Viajando pelo sul...
A chegada do outono foi denunciada pela queda das
suas primeiras e ligeiras folhas tingidas de um tom alaranjado com traços
acastanhados, que desfilam num voo curto até ao conchego de um extenso manto no
solo fresco da floresta de Torfel. O vento pareceu pressentir a chegada do
jovem herdeiro do norte e assobiou baixinho pela vila, agitando as portadas do
grande casebre. Imediatamente a criada da casa, a senhora grande e mais velha
dos originais moradores da vila, acorreu à sua horta para colher legumes
frescos para o almoço. A noite ainda governa meio céu a sul, e uma candeia foi
levada para iluminar o caminho. As hortaliças estão viçosas e frescas nesta
hora. Antes de as colher, a Senhora grande juntou as mãos, fechou os olhos e
esperou um pouco. Passado uns momentos colheu tudo o que era necessário. A sua
cesta ia já carregada quando ouviu o Sr. Olipo afiar as facas para preparar as
carnes para o guisado. No rebentar do primeiro raiar do dia, já a vila estava
levantada tomando o seu lugar e função coordenada de uma vila obediente aos
seus costumes. Enquanto se dirigia ao casebre, a Senhora grande vislumbrava já
em toda a vila, o fumo que saía das chaminés que através dele traziam os
cheiros frescos e requintados de pão cozido, sopas, guisados, o que tornava o
ambiente mais delicioso.
- Bom dia Senhora – acenava levemente a padeira
atarefada.
- Bom dia Mena – respondia educadamente a Senhora
grande, com um sorriso luminoso no rosto.
O dia iluminou-se, agitando-se de mansinho do vento
da madrugada que já passara, não se sentindo já a maresia da noite. O sol
aqueceu ligeiramente o tempo.
- Hoje é um bom dia para o gado sair à rua –
sussurrou a Senhora ao vento sossegado.
Belmo, o pastor da vila, logo saiu de rompante da
sua pequena casa ajeitando o manto nas costas e seguiu direito ao celeiro para
preparar os utensílios para encaminhar o gado aos campos férteis de Torfel.
Atrás de si, uns pequenos passitos acelerados segui-o, era a sua pequena
filhota, Evera que curiosa seguia seu pai de perto por todo o lado. Já o gado
percorrera a distância até ao casebre quando a senhora grande reapareceu à
porta.
- Bom dia Senhora, vamos levar o gado. O dia vai
estar radioso não acha? – falou o homem de meia idade, forte e audaz. Daria um
bom guerreiro, pensou a Senhora.
- Bom dia Belmo. Bom dia Evera, é de facto um bom
dia para levar o gato ao pasto. A madrugada foi-nos favorável.
A senhora colocou as suas mãos sobre o regalo
saudável daqueles animais, fechou os olhos e orou. Repetiu depois o gesto sobre
Belmo e Evera. Após uns momentos, entregou o farnel a Evera e cada um seguiu o
seu caminho.
- Um dia abençoado para vós, ide em paz – sussurrou
a Senhora elevando a mão em direção dos que partiam para mais um dia de
trabalho nas terras de Torfel.
Meio dia já passara. Por esta hora, terminadas as
primeiras tarefas do dia, os habitantes de Torfel dirigem-se à grande pedra
circular à entrada da vila, reunindo-se e dispondo-se nessa forma aguardando o
momento repetido e sucessivo de todos os dias. A senhora grande já tinha
chegado uns momentos antes e já tinha disposto sobre a pedra os quatro
elementos da vida. Recuou até ao círculo, uniu as mãos, fechou os seus olhos e
numa prece, todos deram as mãos. Antes de fechado o círculo, juntou-se o
recém-chegado herdeiro do rei do norte com os seus fiéis companheiros.
O herdeiro era sobretudo um habitante originário de
torfel e era visto mais dessa forma, sem qualquer formalismo. Ali, todos são
uma grande e unida família, com os seus direitos e deveres a que nenhuma posição
hierárquica tem mais peso. A igualdade é conceito prioritário dos seus
costumes.
