terça-feira, 13 de agosto de 2013

IIº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



Num emaranhado de sonhos, as imagens começaram a surgir sob a forma de enigma. O lugar era estranho assim como os sons que dele advinha. Num detalhe fabuloso, dei por mim numa floresta abundante, onde as flores cresciam num vaiar de felicidade, onde os ramos e folhagem se misturavam num prazer saudoso.

Ali naquele lugar, tudo era mágico. As flores pareciam omitir um ligeiro som, simples e belas notas musicais formando uma graciosa melodia. 

Enquanto explorava o espaço sentia uma sensação de bem-estar única, soava-me a um lugar familiar onde todas as coisas abraçavam a minha presença. Num instante a seguir, surgia uma silhueta desfocada por entre uma ramagem afastada, meio escondida no meio das enormes plantas que circundam o caminho que tomo. Não identifiquei a silhueta e continuei a deambular por aquele lugar maravilhoso. 

Eu saboreava aquele sonho misterioso mas era certo que, mesmo em sonhos, quando viajamos até este lugar, é porque existe uma qualquer mensagem a retirar, um aviso, uma informação. Eu senti-o tão certo como sentia o bater do meu coração acelerado. Continuei a descer um pequeno carreiro, apoiando-me em ramos previamente estendidos para a minha passagem, as folhas largas das plantas selvagens recuavam no vento mandante e lá me emaranhei num outro mundo que não o meu, aguardando qualquer sinal. 

Na estepe pude vislumbrar um extenso mar de cor, um manto de flores variadas, um jardim, bem lá ao longe. E um brilho não comum chamava-me àquele lugar. Então caminhei por carreiros, cruzei caminhos, e quando dei por mim andava em círculos, não conseguia sair da floresta e percebi pelas minhas pegadas que já tinha passado por todos aqueles lugares. Respirei frustrada. Até que um ruído me sobressaltou.

Olhei examinando e procurando a possibilidade de perigo. Estar a sonhar não significa que nada me possa acontecer, ainda mais, quando passamos para um outro mundo, onde as brumas do nosso se afasta e se mostra a magnificência de outros lugares, encantados certamente. Não tendo encontrado a sua origem retirei-me daquele lugar e procurei um outro caminho por onde seguir. Os ramos das árvores eram antigos e sentia que me observam, ouvia os sussurros de umas árvores para as outras. Muito em breve, aquele ruído surdiu no meio da floresta e um vento recente passou-me junto do corpo e então eu vi-o. 

Um belíssimo e enorme corvo que se curvava num tronco de uma árvore bem lá no alto. Voou três vezes sobre mim, corvejou alto e intensamente enquanto voava em direção ao norte e recuava, voltava a voar sobre mim e pairou no ramo da árvore bem próximo do meu rosto. Olhei-o com surpresa. Era o corvo mais bonito que já tinha vislumbrado. Lembrava-me que os corvos eram símbolo de maus presságios e avisos de morte. Aquele, no entanto, que de enormes asas se vangloriava num céu observador, com as asas cintilantes num tom preto azulado de que muito se orgulhava, tinha um ar sereno, bondoso com um porte de senhor da floresta. Ornamentava um ligeiro cordão de prata com um símbolo redondo com uma gravura de folhas rodadas em círculo nele gravado. Talvez este corvo seja o guardião daquele lugar mágico ou guardião das almas que nele caminhava? Arrisquei chegar mais perto daquele maravilhoso ser.

 - Nobre corvo sabes o caminho para chegar aquele jardim? Podes-me levar lá? - Perguntei nos meus olhos luzentes de curiosidade.

O corvo de asas brilhantes voltara aos céus repetindo o voo por cima de mim em direcção ao norte, deixando um rasto da sua cor para não me perder. Segui-o tão rápido quanto as minhas pequenas pernas o permitiam, sentindo os músculos tensos da adrenalina. Chegada à orla da floresta o corvo grasnou e desapareceu em direcção do que me pareceu um gigante de pedra. 

