A onda de transe vai tomando parte do meu corpo, enturvando-me
zonzo com uma certa agonia. Rastejei até às raízes de uma árvore que me pudesse
permitir melhor abrigo e aguardei a passagem. Estava a ser puxado, chamado pelo
meu rei. As sombras rodearam-me até outro lugar se assumir. E lá estava o meu
irmão Lygre, de braços cruzados, numa silhueta escura com um pôr-do-sol recente
como pano de fundo. E aos poucos estava no reino de Tharterä, o planeta acima do
sol.
- Ainda bem que chegaste. Temos-te invocado há dias.
Parece que estás a perder qualidades. Quanto mais tempo passas no mundo dos
humanos mais diminuis – dizia Lygre numa postura tão impaciente que me causou
um esgar.
- Chamaste-me para me dar esse recado? Eu que julguei por
momentos que sentias saudades minhas irmão.
- Não sejas irónico. Foste tu que abandonaste a tua
casa, não eu.
- E eu a julgar que a idade trazia maturidade…os teus
dezassete anos estão-se a tornar embirrentos Lygre – este meu irmão parecia
sempre distante, olhava sempre pela janela da alta torre, em direção a toda
aquela extensão de reino, como se a presença dele quisesse estar em toda a
parte, nas ruas, casas, campos. Sempre parecera ciente do seu papel apesar de
ser o terceiro na linha ao grande trono.
Num abraço extremoso meu irmão Fkejjkl aproximou-se retirando-me
o fôlego.
- Meu bom irmão, bem-vindo sejas. O pai mandou-te
chamar e não está nada contente com o que aconteceu em Artarä. Andas a meter-te
em guerras que não são tuas, isso tem-no deixado preocupado – olhei-o
espantado.
- Desde quando é que o pai se preocupa comigo? ah
desculpa não percebi que ele estava preocupado com o seu bom nome. O mundo dos
humanos é um lugar muito propenso a jogos perigosos aqui das nossas gentes,
pensei que já sabias disso – ignorei o olhar de meu irmão Lygre enquanto saí
daquele aposento escondido.
- Lá estás tu a defender os teus animaizinhos de
estimação, também lhes coças a cabeça quando apertas-lhes o pescoço? –
perguntava Lygre agitando os braços de forma infantil.
- Não, mas por acaso cheguei a coçar as costas de um
guarda traidor das tuas tropas enquanto o via esvair-se em sangue.
- Bem parem lá, é sempre a mesma coisa. Vem Cratwer, o rei
está usurpado pelos últimos acontecimentos.
Caminhei recompondo-me para me apresentar ao rei.
Enquanto atravessámos o longo corredor da alta torre até ao baixio do salão
principal, de frente para a altíssima ravina das grandes montanhas, senti
olhares perigosos daqueles que esperava serem os mais fiéis da minha casa. A minha
desconfiança, continuava aumentar há medida que, repensava nos acontecimentos
em Artarä. Desde há algum tempo confirmara os rumores de que havia um traidor
dentro da casa real, a sua identidade até agora é um mistério. Como que um tambor a tocar absorto e imponente, a porta
rangeu impondo-se sonora, lembrando-me que estava em casa de deuses. Senti de
imediato um respeito imposto pelo poder do grande rei.
- Por momentos julguei que estivesses esquecido do
caminho para casa – falava meu pai numa voz equilibrada enquanto vazava licor
num copo que brilhou ao cruzar-se com a réstia da luz solar do dia. Voltou-se
para mim e vi aquela testa enrugada, a mesma que meu irmão Lygre dizia-me sempre: vais ter problemas.
- Senhor meu rei – falei vergando-me numa respeitosa
vénia esperando a bênção.
- Loyvär qui firlë – abençoou-me - fui chamado a um
concelho ainda nem há 3 luas de Mër por causa do teu comportamento em Artarä e
acabo de receber uma ordem da convenção de Orchï a exigir que abandones aquelas
terras.