A senhora grande sorriu sem olhar os
recém-chegados. Com o círculo fechado, começou a oração do dia, o agradecimento
e reconhecimento de uma vida que apenas poderá ser saudável se for gozada em
pleno com a corrente que nos liga ao mundo, à água, terra, ar e fogo. De
coração aberto é cumprido pela Senhora o ritual diário à mãe natureza pelas
graças que são concedidas aos utentes dos seus recursos.
A água
que é vida, purifica e faz crescer - (levanta a taça da água e bebe)
A terra
que é vida, alimenta e multiplica - (levanta a coroa de flores, colocando-a
sobre a sua cabeça, levanta uma baga e mastiga)
O ar que
é vida, transporta e faz renascer - (acende o incenso de alecrim que ardendo
espalha-se sobre o circulo)
O fogo
que é vida, transforma e protege - (acende a vela que permanecerá acesa até o
final do dia)
Após um silêncio todos prestam uma oferenda sobre a
pedra circular, um pão, um pedaço de carne, um legume, uma peça de fruta e um
pedaço de linho. Tudo se embrulha sobre a pedra num pano bordado.
Um dar e receber necessário para a sustentabilidade
de cada vida. O momento é curto mas sentido de forma pura e profunda. Dadas as
graças, o ritual terminou. Abraços e cumprimentos se dirigiram a Dairan, o
herdeiro do rei do norte e aos seus companheiros. Voltadas as costas, já as
oferendas desapareceram sobre a pedra, restando apenas o pano bordado.
- Senhora – dirigiu-se finalmente Dairan,
beijando-lhe a mão, com um sorrindo rasgado pelo reencontro – a vossa bênção.
- Meu querido Dairan – este baixou graciosamente a
cabeça recebendo a bênção da Senhora - dou graças por ter ver tão saudável e um
homem bonito já feito. E esse sorriso que me faz lembrar tanto o teu pai – com
os olhos tão límpidos e alegres, a senhora abraçou as mãos de Dairan nas suas –
vens em boa hora, precisamos de falar. As pedras falaram-me esta noite,
aproxima-se um inverno rigoroso para as gentes de Torfel.
Dairan gelou perante aquelas palavras. As pedras do
círculo apenas se manifestavam quando havia manifesto perigo para Torfel.
Precipitando as notícias causadas possivelmente pelo estado de saúde de seu
pai, Dairan acenou apenas à Senhora.
- Quando o sol descer a meia tarde traz os teus
conselheiros e vem-te reunir aqui no círculo. Esta noite as pedras vão-te
falar. És o herdeiro destas terras, tens o dever de as guardar com a tua vida –
falava ternamente e de forma profunda a Senhora grande - Mas se a minha visão
não me atraiçoa, a tua luta estender-se-á para lá das terras de Torfel. Tens de
te preparar meu filho.
Louvados os chegados e cumprimentados os amigos,
rapidamente todos se dirigiram até ao salão do grande casebre e foi servido o
almoço delicioso, onde todos cooperaram na elaboração e distribuição da
refeição. Apesar de preocupado, Dairan aproveitou a refeição afastando os
receios e discussões que a sua mente já colocara a caminho. Hoje seria o dia de
revelações e se o seu instinto não o atraiçoasse como pudera ter atraiçoado a
visão da mãe do seu pai, a sua vida iria mudar muito em breve, e havia uma
centelha de morte que permanecia sobre si.
Saudoso deixou o casebre e seguiu o trilho da vila
em direção à floresta de Torfel, deixando-se fluir nos seus sons e cheiros.
Inspirou cada partícula e agradeceu puder voltar àquele lugar, àquela paz
momentânea que o destino permitiu.
