O pulsar a história……
Em tempos podia-se ouvir
dizer que Torfel era apenas um ponto de vigília de guerreiros que vinham do
norte pelas grandes montanhas, assolados pelos ventos frios e das neves
crescentes do inverno. Mas aquele lugar é também uma estância de proteção
dentro das altas e amuralhadas torres, com casebres quentes e seguros. O seu
povo é constituído apenas por cinco famílias numerosas que mantêm aquele espaço
vivo e confortável. Em todas as estações, novos guerreiros entram pelos pesados
portões trazendo as suas feridas das guerras que conheciam a sul. Torfel está
disposta na fronteira com o pólo norte e afastado da fronteira com o pólo sul
no grande continente, longe das pretensões de guerras territoriais, sendo usada
apenas pelos guerreiros mais chegados daquele que é neste tempo, também senhor
das terras do norte, nascido e criado ali naquelas muralhas. E portanto, não
negligencia a proteção do pequeno povo que nele habita, servindo daquele lugar
como tantos outros e anteriores senhores que dispuseram dele para os seus bons
desígnios.
Entre o espaço amuralhado
existe uma floresta abundante, onde crescem inúmeras ervas raras para infusões
e tratamentos de doenças, e árvores antigas e de grande porte, confortam o
espaço de antiga sabedoria e beleza. Um lago pouco profundo proveniente de uma
cascata livre num refúgio de uma montanha fronteira à muralha, rompe em força
rejuvenescendo o pasto farto que se estende na fronte do grande casebre a
oeste. E ali, mesmo por cima da montanha, numa colina recuada, e moldada na
própria pedra da montanha, ergue-se um velho castro, um ponto alto onde a vista
é perfeita e periférica de todo o espaço, utilizado por dois guardas rotativos
para a vigiar de eventuais perigos ou aproximações de gentes.
Torfel tem sido mantida
em paz e governo, um lugar puro sem perigos. Porém, o seu senhor está a velho e
doente. Uma doença que estes tempos não sabem curar e mais piorou com a
experiência de artifícios curativos, que se mostram errados perante a situação
efémera que o senhor se encontra. A um destino certo nenhuma cura pelas mãos do
homem o pode mudar.
A nova estação traz o
cheiro a guerra, pretensões territoriais de outras gentes, senhores e não
senhores.
Torfel não é só uma boa estância para viver e governar no seu todo
perfeito de gente e da floresta especial que lá nasce, mas, pelo ponto onde se
situa. Um ponto estratégico perfeito entre as terras do sul e as do norte,
perfeito para ingressões de guerra para conquistar os dois polos, uma passagem
segura pelas grandes montanhas fora do perigo de ataques surpresa e
esconderijos com um alcance longínquo das paisagens. Ali mesmo ao lado, corre
ainda um rio abundante onde barcos de pouca vergadura podem navegar, e por onde
já se viram passar e neles levar espiões e pequenas guardas para ataques às
vilas circundantes.
Torfel é assim, uma terra
desejada por aqueles que vêm nela apenas um degrau de alcance a outros
objetivos. Se há data ela se verga intata e segura, não se deve apenas à
proteção do seu bom senhor, mas um segredo que lá habita. A história de uma
lenda que deixou vestígios em Torfel, e que, por ela, poucos se atreveram e
atrevem a assaltar o espaço com uma sabedora infortunada ousadia.
Mas os tempos vão
mudando, assim como as verdades acreditadas. E não há certas verdades que façam
desistir a concretização de certos objetivos, sobretudo por aqueles que são
enjeitados de fé ou pouco crentes nas sabedorias antigas de cada lugar onde
outrora pisaram outro tipo de gentes, outro tipo de conhecimentos. Pois se o
tempo muda os povos e as suas tradições, o mundo não apaga as suas pegadas,
muito menos as esconde em buracos fundos da sua vontade. O conhecimento sempre
fez, faz e fará parte da construção do mundo e dos seus habitantes. A livre
escolha prende-se a qual seguir, e tal escolha é uma bênção que o mundo permite
em todos os tempos. Ainda assim, não diminui nem desvanece tantos outros
saberes, nem se esquece das existências de outras gentes.
