Enquanto a melodia se atenuou no conforto da minha
memória, comecei a minha causa. Tinha 12 portas à minha frente que se estendiam
pelo longo corredor. Tinha de escolher somente três. Olhei pela janela sentindo
a brisa a beijar-me a face, olhei o horizonte e percebi que não teria muito
tempo até o anoitecer. Parecia que ali, o tempo corria mais rápido, ao sabor do
destino que se mostrava apressado em se concretizar. Não vislumbrei qualquer archote
ou meio de obter luz e imaginei a escuridão imensa naquele castelo assombroso.
Então, a altura era bastante para começar. Lembrei-me das palavras da primeira quadra
da canção.
“As borboletas cintilam na
prisão ordenada, as suas cores são de marfim e amam a alvorada”.
Corri à
primeira porta, todas elas de madeira de carvalho com um pesado ferrolho preto,
diferenciando-se pelo ornamento em volta de cada ombreira.
Na primeira ombreira podia-se vislumbrar um floreado de
rosas e espinhos que percorriam um vasto jardim de onde voavam pássaros vários
de diversos tamanhos. Não tinham cor ou distinção. Nada tinha de particular com
as palavras transcritas da quadra. Então passei para a porta seguinte. Na segunda
ombreira havia apenas pequenas figuras de homens e mulheres na ceifa, outros a
acompanhar o gado para o pasto, com um rio generoso que enchia a vista do
ornamento. Em nada, igualmente, se mostrava parecer com as palavras da quadra.
Chegado à terceira porta havia uns desenhos fundos desenhados em pedra branca.
- Marfim! – sussurrei no eco do longo corredor.
Procurei nos seus desenhos algo que se enquadrasse com
a canção. Analisei atentamente as formas que se evidenciavam daquele belo
ornamento e então contei, haviam desenhadas sete formosas figuras femininas. Estas moviam-se com os seus cabelos num vento
seu par numa histeria de cores e símbolos. Todas elas dançavam numa alegre
roda, formando um círculo em volta de toda a ombreira.
Olhei com mais atenção e
cada uma estava simbolizada de uma determinada forma que as identificava. Um lenço
azul decorado de muitas cores e com pássaros numa histeria de
felicidade, um punhal que se desfazia em rosas, um livro com uma grande árvore
desenhada numa capa de madeira, uma estátua da deusa mãe, um cavalo pequeno de
madeira, as vestes eruditas e por fim…a última figura não tinha qualquer
símbolo que a distinguisse das outras. Encerrava o ciclo daquela dança sobre o
ferrolho da porta. Então o meu coração acelerou. Aquela dança com aquelas
figuras e símbolos fizeram-me recordar um tempo passado. Aquela era uma imagem que
conhecia desde muito pequena, uma tapeçaria que respeitosamente se mostrava no
grande salão do conselho de meu pai, apenas mudava em um único aspecto. É que
não havia aquela última figura.
Então num sorriso humilde e uma lágrima saudosa percebi,
todas aquelas mulheres eram as bravas mulheres da minha família, antepassados
meus, mulheres que marcaram o destino no mundo dos homens, todas elas com a sua
própria missão. Fiquei emocionada ao puder rever todas elas, porque todas elas,
tinham trazido uma história e uma lição ao mundo.
A primeira figura representava a avó da minha avó, a
mulher do primeiro homem a pisar as herdades do sul, por quem lutou pelo seu
amor trazendo-a para um lugar ainda sem vida. Após o nascimento de vários
filhos, e ter-se criado um pequeno povo, Elegra, estava finalmente feliz com o
amor do seu homem e dos seus filhos. Era tão jovem quando casou e quando foi levada da
sua casa para acompanhar o seu marido para terras desconhecidas e longínquas. Era
conhecida como a alegria do povo, corria pelos campos a dançar com os pássaros,
e o povo, tinha uma grande afeição por ela. Era atenciosa e ajudava todos os
seus súbitos, vivendo no meio deles como se da sua própria família se tratasse.
A sua missão fora uma derradeira e sacrificada luta para salvar o seu povo da
escravatura de um rei ambíguo que se encontrava fixado ali. Finalmente, e após
longas batalhas, mortes sacrificadas e escolhas arriscadas, o reino maldito
caiu. A Elegra fora-lhe dada a recompensa vivendo uma vida de paz e felicidade
junto de um grandioso homem, seu marido, de nome Alkar, que mais tarde oferecera-lhe
um lenço azul com motivos de pássaros vários e belos que lhe abraçavam a sua
beleza clara. Hoje é recordada como símbolo de bondade, devoção e distinção.
