Olhando o sul…..
A noite
transforma os pensamentos em segredos negros, medos que se misturam em visões
turvas de um futuro incerto. A maioria dos homens sonharia assim, com batalhas
não vividas, outras pressentidas, outras apenas desejadas. Nas noites errantes
pelas estradas, o pensamento do guerreiro não seguiria outro rumo senão o da
guerra. Nos últimos três anos, Adan não conhecia outra vida senão a de
contínuas batalhas pela liberdade das terras do sul. Neste pólo, era uma
constante desafiar o rei com batalhas nas cidades em volta da cidadela. O sul
estava em guerra dentro de si mesmo, quando a pretensão do rei era reunir todos
os seus homens e partir à conquista das terras mais a norte. Não havendo união
no seu próprio pólo, o sul encontra-se com sérios problemas políticos, o que
tem custado inúmeras perdas e prejuízos ao reino. A revolta pela inquisição
ainda presente, provocou um motim em algumas aldeias, julgadas condenadas pelo
passado de perseguições. Nasceu uma causa com força e vontade maior em lutar
contra a opressão e impetuosidade do governo. Apesar do pequeno batalhão de
Adan assegurar, desde esse tempo, a segurança destas terras esquecidas, o rei
não tem poupado tal desobediência e mandou a sua melhor guarda para acabar
definitivamente com o problema. Um espião de confiança de Adan, que vive na
cidadela, fizera chegar a grave e rápida noticia.
Adan não
dormia há já duas noites, absorto em pensamentos, olhando para mapas e
conferenciando com os seus mais leais homens. Um destes homens, Galderc, tinha
o seu chefe em conta, a sua lealdade e orgulho vibravam como centelhas nos seus
olhos e ouvia paciente toda uma história que recaia sobre a causa que os
levaram até ali. E agora acompanhava-o para tomar a derradeira decisão do
futuro da sua causa. Adan era um chefe ponderado, respeitado por toda a
Esmania, o grande continente. Seu pai garreara há muitos anos pela liberdade do
povo do sul e o sangue de seu filho pulsa com a vibração dos seus antepassados
à concretização de tal fim. Mas Adan está cansado das inúmeras baixas dos seus
homens e duvidava que qualquer estratégia dentro das terras do sul iria de
alguma forma ser suficiente para salvar os seus protegidos e trazer a paz a
todo o seu povo. As pessoas enfraqueciam perante as ameaças vindas do reino e
alguns desistiam de querer juntar-se à causa e submetiam-se à opressão. Adan
não tem homens suficientes para fazer frente às próprias guardas do rei.
Chegava o momento de ser arrojado e fazer um acordo com o rei do norte, inimigo
do reino do sul.
Galderc
obrigara Adan a beber um golo de hidromel e depois entrou na tenda onde estavam
reunidos todos os chefes do seu batalhão e outros leais conselheiros. Na sua
mão, um rolinho de pergaminho tinha sido aberto e lido inúmeras vezes nos
últimos dias.
- Trago-vos
notícias de Lorä – começou Adan por dizer – uma mensagem escrita diretamente
pelo conselho do rei. Propõe entregarmo-nos as armas e lutar sob a sua ordem ou
virá varrer-nos literalmente para o mar - todos se inquietaram no seu lugar.
Elsos deixou
fugir uma gargalhada sonora, e outros seguiram a graça do momento. Adan
continuou sério exigindo aos seus homens que se restabelecem.
continuou -
Recebi informações de que saíra de Lorä há cinco dias um batalhão de 15000
homens e que já se vislumbram na estrada do rei a caminho da vila – todos
assumiram uma postura mais séria ao que todos visionam decorrer dali – não
terei outra solução que pedir o auxilio do rei do norte. Estamos completamente
cercados. Não vou desistir daquilo por que tenho lutado durante estes anos.
- Um
batalhão de três para um Adan, não temos a mínima hipótese – dizia o seu
conselheiro mais velho, afrontado com a possibilidade do confronto.
- Bem, não
me parece ser uma solução – dizia Elsos um dos cinco chefes do batalhão de Adan
recompondo-se nervosamente após olhar o mapa de Esmania - é mais uma
alternativa para juntar duas vontades com o mesmo fim. Mas não estás à espera
que o rei do norte te aceite de braços abertos, esperará uma armadilha e
aniquilar-te-á assim que entrares nas suas terras, ainda que, o teu nome seja respeitado
por todo o continente.
- É uma
ideia insana Adan. E o que mais me preocupa é que conhecendo-te desde tenra
idade, essa ideia não é fruto de desespero, mas sim, inteira vontade em
reunires-te às terras do norte. A guerra com o norte será de uma estrutura
colossal comparada com o que andamos a lutar – confessava o seu melhor amigo
Galderc, profundamente calmo, com as mãos fechadas em punho no cimo da mesa
afastando um mapa desordenado – que estás a pensar exatamente fazer? Virar as
costas à lealdade com os teus antepassados?
