sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A lenda de Torfel - Iº. Parte





O pulsar a história……
                                                                      

Em tempos podia-se ouvir dizer que Torfel era apenas um ponto de vigília de guerreiros que vinham do norte pelas grandes montanhas, assolados pelos ventos frios e das neves crescentes do inverno. Mas aquele lugar é também uma estância de proteção dentro das altas e amuralhadas torres, com casebres quentes e seguros. O seu povo é constituído apenas por cinco famílias numerosas que mantêm aquele espaço vivo e confortável. Em todas as estações, novos guerreiros entram pelos pesados portões trazendo as suas feridas das guerras que conheciam a sul. Torfel está disposta na fronteira com o pólo norte e afastado da fronteira com o pólo sul no grande continente, longe das pretensões de guerras territoriais, sendo usada apenas pelos guerreiros mais chegados daquele que é neste tempo, também senhor das terras do norte, nascido e criado ali naquelas muralhas. E portanto, não negligencia a proteção do pequeno povo que nele habita, servindo daquele lugar como tantos outros e anteriores senhores que dispuseram dele para os seus bons desígnios.
 
Entre o espaço amuralhado existe uma floresta abundante, onde crescem inúmeras ervas raras para infusões e tratamentos de doenças, e árvores antigas e de grande porte, confortam o espaço de antiga sabedoria e beleza. Um lago pouco profundo proveniente de uma cascata livre num refúgio de uma montanha fronteira à muralha, rompe em força rejuvenescendo o pasto farto que se estende na fronte do grande casebre a oeste. E ali, mesmo por cima da montanha, numa colina recuada, e moldada na própria pedra da montanha, ergue-se um velho castro, um ponto alto onde a vista é perfeita e periférica de todo o espaço, utilizado por dois guardas rotativos para a vigiar de eventuais perigos ou aproximações de gentes.

Torfel tem sido mantida em paz e governo, um lugar puro sem perigos. Porém, o seu senhor está a velho e doente. Uma doença que estes tempos não sabem curar e mais piorou com a experiência de artifícios curativos, que se mostram errados perante a situação efémera que o senhor se encontra. A um destino certo nenhuma cura pelas mãos do homem o pode mudar.
 
A nova estação traz o cheiro a guerra, pretensões territoriais de outras gentes, senhores e não senhores.

 Torfel não é só uma boa estância para viver e governar no seu todo perfeito de gente e da floresta especial que lá nasce, mas, pelo ponto onde se situa. Um ponto estratégico perfeito entre as terras do sul e as do norte, perfeito para ingressões de guerra para conquistar os dois polos, uma passagem segura pelas grandes montanhas fora do perigo de ataques surpresa e esconderijos com um alcance longínquo das paisagens. Ali mesmo ao lado, corre ainda um rio abundante onde barcos de pouca vergadura podem navegar, e por onde já se viram passar e neles levar espiões e pequenas guardas para ataques às vilas circundantes.

Torfel é assim, uma terra desejada por aqueles que vêm nela apenas um degrau de alcance a outros objetivos. Se há data ela se verga intata e segura, não se deve apenas à proteção do seu bom senhor, mas um segredo que lá habita. A história de uma lenda que deixou vestígios em Torfel, e que, por ela, poucos se atreveram e atrevem a assaltar o espaço com uma sabedora infortunada ousadia.

Mas os tempos vão mudando, assim como as verdades acreditadas. E não há certas verdades que façam desistir a concretização de certos objetivos, sobretudo por aqueles que são enjeitados de fé ou pouco crentes nas sabedorias antigas de cada lugar onde outrora pisaram outro tipo de gentes, outro tipo de conhecimentos. Pois se o tempo muda os povos e as suas tradições, o mundo não apaga as suas pegadas, muito menos as esconde em buracos fundos da sua vontade. O conhecimento sempre fez, faz e fará parte da construção do mundo e dos seus habitantes. A livre escolha prende-se a qual seguir, e tal escolha é uma bênção que o mundo permite em todos os tempos. Ainda assim, não diminui nem desvanece tantos outros saberes, nem se esquece das existências de outras gentes.

