sábado, 28 de setembro de 2013

Amo-te....



Desejo crescer num sonho vivo, onde possa sentir a brisa dos sentidos, agitar emoções, abraçar curiosidades, amar o atrevido e querer sempre mais o imprevisível. Porque sou feita de massa viva, de vontade em saborear o perfeito, o simples, o necessário, o diferente. Porque eu sou somente o que a minha alma constrói, sou a semente de um sonho, eu vivo, eu cresço e abraço o sonho onde habito. Em todos os momentos sou uma gota de lágrima de felicidade, sou um sorriso de contentamento, sou um gesto de esperança. 
E porque eu sou um pouco de ti, olho-te para dentro, amo-te através de um olhar que te lê a alma, amo-te através de um gesto que te abraça por inteiro, e assim desenho em ti o meu sonho vivo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

IIº. Parte - Conto: Os filhos de Fgôr - o tesouro de âmbar



A onda de transe vai tomando parte do meu corpo, enturvando-me zonzo com uma certa agonia. Rastejei até às raízes de uma árvore que me pudesse permitir melhor abrigo e aguardei a passagem. Estava a ser puxado, chamado pelo meu rei. As sombras rodearam-me até outro lugar se assumir. E lá estava o meu irmão Lygre, de braços cruzados, numa silhueta escura com um pôr-do-sol recente como pano de fundo. E aos poucos estava no reino de Tharterä, o planeta acima do sol. 

- Ainda bem que chegaste. Temos-te invocado há dias. Parece que estás a perder qualidades. Quanto mais tempo passas no mundo dos humanos mais diminuis – dizia Lygre numa postura tão impaciente que me causou um esgar.

- Chamaste-me para me dar esse recado? Eu que julguei por momentos que sentias saudades minhas irmão.

- Não sejas irónico. Foste tu que abandonaste a tua casa, não eu.

- E eu a julgar que a idade trazia maturidade…os teus dezassete anos estão-se a tornar embirrentos Lygre – este meu irmão parecia sempre distante, olhava sempre pela janela da alta torre, em direção a toda aquela extensão de reino, como se a presença dele quisesse estar em toda a parte, nas ruas, casas, campos. Sempre parecera ciente do seu papel apesar de ser o terceiro na linha ao grande trono. 

Num abraço extremoso meu irmão Fkejjkl aproximou-se retirando-me o fôlego.

- Meu bom irmão, bem-vindo sejas. O pai mandou-te chamar e não está nada contente com o que aconteceu em Artarä. Andas a meter-te em guerras que não são tuas, isso tem-no deixado preocupado – olhei-o espantado.

- Desde quando é que o pai se preocupa comigo? ah desculpa não percebi que ele estava preocupado com o seu bom nome. O mundo dos humanos é um lugar muito propenso a jogos perigosos aqui das nossas gentes, pensei que já sabias disso – ignorei o olhar de meu irmão Lygre enquanto saí daquele aposento escondido.

- Lá estás tu a defender os teus animaizinhos de estimação, também lhes coças a cabeça quando apertas-lhes o pescoço? – perguntava Lygre agitando os braços de forma infantil.

- Não, mas por acaso cheguei a coçar as costas de um guarda traidor das tuas tropas enquanto o via esvair-se em sangue.

- Bem parem lá, é sempre a mesma coisa. Vem Cratwer, o rei está usurpado pelos últimos acontecimentos.

Caminhei recompondo-me para me apresentar ao rei. Enquanto atravessámos o longo corredor da alta torre até ao baixio do salão principal, de frente para a altíssima ravina das grandes montanhas, senti olhares perigosos daqueles que esperava serem os mais fiéis da minha casa. A minha desconfiança, continuava aumentar há medida que, repensava nos acontecimentos em Artarä. Desde há algum tempo confirmara os rumores de que havia um traidor dentro da casa real, a sua identidade até agora é um mistério. Como que um tambor a tocar absorto e imponente, a porta rangeu impondo-se sonora, lembrando-me que estava em casa de deuses. Senti de imediato um respeito imposto pelo poder do grande rei.

