais lembrar-me como
era. As poucas vezes que tentei um afeto fui violentada. As duas vezes que
tentei fugir, fui maltratada. Estava entregue a um abandono do espirito. Não
era eu. Não era ninguém. Perdida sem ajuda. Sem dormir, em constante dor,
porque as minhas feridas não eram saradas, as exteriores e interiores.
No
natal, um casal de amigos de longa data, que nada sabiam da minha nova morada
no estrangeiro, foram visitar-me a minha casa. Bateram à porta e ouviram os
meus gritos, a minha réstia de força. Felizmente, e porque quem nos ama
quer-nos de facto bem, esse meu amigo arrombou a porta e retirou o meu marido
de cima de mim. A visão turvou-se e desmaiei. Quando acordara, estava no
hospital, completamente envolta em ligaduras, completamente cheia de dores. À
minha volta pessoas queridas, encheram-me de mimos, beijos e abraços foram-me
oferecidos envoltos em lágrimas.
Um
grande abraço desejei prolongar nos braços daquele meu amigo que me salvou e
que me proporcionou a oportunidade de ser feliz e sentir-me de novo um alguém.
Tinha costelas partidas, maxilar e nariz partido, estava cheia de mazelas.
Sentia-me muito ansiosa, fraca, cansada, mas senti-me bem por finalmente ter
saído daquele mundo obscuro que era a minha vida. Finalmente conseguira dormir
ao fim de 2 meses de recuperação, com apoio de psicólogos e amigos que
acompanharam-me diariamente.
Quanto
ao meu marido, hoje está morto. Quando o meu amigo me defendera, o meu marido
levantara uma arma para o matar. Finalmente, os meus vizinhos, ganhando coragem
para agir, chamaram as autoridades. Quando as mesmas chegaram, conseguiram
imobilizar o meu marido, mas acabou por ser morto ao tentar disparar contra as
autoridades. O meu grande amigo foi alvejado no braço.
Hoje,
quando ainda falo em marido, tento não guardar a mágoa, pois um dia amei-o, e
muito, admirei-o e desejei-o muito para com ele, criar uma vida boa ao seu lado.
Mas hoje não o amo, amo o que nós fomos antes de casar, e esses tempos não se
esgotaram com a tristeza. Porque no fundo, o homem com quem casei, não foi
aquele por qual eu me apaixonei.
Se
fosse vivo, jamais voltaria para ele, viveria amedrontada todos os dias pela
possibilidade de o encontrar. Não lhe desejei a morte, mas hoje estou livre,
hoje sinto cada pedaço do meu corpo, saudável e livre. Depois de uma
recuperação psicológica que demorou longos e duros meses, hoje, voltei a
reencontrar a felicidade e com aquela fiz juras de que tudo correrá bem ou caso
contrário, serei a primeira a fugir dela.


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