Amélia.
Era exatamente esse o nome. Recordo-me perfeitamente. Os seus cabelos dourados,
ondulados como marés obedientes, caiam-lhe nos ombros como cascatas de ouro.
Sim era essa mesma. E os olhos? Eram verdes, tão límpidos que parecia ver-se um
jardim lá dentro. Que saudades de Amélia. Trazia sempre no seu regaço uma cesta
de flores do campo, amarelas, rosas, brancas, lilases, com um rasto de cheiro a
campo e perfume da alfazema fresca. Tão bonitas quanto o seu sorriso nobre,
limpo e rasgado. Uma pequena flor num jardim maior. Porque falo dela? Bem, isto
porque tenho uma história para contar. Mas comecemos de outra forma. Quantas
pessoas deixaram passar na vossa vida que vos mudasse? Que vos tornasse alguém
melhor? Ou que por causa de outrem tivessem adoptado outra forma de estar e
pensar? Pois bem, certamente já houve esse alguém na vossa vida.
Algures
no meio de uma tamanha vida de tanta coisa, houve esse alguém por causa de
algo. Está a ficar confuso? Pois bem, só quero que parem um pouco para pensar,
relembrem o que vos fez bem e por que razão mudou a vossa vida. O que lhe
desejaram? Desejem sempre o bem, pois o melhor virá até vós. É que Amélia, uma
pequena flor num jardim maior, foi uma dessas pessoas. Na minha vida? Não não,
não só da minha mas de muitas vidas, e vejam só, numa vida inteira. Amélia, não era uma flor qualquer, era
uma flor que a todos se quer no seu jardim, porque com ela todas as coisas eram
sãs e férteis. Vou contar-vos a história da pequena
Amélia.
O
galo tinha acabado de cantar quando o sol rebentou atrás da montanha e aclareou
o caminho da pequena bebé ao mundo. O seu choro não foi de dor, chorava como se
cantasse e rapidamente um raio de sol entrou de rompante pela janela do quarto
e abençoou a pequenita. De seguida o choro cessou. O sol recuou e ofereceu
àquele vale um belo dia de primavera, com rebentos novos nas árvores, pequenas
flores amadureceram nas suas cores fortes e vibrantes, os animais ficaram mais
formosos e os campos verdejantes e férteis. Tudo mudara quando a pequena bebé
nasceu. Foi-lhe dado o nome de Amélia, “aquela que brilha e por ela renasce”.
Amélia era uma bebe linda, de faces rosadas.
A pequena foi crescendo, muito
protegida por todos, porque aos olhos de todos, era vista como uma preciosidade,
acreditando-se que dela advinham as coisas boas que entretanto ocorreram no
vale. E a verdade é que, Amélia era muito doce, educada e muita prestável. Os
seus tenros 9 anos eram já ocupados com leituras associadas à arte de curar.
Sabia preparar infusões, cataplasmas e remédios medicinais, e ao final da tarde
lá ia Amélia, com o seu cesto no regaço, com plantas frescas e frascos de
remédios para ajudar a mestra na consulta aos doentes do vale. Por três vezes,
enquanto segurara um determinado doente pela mão, aquele se curou. A partir
desse momento Amélia era uma adoração viva no vale. E havia quem se
arrepiasse e quem se lograsse de tal presença. Mas Amélia era muito simples,
não gostava que lhe dessem essa importância, apenas que a deixassem fazer o que
tinha de fazer, sem tornar isso, um centro das atenções.