- Por momentos julguei que estivesses esquecido do caminho para casa – falava meu pai numa voz equilibrada enquanto vazava licor num copo que brilhou ao cruzar-se com a réstia da luz solar do dia. Voltou-se para mim e vi aquela testa enrugada, a mesma que meu irmão Lygre  dizia-me sempre: vais ter problemas.

- Senhor meu rei – falei vergando-me numa respeitosa vénia esperando a bênção.

- Loyvär qui firlë – abençoou-me - fui chamado a um concelho ainda nem há 3 luas de Mër por causa do teu comportamento em Artarä e acabo de receber uma ordem da convenção de Orchï a exigir que abandones aquelas terras.

Olhei pouco espantado o meu irmão Lygre que se mantinha tão quieto quanto a sua culpa pudesse esconder.

- Perdão senhor meu rei…

- Não me interrompas. Não te chamei para te defenderes. Chamei-te para expor os factos. A deusa Rerwer mostrou-me, interpuseste numa guerra entre Ghibrär e os de D’Ewr, uma guerra que além de não ser tua, não era justa que dela tivesses participação. Por acaso lembraste que tens poderes? – gritou-me fazendo ressoar a sua indignação com um murro na mesa que se prolongou por Tharterä como um bravo trovão – se te permiti conviveres naquele planeta não foi porque achei que precisavas de te distrair com os humanos, mas sim, porque lá habita a tua mãe e eu preciso que alguém controle o seu poder. Como te esqueces? Como te podes esquecer da destruição que quase dizimou aquela raça? Há um tratado entre os povos Cratwer, não interferir no mundo dos humanos em troca de paz para os dois lados. Eles podem não ter poder, mas inconscientemente controlam outros poderes que desconhecem haver em Artarä. Este tratado é tão antigo como tu e se hoje existes foi para que o tratado fosse respeitado pela tua mãe. 

- Já me tinha esquecido que fui concebido como um cabrito no pasto. Interessante saber que os teus adoráveis amigos te exigem que abandone Artarä quando sou eu o equilíbrio daquele planeta. Engraçado saber que eles mandam para lá os seus filhos para aprender as melhores artes de estratégia e aplicam em prática as suas magias com os humanos e puderem divertir-se na sua colónia de férias com as virgens raptadas e depois venham dizer que não lhes interessa a subsistência de Artarä. Engraçado saber também que estás tão cego que ainda nem te apercebeste que me chamaste há dias e só consegui ouvir-te hoje. Parece que há alguém que não me deseja aqui em cima. E eu pergunto: que mais tenho feito em Artarä senão comandar em nome do teu reino pela paz dos dois planetas? Se preferisse o poder de minha mãe já teríeis um planeta de filhos de Oghtêrj raçados com os seus cães. 

- Insolente, ouças ameaçar-me? Sou teu pai, teu rei. Não julgues que por seres meu filho varão que te sentarás naquela cadeira, não enquanto me desafiares como me fazes desde sempre. Enquanto estiveres deste lado estás jubilado ao meu poder e ordem – disse gritando bem de frente do meu rosto apontando para uma cadeira vazia, tão vazia que consegui ver o prodígio da desgraça que cairia sobre ela. 

A sua magia revelou-se púrpura em seu redor numa aura que fez todos refugiarem-se atrás de qualquer coisa. Ninguém o enfrentaria num momento daqueles. Tharterä estava silenciosa.
- Nunca quis a tua cadeira pai, é bastante desconfortável e não é a cadeira da nossa verdadeira casa. Lembraste? Quanto aos teus amigos diz-lhes que se estiverem desagradados com os meus atos, terei todo o gosto em lhes mostrar o que os seus próprios filhos praticam em Artarä. E para a próxima que me chamem a mim para exporem os seus desagrados sobre a minha pessoa, eu quero ver se eles terão a coragem de me enfrentar.

