quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A lenda de Torfel - Vº. Parte






A virtude está no coração de uma velha sábia….

Adan sentiu um arrepio gelado a percorrer-lhe a espinha até lhe deixar a cabeça com tonturas e alternadas miragens se manifestaram no seu caminho. Miragens ou a manifestação das gentes de Torfel que pela primeira vez em muitos anos se revelaram fora do seu espaço a gentes que não lhe pertencem. As miragens não eram mais do que pequenos pontos de um mapa para que Adan conseguisse encontrar aquela vila, tão difícil de descobrir aos olhos dos comuns.

A urgência nunca ajudou a concretizar de forma positiva qualquer fim. Mas o fim também nunca importou. Não importa lembrar que tudo acaba. Tal como a vida, tudo começa com um nascimento e tudo termina com a morte. Então, sabemos sempre o fim de tudo. Mas o mais importante desta lança que começa e que termina em cada bico afiado, é o caminho que se percorre, são as escolhas, as ações e o que delas aproveitamos e com elas transformamos para o bem ou para o mal. Pois que, o fim, pode ter várias faces e através delas, deixar uma corda ou um rasto de salvação para outras lanças que se venham a erguer atrás de si.

Adan não temia a morte, não a sua, mas a dos seus homens. Sacrificava-se para os ver firmes perante o seu destino, pois ele, já perdera tudo. Para ele, a sua vida encontrava-se sustada no gume da sua lança à espera de cair no abismo da morte. Mas a lança parece querer mantê-lo até achar por bem. Não sabia porque a vida não o levara já para o seu berço eterno, porque para si já não tinha importância no mundo. Mas para aqueles homens, que têm família, este homem que nada tem, é o resultado da fé daqueles homens sequiosos de esperança. Um erário mais valioso que qualquer baú a reluzir riqueza. Para os seus homens, Adan é o seu suporte e esperança para uma Esmania una e em paz e isso, obrigou-o a erguer-se perante uma vida que lhe foi infeliz e suportar a sua dor e a dor dos seus homens só porque, a sua lealdade lhe mostrou que o dever nem sempre é a única e regra máxima para o cumprir. Porque nada tem mais valor que honrar um amigo erguendo a paz e a justiça para a sua vida e daqueles que bem ama. A relativa felicidade, sob a forma de harmonia, paz e partilha, é a melhor recompensa de uma luta feroz pelo bem.

Percebendo que eram seguidos e que os seus passos tornaram-se mais próximos, a correria de Adan e a dos seus homens tornaram-se igualmente mais rápidos, mais audazes por entre a floresta húmida da madrugada. Saltitando por entre ramos caídos, folhagem escorregadia, rios pouco profundos e pontes abandonadas a reluzir pela alvorada ansiosa, a perseguição tornara-se mais sedenta e pretensiosa. O sol já se levantava nos céus de Esmania e mostrava agora o número de homens que corriam entre a ponta de cada lança. O fim era já visto para alguns, mas cada homem teimava a balançar a sua lança, obrigando a tornar a sua caminhada mais longa, um pouco mais prolongada evitando e enganando a morte. A perseguição parecia não terminar nem abrandar. Adan começou a correr desordenadamente por entre as árvores, surpreendendo os seus perseguidores e aniquilando-os. À medida que este e os seus homens combatiam na sua fuga urgente, Adan apercebera-se da violenta verdade e parou abruptamente no meio da floresta nua de arvoredo e seca de uma estação sôfrega. Os seus perseguidores chegavam perto de si e dos seus homens. Confrontados com os seus rápidos predadores, as espadas defrontaram-se violentamente como um forte torvão. Adan lutou contra os poucos e inexperientes perseguidores enquanto confrontava-se com a certeza do seu erro crasso que cometera em não ter olhado antes para trás e perceber que deixara os seus homens para trás. Recuando na sua memória espaçada de enganos, vingou a traição nos perseguidores que não eram mais de quinze homens, jovens Margassa.

- Enganaste-me Flaint – repreendeu Adan, que se mostrava manchado de sangue no braço direito e com um pequeno corte sobre o sobrolho – enganaram-me todos. Onde está Galderc Flaint, diz-me? Onde está o meu irmão? – Adan carregara sobre os ombros de Flaint agitando-o para contar a verdade.