Adan baixou a cabeça olhando mais uma vez o extenso mapa à sua frente, parecia reunir todos os seus pensamentos e relembrar todas as pontas da sua decisão.
- Quero que
entendam que amadureci esta ideia em muitos dias e noites - levantou
ligeiramente a voz, determinada e audaz - temos poucos homens e gentes
corajosas a lutarem ao nosso lado pela liberdade de Lorä, aquela cidadela que o
rei mudou à sua vontade. Bem sei que desonrarei o meu sangue juntando-me ao rei
do norte. Mas sabeis, que a minha oposição dirige-se apenas ao rei do sul e ao
seu governo, não a Lorä em si, terra de meu sangue. Lembrem-se que o rei do
norte ainda segue os velhos costumes, portanto, vivem da mesma forma que todos
nós, ainda que o façamos em cuidada discrição. Quanto a isto não posso ser
condenado pela minha linhagem por tal decisão.
- Porque
foges? Temes a inquisição? – perguntara Patro, o conselheiro.
Todos já tinham presenciado os atos imaculados e injustos da inquisição, e alguns teriam no sentido na própria pele. Aos poucos, tornava-se uma vingança pessoal do Rei do que o próprio propósito em criar uma linha de pensamento comum. E os esquadrões do Rei tinham legitimidade para aniquilar qualquer suspeita de desobediência à sua autoridade. À pequena denúncia, ainda que, injusta e irreal, o alvo era imediatamente abatido, bem como, os seus familiares que lhe fossem cúmplices. As violações eram práticas comuns e aceite pelo Rei aos seus esquadrões. Uns dos numerosos esquadrões do Rei aproveitavam as suas viagens para assaltos a famílias abastadas em troca da vida. Facto mais tarde conhecido pelo Rei e facto poupado ao seu esquadrão que continua a sua prática errante.
- Temo pelo
meu povo, seja, o mal que os possa assolar - dizia Adan absorto em memórias e
lembranças de passados negros. Voltando-se para o mapa, assinalou com pena o
caminho para o norte - O norte desconhece a intenção do nosso rei em partir à
sua conquista, tenho conhecimento de conspirações e traições dentro de alguns
fiéis da casa do Rei do norte. Irei pedir asilo em troca de informações e
colocarei os meus homens à sua ordem - os seus homens olhavam-no atento - Já
enviei um homem a Torfel para apresentar a minha proposta. Situa-se
praticamente a meio do caminho e parece-me ser o melhor local para negociar com
o Rei.
-
Torfel? – vociferou alto Tatus, outro chefe do batalhão de Adan – Uma
negociação estratégica num lugar assombrado? Nem sabes se existe, enviaste o
homem para uma longínqua extensão de campos perdidos entre as migalhas das
montanhas. E como pensas deslocar-nos para o norte? O batalhão do rei deverá
chegar em menos de uma lua. Ou partimos já ou ainda estaremos a levantar o
acampamento quando chegar a inquisição.
- Eu já vi
Torfel Tatus - tranquilamente Adan apoiou-se na mesa juntando as mãos como que
contando uma história ao seu fiel companheiro de lutas - não só existe como
requer o teu maior respeito. De facto é um lugar que ultrapassa toda e qual
compressão humana. E, nunca deves subestimar o que não conheces. Dentro daquele
lugar não há guerra e o rei do norte a mantém assim, será um lugar neutro para
ouvir a nossa proposta. Quanto ao que iremos fazer, esta noite chegam dois
barcos vindos de Ardulia, levarão as vossas mulheres, crianças e homens que não
estejam capazes de lutar. Com eles mandarei Sardeg com alguns homens para os
protegerem.
Tatus deixou-se cair no entusiasmo de uma empresa que começava a ganhar uma proporção bem mais arriscada e prática do que a esperada.
Tatus deixou-se cair no entusiasmo de uma empresa que começava a ganhar uma proporção bem mais arriscada e prática do que a esperada.
- Estás
louco Adan. Foste pedir ajuda à tribo de Zamessa? – Elsos parecia zonzo com tal
ideia, agitando-se no banco que rugia ao peso do homem - A tribo de Zamessa é
um povo sem lealdade que vive numa ilha a oeste da cidadela de Lorä, como podes
ter a certeza que assim que os barcos levantarem para o mar não sejam as nossas
gentes entregues direitinhas nas mãos do rei? Além de que, utilizarão as nossas
gentes como reféns?