Gostava de cuidar dos
outros discretamente. Não desejava qualquer mal a ninguém e não se queixava. As
suas palavras eram especiais, muito cuidadas a quem as ouvia, parecendo
preparadas para aquela pessoa em qualquer circunstância que lhe ocorresse. Mas
com os anos e a capacidade de cura mais astuta, Amélia começou a ser procurada
por outras gentes, de outros vales, de outras terras. Amélia a todos socorria,
maravilhada pelo bem que trazia ao mundo, não permitia que a ninguém fosse
proibida aceder aos seus bons ofícios. Mas Amélia além de curandeira era dotada de
uma beleza que de facto, não era deste mundo. E se havia quem precisasse dos
seus remédios, houve outros que a sua intenção fora pretensiosa e
desrespeitada. Nessas vezes, Amélia retirava-se educadamente sem atender ao problema que o
doente queria ser atendido, mas deixava sempre um remédio para outro qualquer
mal que ela sentisse no queixoso pretensioso. Jamais por tal despeito à sua
honra, se vingara do doente indicando erradas receitas.
Um dia, que se mostrou tão cinzento, talvez antecipando um perigo que Amélia pressentiu mas ao qual não fugiu, uma patrulha da guarda real chegara de bandeira em haste e com um despacho real, ordenou a presença da curandeira Amélia no reino, afim de, salvar o rei de uma maleita que nenhum outro sabia como curar. Amélia não se negava a qualquer doente, mas sentiu que tal como o rei, também ela estaria em perigo. Apesar de protegida ali no vale, não se sentiria tão protegida fora dele, ainda que, homens experientes combatessem em favor da sua vida.
Um dia, que se mostrou tão cinzento, talvez antecipando um perigo que Amélia pressentiu mas ao qual não fugiu, uma patrulha da guarda real chegara de bandeira em haste e com um despacho real, ordenou a presença da curandeira Amélia no reino, afim de, salvar o rei de uma maleita que nenhum outro sabia como curar. Amélia não se negava a qualquer doente, mas sentiu que tal como o rei, também ela estaria em perigo. Apesar de protegida ali no vale, não se sentiria tão protegida fora dele, ainda que, homens experientes combatessem em favor da sua vida.
Mas o destino
deve ser cumprido como se mostra e se requer e Amélia lá foi. Quando chegara ao
reino, todos a esperavam com ânsia e curiosidade. Curiosidade à qual ela não
respondeu, mantendo-se discreta por baixo de um véu que ocultava a beleza e identidade. Chegada perto do rei, que sucumbia numa tosse efémera, Amélia, sem tapar o rosto,
cuidou daquele homem, banhando-o com ervas e fumos, dando remédios e
alimentando-o apenas de caldos. Percebera que aquele homem teria de ser purgado,
porquanto o mal, estaria dentro dele. Após 9 dias de tratamento, o rei
melhorou. Amélia sentiu-se esgotada mas satisfeita do seu trabalho, e o rei,
quis oferecer-lhe o céu se este lhe pertencesse. Quando Amélia se preparava
para lhe pedir apenas para voltar ao vale, o rei respondeu divertido que tal beleza e
notável dote para a cura, não devia ser desperdiçado num vale de gente tosca e
sem riqueza e mandou-a para uma torre onde apenas serviria o rei. Intocável,
fora a ordem dada sob pena de morte imediata. Amélia foi deixada de parte, numa
torre, bem lá no alto com visitas dos pequenos pássaros, insectos e o
rei quando estava doente. No seu regaço apenas carregava a culpa de ter-se
deixado aprisionar e do lamento pelo padecimento de doentes que esperavam por ela.
Com o passar do tempo, Amélia foi perdendo a capacidade que
tinha, agora sim, desperdiçada numa torre qualquer, no meio de um grande mundo
a precisar dos seus préstimos. E, também aos poucos os cabelos dourados de
Amélia foram escurecendo, os olhos foram-se tornando baços e o seu brilho esvaneceu-se,
tal como o sol que abandonara aquelas paisagens, dando lugar ao inverno mais
frio e tenebroso. Quando o rei vira a mudança de Amélia e do facto de esta não conseguir
curar as suas maleitas, o rei mandou-a de novo para o vale. Enjeitada, sozinha
e perdida pelas ruas, Amélia chorou. Ganhou forças e continuou a caminhar na
esperança que lhe pudesse ser revelado o caminho de volta para casa no vale. Pelo
caminho, encontrou gentes errantes, algumas doentes, outras perdidas, outras
abandonadas e outras apenas de passagem.
