sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O acordar dos mortos...



Ela voltou. Eu sinto-lhe o toque, leve, carinhoso. Os seus cabelos caíram como uma cascata no meu peito. A minha mão percorreu-lhe as costas nuas num encontro de saudade. A sua boca rosada beijou-me a face, não resisti ao seu toque, e às escuras procurei-a no paraíso do seu beijo. Mas ela afastou-se para me sussurrar ao ouvido, um lamento de amor, um carinho ansiado:

- Hoje viajei por um tempo sem fim, sem choro, sem medo, um riso tomou-me por completo e eu sinto-me feliz, porque voltei, porque te encontrei, porque voei por lugares inimagináveis. Estarás por aqui sempre que precisar de ti? Amar-me-ás para sempre a minha alma e o meu corpo? Confortar-me-ás nos momentos mais dolorosos e aplaudirás os momentos mais alegres? Isto tudo que peço de ti eu dar-te-ei em dobro. Apenas te quero a ti, no assombro de um amor louco, desejado, sentido e verdadeiro. Porque somos nós que se juntam num só elemento, porque juntamos as peças que nos separaram em tempos. Amas-me?

Confesso que rolaram lágrimas no meu rosto que há muito estavam guardadas e não resisti a um sorriso orgulhoso da lembrança. Recordar tempos de felicidade torna-se numa tormenta quando a realidade é-nos transportada para tão temido pesadelo.

- Deixa-me sonhar, deixa-me permanecer aqui perto de ti.

- Vai meu amor. Eu virei num outro dia. Sê forte. Oro por ti.

E ela partiu, partiu como partira das outras vezes e deixou um vazio tão grande que me senti oco por dentro.

- Lyana?

Chamei-te mas tu já não estavas aqui. Apertei a lembrança junto do meu peito enquanto a aurora fazia as pazes com uma noite longa e fria e elevava-se no alto do céu longo e experiente. E se achava que acordar seria o meu maior pesadelo, pior surgiu com o rebentar da madrugada.

- Senhor, senhor – ouvi o criado que corria pelos degraus até aos quartos de cima. Levantei-me rápido e num passo de gigante estava junto da ombreira da porta até o rosto do criado aparecer branco e a restaurar uma respiração falsa.

- Fala homem, que se passa? – o homem teimava a desfalecer de um susto que previa pelo olhar aberto e brilhante de um terror que me falava sozinho se a sua boca não transmitisse fosse o que fosse o que tinha para me dizer.

– Senhor o mar aproxima-se. Aproxima-se negro e ao longe figura-se uma onde maior que a montanha de Haj’ägar.

- O mar? Onde está Begona, onde está a feiticeira? – perguntei num sussurro que pareceu ser ouvido até aos confins do mundo mas que não chegaram a outros céus.

- Está desaparecida desde que se levantou o nevoeiro da noite – confessou o criado de cariz baixo e amedrontado com tal notícia. - Os guardas foram encontrados mortos e ela fugiu por caminhos onde ninguém descobriu o seu rasto. Dois dos vossos barcos deram à costa completamente em ruínas senhor, em alguns destroços consegui reconhecer um símbolo de uma lua pintada de branco com uma serpente aberta ao meio gravada de fresco.

- Begona aliou a hoste?! Maldita seja. Onde está o mago? Semero, manda chamar os meus homens.

- Quantas guardas pretendeis senhor?

- Não Semero, manda chamar o meu batalhão. Esta batalha não é para ser defrontada por comuns homens.

- Magia? Sim senhor – Semero saiu do quarto sem mais nenhuma pergunta, apesar de na sua mente surgir um turbilhão de questões que não teriam resposta.

- Rápido traz-me a minha armadura, tenho de partir imediatamente para o mar antes que ele nos engula na sobriedade de um tempo rendido – ordenei ao criado enquanto descia a torre.

- O mar senhor? Não estais a pensar ir para o mar com aquela fúria? - Encontrou-o o mago exasperado que numa vénia falou.

- Estás afrontado mago? Chega de medos, em tempos foste guerreiro e hoje não é dia de morrer, e se a morte nos quiser levar vai ter de nos enfrentar primeiro. Às armas guerreiros – gritei ao batalhão forte e inigualável que se juntava no pátio pronto para defrontar a hoste de outro mundo.

O som do mar era cada vez mais enfurecedor. A hoste que rompia na fúria do mar parecia apenas uma longínqua alusão do espaço, mas em breve, a sua força chegava em bruto junto das costas de Crazul.

- Senhor, o que fazes é imprudente – seguia-me o mago apavorado - Parai com esta loucura, levais vossos homens para o abismo inevitável.

- Que queres que faça mago? Fostes tu que libertaste a hoste não foi? Que queres que faça agora? Que os deixe levar o que nos resta? Pensas que não sei que os levo para nunca mais pisarem terra firme? Para nunca mais voltarem a ver as suas famílias? Esta desonra foi causada pela tua ambição e a daquela feiticeira. Saiu-lhe falhada a pretensão se acha que vai vencer.