Virei as costas àquele que mais amo e respeito, deixando-o gritar o meu nome até se transformar numa melodia agonizante. Meu bravo irmão Fkejjkl seguiu-me até à alta torre, a mágica Hallvau (a passagem dos deuses) para onde seguiria de imediato para Artarä. Era demasiado perigoso abandonar prolongadamente aquele planeta, nas mãos de minha adorada mãe, sempre pretensiosa em conquistar as terras acima do seu reino, libertando as horrendas e nojentas criaturas que de vez em quando tinha de forçar ao seu buraco. Ciumenta, desgovernada e maldosa, estava sempre desejosa de fazer meu pai soar o grito de guerra. Amor dissera em tempos um padre dos humanos, apenas consegui soar uma gargalhada que se ouviu em Dorskay, a terra abaixo do solo onde um lugar meu permanece à minha espera, em constante espera.

- Cratwer, Cratwer, espera. Espera um pouco, não vás já. 

- Tenho de partir irmão sabes disso – reiterei enquanto o meu irmão abraçara-me. Um arrepio tomou-me e receei a morte deste irmão que amo.

- O pai falou sem pensar, não te zangues com ele. Tem havido muita pressão, sabes como é. Os deuses têm-se reunido, eles acham que não tens feito o suficiente. Ao que parece és tu que andas a brincar por lá.

- A brincar? Sabes o que enfrentei ontem? Um Zargh¨s, não persistiu no ataque contra mim porque reconheceu a Gkäwes. Mas duvido que ele volte a recuar numa próxima vez. Ando a ser perseguido. Ontem se não estivesse na guerra de Mîsk acredito que, parte daquelas gentes, teriam sido totalmente dizimadas.

- Um zargh’s? Como é possível? – reclamava enquanto os olhos abriam-se num espanto medroso- Eles estão todos presos e outros adormecidos aqui em Tharterä. Isso é grave. Porque não contaste ao pai?

- Tu que tens estado permanentemente a seu lado, não notas a diferença no pai? Alguém lhe fala ao ouvido, uma língua venenosa que o está a enfeitiçar.

- Tu sempre tiveste outro olhar, parte do poder de tua mãe, eu não percebo nada dessas coisas. Mas irmão, o que queres insinuar? Uma conspiração contra Tharterä?

- Uma conspiração que visa chegar a Artarä. Um zargh’s não foi liberto pela minha mãe, eu teria sentido se ela o quisesse fazer.

- Quem libertou esse zargh’s sabia que não abandonarias aqueles humanos. Duvido que não venhas a ter mais problemas por isso. Estás a querer dizer que foi alguém de Tharterä? Nem ouses repetir isso nestas paredes. Foste apanhado numa armadilha, disso não restam dúvidas. 

- Pensa, não me estão a deixar entrar em Tharterä, aparece-me um zargh´s, antigo soldado dos deuses. De onde vieram eles? Só pode vir de Tharterä. Aqueles que existem em Artarä estão sob minha guarda e vigília. E aquele conhecia a espada, aquela que, me foi designada no meu nascimento. Apenas os zargh’s que foram derrotados na antiga guerra dos deuses no poderio de Ginralkar conhecem a espada e esses, estão todos presos aqui nos calabouços sob a ordem de nosso pai, o rei.  Alguém com influência em Tharterä libertou um dos maiores poderes que os deuses podem utilizar para dizimar uma raça. Não me julgues louco ou fraco. Alguém quer acabar com o tratado de paz. Tem cuidado contigo, julgo que ninguém está a salvo aqui em Göwer. 

- Sinto-me exasperado. Na assembleia última foram-te feitas acusações que o pai não assinou. Mas ele não espera nada disto, nem desconfia. Como pode a presença de um zargh’s passar-lhe ao lado?

