A traição
acorda o vento do sul….
Um som
arrojado soou disfarçado por entre as árvores mudas da noite. Adan
encontrava-se a descansar na sua tenda com alguns dos seus homens que se
preparavam para o turno seguinte. Desde a partida dos barcos que a caminhada
tem sido constante, apressada e sem longas paragens. A sua guarda encontrava-se
agora dividida em dois grupos. Um grupo de cinquenta homens mantinha-se
espalhado pela colina mantendo a vigia sob a guarda de Galderc e Elsos. O restante grupo de setenta homens, descansava no acampamento improvisado.
O som
repetiu-se. Galderc dirigiu-se acautelado à orla das árvores e notou um cheiro
ativo que reconheceu ser a de um fruto que apenas conhecia na ilha de Xaghai,
onde Zamessa construíra a sua aldeia e constituiu a sua tribo. Subtilmente, disfarçou não se ter apercebido de qualquer perigo e afastou-se dando uma
dentada sonora numa maça. Tendo Galderc perceptado a presença de elementos da tribo mandou avisar a Elsos, através de um dos homens que guardavam a entrada da tenda onde Adan pernoitava, da presença inimiga dos Margassa. De seguida, entrou de forma urgente na tenda onde
Adan ainda descansava dos últimos dias em claro.
- Acorda
Flaint – sacudiu urgente o guarda mais experiente e que melhor conhecia Adan –
encontrei alguns Margassa na orla da floresta.
- Margassa?
E a Zamessa? – perguntou Flaint enquanto guardava as armas no seu cinto e se
preparava para acordar Adan.
- Não o
acordes ainda. Não podemos lutar contra eles, são em maior número e…bem,
conhecemos os seus métodos de luta. Descobri-os pelo cheiro a gazuba, devem ter
extraído o veneno do fruto para os dardos, veneno acabado de extrair é morte
imediata Flaint – dizia-o fechando os punhos, sentindo a morte por perto -
Estão escondidos prontos a bloquearam-nos a passagem até a guarda real chegar e
cumprir com as meticulosas ordens do rei do sul. Adan foi traído – reconheceu
Galderc olhando para o seu amigo.
- Esperaram
pela partida dos barcos para atacarem. Zamessa não é leal a ninguém mas cumpre
sempre os seus tratados desde que lhe paguem bem. Já nos seguem então há 20
dias. Temos de partir já, apesar de em menor número, somos demasiados para não
sermos vistos a dar de frosques – resignava-se Flaint esperando uma ideia
valiosa.
- Reúne um
grupo não mais de trinta homens e leva Adan daqui. Acorda-o e diz-lhe que temos a
confirmação que há aproximação do inimigo e que os nossos homens se dividiram
em quatro grupos e que nos encontramos mais tarde a oeste da montanha onde
Torfel se mostra a norte – Galderc sentiu um arrepio gelado na nuca, sabia que
não voltaria a encontrar o seu grande amigo e o seu olhar despedira-se com
muito por dizer. Um grande chefe por quem sacrificava a sua vida, o mesmo preço que pagaria Adan pela vida de qualquer um do seu povo.
Flaint
reconhecendo o olhar que partilhava, abraçou o corajoso homem que vingava o
desejo de mil homens e mulheres que se espalhavam pelo reino do sul - vai em
paz e que a tua morte não seja em vão. O teu nome será lembrando. Se
conseguires safar-te com vida iremos festejar bem isto com um grande banquete e com o melhor vinho – disse-lhe despedindo-se com um forte abraço.
Galderc
voltou as costas e à saída da tenda encontrou o longo manto azul de Adan com o
cordão com o símbolo de árvore, o símbolo da antiga Esmania. Pegou no manto e
deixou-o cair nas suas costas. Flaint acenou em concordância e em respeito viu
Galderc partir.
- Adan,
Adan! – Flaint acordava o seu chefe depois dos trinta homens já estarem prontos
para o escoltar.
- Passa-se
alguma coisa Flaint? Que urgência é esta? – perguntava Adan que se levantara
com tamanha urgência que rapidamente se vestiu e se armou – onde está o meu
manto?
- Está lá
fora com Ermork. Temos de partir. Galderc recebeu um aviso de um vigia nosso
depois de ter avistado possível perigo por perto – Flaint que se mostrava pouco
alarmante, mas tenso, desafiou Adan para o exterior enquanto lhe deixava um
recado falso, mas que a sua proteção o exigia e desculpava – Galderc mandou
dizer que dividiu os homens em 4 grupos e que voltamos a encontrar-nos mais
tarde a oeste da montanha até avistar Torfel. Elsos já partiu com um dos grupos. O nosso
parte agora pela costa e mais tarde será o de Galderc depois de levantado o
acampamento. O outro grupo encontra-se em vigia caso se inicie algum ataque
surpresa. Mas temos mesmo de partir já Adan.