- Galderc sentiu a presença dos Margassa na orla da floresta no inicio da manhã. Apenas quisemos assegurar a tua segurança trazendo-te para fora do local. Zamessa devia estar escondida algures para lá das árvores – contou Flaint enquanto agarrava na mão de Adan obrigando o amigo e chefe a recuar.

- Deixaste-o entregar-se à morte de livre vontade Flaint, temos de voltar – dizia determinado Adan enquanto apanhava as suas armas e todos os sacos de dardos envenenados que repousavam nos corpos gelados dos Margassa.

- Não – correu Flaint agarrando Adan – Não. Foram sacrificadas vidas pela tua segurança – o olhar de Flaint era de tamanha tristeza quanto o de Adan, mas neles trazia o brio da perseverança.

- A minha segurança só é válida para que alguns consigam concretizar um desejo. Um desejo que não é só teu nem meu, é de todos e por isso as decisões sobre tamanha empresa cabe a todos em unânime conselho – Adan estava decidido – eu não o posso viver sozinho e vocês insistem todos em deixar apenas vivo eu, um simples homem sem ninguém no mundo para cuidar – rebentou de fúria sacudido pela última perda que lhe restava sentir.

- Um desejo que só se pode concretizar contigo vivo Adan – desafiou Flaint – tens de chegar a Torfel o quanto antes, sabes que precisamos de asilo ou não seremos poupados – passados uns momentos colocou uma mão sobre o ombro de Adan e apertou-o para o despertar da dor - Pensa nas famílias que seguem naqueles barcos. São eles que ainda tens de cuidar Adan. É por eles que estamos aqui. Estas foram as tuas palavras no dia que os barcos partiram lembraste?

- Jamais me vou perdoar se algo acontecer a Galderc. Agora percebo porque não encontraste o meu manto – confessou Adan numa tristeza tão profunda perante um futuro tão incerto.

- As vidas só valem a pena quando concretizam a vontade do destino ou quando são úteis ou quando se morre sentindo que compensaram a vida ou quando a vida as compensou. A tua tem muito sentido e simbolismo, por isso, não sejas exangue só porque os planos saíram todos frustrados – respondeu desafiante Flaint indicando o avanço para Torfel que se avistava ao longe – muito provavelmente seremos seguidos em breve porque a guarda real já deve ter chegado a Grazil. Quanto ao teu manto, sem ele, Galderc não conseguiria enganar Zamessa. Galderc será poupado até chegar ao rei. Estás a subestimá-lo. Ele saberá safar-se.

Ambos sabiam que as possibilidades de Galderc  sobreviver até chegar à cidadela eram mínimas, mas a esperança é uma chama que arde forte e ilumina o caminho da vontade. O seu coração desejava intensamente que a lança de Galderc ainda fosse longa, longa o suficiente para o reencontrar. Adan aceitou uma derrota que não teria retorno e avançou silencioso e pouco satisfeito a um destino que o esperava com tão poucos homens da sua crença. Decidido não voltou a olhar para trás.

Na sua partida agora ordenada, Adan só pensava que para trás teria ficado Galderc, sacrificado, entregando-se a Zamessa como se dele se tratasse e os seus homens que apesar da honrada luta acabariam por morrer nas mãos do inimigo. Adan não voltaria a ver os seus homens. Silenciosamente, bramia honras ao seu irmão que com a sua fuga, permitira-lhe partir em segurança para Torfel e pedir asilo a si e às famílias órfãos que avançavam pelo mar.

Quis o tempo atraiçoar aqueles que lhes tentam consertar os erros e mal o avanço mostrou a torre de Torfel  revelando-se para si e aos poucos homens sobreviventes da sua guarda, passos e vozes desafiantes fizeram-se ouvir. Adan olhou Flaint e de imediato começou uma nova fuga, até Torfel, revelar-se aceitar receber o seu pedido de ajuda.