Olhei pouco espantado o meu irmão Lygre que se mantinha
tão quieto quanto a sua culpa pudesse esconder.
- Perdão senhor meu rei…
- Não me interrompas. Não te chamei para te defenderes.
Chamei-te para expor os factos. A deusa Rerwer mostrou-me, interpuseste numa
guerra entre Ghibrär e os de D’Ewr, uma guerra que além de não ser tua, não era
justa que dela tivesses participação. Por acaso lembraste que tens poderes? –
gritou-me fazendo ressoar a sua indignação com um murro na mesa que se
prolongou por Tharterä como um bravo trovão – se te permiti conviveres naquele
planeta não foi porque achei que precisavas de te distrair com os humanos, mas
sim, porque lá habita a tua mãe e eu preciso que alguém controle o seu poder.
Como te esqueces? Como te podes esquecer da destruição que quase dizimou aquela
raça? Há um tratado entre os povos Cratwer, não interferir no mundo dos humanos
em troca de paz para os dois lados. Eles podem não ter poder, mas inconscientemente
controlam outros poderes que desconhecem haver em Artarä. Este tratado é tão
antigo como tu e se hoje existes foi para que o tratado fosse respeitado pela
tua mãe.
- Já me tinha esquecido que fui concebido como um
cabrito no pasto. Interessante saber que os teus adoráveis amigos te exigem que
abandone Artarä quando sou eu o equilíbrio daquele planeta. Engraçado saber que
eles mandam para lá os seus filhos para aprender as melhores artes de
estratégia e aplicam em prática as suas magias com os humanos e puderem
divertir-se na sua colónia de férias com as virgens raptadas e depois venham
dizer que não lhes interessa a subsistência de Artarä. Engraçado saber também
que estás tão cego que ainda nem te apercebeste que me chamaste há dias e só
consegui ouvir-te hoje. Parece que há alguém que não me deseja aqui em cima. E
eu pergunto: que mais tenho feito em Artarä senão comandar em nome do teu reino
pela paz dos dois planetas? Se preferisse o poder de minha mãe já teríeis um
planeta de filhos de Oghtêrj raçados com os seus cães.
- Insolente, ouças ameaçar-me? Sou teu pai, teu rei.
Não julgues que por seres meu filho varão que te sentarás naquela cadeira, não
enquanto me desafiares como me fazes desde sempre. Enquanto estiveres deste
lado estás jubilado ao meu poder e ordem – disse gritando bem de frente do meu
rosto apontando para uma cadeira vazia, tão vazia que consegui ver o prodígio
da desgraça que cairia sobre ela.
A sua magia revelou-se púrpura em seu redor numa aura
que fez todos refugiarem-se atrás de qualquer coisa. Ninguém o enfrentaria num
momento daqueles. Tharterä estava silenciosa.
- Nunca quis a tua cadeira pai, é bastante desconfortável
e não é a cadeira da nossa verdadeira casa. Lembraste? Quanto aos teus amigos
diz-lhes que se estiverem desagradados com os meus atos, terei todo o gosto em
lhes mostrar o que os seus próprios filhos praticam em Artarä. E para a próxima
que me chamem a mim para exporem os seus desagrados sobre a minha pessoa, eu
quero ver se eles terão a coragem de me enfrentar.
Virei as costas àquele que mais amo e respeito, deixando-o gritar
o meu nome até se transformar numa melodia agonizante. Meu bravo irmão Fkejjkl
seguiu-me até à alta torre, a mágica Hallvau (a passagem dos deuses) para onde
seguiria de imediato para Artarä. Era demasiado perigoso abandonar
prolongadamente aquele planeta, nas mãos de minha adorada mãe, sempre
pretensiosa em conquistar as terras acima do seu reino, libertando as horrendas
e nojentas criaturas que de vez em quando tinha de forçar ao seu buraco. Ciumenta,
desgovernada e maldosa, estava sempre desejosa de fazer meu pai soar o grito de
guerra. Amor dissera em tempos um padre dos humanos, apenas consegui soar uma
gargalhada que se ouviu em Dorskay, a terra abaixo do solo onde um lugar meu
permanece à minha espera, em constante espera.