Durante esses encontros, Amélia
ajudara os doentes no que conseguia e aos poucos, Amélia mudou. O seu cabelo
começara a ganhar uma cor mais clara, ondulando levemente, os seus olhos já
límpidos e brilhantes mostraram um sorriso honesto. Aos poucos Amélia voltou a ter aspecto anterior e conseguia
curar todos aqueles que desprovidos de riqueza, precisavam honestamente da sua
ajuda. Uma criança voltou andar depois de uma perna partida, um idoso consegui caminhar largando os paus guias de outros tempos e uma mulher conseguiu dar à luz um filho depois de 4 mortes anteriores.
Amélia era já conhecida por todos os cantos do continente, mas nenhum dos que a
conhecera revelavam o seu paradeiro, dizendo que ela aparecia a quem a
invocasse e precisasse dela.
Finalmente chegara o dia em que os seus passos passaram
a fronteira para o vale, a sua casa. Acompanhada de um cajado e de uma cesta
colorida com flores, encontrou um vale morto, de ervas secas, animais magros,
gentes de nódoas negras encovadas no rosto, as flores despistas de flores e
folhas. Amélia sabia que no dia que saíra do vale, causara tal infortúnio, ou
talvez tivesse sido no dia da sua prisão na torre. Fosse o quer que fosse,
tinha terminado. Assim que caminhara pelo vale, tudo por debaixo dos seus pés
ganhava vida, brilho, intensidade e fertilidade. As gentes do vale seguiram-na,
agradecendo finalmente o meu regresso. Todas as coisas voltaram a florescer com
ajuda das mãos honestas das gentes do vale, os animais ganharam formosura, as
árvores ganharam novamente frutos e flores rebentaram ainda mais bonitas e
viçosas. Os doentes foram tratados e a Amélia voltou a ser Amélia.
A partir
daquele dia Amélia ausentava-se uns dias para atender os doentes que a
invocavam em outras terras, vales e estradas perdidas, e depois voltava ao
vale. Afinal de contas, ela fazia parte do mundo e o mundo precisava dela como
o sol, a chuva e o vento. Por meados da estação seguinte, soube-se que o
rei teria sucumbindo à doença. Não lamentou. O rei teria entendido que o bem do
mundo não deve ser fechado nem forçado à vontade do homem, por mais precioso
que seja, deve ser deixado em liberdade para desempenhar a sua função no mundo.
E assim,
por onde quer que Amélia passava, quem quer que a ouvisse, ou a quem ela
tratasse, curou mais do que um corpo doente, mas também, uma alma necessitada
de carinho e fé.
Hoje Amélia, é uma divindade reconhecida no vale, e muitos lhe
pedem auxílio, dentro e fora dele. Os pedidos são todos atendidos.

Olá,
ResponderEliminarBelo texto, uma história simples mas com grande significado :)
Parabéns belo texto :)
Obrigado amigo Fiacha,
EliminarÉ de facto um texto simples para relembrar coisas importantes ;) nem sempre é fácil deixar certas coisas de que gostamos ou queremos, seguirem livres os seus próprios caminhos, temos de ser fiéis ao que realmente está certo e deixar a bondade seguir o seu caminho, quer a saudade ou a necessidade, nos deixe um espaço vazio no peito :)
Beijinhos
Que lindo texto!
ResponderEliminarSem dúvida, ele é um belo texto em que nos faz lembrar que certas coisas que acontecem não são nossa culpa.
Gostei do texto!
Olá Joana :)
ResponderEliminarBem-vinda ao meu blog ^_^
Fico satisfeita que tenhas gostado do conto. A verdade é que as coisas simples da vida são magnânimas para uma vivência num mundo natural e saudável e corrompendo-se esse ciclo, o mundo transforma-se, muda de forma, e por vezes não para melhor. É importante que todos possamos aprender com o certo e com o errado..:)
Boas leituras :D