Seguiam-lhes vinte homens Margassa que se avistaram como animais velozes, atravessando os campos abertos de ervas altas e secas. Uma menor guarnição da guarda real seguia-os a galope com a bandeira do sul erguida em estandarte. Avançavam com o ritmo da morte. Adan continuou veloz pelos campos desconhecidos pelas memórias, mas familiar pelo instinto e rapidamente encontrou um trilho atalhado, que como um encantamento, o levou diretamente aos portões de Torfel. À sua porta uma grande sombra ergueu-se sobre os céus tornando-o escuro, repleto de nuvens cinzentas que se juntaram assombradas e pesadas. Adan recuou ligeiramente até ver-se cercado pelos Margassa e pelos guardas reais. Alguns dos seus homens estendiam-se pelo trilho que percorrera, agitando-se por um caminho de pedras onde vingavam os tropeções enquanto eram atingidos por dardos venenosos. Flaint e mais os nove sobreviventes da guarda da velha fé, juntaram-se a Adan em circulo, empunhando as espadas. Sentindo no seu cinto os sacos de dados, Adan soprou veloz os dardos dos Maragssa, que contra eles próprios, caíram no chão envenenados enquanto as espadas dos seus homens alcançavam os presunçosos. A guarda real lançou-se a Adan e Flaint cortou as rédeas de um garanhão que se debatera no chão até ser engolido pela própria terra. As árvores agitaram-se e alguns ramos estenderam-se prendendo alguns dos soldados do rei, agitando-os no ar e lançando-os para um horizonte que se sumiu desvanecendo-se. Adan foi surpreendido pela visão e percebeu que as forças de Torfel agiam contra os mendigos do destino e não esperou ser uma vítima. Baixou-se tocando com a palma da sua mão ao solo e com um joelho sobre a terra, orou uma prece em reconhecimento da força do Senhor do Carvalho e invocou que o ajudasse. A espadas continuavam batendo-se num canto tão curto que as partes tocavam-se nas costas e nos membros do inimigo enquanto se tentavam salvar do toque do outro. Adan sentiu uma força estranha vibrar dentro de si e quando se ergueu para lutar, um dos guardas do rei lançou-lhe uma longa lança proferindo-lhe um golpe desde a virilha ao joelho da perna direita. Com o grito de dor de Adan, um trovão ressoou nos céus fazendo sustar a pequena batalha e todos os homens estacarem com o som estridente. Dos olhos de Adan se avistou um brilho verde polido e causado por ele, ergueu os braços aos céus e com umas palavras cantadas, agitaram-se em força as raízes das árvores, espalhando as suas forças em volta dos inimigos e por baixo deles um novo buraco abriu-se engolindo os sedentos do poder.

Flaint e os seus homens encostaram-se às muralhas fortificadas de Torfel protegendo-se da transformação de Adan. Até que, as muralhas moveram-se, abrindo ilusoriamente profundas fissuras e sugando os homens que pareciam querer vencê-las antes de as acreditar.

- Adan! – chamou Flaint sobre o som rugidor de todo aquele movimento da natureza sentindo a sucção da pedra.

Adan olhou-os e disse umas palavras que se agitaram ao vento como um sussurro, palavras numa língua que há muito não se ouvia dentro de Torfel e a pedra libertou os seus homens. Derrotados os inimigos dos fieis da antiga fé, Adan chegara ao coração de Esmania. A sua perna a sangrar fora agora coberta por pequenas plantas que se entrelaçavam pela sua carne e aí mantiveram até terminar a sua cura. Os olhos de Adan voltaram assumir o seu tom azulado e este sentou-se sobre uma rocha, quando ao seu lado, apareceu uma figura de uma senhora muito velha e outra um pouco mais nova.

- Mãe? – disse em tom espantado quando viu um rosto que julgara ter sido beijado pelo fim da lança. A velha senhora apenas sorriu, nos seus olhos as palavras atropelavam-se e agitavam o seu olhar sincero. Aos poucos, a senhora velha foi adquirindo o aspeto mais novo, como que, terminado um disfarce longo e cansativo.

- Bem-vindo de volta a casa filho de Torfel - dissera a senhora grande que fechava o trilho à vista dos comuns homens.

O céu voltou a mostrar um dia de outono radioso e já não havia vestígios de uma luta que começara há pouco arriscando a levar consigo a esperança da velha fé. Do outro lado da muralha, Zamessa e os Margassa chegavam às portas de Torfel.

- Os corrompidos não entram em Torfel – sussurrou a nova velha que levantou o braço brandindo um gesto seguro aos homens que se encontravam na vigília mais alta da montanha.

Em volta das muralhas levantou-se uma bruma intensa e desafiante. Os gritos frustrados de Zamessa revelavam duas certezas: um confronto adiado e a morte certa do seu irmão e a dos seus homens. Consigo, Adan levou mais uma dor profunda, uma ferida que teimaria não sarar.

Torfel revelou-se e o seu poder agitou-se com a chegada de Adan. A velha fá reúne o seu sangue e começa a sua desejada mudança.

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