- Paguei um
bom preço para que eles cumpram com o combinado e só paguei para utilizar os
barcos, não para eles conduzirem os mesmos, muito menos irem lá dentro. Já me
devias conhecer melhor Elsos. Tento ser o mais ponderado possível mas sei
sacrificar a minha vida pela vida dos outros, mesmo que para isso tenha de ir
contra os meus valiosos princípios. Estamos em guerra e não é minha vontade que
o nosso povo sofra com as minhas decisões. E, digamos que tenho um tesouro bem
guardado que pertence àquela tribo. O seu valor é uma garantia para que Zamessa
cumpra o acordado - a voz de Adan era firme e decidida. Todos começaram acenar
afirmativamente que aquela seria certamente a melhor solução para a situação em
que se encontravam. Elsos e Tatus ainda franziam o sobrolho, falando entre si
de consequências graves se Zamessa cometesse o erro de os denunciar ao Rei e
deitar por terra a empresa.
Galderc
sentindo algumas dúvidas no ar, levantara-se e dirigiu-se a Adan. Todos se
silenciaram.
- Esta é uma
decisão urgente - dizia sobrepondo a sua mão no ombro de Adan - Só nos espera a
morte ou a compreensão daquele que nos permita juntar à sua ordem. Eu confio
nas tuas decisões, nunca nos deixaste ficar mal e se hoje estes poucos homens e
estas gentes, que dormem lá fora, são livres, deve-se à tua luta para ver as
terras do sul finalmente livres. Já perdeste mais do que a maioria dos homens
que estão aqui, e sei que não nos deixarás ficar mal. Eu confio-te a minha vida
como o tenho feito até agora. Devo-te a minha vida e a dos meus. E se a tua
luta foi considerada loucura ao início por alguns, é hoje a prova de que vale a
pena lutar pela liberdade, estes três anos são resultado disso, tens honrado o
nome de teu pai sem quaisquer dúvidas.
Todos se
levantaram perante o discurso de Galderc que recuara agora de um abraço de
companheirismo a Adan. Um pouco reticentes com o plano, mas seguros a quem
confiar a sua lealdade e por quem seguirão os seus passos, todos brandiram a
espada e levantaram em unânime acordo e oraram:
- Por Adan!
Que a dama luminosa estenda o seu manto e proteja o nosso chefe, que o senhor
dos carvalhos lhe traga a sabedoria no sono, que o senhor do ferro lhe confira
a espada mais poderosa e que a dama da justiça lhe assegure a honrosa vitória.
Eu te sigo, eu te confio e por ti luto pela liberdade de Lorä e de todas as
terras do Sul.
Adan deixou
fugir um sorriso orgulhoso, mas o franzido da sua testa revelava o peso das
suas decisões e o desejo de as ver honestamente cumpridas. Todas as criaturas
silenciaram-se perante a oração destes homens.
- Meus caros
fiéis companheiros partimos de madrugada para Torfel. Espero que, quando lá
chegarmos, nos seja concedido abrigo e seja aceite a nossa proposta. Que o
senhor dos carvalhos mostre os nossos bons desígnios ao rei do norte e que
permita que lhes juntemos na sua luta. O tempo é de viragem e parece-me que o
futuro das gentes de Esmania vai sofrer uma profunda reviravolta. Seja eu o seu
causador ou não, que o futuro seja de paz e de bonança.
A noite
caíra em absoluta ânsia pelo desejo bravo de Adan e ao longe no mar, um ponto
luminoso se mostrou.
- Os barcos
chegaram Adan – confirmara Galderc – e com a sua chegada começa um caminho novo
pela liberdade de Lorä. Espero estarmos fora do perigo ao final do dia.
- O caminho
ainda é longo Galderc – revelou Adan tranquilo - Que a mão da Dama luminosa nos
proteja. Mas uma coisa te posso garantir, em Torfel há perigos maiores a recear
que o próprio rei do sul. Se não formos aceites, a morte será certeira
encurralando-nos entre dois juízes. Revistam os barcos, não quero ter surpresas
desagradáveis, partimos assim que os barcos levantarem âncora.

As aventuras continuam, neste mundo criado por ti amiga Carla :)
ResponderEliminarAgora deixas-nos com a "água na boca", falta a continuação. Será que o povo de Adan se salva e se a união com o Norte vai ser um sucesso?
muito bom, parabéns :)
beijinhos
O futuro é incerto...há que dar cada passo do destino com fé, cuidado e muita coragem... :) pelo caminho vivem-se coisas boas e más, erradas e umas certas...o final dependerá da forma como se vive tudo isto :D
EliminarObrigado amiga :D
Ois miga :)
ResponderEliminarOra diz-me uma coisa o conto vai ter continuação ? É que se tiver preferia ler tudo junto, nem que lê-se tudo outra vez, pois de cada vez que volto a ler a continuação da história acabo por me esquecer do que li :D
E já agora parabéns pelo novo visual, está lindo ;)
Bjs
OLá amigo Fiacha :)
EliminarSim o conto vai ter continuação..:) muito bem..então eu escrevendo e depois aviso quando estiver tudo sim? ^_^
Obrigado :D
Beijinhos