A segunda imagem representava a irmã da minha avó, Strela,
grande guerreira, comandava um navio de homens. Encontrou uma das muitas ilhas que
pertencem ao reino de meu pai. Mas uma em especial era composta por um povo sem
igual. A sua missão foi procurar um objeto perdido de seu avô, um belo punhal
que naquele detinha as inscrições de uma criatura pertencente ao outro mundo.
Nesse povo estrangeiro conheceu um rapaz de uma força brutal e com ele nasceu
um amor incomparável. Juntos envolveram-se numa aventura pela ilha misteriosa e
quando finalmente Strela encontrou o punhal, este, ganhou a sua forma original de
um brilho sem igual, surgindo os símbolos da língua do outro mundo. Este, desvaneceu-se sob rosas belas e brilhantes
que rodopiaram num céu agradecido e logo atravessou um portal para o outro
mundo. Tratava-se de uma Deusa que fora amaldiçoada e transformada para ser
prisioneira no mundo dos homens. Nas mãos erradas aquele punhal teria destruído
grande parte do mundo por nós conhecido, se não tivesse sido levado a tempo e seu
devido lugar. Strela partiu para as águas dos grandes mares com o seu amado e
viveram grandes aventuras, título de canções ainda hoje contadas por todo o
continente. É recordada como símbolo de bravura e determinação.
A terceira figura representa a filha de Strela, a
querida e doce Elanora, filha criada nas peripécias do mar, foi uma erudita que
encontrou nas histórias correntes as grandes lições da vida registando-as nas
suas escritas, que simbolizou na forma de uma árvore, entrelaçada numa coroa de
flores, unindo o homem à natureza. Reportou os seus pensamentos, ideias e
meditações passando-as para as gerações seguintes. É símbolo do conhecimento e
de perseverança.
A quarta figura representa a irmã de Elanora, segunda
filha de Strela a mais nova de 5 irmãos rapazes. A Shafirgia foi designada para
uma missão divina, sendo-lhe incumbido de procurar a estátua da deusa mãe, tão
antiga, perdida num mercado negro dos piratas. Navegou por mares bravos até
ilhas perdidas das cartas dos navegadores. Comandou 5 navios, conheceu e
combateu piratas e outros homens desafortunados. Encontrou poucos os que se
mostravam ser de confiança, e menos ainda os de coração puro. Shafirgia foi a
que mais sofreu na sua missão. Sacrificou a sua pureza por um resgate exigido e
lutou durante anos pela segurança da estátua até esta ser entregue ao povo a
quem lhe era devido. No fim, atracou nas terras longínquas para lá do
continente onde conheceu um homem honesto, de puro coração que lutou por
conquistar a confiança de Shafirgia e após muito lutar por ela, voltaram para
casa satisfeitos por começar uma nova vida juntos, abraçando um amor tão
sincero, uma confiança a qual se trabalhava diariamente. Tendo encontrado a estátua
e esta ter sido entregue ao seu lugar, que não é conhecido até aos presentes
dias, Shafirgia viveu uma longa vida numa herdade tranquila longe do mar. É
recordada com símbolo de coragem, força e capacidade de perdoar.
A quinta mulher representa a minha querida mãe, muito
amada pelo seu povo e que teve um tempo tão curto neste mundo dos homens. Chamava-se
Tynia, a grande mãe dos cavalos como era conhecida. A sua missão começara bem
cedo, nos seus tenros dez anos. Entrou erradamente no outro mundo, de antigos
Deuses esquecidos da história, onde combateu contra as forças de uma terrível conspiração
contra o mundo dos vulneráveis homens. Sofrera perdas e desilusões e já só
quando era uma mulher feita, ela venceu o seu sofrimento, derrotou as malícias
existentes e aquele reino maldito tivera fim. O verdadeiro herdeiro ao trono
pedira-lhe em casamento, mas esta recusou dizendo que deixara no mundo dos
homens um grande amor. Então foi-lhe presenteado um belo espécime de cavalo cor
da noite, com os seus cabelos formosos, os seus olhos de uma força bruta e
autêntica, de uma força semelhante àquela que minha mãe sustinha no seu peito,
no seu coração tão forte e honesto. No místico cavalo denotavam-se insígnias do
seu povo, palavras de protecção e bênçãos para acompanhar e proteger aquela que
agora era meio humana, meio sangue de Deuses. Quando a bela Tynia chegara ao
mundo dos homens, num mundo que não conhecia de tantos anos de ausência,
reencontrou meu pai, um nobre guerreiro que lutara longos anos pela paz do seu
povo. Juntos tiveram 5 filhas. É recordada como símbolo do amor eterno,
honestidade e a protectora dos cavalos.
