Relembrei atenta a última quadra, juntando as mãos numa
esperança renovada:
- “O lobo assombra a noite com o seu uivar, O cavalo
vitaliza a força e humildade, Ergue-te meu herdeiro, Sou eu a tua entidade”.
O uivar do lobo é o presságio na noite escura do tempo,
são os desafios que acocoram no nosso caminho, o seu uivo é um símbolo de
respeito e de medo. O lobo é a imagem da rebeldia do homem, representa a força
exterior, a vontade de exceder os limites humanos e a ambição de ser maior. É a
garra necessária para vencer as pretensões ambíguas do inimigo.
O cavalo, símbolo de força, vitalidade, conduz o
destino dos homens. Estão ligados às divindades, viajam frequentemente entre o
mundo dos homens e o do outro mundo. O lobo e o cavalo correm juntos no meu
sangue. O lobo é o antigo símbolo dos primórdios povos da minha família
paterna, enquanto que, o cavalo é o símbolo muito guardado e amado pelo lado
feminino da família.
Sangue de grandes amantes e bons cavaleiros, tal como
minha mãe, corre-me nas veias a mesma fulminante paixão por brilhantes animais.
Por isso herdei o seu cavalo, presente do outro mundo. Eles são o fogo e água
das nossas vidas, são a alegria e a tristeza de viver com eles, são o amor e
ódio quando partimos juntos para a guerra, são eles que nos conduzem no caminho
entre os dois mundos e que por vezes cruzam fronteiras e nos abraçam com as
suas transformações.
Olhei as 5
portas com uma atenção ansiosa. Então tinha duas portas de uma natureza familiar
e ambas captavam a minha atenção. Se numa tinha figurado vários cavalos a
correrem livres em campo aberto, com pequenos momentos vibrantes na orla de uma
floresta; noutra apenas tinha 1 cavalo e 1 homem num laço de amizade. Numa
paisagem sem mais pormenor, não haviam lobos em nenhuma parte da escultura que
circundava as portas. Decidi que seria esta última que explicaria o significado
do cavalo no nosso símbolo da família, o cavalo sendo a união dos dois mundos
que liga ao homem. Um elo que existirá para sempre entre os dois seres.
Amo aqueles seres de mistérios e forças profundas
que fazem brotar em mim a mesma força e vitalidade. Juntos somos um só. Tal
como aquela imagem tão simples. De facto todas as coisas são simples na sua verdadeira
natureza e assim é o amor por todas as coisas. Aquele era o momento
grandioso que me ligava à minha mãe e à sua paixão.
Aquela porta não seria aberta
por encontros de lugares mágicos nas suas gravuras, aquela seria aberta por uma
chave em si especial. Carinhosamente e sem poupar as lágrimas de saudade,
levei a minha mão à bolsa, retirei a criatura do medo e coloquei-a sobre o
ombro - Ficas aqui para veres a minha felicidade, apreciares a tua natureza e
para veres que não há razões para te sentires feroz.
Levei novamente a mão à bolsa e retirei um pequeno
brinquedo tão antigo, elaborado com tanta paixão quanto é possível um homem
despender e coloquei-o sobre as duas mãos. A noite já se acomodava no céu
tapando uma ténue linha alaranjada no horizonte. Olhei a pequena figura do
cavalo e descobri-lhe a linha que unia as duas partes, com um jeito abriu-se, e
lá dentro, uma chave em bordado floral.
Retirei a chave e reparei que no cimo ostentava a
cabeça de um lobo, a mesma imagem que no medalhão. Sorri satisfeita e levei-a à
fechadura da porta com a mesma paixão pela qual foi feita. Quando a noite por
si caia e a porta se abriu, o brilho que se ergueu do interior daquela divisão
ocultou a noite e voltou a ser de dia, num esplendor majestoso, onde todas as
coisas florescem e crescem saudáveis e férteis.
Entrei no jardim que vislumbrara tão ao longe. Uma
ilusão tão falsa, incomparável com a verdadeira beleza daquele lugar. Uma
imensidão de terra que se erguia num manto floral de tantas cores, espécies de flores que jamais sabia existir. Olhei
para trás e não via qualquer castelo, somente aquele lugar mágico, um lugar dentro
de um outro lugar num outro mundo.
Um pouco mais à frente rebentava uma nascente onde
ouvi tiritar os pássaros numa dança matrimonial. Ajoelhei-me naquela visão tão
doce, tão merecida. Tinha passado as provas porque dependiam sobretudo de
reavaliar os conhecimentos que já me foram impostos juntando a outros novos.
Todos os saberes nos fazem crescer e são elementos essenciais para a
concretização do nosso destino. Como todas as coisas crescem dependentes de
tantos outros elementos!
Estava tão calma que só depois de um longo tempo
lembrei-me de procurar o meu cordão. Voltei a colocar a criatura do medo na bolsa,
o qual, dormitava num sono profundo, talvez ele também pudesse sonhar. Uni as
duas partes do cavalo e guardei-o. Para maior surpresa, enquanto caminhava por entre a imensidão
de cor, vislumbrei que em várias flores, nas suas pétalas, ostentavam pequenos
espelhos, e nelas surgiram várias imagens da minha infância, junto das minhas
irmãs, com a minha mãe, com o meu pai. Lembranças tão boas que fazem parte de
mim. Permaneci largos momentos olhando e relembrando cada uma.
Refresquei-me na água da pequena nascente. Quando abri os olhos e após
lavar o rosto, vislumbrei uma figura refletida na água. Olhei para trás e não
vi ninguém. Olhei de novo para as águas suspeitas e vi novamente aquele
rosto. E então mesmo ao meu lado ali estava aquela figura, um belo cavalo, cor
de âmbar, com os seus cabelos lisos num entrançado com flores do campo. Um
espécime saudável e robusto. Uma égua de um olhar terno e fugaz. Estava a
lamber-me o rosto e dei uma gargalhada saudosa, e quando lhe levei a mão para
acariciar o seu dorso esta tinha o meu cordão. Toquei nele e abracei aquele espécime apaixonante. Então ela baixou-se para eu subir. Assim o fiz e ela levou-me até o fina desta demanda.
Percorremos a vastidão do jardim
por entre as flores que dançavam sugando a luz brilhante que vinha de um céu
apaixonado. Então chegámos a um rio largo que caia para o abismo do outro lado
daquela parede invisível. Perto das águas estava outro belo espécime, um
garanhão num castanho avelã escuro, com um cabelo liso dançante ao vento, com
reflexos cor de um preto genuíno, tal como nas suas patas. Um guerreiro
solitário.
Desmontei a égua e caminhei em direcção daquele maravilhoso ser,
este não aceitava a minha presença, estava nervoso. Então a égua passou por mim
e os dois encontraram-se numa saudade conjunta. Entrelaçando as cabeças,
percebi naquele momento que eram o símbolo dos dois cavalos no meu medalhão. A
confiança e o amor entre o homem e a mulher. Seria o verdadeiro elo, o elo da
fertilidade, do amor e confiança. Porque do amor de um casal nasce a união e a
sustentabilidade da sua família. A confiança, a família e a honra. Os lemas da
minha casa.
Então empenhei a espada nos céus e os dois cavalos se ergueram e se
personificou o símbolo do medalhão. A minha demanda estava cumprida. Aos poucos
o jardim foi-se tornando mais pequeno. Até que a visão desvanecera-se. Sorri
deixando correr as minhas lágrimas soltas renovando-me o espírito.
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