- Quem fez essas acusações?

- Não me é perm…

- Fala, quem fez essas insinuações? - perguntei num esgar arrepiante.

- Tertha e Zimilas.

- Claro, mais velhos que a lua de Brar. Já deviam ter partido para o planeta dos que não têm mais nada para fazer, sentados num banco de pedra a olhar um universo de raças e beber licor de dizâmo, tão doce fruto.

- Um licor de frutas só existente em Strej feito pelos druidas de Morgîl, uma delícia. Julgas que a conspiração vem assinada por eles?

- Não. Tiveram oportunidade de mudar o tratado e escolher o poder de Tharterä. Nunca aconteceu, sempre respeitaram o oráculo e as runas. Julgo que a conspiração vem de um poder novo. Os deuses fazem tantos filhos que já nem lhes conhecem o rosto. E nosso irmão onde estava? 

- Não sei, não me lembro de o ver no conselho. Anda muito ocupado com os seus escribas e a pesquisar sobre o passado. Pára com esse olhar inquisidor, nosso irmão não te deseja qualquer mal, ainda que andem sempre às turras. Continua o teu bom trabalho irmão, gostava de voltar para casa.

- Gostava que isso fosse possível. Ainda sinto a dor da fuga em Morghîl. Se não tivesse sido chamado por minha mãe, teria sido feito prisioneiro ou morto nos xadrezes do maldito Ginralkar.
- Quando me falaste na conspiração, não me falaste que poderia ter sido ele o seu autor. Não faz muito tempo que tentou entrar em Artarä e ainda fez estragos. Se não fosse a tua mãe, já lá nada existia.

- Neste mundo de poder, brinca-se um jogo arriscado, duvido que Ginralkar tenha o discernimento de se arriscar. Além disso, chegar a mim através de um simples zargh´s e dos seus cães? O pretexto é distrair do verdadeiro autor deste ataque e claro se me matarem torna-se tudo mais fácil. O jogo da política: meu senhor rei faz um tratado com a minha senhora rainha, a minha senhora rainha faz um tratado com Ginralkar e eu sou detestado por todos porque eu sou a tinta que faz manter a existência daqueles contratos. O meu sangue de nascido tingiu aqueles pergaminhos. Enquanto eu viver, todos são obrigados a obedecer ao tratado ou a guerra rolará entre e para todos os deuses, porque eu tenho o poder igual ao de todos. Uma rebelião que detestarei deixar como herança. Naquela altura julguei ter sido Ginralkar a entrar em Artarä, mas hoje não tenho tanta certeza. Não lhe cheguei a ver o rosto, e as insignias podem muito bem ser forjadas. Eu pergunto: o que haverá em Artarä para que todos os deuses o desejem?

- Apanhar-te numa armadilha, raptar-te, matar-te. Realmente, quem ganharia com isso neste momento sem violar o tratado?

- Não sei, talvez poder? Mais poder Àquele que desconhecemos haver na gema de Artarä? Mas é o que eu vou descobrir. Se algum zargh´s tiver a coragem de me enfrentar e de conseguir levar-me, podes pensar em aplicar o teu treino, porque os teus poderes não vão chegar.

- Cratwer….espera e eu? – passos repetidos ecoaram pelo extenso corredor.

- Olha a minha adorável irmãzinha, a princesa mais bonita de todos os planetas – e era, não havia dúvidas disso. Beijei-lhe a testa enquanto esta me mordia o queixo e se deitava no meu ombro.

- Tenho saudades tuas Cratwer, eu e a minha litsa queremos ouvir mais histórias.

- A tua boneca sente a minha falta? É de espantar nunca me sorri.

- Ela gosta de ti mano. Olha só o que eu sei fazer…

O truque de magia da minha irmã revelou um futuro poder que receara se não fosse bem controlado. As argolas de fogo apareceram salientes sob as suas pequenas mãos enquanto o seu olhar incendiava. 