A figura da mulher com as vestes eruditas representa a
minha irmã mais velha Nwema, uma estudiosa que partira jovem para a ilha dos
druidas. A sua missão colocara em prova a sua devoção durante o caminho para o
seu destino, ofertas que os Deuses lamentavelmente nos assombram nas utópicas
oferendas, certamente onerosas. Nunca saiu do seu rumo, é hoje chamada para
qualquer conselho como figura de forças maiores que acompanham o homem no seu
destino, símbolo de fé, segue as linhas de conhecimento de Strela. São
desconhecidas as suas provações, pois que, jamais as contou, apenas a Deusa lhe
é testemunha. Sabe-se apenas que a marcou duramente.
A última figura sem discrição na pedra só poderei ser
eu. Sem qualquer símbolo, apareço a fechar o círculo e por isso estou aqui. Não
há nada que me distinga das outras, sem ser o facto de estar apenas da cor de puro
marfim, mas eu sou a última mulher nascida no seio da minha família. Tão certo, que recordei o nome que meu pai dá às mulheres da minha
família, as "Khelsäar" - as borboletas, porque todas elas ganharam asas e voaram num
destino desafiador.
- Então as “borboletas cintilam” representa as mulheres da minha
família; “na prisão ordenada”, as suas missões que lhe foram destinadas, onde a sua vontade foi suspensa até se concretizar um objetivo divino; a sua “cor de
marfim”, só há uma imagem cor de marfim, a minha, e “ama a alvorada”, sim confirma-se que aquela última imagem aparece abraçar um sol nascente sobre a noite que termina.
Toquei com tanto amor naquele pequeno espaço na pedra,
que esta recuou. A porta rangeu e abriu. Antes de entrar meditei. Todos nós somos
alvos de lições, todos nós temos algo de aprender e com isso ajudar a completar um mundo que precisa de ser aperfeiçoado. Essas lições
enchem-nos a vida e a vida dos outros. Completam-nos e completam o mundo com as
suas palavras e simbolismos. Devemos ter fé e amor para enfrentar o
que diariamente nos é reservado para merecer a felicidade de uma vida maravilhosa
com aqueles que amamos e queremos bem. Quanto à demanda de cada pessoa, esta é desenhada conforme
o nosso carácter, a nossa força e o que temos de melhor para trazer a este
mundo. Todas estas mulheres foram mulheres de grande coragem porque aceitaram o
que lhes fora imposto e venceram atravessando todos os seus desígnios, mudando
as suas vidas e as vidas dos que as rodearam, para melhor. Um sacrifício para a
uma eterna ordem.
Entrei empurrando a porta o mais quanto
possível para passar para o interior, e lá dentro, descobri uma sala vazia de
emoções. As paredes recolhidas de um tempo de solidão, não escondiam a saudade
de ouvir as alegrias da sua gente. A sala apenas sustinha a presença de uma
mesa de pedra fria que continha 7 objetos. Uma flecha, um cajado, uma pena, um jarro
vazio, uma pedra, um cobertor e uma folha. Olhei todos com tamanha atenção, não
sabendo eu o que fazer. Eram objectos muito distintos de utilização. As paredes
estavam silenciosas aguardando qualquer coisa. Então ouvi um rugido. As
palavras ecoaram estridentes no meu ouvido: “escolhe
um objeto”. Por momentos permaneci quieta, olhando em redor procurando presenças,
as quais, nunca se mostraram. Não
sabendo qual escolher, porque também não sabia o que se seguia, admiti o
instinto e peguei no cobertor, talvez por sentir um frio interior.
Então tudo
desapareceu e vi-me perdida numa floresta gelada numa noite que cobria a imensidão
daquele lugar. Estava aterrorizada por me ver sozinha num lugar com este, com o
silêncio da noite, o frio gelado que encurralava a minha coragem. Enrolei-me no
cobertor e vi-me presa nas raízes de uma árvore. Respirei com calma enquanto as
lágrimas caiam num rosto seco naquele vento gelado. Descalcei a bota do pé
preso e com jeito fui soltando o membro do peso da raiz, estava tanto frio que
me cortava as forças. Então sem pensar na dor, dei um puxão e soltei-me da
árvore seca, caindo naquele chão branco e frio. Tinha marcado a carne sentindo
o frio anestesiar-me o ferimento. Calcei de novo a bota e aproveitando a luz da
lua segui um qualquer caminho que não conhecia. Ouvia ruídos dos animais da
noite que assistiam à visita estranha e curiosamente aproximavam-se para ver
melhor. Então parei, pensado no que fazer. À minha frente surgira uma criatura
que nunca vi, uma mistura de lobo e homem. O seu tamanho e porte era maior que
qualquer ser que já tivesse visto. Rosnou num eco memorial e só tive tempo de
tapar os ouvidos. Então olhei de novo aquela criatura que se colocava em
situação de ataque e que ia crescendo à medida que o meu terror aumentava
bloqueando-me. Olhei as criaturas que assistiam e todas elas tinham um olhar
que ecoava a ansiedade pelo combate inevitável. Seria um festim como não havia
há muito.
