- “Coração dentro, coração fora, Recolhe-me no teu
amor, As espadas são tuas guardiãs, Levanta-as com fé e esplendor”- relembrei a
segunda quadra.
Procurei em cada porta as pinturas que se adequavam
àquelas palavras. Algumas gravuras continham apenas símbolos com inscrições, outras com
barcos no mar, outras com amimais selvagens. Até que, chegando à sétima porta,
olhei com atenção. Nesta, apenas continha uma simples gravura mesmo por cima da
enorme porta. Três mulheres segurando um bebé. As três mulheres eram iguais,
uma amamentava a criança, outra defendia-o de um animal feroz e por fim a outra abraçava um manuscrito e uma pena. Questionei-me
inúmeras vezes se seria esta a porta. Não podia errar ou então estaria tudo
perdido. Pensava e observava uma e outra vez as imagens em cada porta. Então ponderei.
“Coração dentro
coração fora, recolhe-me no teu amor”, simbolizava o amor personificado pelo
amor de mãe, o amor mais puro e mais forte, aquele que ama por dentro como
sangue do seu sangue e aquele que ama por fora combatendo todo e qualquer
perigo que se sobrepor sobre o caminho da sua criança, ou aquele que a acompanha mesmo na distância, seguindo-a através do seu instinto.
“As espadas são as tuas guardiãs”, é o conhecimento que
nos liga às ostentações que nos são geradas e o alimento como símbolo de
crescimento físico, as verdadeiras e interiores armas de defesa para a nossa
vida para combater o mal nas suas inúmeras faces; e a educação, o crescimento
erudito de qualquer ser que se prepara para viver num mundo de desafios e
vontades impostas, aqui simbolizado pelo manuscrito e a pena que as regista.
Abracei com força aquela imagem e olhei para dentro de mim, eu detinha a força
de minha mãe, a de dentro e da fora, sempre fora educada pelos melhores mestres
que ensinam os rapazes novos, tive aulas de geografia e de tantas outras a que
nem todos os rapazes têm oportunidade de ter. As minhas guardiãs deram-me todas
as armas que preciso, amor, coragem e conhecimento.
- É apenas necessário levantá-las com fé e esplendor!
Então coloquei-me em bicos dos pés, sem querer saber que a porta era mais alta do
que eu, o suficiente para duvidar de mim. Estiquei-me mais um pouco e com o
auxílio do meu pequeno punhal com a lâmina horizontalmente disposta sobrepus a
minha força para cima, a imagem levantou numa mestria soberba e a porta abriu.
Entrei cuidadosamente observando com surpresa o seu
interior. Estava perante uma larga varanda com vista para o rio, cheia de
folhas de árvores espalhadas pelo vento naquele chão sujo do tempo esquecido.
Reconheci que aquela era eu, que há muito não organizava o meu conhecimento,
que me tinha desleixado nas minhas lições, não arrumara o que aprendera e que
estava assim, suja do tempo que passava sem lhe puder dar alguma cor, algum
arrumo, alguma utilidade.
Então, sem pensar do que dali advinha, limpei aquele espaço, improvisei uma vassoura, varri as folhas
devolvendo-as ao vento que as transportaria para a floresta, lavei as pedras
dos bancos, bebi da fonte, reguei as lindas flores que coloriam o terraço e
sentei-me no banco de pedra, desenhado com motivos belos do campo, as flores e
os cereais como alimento da alma. Então no extremo da varanda, deu-se um grande
estrondo. Levantei-me sobressaltada.
O muro da varanda caíra nas águas do rio e uma ponte
delicada e curta ganhou vida. Sem proteção lateral, eram apenas quadrados que se
colocavam em fila. Olhei meditando no que fazer.
- Fé! - lembrei-me. Onde me levará a fé?
Da minha bolsa soltou-se um rosnar, a pequena criatura
do medo estava a manifestar-se então fechei os olhos, respirei mais fundo,
levei a mão à criatura e acariciando-a ela se acalmou. Não importariam as
vertigens ou o vento que tentaria derrubar-me para a escuridão. A fé era o princípio
de tudo e a coragem era a sua mestra. Saltei passo a passo, a cada quadrado que
constituía a ponte sem ver fundo ou fim da mesma, apenas prossegui. Sentia que tinha
a mente calma, arrumada e sã, e por isso, teria de seguir, perderia mais ao
desistir.
Então lutaria, independentemente, para onde quer que isso me
levasse. O vento assoprava cada vez com mais força soltando-me os cabelos
deixando-os livres num caramelo radioso. Ao longe vi algo a brilhar. Prossegui
sem receio. E quando cheguei mais perto consegui vislumbrar uma majestosa
espada de ouro branco com inscrições iguais aos do cavalo do outro mundo, com
um cabo belo e forte numa forma circular onde estava desenhado em mestria uma árvore.
Percebi que era a espada que está gravada no meu medalhão. Como símbolo do
conhecimento, da honra, da família, fruto de tantas demandas que o outro mundo
passou para os homens e mulheres que cresceram nas terras do sul. Somos as
raízes da grande árvore que dá o fruto às gerações a quem passamos a herança da
palavra e da força.
Para chegar à espada teria de saltar para a última
pedra que compunha a ponte, um salto que colocaria em risco a minha vida se não
a alcançasse. Por momentos pensei que não iria conseguir e a criatura do medo
começou agitar-se na bolsa. Aconcheguei-o o melhor que pude e chamei a coragem,
chamei a imagem das três guardiãs e pedi que me ajudassem. Amei a minha
linhagem lembrando das provas que todas as outras mulheres teriam provado à
Deusa. Então descalcei as botas, larguei a bolsa, retirei a capa e fiquei
apenas com a minha túnica simples, leve sem o medo. Recuei um pouco e corri. Quando
voava no céu até ao quadrado de pedra onde esperava a espada, surgira o meu
companheiro de aventura, o corvo, que se mantinha ao meu lado para não desistir.
Vi-me cair aos pés da graciosa espada, minha herança, meu legado, fonte de todos
os sacrifícios, da fé, do amor e do conhecimento dos meus antepassados. Peguei
nela com o máximo cuidado, era pesada. Mas o seu peso tinha a ver com o seu
significado, pois em matéria era leve.
A justiça é um ato de fácil prática, fazer-se
justiça já é um ato de tamanha ponderação e risco. Percebi naquele momento o respeito que era
merecido impor por todo o significado que tinha aquele elemento.
A ponte outrora em pedaços era agora um caminho seguro,
seguido com os ornamentos laterais da varanda. Vesti as roupas, calcei as botas
e coloquei a espada presa na bainha do cinto que segurava a túnica.
A varanda desaparecera e voltei de novo ao corredor do
castelo. Até ao momento tinha acertado em duas portas, ou então, estaria
perdida num labirinto sem fim perseguida pela criatura do meu próprio medo. Os
pássaros cantavam num redopio contra o sol que partia para dar lugar à noite.
Sentia-me cada vez mais completa, mais me aproximava do conhecimento que iria
precisar quando acordasse no mundo dos homens. Sentia-me cada vez mais ligeira
e vigorosa. A criatura do medo estava tão sossegada naquele castelo de
paredes tímidas e ocas. Faltava apenas a última quadra da canção e tinha de
acertar numa das 5 portas restantes.
Continuei
mais confiante e ansiosa por terminar aquele desafio.
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