- Subestimais demasiado Begona, meu senhor. Mas tendes razão, eu sou o único culpado. Mas se libertei a hoste não foi porque quis que esta voltasse a trazer a destruição a este mundo, mas porque achei que seria a única raça que poderia fazer frente à feiticeira.

- Mentes, sabes tão bem quanto eu que a feiticeira comanda a hoste. Chega de discursos irresolutos. Utiliza as tuas orações para que o meu batalhão vença esta batalha ou então o banquete da noite será à mesa dos Deuses. Ousaste negociar com os Deuses ao soltar a hoste, sem realmente os conheceres.

- Utilizareis a vossa magia?

- Utilizarei o que for necessário mago. Ou não serei digno do meu reino.

- Senhor tende cuidado, da última vez…

- Da última vez mago? Não ouses sequer lembrar-me do que aconteceu da última vez. Lyana foi levada pela morte num momento de distracção de vossos olhos e dos meus, num momento em que tive pena de quem merecia morrer. Não ousais sequer prenunciar seu nome, não mereceis tal honra. Agora voltai para o castelo e fazei algo de útil – somente o nome era um golpe duro no meu peito. 

O meu batalhão seguiu-me por caminhos até alto mar através de um céu que se mantinha tão silencioso quanto o coração daqueles que rezavam ao nosso sucesso. O mar elevava-se trazendo a hoste na sua espuma. As águas traziam a escuridão do abismo, e com elas, as trevas de Begona. Menores ondas rolavam monstruosas pelo manto de água. O som da hoste era um zumbido aterrador, ecoando por todo o mundo como uma canção de finos e estridentes gritos. No cimo daquele horizonte, surgiu uma imagem que se distorcia da realidade. Lyana, tão bela como outrora, surgiu de braços abertos e chamou por mim:

- Arhägar? Vem, volta para mim.

Uma lágrima rolou debaixo do metal de armaduras vãs, fui incapaz de conter o sussurro ao vento.

- Voltar a uma realidade onde tu não estás, dói imenso no meu peito. Não queria que fosse assim, mas não fui eu que escolhi…amo-te, amar-te-ei sempre, mesmo quando a memória te afastar de mim. No meu coração permanecerás, ainda sem o teu rosto outrora presente. A tua presença é tão forte que continuas a brilhar dentro de mim, passe o tempo que passar. Apareceste no momento que mais precisei, foi a tua maior prova, para mim foi a recompensa por toda a dor, a saudade e o horrível afastamento. Não voltarei a desafiar-te, mas esperarei que voltes para mim, ou pelo menos que me venhas visitar. Estes dois mundos tão distantes, não serão mais longínquos do que tudo aquilo que já vivemos. Então o amor pode perdurar uma eternidade. E não será a eternidade pouco tempo para honrar a nobreza de nosso amor? Talvez estejas longe e eu demasiado perto, talvez tenha de partir e eu ver-te ir, ou talvez seja eu a caminhar para longe e tu a lamentares que assim seja, afinal os dois mundos estão demasiado longe para nos abraçarmos. Que isto não te magoe, e eu não esquecerei que te amo, mas não posso ir, os meus homens precisam de mim, espera só mais um pouco.

Mas eu conheço a minha amada Lyana e bem sei que aquela miragem não era ela, ela não me pedira para partir. Feitiços de Begona. Abri os olhos e antes de um suspiro, surgiu Begona sobre o meu rosto, negra e louca, abrindo a boca numa gargalhada sem escrúpulos onde me golpeou marcando-me o rosto numa cicatriz que perfurou o metal. Levantei a espada que luziu sobre o meu batalhão, ecoando à volta uma magia invocada tapando a escuridão que ela trazia. Begona recuou magoada pela intensidade da corrente que criara e a que a rasgava por dentro. Os guerreiros que se aproximaram, montados nos seus cavalos de brio e coragem, vingavam-se ao lado dos barcos do batalhão de outros mundos, preparado para romper as águas e eliminar a hoste. 

O tempo ali parou, num momento suspenso pelo destino que não quer a morte, mas que desafia ao melhor e pior de cada um. Lá em baixo, nas marés bravas um pequeno barco surgiu. A loucura do insensato bravio daquele que ousa ter fé. 
 
O mar agitou-se. 

O negro do abismo abriu o seu ventre e a espuma rasgou o vento para abrir caminho às ondas destruidoras que se aproximavam. O barco teimava a recuar como se o destino não permitisse que o mundo continuasse a girar. Os gritos das bestas fizeram a terra tremer e os barcos rasgavam o céu na sua destemida força. 
 
Os remos não chegavam, a minha força não chegava e a maré subiu até uma onda maior ir crescendo e rebentando bem perto de nós. As hostes pesavam no ar e os homens não tinham força para remar. 