Empoleirado numa árvore alta e astuta, Smerlo
agitou as suas pernas, para a frente, para trás, cruzando e descruzando os seus
pezitos como uma dança voada, assobiando uma canção que aprendera com o seu
pai. As suas pequenas mãos rosadas, criavam com afeito o que viria a ser um
pequeno pássaro esculpido de um ramo forte, oferecido por aquela árvore que o
deixara cair naquela manhã para alegria do seu pequeno. Era já o terceiro
passarito que este esculpia em tão pouco tempo e o seu ninho estava quase
pronto. Os galhos tinham já sido depositados em forma de covinha junto de um
ramo protegido do vento e da chuva, e lá dentro já se personificam dois
pássaros, os pais pássaros. Faltavam os dois filhotes. Portanto, o almoço teria
de ficar para mais tarde. Já tinha orado à mãe natureza, bem mais cedo que todos
os outros habitantes da vila, e não queria de forma alguma, deixar a meio a sua
oferenda à árvore mestra que se regozijava de precioso presente. Não tardara a
ser descoberto principalmente pela sua cantarola afinada, alteada pelo vento
que com ele levava um lençol de folhas que criavam e recriavam imagens da
natureza ao ritmo do assobio. Dairan chegou sorrateiro seguindo as árvores que
dançavam ao som da canção, sem qualquer força do vento para que tais se
mostrassem. Sorriu vendo o pequeno Smerlo sacudir as mãos e roupa depois de
terminado o seu orgulhoso trabalho.
- Amigo Smerlo, então que fazes aí? – perguntou
Dairan curioso vendo Smerlo guardar os utensílios que levava na bolsa que o
acompanhava sempre. Deixou-se ficar direito com as suas mãos atrás das costas
divertido pela descoberta.
- Dairan! – espreitou eufórico - eu sabia que
estavas a chegar. As folhas disseram-me, aquelas que se soltaram daquela árvore
a Madla, estás a ver? - apontava
sorridente e inquieto para a ponta da floresta – fiz um ninho para a árvore
mestra. Bem sabes que da estação passada, poucos foram os pássaros que a
visitaram e nela fizeram ninho. Esteve doente e por isso nenhum quis arriscar
levar a doença para os seus filhotes. Mas já está boa, tenho tomado conta dela
e para não ficar triste fiz-lhe um ninho para todo o ano ter companhia. Não os
ouves cantarolar? – observou o pequeno chegando-se para a frente para tornar
visível o seu ramo – já estão vivos.
Dairan mudou o ângulo e lá viu e ouviu os
pequenitos agitarem-se no ninho de galhos que Smerlo arranjou. Não precisariam
de comida se eram de madeira, mas Smerlo quis recriar a realidade,
deitando-lhes umas migalhas de pão que trouxera às escondidas da cozinha.
- Smerlo, vem desce daí, a tua mãe já chamou por ti
há já algum tempo - gesticulou Dairan na sua juventude refletida nas folhas
húmidas das árvores. O seu porte atlético e alto, não enganava a sua posição
com o seu manto vermelho que o acompanhava nas estações mais frias. Já retirara
as adagas e facas que o acompanhavam, bem como, os distintivos próprios da sua
posição hierárquica que devem ornamentar o seu manto.
- Eu deixei um recado à minha mãe. Deixei-lhe uma
folha no cimo da bancada para dizer-lhe que estaria na floresta – reclamava o
pequeno com o sobrolho franzido em trejeito.
- Pois fica sabendo – disse Dairam sorrindo ao
pequeno fazendo-lhe um calduço – que tens as árvores como tuas cúmplices porque
nenhuma delas revelou onde estavas. Dançaram a tua música e mais não disseram.
Que cúmplices tu arranjaste.
- Só não enganaram o seu rei – sorria Smerlo
saltitando enquanto se dirigiam ao grande casebre.
- Ao seu rei não Smerlo, ao seu filho. Aliás somos
todos filhos de Torfel, somos todos filhos das suas raízes e de tudo o que lhes
dá a vida – falava com jeito o herdeiro do norte, o simples Dairan naquelas
terras. Humildemente abraçou o pequeno enquanto lhe deixava um sentimento de
companheirismo e confiança que entre os habitantes de Torfel era luminoso – A
vida de Torfel que flui pelo nosso corpo tal como a Dama luminosa que traz a
vida no ar; sábia, tal como o senhor dos carvalhos que traz vida da terra;
forte e presente tal como o senhor do ferro representando pelo fogo, que como
ele queima os ingratos e impuros eliminando as suas impurezas, e por fim, justa,
como a dama da justiça que deve provar de forma límpida como a água a justiça
do mundo e deixá-la fluir nas ações dos homens. Afinal pequeno da floresta,
todos somos um pouco da terra, do fogo, do ar e da água, fluímos da sua força e
com ela devemos saber viver com respeito, humildade e honestidade.
