Num emaranhado de sonhos, as imagens começaram a surgir
sob a forma de enigma. O lugar era estranho assim como os sons que dele
advinha. Num detalhe fabuloso, dei por mim numa floresta abundante, onde as
flores cresciam num vaiar de felicidade, onde os ramos e folhagem se misturavam
num prazer saudoso.
Ali naquele lugar, tudo era mágico. As flores pareciam
omitir um ligeiro som, simples e belas notas musicais formando uma graciosa
melodia.
Enquanto explorava o espaço sentia uma sensação de bem-estar única,
soava-me a um lugar familiar onde todas as coisas abraçavam a minha presença.
Num instante a seguir, surgia uma silhueta desfocada por entre uma ramagem
afastada, meio escondida no meio das enormes plantas que circundam o caminho
que tomo. Não identifiquei a silhueta e continuei a deambular por aquele lugar
maravilhoso.
Eu saboreava aquele sonho misterioso mas era certo que, mesmo em
sonhos, quando viajamos até este lugar, é porque existe uma qualquer mensagem a
retirar, um aviso, uma informação. Eu senti-o tão certo como sentia o bater do
meu coração acelerado. Continuei a descer um pequeno carreiro, apoiando-me em
ramos previamente estendidos para a minha passagem, as folhas largas das
plantas selvagens recuavam no vento mandante e lá me emaranhei num outro mundo
que não o meu, aguardando qualquer sinal.
Na estepe pude vislumbrar um extenso mar de cor, um
manto de flores variadas, um jardim, bem lá ao longe. E um brilho não comum chamava-me
àquele lugar. Então caminhei por carreiros, cruzei caminhos, e quando dei por
mim andava em círculos, não conseguia sair da floresta e percebi pelas minhas
pegadas que já tinha passado por todos aqueles lugares. Respirei frustrada. Até
que um ruído me sobressaltou.
Olhei examinando e procurando a possibilidade de
perigo. Estar a sonhar não significa que nada me possa acontecer, ainda mais,
quando passamos para um outro mundo, onde as brumas do nosso se afasta e se
mostra a magnificência de outros lugares, encantados certamente. Não tendo encontrado
a sua origem retirei-me daquele lugar e procurei um outro caminho por onde
seguir. Os ramos das árvores eram antigos e sentia que me observam, ouvia os
sussurros de umas árvores para as outras. Muito em breve, aquele ruído surdiu
no meio da floresta e um vento recente passou-me junto do corpo e então eu
vi-o.
Um belíssimo e enorme corvo que se curvava num tronco
de uma árvore bem lá no alto. Voou três vezes sobre mim, corvejou alto e
intensamente enquanto voava em direção ao norte e recuava, voltava a voar sobre
mim e pairou no ramo da árvore bem próximo do meu rosto. Olhei-o com surpresa.
Era o corvo mais bonito que já tinha vislumbrado. Lembrava-me que os corvos
eram símbolo de maus presságios e avisos de morte. Aquele, no entanto, que de
enormes asas se vangloriava num céu observador, com as asas cintilantes num tom
preto azulado de que muito se orgulhava, tinha um ar sereno, bondoso com um
porte de senhor da floresta. Ornamentava um ligeiro cordão de prata com um
símbolo redondo com uma gravura de folhas rodadas em círculo nele gravado.
Talvez este corvo seja o guardião daquele lugar mágico ou guardião das almas
que nele caminhava? Arrisquei chegar mais perto daquele maravilhoso ser.
- Nobre corvo sabes
o caminho para chegar aquele jardim? Podes-me levar lá? - Perguntei nos meus
olhos luzentes de curiosidade.
O corvo de asas brilhantes voltara aos céus repetindo o
voo por cima de mim em direcção ao norte, deixando um rasto da sua cor para não
me perder. Segui-o tão rápido quanto as minhas pequenas pernas o permitiam,
sentindo os músculos tensos da adrenalina. Chegada à orla da floresta o corvo
grasnou e desapareceu em direcção do que me pareceu um gigante de pedra.