O meu grito de coragem ecoava num espaço tão curto que nem eu próprio me ouvi, muito menos àqueles comuns homens como eu. Os deuses escolheram um dia errado para provar as forças num mundo que não era o seu, cruzar as suas revelias sobre outras gentes corrompia por completo um contrato antigo, tão antigo quando a existência do próprio mundo. Eu sabia que não era digno quando invocara a hoste, quando pedi aos Deuses para permitir a sua libertação. Aos seus olhos foi apenas um divertimento. Mas foi demasiado cedo, eu não estava preparado.

 A maré continuou a subir pelas hostes negras do abismo. O batalhão cresceu num céu maior alertando a sua presença numa trombeta sonora à sua intenção. Então a onda surgiu, tão enorme, tão gigante como um deus e permaneceu por longas distâncias trazendo a hoste negra.

- Remem homens, com mais força. Tremam as entranhas mas remam ou seremos esmagados.

Os homens já não temiam a morte. Agora apenas podiam remar, ou morreriam em vão e os seus nomes não seriam lembrados nas rimas das gentes sedentas por épicas canções.
O milagre seguia nas minhas mãos como um tesouro do qual o próprio mundo dependia para sobreviver. E esta é tão verdade quanto a morte ser também tão certa.

Foi então que um estrondo rebentou sobre as nossas cabeças. O batalhão e a hoste defrontaram-se numa luta pela nobreza do patrono que escolheram. Begona permanecia bem atrás da hoste, onde a magia de Arhägar não lhe chegava. As espadas batiam-se ressoando a sua força num guinchar de metais e de forças de outros lugares que não este, forças recebidas de Deuses esquecidos no tempo. A hoste respondia fortemente ao desafio sobre as ordens aniquiladoras de Begona.

 Arhägar gritava palavras de coragem aos seus bravos homens num agrado pelo seu batalhão e através da sua magia abaterem alguns seres errantes da hoste . Os deuses assistiam a tudo, bebendo e brindando em apostas por quem venceria tal destino. Mas eu sabia, havia apenas uma forma de eliminar a hoste levando consigo Begona para as profundezas do abismo, onde as trevas a engolirão na sua fome e sede de maldade.
Eu sou mago e mago eu sou. Os meus ensinamentos não foram em vão, nem toda esta existência prolongada.

Arhägar defrontava bravamente aquele negro exército, arfando e invocando maiores forças para investir pela vitória. Alguns barcos desceram às marés que se agitavam furiosas enquanto a hoste enrolava os seus ataques em águas negras. Não foi possível esperar mais. Abri cuidadosa e respeitosamente a caixa de madeira, gravada de insígnias honrosas de quem era pertença. Levantei o coração vivo transformado em pedra branca, nele gravado o nome de sua alma.
O coração de Lyana, o mais puro sangue dos homens. Ironicamente, era o sangue de um humano que salvava o mundo governado por forças de Deuses.

A oração é dita três vezes e sobre três vezes é invocado o nome. O coração de Lyana foi adquirindo um raio de luz que cresceu no interior da pedra até a perfurar e então um clarão subiu ao céu. A batalha sustou-se. Permaneceu tão quieta quanto o tempo que não esperava aquele desfecho. O clarão estendeu-se por toda a extensão do céu, a hoste enfraqueceu e diminuía sobre a forte claridade. 

Arhägar olhou-me perplexo, a sua magia era muito poderosa, mas um coração puro, ainda que humano, cria nele o mais poderoso de todos os poderes. Begona recuava à medida que a luz se intensificou. Então a figura de Lyana apareceu de frente a Begona e num grito de bravura, Arhägar ao mesmo tempo que Lyana se lançava à feiticeira, trespassou a sua espada repleta de uma luz invocada de outras magias ao peito de Begona que num olhar de pena, orgulhara-se até à sua morte pela sua luta.

Begona caiu no abismo junto com a hoste que se desvaneceu em pó sobre as águas. As marés recuaram, as trevas desapareceram por baixo de um mar longo e profundo. O céu ganhou a sua claridade natural.

Então sem mais palavras, Lyana acarinhou a face de Arhägar que apenas a sentiu na sua memória. Tão breve quanto aparecera, Lyana partiu.

O mundo voltaria a ver nascer mais um novo dia. E eu e os homens de fé fomos levados pelas marés que honraram o caminho até ao outro mundo onde Lyana nos esperou graciosamente com um sorriso.

Imagem de Dehong He

2 comentários:

  1. Olá amiga :D

    Bolas num conto e tanta aventura vivida, uma bela prova que nem é necessário muito para se fazer uma boa história.

    Notório que gostas de: Magia, uma boa batalha, Elfos e um amor puro, ou que as cosias terminem bem digamos assim...uma demanda tem que ter um objetivo nobre, compreendo :D

    Continua a partilhar estes textos sempre cativantes ;)

    Bjs

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  2. Olá nobre Fiacha :D
    Obrigado pelas tuas palavras...A magia é a matéria que sustem os nossos sonhos e nós dependemos deles para ter algum alento...
    Aparece ^_^
    Boas leituras

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