Estes saberes antigos são abraçados por todos aqueles que crescem em Torfel, mas amaldiçoados por quem governa a grande cidade a sul. Refira-se que, a grande cidade a sul, é habitada por gentes errantes de outros povos, de outras cidades, refugiados ali, numa linha pegada ao revolto mar, com as suas pontes e torres elevadas sobre o solo e ruas estreitas afinadas de pequenas e altas casas. O conjunto de tradições e diferentes saberes misturavam-se irreversivelmente, criando uma diversidade de vivências que aos poucos foram proibidas e reestruturadas pelo senhor do sul. Práticas de religiões, costumes e tradições foram proibidos sob pena de morte. Inquisição era prática comum para restauração da ordem e vivência comum daquele grande e diversificado povo. Ao início dos tempos foi-lhes dado a escolha entre partir ou converter-se à semelhança do senhor do sul. Poucos partiram, outros morreram descobertos ou acusados, inocentes ou culpados, pela inquisição mortífera dos tempos seguintes e aos poucos, deixou de se pronunciar e praticar o proibido.

Uma testemunha desse tempo conseguiu fugir da grande cidadela. Encontrada pelo senhor do norte à beira de um esgotamento físico que a levaria à morte certa, foi trazida para Torfel. Uma anciã que traz a sabedoria dos velhos tempos àquela terra de boas vontades e através dela, se esclarecem espaços de história ocultos ou esquecidos, porque há muito tempo, não havia norte nem sul, o continente era um só espaço de tradições iguais e honestas.

Hoje, o desejo de juntar o continente é um sonho passado, um desejo desenhado apenas para histórias de encantar, servindo para relembrar as antigas histórias e criaturas que um dia pisaram aqueles pastos, aqueles vales, aqueles rios, montanhas e tamanhas terras firmes e férteis. O continente foi dividido por eras de governos. Torfel é o pouco que resta do tempo anterior a essa catástrofe da história. Um santuário para alguns, uma aberração para outros, é em comum um espaço desejado. Torfel é nome de lenda e a sua história, poucos nela acreditam.

A guerra está à porta e nada serve questionar a veracidade desta lenda, mas para alguns, tomar contato com a sua real essência trará um núcleo de acontecimentos inesperados que ditará uma nova era, pela destruição ou salvação, Torfel vai ser posta à prova muito em breve.


(imagem: http://www.gdefon.com/download/Mountains-waterfall-landscape-village-home-fantasy/333683/1920x1290)

4 comentários:

  1. Olá,

    Ai sempre a cobiça do homem por terras boas, não percebendo que apenas estão a destruir o que de bom têm.

    Gostei e fiquei curioso por saber mais sobre Torfel,sem duvida :)

    Bjs e continuação de boas escritas :D

    PS: Gostava de ler o teu comentário ao livro que acabaste de ler :D

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  2. Amigo Fiacha, obrigado pelas tuas palavras :D

    A ambição não é apenas um pecado, é também, das maiores razões para a destruição de um mundo inteiro. Torfel para uns, é apenas um local estrategicamente abundante para chegar a objetivos territoriais, mas nele habita uma lenda que irá relembrar os novos homens de um mundo antigo, aquele que nunca deveria ter sido esquecido, com as suas regras, crenças e lições..
    Um homem pode e deve ser sempre surpreendido pelo desconhecido, para que seja abraçado pela humildade e abraçar por inteiro a grandeza da vida.
    Vai passando, em breve publico a continuação do conto ^_^
    Beijinhos

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  3. Olá amiga
    Mais uma bela história cheia de encantos e mistérios :)
    Gostei da descrição que fazes de Torfel e das suas gentes, das suas vivências e encantos.
    A guerra tem muito de negativo sem qualquer dúvida, mas se nos conseguirmos abstrair deste facto, ela também traz sempre um novo desenvolvimento. Um pós-guerra é sempre mais rico em várias perspectivas.
    Se bem que este facto não anula todo o mal que a guerra trás durante o tempo que dura, infelizmente.
    Vou ler a 2ª parte :)
    beijinhos e continua amiga

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    1. Obrigado amiga ^_^
      Tudo requer renovação, sem ela não há saudável evolução. Torfel é um lugar que eu própria estou a descobrir e estou a gostar de conhecer. O mundo esconde encantos ansiosos por serem descobertos, mas...apenas se os valorizarmos e os respeitarmos..a natureza é mãe e divindade, por isso percorrer estes lugares encantados requer uma alma amadurecida ou então será cega aos encantos da magia que a própria natureza cria :)
      Beijinhos..obrigado pelo carinho :)

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