Gelava de frio, e agora gelava de medo. Ecoaram na minha mente as
palavras de meu pai: “por vezes as adversidades da vida surgem personificadas
de criaturas horrendas que nos perseguem em sonhos. Eles aparecem para testar a
nossa força e a nossa coragem. Vencer essas criaturas é vencer os nossos medos
e abraçar o infinito do conhecimento”. Após uns momentos era a minha irmã mais
velha “ não deixes influenciar-te pelo medo, não deixes os teus sentidos
paralisarem, somos compostos de uma fibra de forças infinitas, procura a força,
a humildade e honestidade que crescem dentro de ti”. As palavras aqueceram-me o
coração. Percebi que ninguém vive sozinho nas suas ideias, nas suas ideologias,
nas suas escolhas. Ninguém vive sozinho neste mundo ou no outro. Precisamos da
força dos outros, das experiencias dos outros para nos orientaram na nossa
própria vida. Depois somos nós que escolhemos por onde queremos e podemos seguir.
Eu não teria medo do meu próprio medo, porque aquele era meu, e eu controlo-me
a mim própria. Então dei um passo. A criatura zumbia. Larguei o cobertor, despi
a roupa e deixei a minha nudez ser iluminada pela lua que se acentuava.
Aprendera uma grande lição em tempos: “ o mal não se vence pela força, mas sim pelo
amor”. Deixei que a criatura me olhasse perigosamente perto, e falei-lhe numa
voz calma, uma voz que era tão minha quanto a daquela criatura.
- Eu sou parte do teu corpo, o genuíno que se
transforma naquilo que a sensação força a mudar. Tu és a imagem dos meus medos,
mas eu continuo a ser aquilo que tu te mostras, completa de tantas outras
faces. Por isso, caminha comigo, deixa-me ver a tua verdadeira natureza, dá-me
a tua mão oh medo e eu proteger-te-ei, não permitirei que sejas preciso na grande
batalha da vida, serás apenas o meu conselho para recuar na certeza e me
aproximares da verdade levando-me à vitória.
A criatura levantara-se mostrando a sua altura magnífica,
os dentes rangendo e babando-se e de imediato atacou-me o braço deixando a
marca das suas garras. Sentia o ardor das suas unhas ainda gravadas na minha
pele. O meu medo era poderoso, não admirava a minha inação perante muitas situações
da minha vida. Então fechei os olhos e acalmei-me, dei mais um passo sentindo-me
gelada no frio cortante, e esquecendo o que pudesse acontecer aproximei-me da
criatura até lhe tocar. Tinha de ter fé se queria passar nestas lições
necessárias para a salvação do meu povo, tinha de ser forte. Num toque suave,
acariciei-lhe os braços, olhei nos seus olhos e falei:
- Vem comigo
doce medo, deixa-te levar pela minha coragem, ela é tão bela quanto o jardim
que quero alcançar, podes caminhar connosco, não mais te abandonarei neste
lugar. Preciso de ti tal como preciso da coragem, são a lua e o sol que fazem
florescer as plantas do campo, são como a água e o fogo, necessários à sua
medida e força para fazer crescer o alimento para o meu corpo.
Então a criatura amansou, suavizou a sua postura e diminui
até ao tamanho que desse para o suster na minha mão. Sorri-lhe e arrisquei um
carinho na sua cabeça felpuda. Vesti-me e coloquei a criatura dentro da minha
bolsa, seria guardado com o carinho que precisará para ser utilizado no momento
certo e propósito digno. Então a floresta foi clareando, as pequenas criaturas
que jubilavam com aquela criatura transformaram-se em pó, e tal como a
escuridão que desapareceu, dando lugar à força da luz de um sol renovador,
também a floresta trocava o pesado manto branco por um manto colorido de flores
e relvado. Ali eu me descobri, era símbolo de renovação. Eu trarei ao meu povo
um novo mundo, um mundo onde tudo se transforma, onde se afastam as incertezas
e o medo e se abraça a uma nova força, a coragem e o brilho de um novo dia. Trarei
as recordações e lições de um passado em que todos assemelham a sua própria
vida e aprendem em conjunto.
A imagem desaparecera por completo e dei por mim de
novo no corredor do castelo sem conseguir recuar. O ferimento sarara mas a
cicatriz ficou marcada na minha pele, uma medalha de uma vitória que só eu vivi.
Olhei para a pedra de marfim, e lá estava eu, de inúmeras cores, e lá estava o
sol a raiar por cima da noite. Estava completo o círculo. Olhei de novo o céu
exterior. As árvores cantavam com o vento. As águas do rio por baixo do castelo
estavam tão sossegadas como o meu coração.
Então vendo a linha do horizonte,
continuei a minha lição.
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