Depois de uns avisos e de umas risadas parti para Artarä, meu destino, minha prisão. 
imagem 1: batkya

terça-feira, 13 de agosto de 2013

IIº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



Num emaranhado de sonhos, as imagens começaram a surgir sob a forma de enigma. O lugar era estranho assim como os sons que dele advinha. Num detalhe fabuloso, dei por mim numa floresta abundante, onde as flores cresciam num vaiar de felicidade, onde os ramos e folhagem se misturavam num prazer saudoso.

Ali naquele lugar, tudo era mágico. As flores pareciam omitir um ligeiro som, simples e belas notas musicais formando uma graciosa melodia. 

Enquanto explorava o espaço sentia uma sensação de bem-estar única, soava-me a um lugar familiar onde todas as coisas abraçavam a minha presença. Num instante a seguir, surgia uma silhueta desfocada por entre uma ramagem afastada, meio escondida no meio das enormes plantas que circundam o caminho que tomo. Não identifiquei a silhueta e continuei a deambular por aquele lugar maravilhoso. 

Eu saboreava aquele sonho misterioso mas era certo que, mesmo em sonhos, quando viajamos até este lugar, é porque existe uma qualquer mensagem a retirar, um aviso, uma informação. Eu senti-o tão certo como sentia o bater do meu coração acelerado. Continuei a descer um pequeno carreiro, apoiando-me em ramos previamente estendidos para a minha passagem, as folhas largas das plantas selvagens recuavam no vento mandante e lá me emaranhei num outro mundo que não o meu, aguardando qualquer sinal. 

Na estepe pude vislumbrar um extenso mar de cor, um manto de flores variadas, um jardim, bem lá ao longe. E um brilho não comum chamava-me àquele lugar. Então caminhei por carreiros, cruzei caminhos, e quando dei por mim andava em círculos, não conseguia sair da floresta e percebi pelas minhas pegadas que já tinha passado por todos aqueles lugares. Respirei frustrada. Até que um ruído me sobressaltou.

Olhei examinando e procurando a possibilidade de perigo. Estar a sonhar não significa que nada me possa acontecer, ainda mais, quando passamos para um outro mundo, onde as brumas do nosso se afasta e se mostra a magnificência de outros lugares, encantados certamente. Não tendo encontrado a sua origem retirei-me daquele lugar e procurei um outro caminho por onde seguir. Os ramos das árvores eram antigos e sentia que me observam, ouvia os sussurros de umas árvores para as outras. Muito em breve, aquele ruído surdiu no meio da floresta e um vento recente passou-me junto do corpo e então eu vi-o. 

Um belíssimo e enorme corvo que se curvava num tronco de uma árvore bem lá no alto. Voou três vezes sobre mim, corvejou alto e intensamente enquanto voava em direção ao norte e recuava, voltava a voar sobre mim e pairou no ramo da árvore bem próximo do meu rosto. Olhei-o com surpresa. Era o corvo mais bonito que já tinha vislumbrado. Lembrava-me que os corvos eram símbolo de maus presságios e avisos de morte. Aquele, no entanto, que de enormes asas se vangloriava num céu observador, com as asas cintilantes num tom preto azulado de que muito se orgulhava, tinha um ar sereno, bondoso com um porte de senhor da floresta. Ornamentava um ligeiro cordão de prata com um símbolo redondo com uma gravura de folhas rodadas em círculo nele gravado. Talvez este corvo seja o guardião daquele lugar mágico ou guardião das almas que nele caminhava? Arrisquei chegar mais perto daquele maravilhoso ser.

 - Nobre corvo sabes o caminho para chegar aquele jardim? Podes-me levar lá? - Perguntei nos meus olhos luzentes de curiosidade.