Um colossal
castelo erguera-se na minha fronte. Iluminado por um raio de sol exuberante, esse
fantástico castelo sobrepunha-se sobre um extenso rio de águas brandas. O corvo
grasnou novamente e continuei a segui-lo enquanto controlava a ansiedade. O
castelo estendia-se sobre o lago como uma ponte fechada com inúmeras torres e
varandas.
As torres sublimes estendiam-se pelo cumprimento do rio até ao outro
lado. As suas muralhas eram graciosas e enamoradas, erguendo-se num céu bem
alto como se estivessem prestes a levantar voo. Subi um pequeno monte para
chegar aos gigantescos portões. Não se ouvia qualquer som, senão o do corvo que
me anunciava a quem quer que fosse que lá vivesse.
O portão abriu-se sem esforço. Entrei para o átrio sentido os nervos em alerta em cada pedaço do meu corpo
trémulo.
Os pássaros voavam bem lá no alto espectadores desta aventura que eu
nem sei. Quando cheguei perto da entrada principal, pude vislumbrar a beleza
daquele lugar, as paredes beijadas de rosas e trepadeiras que davam cor à nudez
das paredes de pedra, longas extensões de cor vestindo o castelo de uma beleza
exuberante. Olhei com atenção os motivos desenhados na porta principal,
símbolos estranhos ao mundo dos homens. Empurrei com força a porta e esta
rangeu naquela estrutura ecoando por todo o seu composto.
Vagueei pelo grande salão, observando as folhas das
árvores que entravam pelas janelas nuas, dançando com o vento amante naquele
lugar. Arrisquei subir as longas escadas. Não se ouvia mais nenhum som, apenas
aquele que eu própria fazia com os meus passos. Debrucei-me sob uma varanda que
me dava uma vista imensa da floresta sã e viva. Podia ver umas montanhas ao
longe com um anel de nuvem rodando ligeiramente no seu pico, o rio que apesar
de brando, revelava vida nas águas límpidas e serenas. Respirava-se um ar
tranquilo.
Até que surgiu um pequeno felino, grande em comparação
com os da sua espécie, com o pêlo cor creme, naquela cor, desenhavam riscas
ordenadas ligeiramente num castanho mais escuro. Na sua pequena cabeça ostentava
uns símbolos únicos de uma posição importante. Um autêntico guerreiro erudito
de quatro patas. Esperava-me no meio de um corredor imenso de janelas do
tamanho de 2 homens e meio e de varandas seguras por colossais colunas. Do
outro lado corriam inúmeras portas, fechadas ocultando os seus mistérios. Cheguei
perto do felino, e este falou-me num tom doce.
- Saudações corajosa alma. Sê muito bem-vinda ao
castelo de mont’Guiklwer. Eu sou Twarlik, guardião do grande castelo. Respeitosamente
cara alma te pergunto, que te traz aqui?
Respirei tão fundo que ouvi todo o meu corpo naquele que
me parecia o movimento mais longo da minha vida.
- Saudações nobre guardião. Por razões que desconheço,
fui trazida a este castelo. Procuro o meu medalhão símbolo da minha casa e
talvez a resposta esteja num jardim que vislumbrei do interior da floresta, já
que um brilho estranho vindo de lá captou a minha atenção. Segui um sumptuoso
corvo que me trouxe aqui e acabei por encontrar este maravilhoso castelo e não
sei como encontrar esse tal jardim. Talvez me possas ajudar se assim o
entenderes.
- O teu instinto está correcto. O teu medalhão está no
jardim num terraço infinito deste castelo. Um lugar onde só é possível lá
chegar com anuência. Importa agora saber se mereces ostentá-lo. Conheces o
significado das imagens gravadas no teu medalhão cara senhora?
- Perdão querido guardião o meu conhecimento em
especifico assunto é menor. Confesso não conhecer a origem do símbolo da minha
casa e não me atrevo arriscar qualquer analogia. Somente sei o que meu pai me
permitiu. Contara-me em tempos a história da nossa família que sempre viveu nas
herdades do sul na costa do grande mar, guardando as suas praias e as suas
pequenas ilhas. Por longas décadas garrearam desde as terras da fronteira até à
costa para expulsar inimigos antigos, que já lá não estão.