- Só não entendo uma coisa Dairan – o que após um
aceno arriscou - Porque razão a senhora grande faz o reconhecimento quando o
sol já vai a meio do céu? – desabafa o pequeno olhando o chão de forma
pensativa.
- Primeiro as obrigações e depois as devoções –
respondeu Dairan a lição há tantos anos aprendida e repetida – no meio dia
todos os elementos estão presentes em pleno, com o seu poder e força. Em cada
hora do dia, é uma hora própria para cada coisa. Por exemplo, de manhã é a hora
indicada para apanhar os legumes frescos da horta. Ao final da tarde é a hora
para trazer o gado dos pastos, depois de alimentados entendes? Tudo tem uma
hora própria tal como as orações do dia, ainda que as possas fazer ao mesmo tempo
que fazes tantas outras coisas. Mas como fazemos a oração em grupo com a
Senhora grande, fazemo-la na melhor hora tal como as pedras indicaram. É o
momento assinalado no círculo. Sabes que a pedra é a mesa dos grandes senhores?
- Pode ser assim – continuou smerlo – mas eu
prefiro desejar boa viagem ao sol quando nasce para chegar bem a meio do céu.
Quando a senhora grande o reconhece, já eu o abracei e desejei viagem há muito
tempo. E ele vai feliz assim que vê o meu rosto na madrugada clareada.
Dairan sorriu perante a simplicidade e ingenuidade
da criança – e mais feliz fica quando nos encontra a todos a meio do caminho –
disse ainda o herdeiro - se achas que está certo não o deixes de fazer, em nada
ofende o velho costume.
- Sabes Dairan? – contou o pequeno Smerlo que
parara abruptamente em frente ao circulo de pedra – ontem durante a noite ouvi
sussurros no circulo mas não vi ninguém.
Dairan arremelgou os olhos e disfarçou olhando o
circulo iluminado por um raio de sol, lembrando as palavras da Senhora grande.
Continuou o pequeno – sei que estás a pensar e as
árvores concordam comigo. Devias juntar o conselho – e partiu para casa,
correndo e cantarolando alegremente.
- Os sinais foram provados Dairan – falava
tranquilamente a senhora grande que o esperava – Torfel sente a mudança.
Aproximou-se uma rapariga aprendiz da Senhora e
entregara-lhe um cesto cheio de flores frescas do campo.
- Obrigado Malva - acenou levemente numa graça à
jovem que recuou e desapareceu por detrás de uma casa cheia de flores coloridas
que ainda sobrevivem ao frio da noite.
A Senhora encaminhou Dairan ao círculo e juntos
seguiram em silêncio a caminho até lá. Chegados à pedra circular, grande parte
das gentes de Torfel se reuniam para ouvir falar as pedras. Muitos eram aqueles
que a sua idade já ia avançada e com eles pertencia a história daquelas terras.
Ao círculo juntou-se uma senhora idosa que Dairan reconheceu ser a que seu pai
acolhera depois de ter deixado as terras do sul.
- Caros companheiros de vida e conhecimento,
reunimo-nos aqui neste dia, chamados pelas pedras deste circulo. Os sonhos
tem-nos revelado a urgência, e com eles trouxe Dairan, responsável pelo futuro
das nossas terras, ainda que, meu filho seja ainda o Rei do Norte. Mas a hora
chega, e a cada dia, mais se junta profundamente ao senhor dos carvalhos. Irei
mais tarde prestar-lhe uma oração para que parta em paz – dizia solenemente a
Senhora grande, fazendo a introdução viral da reunião – Malva faz as cortesias
por favor.
Malva aparecera no meio do círculo e sobre a pedra
circular sobrepôs uma taça de água, em sua volta as flores do campo e uma linha
de legumes entrançados, numa ponta velas acesas e na outra ponta, incenso.