- Cratwer, Cratwer, espera. Espera um pouco, não vás
já.
- Tenho de partir irmão sabes disso – reiterei enquanto
o meu irmão abraçara-me. Um arrepio tomou-me e receei a morte deste irmão que
amo.
- O pai falou sem pensar, não te zangues com ele. Tem
havido muita pressão, sabes como é. Os deuses têm-se reunido, eles acham que
não tens feito o suficiente. Ao que parece és tu que andas a brincar por lá.
- A brincar? Sabes o que enfrentei ontem? Um Zargh¨s,
não persistiu no ataque contra mim porque reconheceu a Gkäwes. Mas duvido que
ele volte a recuar numa próxima vez. Ando a ser perseguido. Ontem se não
estivesse na guerra de Mîsk acredito que, parte daquelas gentes, teriam sido
totalmente dizimadas.
- Um zargh’s? Como é possível? – reclamava enquanto os
olhos abriam-se num espanto medroso- Eles estão todos presos e outros
adormecidos aqui em Tharterä. Isso é grave. Porque não contaste ao pai?
- Tu que tens estado permanentemente a seu lado, não
notas a diferença no pai? Alguém lhe fala ao ouvido, uma língua venenosa que o
está a enfeitiçar.
- Tu sempre tiveste outro olhar, parte do poder de tua
mãe, eu não percebo nada dessas coisas. Mas irmão, o que queres insinuar?
Uma conspiração contra Tharterä?
- Uma conspiração que visa chegar a Artarä. Um zargh’s
não foi liberto pela minha mãe, eu teria sentido se ela o quisesse fazer.
- Quem libertou esse zargh’s sabia que não abandonarias
aqueles humanos. Duvido que não venhas a ter mais problemas por isso. Estás a querer
dizer que foi alguém de Tharterä? Nem ouses repetir isso nestas paredes. Foste
apanhado numa armadilha, disso não restam dúvidas.
- Pensa, não me estão a deixar entrar em Tharterä,
aparece-me um zargh´s, antigo soldado dos deuses. De onde vieram eles? Só pode
vir de Tharterä. Aqueles que existem em Artarä estão sob minha guarda e
vigília. E aquele conhecia a espada, aquela que, me foi designada no meu
nascimento. Apenas os zargh’s que foram derrotados na antiga guerra dos deuses no
poderio de Ginralkar conhecem a espada e esses, estão todos presos aqui nos
calabouços sob a ordem de nosso pai, o rei. Alguém com influência em Tharterä libertou um
dos maiores poderes que os deuses podem utilizar para dizimar uma raça. Não me julgues
louco ou fraco. Alguém quer acabar com o tratado de paz. Tem cuidado contigo,
julgo que ninguém está a salvo aqui em Göwer.
- Sinto-me exasperado. Na assembleia última foram-te
feitas acusações que o pai não assinou. Mas ele não espera nada disto, nem
desconfia. Como pode a presença de um zargh’s passar-lhe ao lado?
- Quem fez essas acusações?
- Não me é perm…
- Fala, quem fez essas insinuações? - perguntei num esgar arrepiante.
- Tertha e Zimilas.
- Claro, mais velhos que a lua de Brar. Já deviam ter
partido para o planeta dos que não têm mais nada para fazer, sentados num banco
de pedra a olhar um universo de raças e beber licor de dizâmo, tão doce fruto.
- Um licor de frutas só existente em Strej feito pelos
druidas de Morgîl, uma delícia. Julgas que a conspiração vem assinada por eles?
- Não. Tiveram oportunidade de mudar o tratado e escolher
o poder de Tharterä. Nunca aconteceu, sempre respeitaram o oráculo e as runas.
Julgo que a conspiração vem de um poder novo. Os deuses fazem tantos filhos que
já nem lhes conhecem o rosto. E nosso irmão onde estava?