Estes saberes antigos são
abraçados por todos aqueles que crescem em Torfel, mas amaldiçoados por quem
governa a grande cidade a sul. Refira-se que, a grande cidade a sul, é habitada
por gentes errantes de outros povos, de outras cidades, refugiados ali, numa
linha pegada ao revolto mar, com as suas pontes e torres elevadas sobre o solo
e ruas estreitas afinadas de pequenas e altas casas. O conjunto de tradições e
diferentes saberes misturavam-se irreversivelmente, criando uma diversidade de
vivências que aos poucos foram proibidas e reestruturadas pelo senhor do sul.
Práticas de religiões, costumes e tradições foram proibidos sob pena de morte.
Inquisição era prática comum para restauração da ordem e vivência comum daquele
grande e diversificado povo. Ao início dos tempos foi-lhes dado a escolha entre
partir ou converter-se à semelhança do senhor do sul. Poucos partiram, outros
morreram descobertos ou acusados, inocentes ou culpados, pela inquisição
mortífera dos tempos seguintes e aos poucos, deixou de se pronunciar e praticar
o proibido.
Uma testemunha desse
tempo conseguiu fugir da grande cidadela. Encontrada pelo senhor do norte à
beira de um esgotamento físico que a levaria à morte certa, foi trazida para
Torfel. Uma anciã que traz a sabedoria dos velhos tempos àquela terra de boas
vontades e através dela, se esclarecem espaços de história ocultos ou
esquecidos, porque há muito tempo, não havia norte nem sul, o continente era um
só espaço de tradições iguais e honestas.
Hoje, o desejo de juntar
o continente é um sonho passado, um desejo desenhado apenas para histórias de
encantar, servindo para relembrar as antigas histórias e criaturas que um dia
pisaram aqueles pastos, aqueles vales, aqueles rios, montanhas e tamanhas
terras firmes e férteis. O continente foi dividido por eras de governos. Torfel
é o pouco que resta do tempo anterior a essa catástrofe da história. Um
santuário para alguns, uma aberração para outros, é em comum um espaço
desejado. Torfel é nome de lenda e a sua história, poucos nela acreditam.
A guerra está à porta e
nada serve questionar a veracidade desta lenda, mas para alguns, tomar contato
com a sua real essência trará um núcleo de acontecimentos inesperados que
ditará uma nova era, pela destruição ou salvação, Torfel vai ser posta à prova
muito em breve.
(imagem:
http://www.gdefon.com/download/Mountains-waterfall-landscape-village-home-fantasy/333683/1920x1290)

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Olá,
ResponderEliminarAi sempre a cobiça do homem por terras boas, não percebendo que apenas estão a destruir o que de bom têm.
Gostei e fiquei curioso por saber mais sobre Torfel,sem duvida :)
Bjs e continuação de boas escritas :D
PS: Gostava de ler o teu comentário ao livro que acabaste de ler :D
Amigo Fiacha, obrigado pelas tuas palavras :D
ResponderEliminarA ambição não é apenas um pecado, é também, das maiores razões para a destruição de um mundo inteiro. Torfel para uns, é apenas um local estrategicamente abundante para chegar a objetivos territoriais, mas nele habita uma lenda que irá relembrar os novos homens de um mundo antigo, aquele que nunca deveria ter sido esquecido, com as suas regras, crenças e lições..
Um homem pode e deve ser sempre surpreendido pelo desconhecido, para que seja abraçado pela humildade e abraçar por inteiro a grandeza da vida.
Vai passando, em breve publico a continuação do conto ^_^
Beijinhos
Olá amiga
ResponderEliminarMais uma bela história cheia de encantos e mistérios :)
Gostei da descrição que fazes de Torfel e das suas gentes, das suas vivências e encantos.
A guerra tem muito de negativo sem qualquer dúvida, mas se nos conseguirmos abstrair deste facto, ela também traz sempre um novo desenvolvimento. Um pós-guerra é sempre mais rico em várias perspectivas.
Se bem que este facto não anula todo o mal que a guerra trás durante o tempo que dura, infelizmente.
Vou ler a 2ª parte :)
beijinhos e continua amiga
Obrigado amiga ^_^
EliminarTudo requer renovação, sem ela não há saudável evolução. Torfel é um lugar que eu própria estou a descobrir e estou a gostar de conhecer. O mundo esconde encantos ansiosos por serem descobertos, mas...apenas se os valorizarmos e os respeitarmos..a natureza é mãe e divindade, por isso percorrer estes lugares encantados requer uma alma amadurecida ou então será cega aos encantos da magia que a própria natureza cria :)
Beijinhos..obrigado pelo carinho :)