- Essa história é recente, muito recente comparada com
aquela que conta como o primeiro homem do teu sangue chegou às terras de que
teu pai hoje é rei. Mas, o significado do símbolo do medalhão, nada tem a ver
com guerras terrenas. Por isso estás aqui, foi-te destinada uma demanda. Em
breve, muito vai mudar nas herdades do sul, ver-te-ás num abismo sem fim e
precisarás do teu medalhão para salvares as tuas origens, mas para isso, tens
de merecer o sacrifício dos teus antepassados, tens de entender o mistério do
medalhão. Por isso, foste trazida aqui a este mundo, onde nada parece o que é.
- Uma demanda? Que vai acontecer na herdade? –
perguntei horrorizada. Estava a par de algumas situações imediatas que
colocavam em risco o meu povo, a minha família, a minha herdade. E do pouco que
sabia devia ao meu querido mestre que nas suas lições acabara por gerar em mim
alguma atenção para um perigo iminente.
- Sê paciente. Não desesperes, és forte e por isso
estás aqui. Mas tens de provar que és aquilo que esperam de ti. Estás preparada
Myna? Estás preparada para seres testada?
- Se é importante para a salvação da herdade, do meu
povo, da minha família, então não importa o que sinto, tem de ser feito.
- Muito bem. Não espero outra coisa de ti. Despois
desta prova começa a tua demanda. Vou entoar uma canção de 3 quadras. Em cada
quadra terás a resposta para abrires somente três das 12 portas do castelo.
Tens de abrir as portas certas. Lá dentro terás as tuas lições.
- Só três portas de quaisquer das 12? O que acontece se
não conseguir caro guardião? – as lágrimas ameaçaram vencer-me, picando-me como
agulhas afiadas num rosto quente de preocupação. “Quanto maior o poder, maior a responsabilidade”, dizia o meu
coração em tom de segredo, palavras de sábios que ouvira em criança.
- Não podes pensar que não consegues, isso limitar-te-á
os sentidos. Porém, se preferes saber, se não abrires as portas certas, ficarás
perdida no labirinto do castelo. O medalhão irá desvanecer-se num tempo
infinito sem vida, onde ninguém mais passará de um para o outro mundo, e não
haverá forma de salvar a herdade, o teu povo e a tua família. Não é isso que
queres pois não Myna?
- Não, não posso deixar que isso aconteça – se o meu
evento fosse tão determinado como as minhas palavras, então tudo correria bem,
mas o meu coração não dava tréguas e batia numa velocidade que me perturbava o
pensamento e raciocínio.
- Quando chegares à terceira porta, terás o teu jardim.
Nele procura o teu medalhão. Muita atenção minha filha e boa sorte. Precisamos
de ti.
O guardião começara a cantar uma doce melodia. Nas
paredes do castelo entoavam as notas musicais que lhe davam vida e força. A
música parecia entrar dentro do meu corpo elevando-o. Então o pequeno felino foi
desvanecendo à medida que a música terminava e eu ficara escutando e decorando
as suas palavras:
As
borboletas cintilam
Na
prisão ordenada
As
suas cores são de marfim
E
amam a alvorada
Coração
dentro, coração fora
Recolhe-me
no teu amor
As
espadas são tuas guardiãs
Levanta-as
com fé e esplendor
O
lobo assombra a noite com o seu uivar
O
cavalo vitaliza a força e humildade
Ergue-te
meu herdeiro
Sou
eu a tua entidade
Amiga, só agora tive oportunidade de vir ler mais um pouco deste conto fantástico :)
ResponderEliminarEstou a gostar muito e fiquei cheia de curiosidade para saber se Myna conseguirá ou não passar as provas :)
Continua Carla, tens aqui uma fã ^_^
Bjs e boas escritas
Ois amiga, também me passou este texto e logo onde temos a presença de um nobre corvo :D
ResponderEliminarGostei, mais uma vez surpreendido com a qualidade e da variedade que apresentas nos teus textos, agora temos o desvendar de enigmas com quadras, excelente ;)
Continua que aguardo com curiosidade o avançar das aventuras de Myna :)
Bjs