- Não sei, não me lembro de o ver no conselho. Anda
muito ocupado com os seus escribas e a pesquisar sobre o passado. Pára com esse
olhar inquisidor, nosso irmão não te deseja qualquer mal, ainda que andem
sempre às turras. Continua o teu bom trabalho irmão, gostava de voltar para
casa.
- Gostava que isso fosse possível. Ainda sinto a dor da
fuga em Morghîl. Se não tivesse sido chamado por minha mãe, teria sido feito
prisioneiro ou morto nos xadrezes do maldito Ginralkar.
- Quando me falaste na conspiração, não me falaste que
poderia ter sido ele o seu autor. Não faz muito tempo que tentou entrar em Artarä
e ainda fez estragos. Se não fosse a tua mãe, já lá nada existia.
- Neste mundo de poder, brinca-se um jogo arriscado, duvido
que Ginralkar tenha o discernimento de se arriscar. Além disso, chegar a mim
através de um simples zargh´s e dos seus cães? O pretexto é distrair do
verdadeiro autor deste ataque e claro se me matarem torna-se tudo mais fácil. O
jogo da política: meu senhor rei faz um tratado com a minha senhora rainha, a
minha senhora rainha faz um tratado com Ginralkar e eu sou detestado por todos
porque eu sou a tinta que faz manter a existência daqueles contratos. O meu
sangue de nascido tingiu aqueles pergaminhos. Enquanto eu viver, todos são
obrigados a obedecer ao tratado ou a guerra rolará entre e para todos os deuses,
porque eu tenho o poder igual ao de todos. Uma rebelião que detestarei deixar
como herança. Naquela altura julguei ter sido Ginralkar a entrar em Artarä, mas
hoje não tenho tanta certeza. Não lhe cheguei a ver o rosto, e as insignias podem
muito bem ser forjadas. Eu pergunto: o que haverá em Artarä para que todos os
deuses o desejem?
- Apanhar-te numa armadilha, raptar-te, matar-te. Realmente,
quem ganharia com isso neste momento sem violar o tratado?
- Não sei, talvez poder? Mais poder Àquele que desconhecemos
haver na gema de Artarä? Mas é o que eu vou descobrir. Se algum zargh´s tiver a
coragem de me enfrentar e de conseguir levar-me, podes pensar em aplicar o teu treino,
porque os teus poderes não vão chegar.
- Cratwer….espera e eu? – passos repetidos ecoaram pelo
extenso corredor.
- Olha a minha adorável irmãzinha, a princesa mais
bonita de todos os planetas – e era, não havia dúvidas disso. Beijei-lhe a
testa enquanto esta me mordia o queixo e se deitava no meu ombro.
- Tenho saudades tuas Cratwer, eu e a minha litsa
queremos ouvir mais histórias.
- A tua boneca sente a minha falta? É de espantar nunca
me sorri.
- Ela gosta de ti mano. Olha só o que eu sei fazer…
O truque de magia da minha irmã revelou um futuro poder
que receara se não fosse bem controlado. As argolas de fogo apareceram
salientes sob as suas pequenas mãos enquanto o seu olhar incendiava.
Depois de uns avisos e de umas risadas parti para Artarä, meu destino, minha prisão.
imagem 1: batkya

Mais outro capitulo de Os filhos de Fgör. o terceiro dos teus contos :)
ResponderEliminarGostei muito do que li,embora tenha receio que estes mundos entre planetas possam causar alguma confusão a um leitor menos atento.
No entanto uma breve explicação num próximo capitulo, penso que poderá resolver a questão.
Continua Amiga, cá estarei para ler e seguir as tuas histórias.
Bjs e boas escritas
Olá miga,
ResponderEliminarBem que maravilha, intriga, conspiração, poderes mágicos, um universo rico sem a menor duvida e com personagens que nos deixam curioso.
Penso que a Caminhante aponta uma solução interessante, convem teres um resumo dos acontecimentos anteriores, ajuda imenso, quanto ao resto impecável ;)
Bjs e continua a partilhar a tua escrita :D