- Muito bem,
vamos embora então – aceitou Adan a ordem de Galderc, sabia-o como bom
estratega e confiava nele. Atento levou os seus homens para uma rota já
estrategicamente estudada em caso de haver risco de ataque.
Adan já
levava a sua fuga bem longe julgando que todos os seus homens o seguiam
espalhados pelas terras da costa quando uma curta batalha ecoou sobre Galderc,
nas terras de Wermest.
- Ora ora,
vejam só – Zamessa aproximava-se montada no seu cavalo bruto, arfando o cansaço
do galope urgente – e não é que achei um tesouro! Um tesouro que o rei do sul
me incumbiu de encontrar. És muito valioso para ele seu escumalha burrinho.
Galderc estava
firme com o seu manto estendido sobre o seu corpo suado, o capuz escondendo-lhe
o rosto. Vendo-a descer num salto equilibrado, Galderc provocou um tribal e
este esmurrou-o no peito. Curvando-se com dor, evitara que Zamessa deixasse a
descoberto a sua identidade.
- Como
sempre muito rebelde hã?! Vá lá, eu tenho de confessar que tens conseguido
aborrecer e muito o teu rei. Falta de coragem tu não tens, mas a coragem não é
tudo - dizia agarrando-lhe a cabeça e
atirando-o ao chão - Julgavas que me ias enganar com o rapto daquela miúda? –
ria energicamente estendendo a graça pela sua tribo – aquela miúda prepotente
que tu raptaste depois de me pagares, era uma fugitiva da cidadela. Achavas
mesmo que raptavas um dos meus com tamanha facilidade? Estás a ficar cego com a
ambição Adan.
Zamessa
afastava-se agora para confirmar o que aos ouvidos de Galderc o vento revelou. Como um
sussurro, o último suspiro do último dos bravos homens de Adan fez-se ouvir na
madrugada rompante. A morte nas mãos dos Margassa era impiedosa e conforme a
vontade, podia ser mais penosa e mais prolongada a dor até finalmente o senhor da
morte aparecer. Restava apenas a Galderc orar para que Adan tivesse tido tempo
suficiente para fugir.
- Vamos!
Temos um longo caminho até às terras do sul – a voz de Zamessa rompeu perante
um silêncio doloso e Galderc agitou-se na própria verdade do seu destino - Se
partirmos já, ainda encontramos a guarda do rei às portas de Grazil, a vila
agora deserta desta gente que ousou enfrentar aquele reizinho gordo – assobiava
Zamessa agitando o seu traje tribal de peles e penas coloridas, caminhando como
uma dança vitoriosa – onde está Lachiki e os aprendizes? – perguntara Zamessa
desafiadora para um dos seus capatazes.
- Foram
atrás de uns poucos homens que fugiram. Ficam para trás? – perguntou o capataz
receando encontrar o olhar de Zamessa.
- Que fiquem
para trás e que gozem bem do exercício, já me chega sacrificar homens meus para
os seus treinos. Assim ficam-me mais baratos. Atem bem essas cordas a este homem
à carroça, que ele é bastante esperto quando pensa – gesticulava exagerada em
direção do prisioneiro - Mas o não o vamos deixar pensar sim?! Vamos ocupar a
tua mente apenas para manteres o equilíbrio com a caminhada e não acredito que
essas pernas aguentem – dizia-o divertida quando ao passar atingira uma perna
com um golpe de lança.
Galderc
manteve-se forte sem emitir qualquer som para manter o disfarce o maior tempo
possível. A sua mente ausentava-se para lá do horizonte, algures onde Adan
corria pela vida. Zamessa avançava agora radiante para a cidadela do sul para
entregar o seu valioso prémio, satisfeita e certa da identidade que
sequestrara.
- Rasakiki,
envia uma mensagem bem educadinha para o rei sim? E quero que ele me pague bem
ou então ele vai provar da minha fúria, não tenho medinho nenhum do reizinho
gordo – dizia rindo bem alto enquanto se dirigia para a fila dianteira da sua
tribo.
“Senhor do
sul. Vossa subtileza e riqueza são infortúnios para os mais fracos. Provo-vos
mais uma vez que a minha lealdade a vós depende da quantia de vosso ouro. O
tesouro que levo comigo tem maior valor quanto aquele que me quereis pagar.
Espero a vossa sincera gratidão com dois navios novos, 20 fortes homens para os
navegar, 1 arca de especiarias e tecidos para a minha tribo. As minhas
exigências são merecidas perante o que me exigiste. Para verdes que de tão
verdade digo, envio-te um pequeno objeto que julgo reconhecerás o seu
possuidor. Assinado Zamessa”.

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