domingo, 1 de dezembro de 2013

IVº Parte - Conto: Os reis de Glä’kar....



- “Coração dentro, coração fora, Recolhe-me no teu amor, As espadas são tuas guardiãs, Levanta-as com fé e esplendor”- relembrei a segunda quadra.

Procurei em cada porta as pinturas que se adequavam àquelas palavras. Algumas gravuras continham apenas símbolos com inscrições, outras com barcos no mar, outras com amimais selvagens. Até que, chegando à sétima porta, olhei com atenção. Nesta, apenas continha uma simples gravura mesmo por cima da enorme porta. Três mulheres segurando um bebé. As três mulheres eram iguais, uma amamentava a criança, outra defendia-o de um animal feroz  e por fim a outra abraçava um manuscrito e uma pena. Questionei-me inúmeras vezes se seria esta a porta. Não podia errar ou então estaria tudo perdido. Pensava e observava uma e outra vez as imagens em cada porta. Então ponderei.

 “Coração dentro coração fora, recolhe-me no teu amor”, simbolizava o amor personificado pelo amor de mãe, o amor mais puro e mais forte, aquele que ama por dentro como sangue do seu sangue e aquele que ama por fora combatendo todo e qualquer perigo que se sobrepor sobre o caminho da sua criança, ou aquele que a acompanha mesmo na distância, seguindo-a através do seu instinto.

“As espadas são as tuas guardiãs”, é o conhecimento que nos liga às ostentações que nos são geradas e o alimento como símbolo de crescimento físico, as verdadeiras e interiores armas de defesa para a nossa vida para combater o mal nas suas inúmeras faces; e a educação, o crescimento erudito de qualquer ser que se prepara para viver num mundo de desafios e vontades impostas, aqui simbolizado pelo manuscrito e a pena que as regista. 

Abracei com força aquela imagem e olhei para dentro de mim, eu detinha a força de minha mãe, a de dentro e da fora, sempre fora educada pelos melhores mestres que ensinam os rapazes novos, tive aulas de geografia e de tantas outras a que nem todos os rapazes têm oportunidade de ter. As minhas guardiãs deram-me todas as armas que preciso, amor, coragem e conhecimento. 

- É apenas necessário levantá-las com fé e esplendor!

 Então coloquei-me em bicos dos pés, sem querer saber que a porta era mais alta do que eu, o suficiente para duvidar de mim. Estiquei-me mais um pouco e com o auxílio do meu pequeno punhal com a lâmina horizontalmente disposta sobrepus a minha força para cima, a imagem levantou numa mestria soberba e a porta abriu. 

Entrei cuidadosamente observando com surpresa o seu interior. Estava perante uma larga varanda com vista para o rio, cheia de folhas de árvores espalhadas pelo vento naquele chão sujo do tempo esquecido. Reconheci que aquela era eu, que há muito não organizava o meu conhecimento, que me tinha desleixado nas minhas lições, não arrumara o que aprendera e que estava assim, suja do tempo que passava sem lhe puder dar alguma cor, algum arrumo, alguma utilidade. 

Então, sem pensar do que dali advinha, limpei aquele espaço, improvisei uma vassoura, varri as folhas devolvendo-as ao vento que as transportaria para a floresta, lavei as pedras dos bancos, bebi da fonte, reguei as lindas flores que coloriam o terraço e sentei-me no banco de pedra, desenhado com motivos belos do campo, as flores e os cereais como alimento da alma. Então no extremo da varanda, deu-se um grande estrondo. Levantei-me sobressaltada.
O muro da varanda caíra nas águas do rio e uma ponte delicada e curta ganhou vida. Sem proteção lateral, eram apenas quadrados que se colocavam em fila. Olhei meditando no que fazer.

- Fé! - lembrei-me. Onde me levará a fé? 

Da minha bolsa soltou-se um rosnar, a pequena criatura do medo estava a manifestar-se então fechei os olhos, respirei mais fundo, levei a mão à criatura e acariciando-a ela se acalmou. Não importariam as vertigens ou o vento que tentaria derrubar-me para a escuridão. A fé era o princípio de tudo e a coragem era a sua mestra. Saltei passo a passo, a cada quadrado que constituía a ponte sem ver fundo ou fim da mesma, apenas prossegui. Sentia que tinha a mente calma, arrumada e sã, e por isso, teria de seguir, perderia mais ao desistir. 

Então lutaria, independentemente, para onde quer que isso me levasse. O vento assoprava cada vez com mais força soltando-me os cabelos deixando-os livres num caramelo radioso. Ao longe vi algo a brilhar. Prossegui sem receio. E quando cheguei mais perto consegui vislumbrar uma majestosa espada de ouro branco com inscrições iguais aos do cavalo do outro mundo, com um cabo belo e forte numa forma circular onde estava desenhado em mestria uma árvore. Percebi que era a espada que está gravada no meu medalhão. Como símbolo do conhecimento, da honra, da família, fruto de tantas demandas que o outro mundo passou para os homens e mulheres que cresceram nas terras do sul. Somos as raízes da grande árvore que dá o fruto às gerações a quem passamos a herança da palavra e da força. 

Para chegar à espada teria de saltar para a última pedra que compunha a ponte, um salto que colocaria em risco a minha vida se não a alcançasse. Por momentos pensei que não iria conseguir e a criatura do medo começou agitar-se na bolsa. Aconcheguei-o o melhor que pude e chamei a coragem, chamei a imagem das três guardiãs e pedi que me ajudassem. Amei a minha linhagem lembrando das provas que todas as outras mulheres teriam provado à Deusa. Então descalcei as botas, larguei a bolsa, retirei a capa e fiquei apenas com a minha túnica simples, leve sem o medo. Recuei um pouco e corri. Quando voava no céu até ao quadrado de pedra onde esperava a espada, surgira o meu companheiro de aventura, o corvo, que se mantinha ao meu lado para não desistir. Vi-me cair aos pés da graciosa espada, minha herança, meu legado, fonte de todos os sacrifícios, da fé, do amor e do conhecimento dos meus antepassados. Peguei nela com o máximo cuidado, era pesada. Mas o seu peso tinha a ver com o seu significado, pois em matéria era leve.

A justiça é um ato de fácil prática, fazer-se justiça já é um ato de tamanha ponderação e risco. Percebi naquele momento o respeito que era merecido impor por todo o significado que tinha aquele elemento.
A ponte outrora em pedaços era agora um caminho seguro, seguido com os ornamentos laterais da varanda. Vesti as roupas, calcei as botas e coloquei a espada presa na bainha do cinto que segurava a túnica. 

A varanda desaparecera e voltei de novo ao corredor do castelo. Até ao momento tinha acertado em duas portas, ou então, estaria perdida num labirinto sem fim perseguida pela criatura do meu próprio medo. Os pássaros cantavam num redopio contra o sol que partia para dar lugar à noite. Sentia-me cada vez mais completa, mais me aproximava do conhecimento que iria precisar quando acordasse no mundo dos homens. Sentia-me cada vez mais ligeira e vigorosa. A criatura do medo estava tão sossegada naquele castelo de paredes tímidas e ocas. Faltava apenas a última quadra da canção e tinha de acertar numa das 5 portas restantes. 

 Continuei mais confiante e ansiosa por terminar aquele desafio.

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