O corvo de asas brilhantes voltara aos céus repetindo o voo por cima de mim em direcção ao norte, deixando um rasto da sua cor para não me perder. Segui-o tão rápido quanto as minhas pequenas pernas o permitiam, sentindo os músculos tensos da adrenalina. Chegada à orla da floresta o corvo grasnou e desapareceu em direcção do que me pareceu um gigante de pedra. 

Um colossal castelo erguera-se na minha fronte. Iluminado por um raio de sol exuberante, esse fantástico castelo sobrepunha-se sobre um extenso rio de águas brandas. O corvo grasnou novamente e continuei a segui-lo enquanto controlava a ansiedade. O castelo estendia-se sobre o lago como uma ponte fechada com inúmeras torres e varandas.  
As torres sublimes estendiam-se pelo cumprimento do rio até ao outro lado. As suas muralhas eram graciosas e enamoradas, erguendo-se num céu bem alto como se estivessem prestes a levantar voo. Subi um pequeno monte para chegar aos gigantescos portões. Não se ouvia qualquer som, senão o do corvo que me anunciava a quem quer que fosse que lá vivesse. 

O portão abriu-se sem esforço. Entrei para o átrio sentido os nervos em alerta em cada pedaço do meu corpo trémulo. 

Os pássaros voavam bem lá no alto espectadores desta aventura que eu nem sei. Quando cheguei perto da entrada principal, pude vislumbrar a beleza daquele lugar, as paredes beijadas de rosas e trepadeiras que davam cor à nudez das paredes de pedra, longas extensões de cor vestindo o castelo de uma beleza exuberante. Olhei com atenção os motivos desenhados na porta principal, símbolos estranhos ao mundo dos homens. Empurrei com força a porta e esta rangeu naquela estrutura ecoando por todo o seu composto. 

Vagueei pelo grande salão, observando as folhas das árvores que entravam pelas janelas nuas, dançando com o vento amante naquele lugar. Arrisquei subir as longas escadas. Não se ouvia mais nenhum som, apenas aquele que eu própria fazia com os meus passos. Debrucei-me sob uma varanda que me dava uma vista imensa da floresta sã e viva. Podia ver umas montanhas ao longe com um anel de nuvem rodando ligeiramente no seu pico, o rio que apesar de brando, revelava vida nas águas límpidas e serenas. Respirava-se um ar tranquilo.

Até que surgiu um pequeno felino, grande em comparação com os da sua espécie, com o pêlo cor creme, naquela cor, desenhavam riscas ordenadas ligeiramente num castanho mais escuro. Na sua pequena cabeça ostentava uns símbolos únicos de uma posição importante. Um autêntico guerreiro erudito de quatro patas. Esperava-me no meio de um corredor imenso de janelas do tamanho de 2 homens e meio e de varandas seguras por colossais colunas. Do outro lado corriam inúmeras portas, fechadas ocultando os seus mistérios. Cheguei perto do felino, e este falou-me num tom doce.

- Saudações corajosa alma. Sê muito bem-vinda ao castelo de mont’Guiklwer. Eu sou Twarlik, guardião do grande castelo. Respeitosamente cara alma te pergunto, que te traz aqui?
Respirei tão fundo que ouvi todo o meu corpo naquele que me parecia o movimento mais longo da minha vida.

- Saudações nobre guardião. Por razões que desconheço, fui trazida a este castelo. Procuro o meu medalhão símbolo da minha casa e talvez a resposta esteja num jardim que vislumbrei do interior da floresta, já que um brilho estranho vindo de lá captou a minha atenção. Segui um sumptuoso corvo que me trouxe aqui e acabei por encontrar este maravilhoso castelo e não sei como encontrar esse tal jardim. Talvez me possas ajudar se assim o entenderes. 

- O teu instinto está correcto. O teu medalhão está no jardim num terraço infinito deste castelo. Um lugar onde só é possível lá chegar com anuência. Importa agora saber se mereces ostentá-lo. Conheces o significado das imagens gravadas no teu medalhão cara senhora?