Um colossal castelo erguera-se na minha fronte. Iluminado por um raio de sol exuberante, esse fantástico castelo sobrepunha-se sobre um extenso rio de águas brandas. O corvo grasnou novamente e continuei a segui-lo enquanto controlava a ansiedade. O castelo estendia-se sobre o lago como uma ponte fechada com inúmeras torres e varandas.  
As torres sublimes estendiam-se pelo cumprimento do rio até ao outro lado. As suas muralhas eram graciosas e enamoradas, erguendo-se num céu bem alto como se estivessem prestes a levantar voo. Subi um pequeno monte para chegar aos gigantescos portões. Não se ouvia qualquer som, senão o do corvo que me anunciava a quem quer que fosse que lá vivesse. 

O portão abriu-se sem esforço. Entrei para o átrio sentido os nervos em alerta em cada pedaço do meu corpo trémulo. 

Os pássaros voavam bem lá no alto espectadores desta aventura que eu nem sei. Quando cheguei perto da entrada principal, pude vislumbrar a beleza daquele lugar, as paredes beijadas de rosas e trepadeiras que davam cor à nudez das paredes de pedra, longas extensões de cor vestindo o castelo de uma beleza exuberante. Olhei com atenção os motivos desenhados na porta principal, símbolos estranhos ao mundo dos homens. Empurrei com força a porta e esta rangeu naquela estrutura ecoando por todo o seu composto. 

Vagueei pelo grande salão, observando as folhas das árvores que entravam pelas janelas nuas, dançando com o vento amante naquele lugar. Arrisquei subir as longas escadas. Não se ouvia mais nenhum som, apenas aquele que eu própria fazia com os meus passos. Debrucei-me sob uma varanda que me dava uma vista imensa da floresta sã e viva. Podia ver umas montanhas ao longe com um anel de nuvem rodando ligeiramente no seu pico, o rio que apesar de brando, revelava vida nas águas límpidas e serenas. Respirava-se um ar tranquilo.

Até que surgiu um pequeno felino, grande em comparação com os da sua espécie, com o pêlo cor creme, naquela cor, desenhavam riscas ordenadas ligeiramente num castanho mais escuro. Na sua pequena cabeça ostentava uns símbolos únicos de uma posição importante. Um autêntico guerreiro erudito de quatro patas. Esperava-me no meio de um corredor imenso de janelas do tamanho de 2 homens e meio e de varandas seguras por colossais colunas. Do outro lado corriam inúmeras portas, fechadas ocultando os seus mistérios. Cheguei perto do felino, e este falou-me num tom doce.

- Saudações corajosa alma. Sê muito bem-vinda ao castelo de mont’Guiklwer. Eu sou Twarlik, guardião do grande castelo. Respeitosamente cara alma te pergunto, que te traz aqui?
Respirei tão fundo que ouvi todo o meu corpo naquele que me parecia o movimento mais longo da minha vida.

- Saudações nobre guardião. Por razões que desconheço, fui trazida a este castelo. Procuro o meu medalhão símbolo da minha casa e talvez a resposta esteja num jardim que vislumbrei do interior da floresta, já que um brilho estranho vindo de lá captou a minha atenção. Segui um sumptuoso corvo que me trouxe aqui e acabei por encontrar este maravilhoso castelo e não sei como encontrar esse tal jardim. Talvez me possas ajudar se assim o entenderes. 

- O teu instinto está correcto. O teu medalhão está no jardim num terraço infinito deste castelo. Um lugar onde só é possível lá chegar com anuência. Importa agora saber se mereces ostentá-lo. Conheces o significado das imagens gravadas no teu medalhão cara senhora?

- Perdão querido guardião o meu conhecimento em especifico assunto é menor. Confesso não conhecer a origem do símbolo da minha casa e não me atrevo arriscar qualquer analogia. Somente sei o que meu pai me permitiu. Contara-me em tempos a história da nossa família que sempre viveu nas herdades do sul na costa do grande mar, guardando as suas praias e as suas pequenas ilhas. Por longas décadas garrearam desde as terras da fronteira até à costa para expulsar inimigos antigos, que já lá não estão. 