Erguendo as mãos voltadas para cima, a Senhora orou
e pediu – que os teus elementos nos sejam fiéis e nos revelem para nossas
palavras o caminho que havemos de seguir para proteção dos velhos costumes,
para a proteção das nossas terras, das nossas gentes, e porque somos um pouco
de cada elemento, a eles nos juntamos em graça para nos unirmos em prol de um
futuro comum, certo e saudável. Que estas pedras nos falem hoje e nos revelem
as indicações dos senhores de Torfel – terminada a oração, todos aguardaram em
silêncio.
A senhora grande sentou-se e gesticulou em ordem na
direção de Nadel, outro aprendiz que se levantou em direção à pedra circular.
Fechou os olhos e orou, de seguida a pedra rugiu, uma pequena ranhura se
mostrou. As suas mãos procuraram o pequeno saco feito de pele de urso e fio de
linho. Levantou o saco em direção à senhora grande que autorizou Nero a
continuar. Abriu solenemente o saco, agitou o seu conteúdo e de seguida deixou
cair as pedras na pedra circular.
- As pedras falam-nos – começou por dizer Nero –
uma morte revela-se hoje aqui na pedra. O coração do norte vai sentir uma
profunda perda e com ela os ventos vão assolar as terras do norte e com a sua
força destruir as suas casas.
- Guerra! – sussurrou um dos conselheiros.
A senhora
grande continuou silenciosa traduzindo para si o resultado das runas. Nada
revelou no seu rosto perante as primeiras revelações. Dairan encheu-se de
questões e antes da pergunta ganhar voz, Nero continuou.
- Muitos dos que sentam à mesa do rei, comem com
duas línguas e escondem as suas garras como um animal feroz pronto atacar.
Muitas portas irão fechar-se àquele que se sentará no trono do norte. Sangue
que não é sangue do norte, não se conseguirá erguer com a força dos senhores e
comandar as gentes dos velhos costumes, a antiga tábua do conhecimento.
Dairan arregalou os olhos – como não poderei
sentar-me na cadeira de meu pai? Sou legítimo herdeiro – vociferou nervoso
perante a desconfiança da sua nascença.
Tem calma Dairan – falou seriamente a Senhora
grande – as pedras não falam de ti. Parece que há outro que pretende o teu
lugar. Não é difícil adivinhar que após a morte de teu pai, o rei do sul irá
certamente querer conquistar aquelas terras. O passado nem sempre termina nele
próprio. E poucos são os senhores do norte que tal como o teu pai, ainda
respeitam os velhos costumes acima dos costumes ambiciosos do poder.
- Chegará aquele que dividirá o trono e com os
velhos costumes irão prevalecer sobre toda a Esmania. As runas parecem-se como
uma visão apenas – avançou Nero – os senhores revelam a sua vontade em reunir Esmania.
No entanto, a nova estação será demasiado rigorosa e um nevoeiro assola a visão
para o futuro.
- As runas não revelam o futuro. Significa que, tudo
dependerá de como cada um dos protagonistas do destino se moverem perante as
circunstancias – revelava a Senhora grande enquanto via a água na taça mover-se
– Dairan, és demasiado jovem para tal destino, mas vem aí uma guerra que mudará
o rosto da própria Esmania – os conselheiros agitaram-se sussurrando uns aos
outros nos seus bancos – segue imediatamente para a cidadela e reúne os
conselheiros mais leais de teu pai. E meu filho, desconfia de todos. Alguns não
te acharão capaz de enfrentar o futuro, e poderão negociar com o rei do sul, o
que muito me preocupa. As runas revelaram traição dentro da tua própria casa.
- Quando acontecerá tudo isto? É ao mesmo tempo? É
daqui a quantos anos? – perguntou Dairan à senhora grande.
Uma folha minguada e manchada de um castanho
demasiado escuro da estação que ainda agora começou, veio descendo até meio do
circulo e pairou na pedra, extinguindo-se no vento que a espalhou.
Antes da estação terminar – disse a Senhora grande
perante a revelação do senhor dos carvalhos - antes das primeiras neves e
depois das primeiras chuvas do inverno. Acontecerá tudo logo após a morte do
rei do norte. A notícia espalha-se demasiado rápido, mais para quando a
pretensão errada move-se com desejo. Demasiado rápido para o tempo que temos
para agir.
