domingo, 16 de março de 2014

“O amor é assim”…

- plin plin plin…chamo para mim…plin plin plin eu chamo por ti… - cantarolava a velha sapo.

- Que estás a fazer aí empoleirada? – zurrou o velho sapo na alvorada.

- Estou a chamar a fada? – reclamava a velha sapo num esgar de forma desajeitada.

- Mas estás a chamar a fada para quê? – olhava o sapo surpreendido agarrando o relógio de bolso que insistia num tic tac aborrecido.

- Olha é para ver se ela te transforma num sapo mais bonito e menos chato – respondeu a mulher sapo que via os chamamentos frustrados. 


- Então mas eu não sou bonito? olha para isto – dizia o sapo enquanto rodava uma vez para um lado e outra vez para o outro, vaidoso e finito.

- Eu só vejo um sapo gordo, verde e enrugado. Já não és o sapo mais bonito do lago – resmungou desaforada a velha sapo pouco desejada.

- E tu, és uma velha enrugada, magra e mal-humorada – contradizia o velho sapo levantando a sua redonda barriga.

O velho casal de sapos, chateado e magoado, virou costas um para o outro. Enquanto o sol irradiava pela janela do velho cogumelo e este regozija-se do calorzinho, o tintilar foi-se ouvindo. De longe fininho, que depois foi-se chegando mais pertinho.

- Plin plin plin…alguém chamou por mim? Eu sou a fada, a Cailin! - rodava num vento majestoso a fada que à janela do cogumelo espreitou e entrou.

A fada quando chegou, à espera de quem a chamou, o que apenas encontrou foi um casal de sapos, velhos e enrugados, muito mal-humorados.

- Ora ora ora..vejam só o que encontro a esta hora. Um casal cheio de amor, mas que se esqueceu do seu ardor. Sei muito bem do que vocês precisam, apenas de um toque da minha magia – a sua mão levantou e palavras brilhantes ditou - “De leve ao de leve, ao profundo do profundo, traz a memória mais preciosa, traz a aurora mais radiosa”.

O velho casal de sapos ouviu um estrondo vindo do seu cogumelo-casa e correndo à janela, viu que mais alguém havia nela. Então num azul reluzindo, dois passarinhos elevavam o cogumelo e eles voaram pela floresta rindo. 

A fada Cailin, sentada numa prateleira de cetim, cantarolava ao som dos pássaros, enquanto, a sua magia os levava para longe, bem lá longe. O casal de sapos, agitava-se assustado, ralhando culpas e amarguras. Uma alta torre rasgou o céu, vestida por nuvens brancas e os sapos sem querer sorriram um para o outro. Numa dança de boas-vindas, muitos outros pássaros desenham imagens lindas, dançavam à aurora recém-nascida e lá iam os sapos deambulando por magia.

O velho casal de sapos ficou espantado de tão belo cenário. Viram-se entrar para dentro de uma grande biblioteca e lá adiante aterraram perto de uma ampulheta. O cogumelo-casa lá ficou numa mesa encantada e aos bocados se separou desamparada. Os passarinhos riam e riam subindo a uma prateleira alta.
Ali tudo era tão alto. Então a fada do cogumelo saiu e com a sua magia um livro abriu. O casal de sapos viu-se espantado, não esperava ver-se no passado, ali mesmo nas páginas velhas de um velho livro, tão velho quanto eles.

A vida do velho casal apareceu nas velhas páginas e mostrou os momentos mais importantes da sua união. As páginas eram bem cheirosas e nelas apareciam imagens saudosas. Lembraram então que viviam há muitos anos juntos e recordaram das muitas alegrias que juntos tinham vivido. As mãos entrelaçaram-se honestas e confiantes das suas escolhas. Até o rosto das suas dezenas de filhos viram, todos elegantes e riginhos, a saltitar alegres e vaidosos.

Então, há medida que os anos passavam naquelas páginas, o velho casal de sapos foi ficando mais jovem, tão jovem quanto as páginas daquele livro. Então a graciosidade do tempo, uma nova oportunidade lhes ofereceu e do encantamento uma nova vida apareceu. O velho casal de sapos era agora novamente um novo jovem casal de sapos.

- Plin plin plin…a fada encantou tal como alguém me chamou – dançava a fada esperando uma resposta.

A jovem sapo olhou o jovem sapo e pensou, pensou, pensou, enquanto o jovem sapo olhava triste para o seu corpo, magro e amarelado.

- Fada Cailin, eu que chamei por ti, errada estava quanto ao encantamento, porque não contava o meu verdadeiro sentimento. Eu amo o meu sapo, velho e enrugado. Muitos têm sido os anos de vivência, tantos que me levam à descrença de uma outra felicidade. Não me importa a velhice, importa o velho brilho do olhar do velho sapo, que não tem tempo e é o meu amado. 

- Plin plin plin e a fada sabe que sim. Um velho teste para um velho amor, que dure sempre com ardor, longo e com esplendor – com o brilho de uma nova dança fez-se uma nova magia que brotou numa renovada esperança.

Então o jovem casal de sapos perdeu o encantamento ilusório e satisfeitos voltaram a ser velhos sapos, felizes e juntinhos.

4 comentários:

  1. Viva amiga,

    Já tinha tido o prazer de ler esta história que finalmente decidiste publicar e como sabes gostei bastante, simples mas comovente :)

    Continua a partilhar estes momentos de magia :D

    Bjs

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    1. Obrigado amigo ^_^ uma aventura engraçada :P
      Beijinhos

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  2. Não percebi que tinhas publicado aqui esta bela história :)
    gosto tanto dela :) de uma forma simples descreves as desventuras deste "velho" casal de sapos e que tanto encontram reflexo nos seres humanos.
    a linguagem está muito engraçada e bela.
    quem sabe mais aventuras e desventuras nos poderás oferecer desse mundo fantástico.
    beijinhos

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    1. Obrigada amiga por tudo ^_^ somos todos um pouco assim :D
      Beijinhos

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