- Essa história é recente, muito recente comparada com aquela que conta como o primeiro homem do teu sangue chegou às terras de que teu pai hoje é rei. Mas, o significado do símbolo do medalhão, nada tem a ver com guerras terrenas. Por isso estás aqui, foi-te destinada uma demanda. Em breve, muito vai mudar nas herdades do sul, ver-te-ás num abismo sem fim e precisarás do teu medalhão para salvares as tuas origens, mas para isso, tens de merecer o sacrifício dos teus antepassados, tens de entender o mistério do medalhão. Por isso, foste trazida aqui a este mundo, onde nada parece o que é. 

- Uma demanda? Que vai acontecer na herdade? – perguntei horrorizada. Estava a par de algumas situações imediatas que colocavam em risco o meu povo, a minha família, a minha herdade. E do pouco que sabia devia ao meu querido mestre que nas suas lições acabara por gerar em mim alguma atenção para um perigo iminente.

- Sê paciente. Não desesperes, és forte e por isso estás aqui. Mas tens de provar que és aquilo que esperam de ti. Estás preparada Myna? Estás preparada para seres testada?

- Se é importante para a salvação da herdade, do meu povo, da minha família, então não importa o que sinto, tem de ser feito.

- Muito bem. Não espero outra coisa de ti. Despois desta prova começa a tua demanda. Vou entoar uma canção de 3 quadras. Em cada quadra terás a resposta para abrires somente três das 12 portas do castelo. Tens de abrir as portas certas. Lá dentro terás as tuas lições.

- Só três portas de quaisquer das 12? O que acontece se não conseguir caro guardião? – as lágrimas ameaçaram vencer-me, picando-me como agulhas afiadas num rosto quente de preocupação. “Quanto maior o poder, maior a responsabilidade”, dizia o meu coração em tom de segredo, palavras de sábios que ouvira em criança.

- Não podes pensar que não consegues, isso limitar-te-á os sentidos. Porém, se preferes saber, se não abrires as portas certas, ficarás perdida no labirinto do castelo. O medalhão irá desvanecer-se num tempo infinito sem vida, onde ninguém mais passará de um para o outro mundo, e não haverá forma de salvar a herdade, o teu povo e a tua família. Não é isso que queres pois não Myna?

- Não, não posso deixar que isso aconteça – se o meu evento fosse tão determinado como as minhas palavras, então tudo correria bem, mas o meu coração não dava tréguas e batia numa velocidade que me perturbava o pensamento e raciocínio.

- Quando chegares à terceira porta, terás o teu jardim. Nele procura o teu medalhão. Muita atenção minha filha e boa sorte. Precisamos de ti.

O guardião começara a cantar uma doce melodia. Nas paredes do castelo entoavam as notas musicais que lhe davam vida e força. A música parecia entrar dentro do meu corpo elevando-o. Então o pequeno felino foi desvanecendo à medida que a música terminava e eu ficara escutando e decorando as suas palavras:

As borboletas cintilam
Na prisão ordenada
As suas cores são de marfim
E amam a alvorada

Coração dentro, coração fora
Recolhe-me no teu amor
As espadas são tuas guardiãs
Levanta-as com fé e esplendor

O lobo assombra a noite com o seu uivar
O cavalo vitaliza a força e humildade
Ergue-te meu herdeiro
Sou eu a tua entidade


2 comentários:

  1. Amiga, só agora tive oportunidade de vir ler mais um pouco deste conto fantástico :)
    Estou a gostar muito e fiquei cheia de curiosidade para saber se Myna conseguirá ou não passar as provas :)
    Continua Carla, tens aqui uma fã ^_^
    Bjs e boas escritas

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  2. Ois amiga, também me passou este texto e logo onde temos a presença de um nobre corvo :D

    Gostei, mais uma vez surpreendido com a qualidade e da variedade que apresentas nos teus textos, agora temos o desvendar de enigmas com quadras, excelente ;)

    Continua que aguardo com curiosidade o avançar das aventuras de Myna :)

    Bjs

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