- As pedras dizem que o trono vai ser dividido, que
quer isso dizer? – perguntara Dairan a Nero.
- Nero lançara novo lançamento e traduzia o
resultado – aproximam-se gentes do sul para Torfel, mas a pretensão não me
parece ser a de guerra, mas também não revelam porque vêem.
- O que significa que não se opõem à vinda dessa
gente? – questionou a senhora grande.
- Fazem parte do enigma. Também nada dizem que
devem entrar – respondia Nero tranquilamente – devemos fazer novo lançamento
quando chegarem e explicarem o motivo da sua vinda. Parece que as intenções
ainda são irrelevantes para o que se segue, o rumo pode mudar a qualquer
momento se as vidas de cada um mudarem também. Mas se tudo correr de forma
positiva e aos bons ventos forem aceites em Torfel, simboliza que também eles
têm as rédeas do destino sobre o norte. De qualquer modo, Dairan não irá
governar sozinho o norte, o que pode significar muitos caminhos possíveis desta
guerra.
- Senhora – falou Dairan, tomado pela emoção,
preocupado, sentindo o peso de um futuro sem ponta de conselho plausível para
tomar uma decisão válida - sabeis melhor a vida que meu pai levou antes e mesmo
depois de se ter tornado rei do norte, quereis contar-me algum segredo de família?
Algum filho fora do casamento com minha adorada mãe? Será que a morte que as
pedras revelam é a minha e os abutres irão gozar do trono espezinhando o corpo
efémero de meu pai no leito com o sangue ainda quente da presença de vida? Como
será possível dividir-se um trono? Dois reis? Nem nos velhos costumes é
possível, ou será esta revelação uma metáfora de coisas sobrenaturais que não
conheço?
- As pedras revelaram-te o mesmo que me revelaram a
mim Dairan – respondeu séria e solene a Senhora – quanto ao ser possível ou não
pelos velhos costumes, estes já subsistem apenas aqui em Torfel, e se, em todo
o norte elas ainda se cumpram como uma chama ardente, é porque o seu rei assim
o quis e o seu povo também. Nada nos leva a crer que com o governo de outros os
mesmos se cumpram. Aqui em torfel, só entra quem os senhores deixarem, caso
contrário desfalecerão às suas portas e nada podemos fazer contra isso. Não
existe nenhum descendente senão tu que corra o sangue do teu pai. Mas o sangue
da minha família ainda corre por toda a Esmania, e nada te posso garantir que
não haja quem de direito tenha ao trono do teu pai, desde que, seja dado termo
a tua vida, enquanto único filho legítimo do rei. Por isso, a tua vida neste
momento é tão importante quanto Torfel. Sobre ti recai as forças dos senhores,
sobre ti recai uma coroa invisível escolhido pela história desta terra que tem
mais força do que qualquer desejo de qualquer outro em tomar o teu lugar.
Entende Dairan, a vida deve correr conforme as escrituras dos senhores, caso
contrário o rumo do mundo corre o risco de se desviar e a desordem pode ser
fatal para todos. Todo o ser tem o seu lugar próprio no mundo, a sua missão e
nada o deve mover em contrário sob pena de mudar o rumo de tantos outros e tudo
se perde num destino demasiado longo em se cumprir. Gostaria de te ver antes
mesmo de tudo acontecer, mas nada é certo quanto eu gostaria. Deves partir já
Dairan, e daqui em diante, apenas segues os caminhos de Torfel até chegares à
cidadela, a ti eles não te são ocultos e são bem mais seguros do que qualquer
outro. A tua cabeça é agora um prémio para o rei do sul.
Quando a lua atravessou os céus de Torfel, já
Dairan atravessara o trilho da montanha a caminho da Cidadela do norte. Em
breve tudo iria mudar. Continuaria Torfel a ser um lugar seguro? Será ele capaz
de proteger aquelas terras e o trono a que tem direito governar? As muitas
questões tornaram-se espinhos afiados na sua mente.
- Volta para casa filho – Dairan sentiu o
chamamento forte no seu coração. O seu passo tornou-se grave.

Sem comentários:
Enviar um comentário