- Perdão querido guardião o meu conhecimento em especifico assunto é menor. Confesso não conhecer a origem do símbolo da minha casa e não me atrevo arriscar qualquer analogia. Somente sei o que meu pai me permitiu. Contara-me em tempos a história da nossa família que sempre viveu nas herdades do sul na costa do grande mar, guardando as suas praias e as suas pequenas ilhas. Por longas décadas garrearam desde as terras da fronteira até à costa para expulsar inimigos antigos, que já lá não estão. 

- Essa história é recente, muito recente comparada com aquela que conta como o primeiro homem do teu sangue chegou às terras de que teu pai hoje é rei. Mas, o significado do símbolo do medalhão, nada tem a ver com guerras terrenas. Por isso estás aqui, foi-te destinada uma demanda. Em breve, muito vai mudar nas herdades do sul, ver-te-ás num abismo sem fim e precisarás do teu medalhão para salvares as tuas origens, mas para isso, tens de merecer o sacrifício dos teus antepassados, tens de entender o mistério do medalhão. Por isso, foste trazida aqui a este mundo, onde nada parece o que é. 

- Uma demanda? Que vai acontecer na herdade? – perguntei horrorizada. Estava a par de algumas situações imediatas que colocavam em risco o meu povo, a minha família, a minha herdade. E do pouco que sabia devia ao meu querido mestre que nas suas lições acabara por gerar em mim alguma atenção para um perigo iminente.

- Sê paciente. Não desesperes, és forte e por isso estás aqui. Mas tens de provar que és aquilo que esperam de ti. Estás preparada Myna? Estás preparada para seres testada?

- Se é importante para a salvação da herdade, do meu povo, da minha família, então não importa o que sinto, tem de ser feito.

- Muito bem. Não espero outra coisa de ti. Despois desta prova começa a tua demanda. Vou entoar uma canção de 3 quadras. Em cada quadra terás a resposta para abrires somente três das 12 portas do castelo. Tens de abrir as portas certas. Lá dentro terás as tuas lições.

- Só três portas de quaisquer das 12? O que acontece se não conseguir caro guardião? – as lágrimas ameaçaram vencer-me, picando-me como agulhas afiadas num rosto quente de preocupação. “Quanto maior o poder, maior a responsabilidade”, dizia o meu coração em tom de segredo, palavras de sábios que ouvira em criança.

- Não podes pensar que não consegues, isso limitar-te-á os sentidos. Porém, se preferes saber, se não abrires as portas certas, ficarás perdida no labirinto do castelo. O medalhão irá desvanecer-se num tempo infinito sem vida, onde ninguém mais passará de um para o outro mundo, e não haverá forma de salvar a herdade, o teu povo e a tua família. Não é isso que queres pois não Myna?

- Não, não posso deixar que isso aconteça – se o meu evento fosse tão determinado como as minhas palavras, então tudo correria bem, mas o meu coração não dava tréguas e batia numa velocidade que me perturbava o pensamento e raciocínio.

- Quando chegares à terceira porta, terás o teu jardim. Nele procura o teu medalhão. Muita atenção minha filha e boa sorte. Precisamos de ti.

O guardião começara a cantar uma doce melodia. Nas paredes do castelo entoavam as notas musicais que lhe davam vida e força. A música parecia entrar dentro do meu corpo elevando-o. Então o pequeno felino foi desvanecendo à medida que a música terminava e eu ficara escutando e decorando as suas palavras:

As borboletas cintilam
Na prisão ordenada
As suas cores são de marfim
E amam a alvorada

Coração dentro, coração fora
Recolhe-me no teu amor
As espadas são tuas guardiãs
Levanta-as com fé e esplendor

O lobo assombra a noite com o seu uivar
O cavalo vitaliza a força e humildade
Ergue-te meu herdeiro
Sou eu a tua entidade