Eu nasci e comecei a crescer num mundo onde as árvores
eram verdes no verão e laranjas no inverno. Num mundo onde a chuva era límpida
e a luz do sol era renovadora. Cresci ainda num mundo onde a terra engolia as
sementes e as cuspia maduras, alimentava-nos a fome com o seu fruto crescido.
Cresci num mundo onde as pessoas sonhavam e sorriam. Esse mundo não é mais o
que existe. Afinal de contas, a ambição humana e a sua insatisfação crescem mais
rápido que o corpo de uma criança.Por isso aqui estou, ainda a crescer, agora num outro mundo. Num mundo onde as árvores são lendas. Num mundo onde a chuva queima. Num mundo onde o sol se mistura com a poeira e a poluição. Num mundo onde a terra é infértil, onde o alimento é criado por máquinas que extraem um pequeno comprimido com pó. Este é o mundo onde eu agora termino de crescer. Sem puder brincar pelas ruas da cidade, porque estas, estão cobertas de casas em ruína, ruas isoladas e silenciosas sem a presença de multidão de humanos. Até os animais estão todos extintos.
Eu sou o último de meus 5 irmãos, o último a quem a cólera ainda não beijou. Parti sozinho quando a senilidade chegou à minha família. Eu não me importei de ficar sozinho apesar da minha tenra idade. O sofrimento e o isolamento não se distinguiam, eu já vivia à minha maneira. Eu continuava a sonhar, em contradição com os outros semelhantes. Eu ainda olhava para o céu e via uma réstia de um velho rosto, uma resenha de azul, ou uma estrela que se atreveu revelar. Por isso parti, só comigo e com mais nada.
As
cidades eram iguais, ou estaria ainda sempre na mesma?
Por vezes vislumbrava
uns olhos brilhantes de humanos a ver-me passar, iluminados no que se poderia
dizer, pela luz da lua? Ou reflexo das radiações? Que importa? O mundo está
destruído e a raça dos homens perdeu-se. Acabou. Espera-se o último fôlego. Mas
não eu. Eu sonho reconstruir o mundo. Sonho com a chuva que irá limpar o céu
sujo, o mar que irá varrer as ruínas, o sol que irá beijar o chão renovado, e
nele, voltar a crescer as belas plantas de outrora. Eu sonho, por isso ainda
não morro.
Quando cheguei perto de um edifício prestes a quebrar, chamou-me atenção um certo gemido, um breve ruído que não pude perceber de imediato. Eu sou um menino bravo, nada me mete medo, e então lá fui eu. Tropeçando na meia escuridão, sentindo os cacos debaixo dos meus pés descalços e feridos, lá estava o motivo da curiosidade.
Um gatinho. Tremia de medo,
encostado à parede rachada. Chamei-o ternamente agachando-me perto dele. Depois
sorri, um grande sorriso. “vem cá amigo, não te vou fazer mal”. O gatinho
desconfiado levantou-se, caminhou até mim, quando viu que não o atacara correu
para o meu colo. Ronronando e roçando no meu braço, acocorei-o no meu regaço e
mimei-o.
“Eu vou proteger-te sim?”
tinha feito um amigo, e afinal dava
resultado sonhar, não era conhecido existir nem uma mosca, quanto mais um
gatinho. Levei-o comigo, protegendo-nos dos olhares perversos. Como era de
noite, e assim parecia ser pela estrelinha que brilha no céu, recolhi-me no
encosto de uma caravana destruída ao lado de grandes bocados de betão, bem escondidos
por debaixo daquele monte. Não seria preciso explicitar o cheiro efémero de
todo aquele lugar, não importa descrever. Eu vejo o mundo com fé, não deixo que
os meus sentidos me roubem a esperança.
O gatinho embrulhou-se na minha túnica
que me tapava, pequenos trapos juntos uns aos outros por nós. Então eu retirei
umas folhas da minha bolsa. Ficara oca. “vou-te contar a bela história do rei
tigre, queres ouvir?” o gatinho miou cuidadosamente baixinho. O menino
sorriu-lhe novamente e acariciou a sua cabecita, este deitou-se preparado para
ouvir a história.
Era uma vez um reino encantado onde o seu rei era um
grande tigre. Era o mundo dos felinos e eles rugiam muito alto. Sabes como se
chama o seu rei? É o grande guerreiro Krokhej, venceu três grandes batalhas
contra o rei das hienas, o rei dos coiotes e o rei dos abutres. Diz-se que na
sua última batalha, todos os tigres exibiam exuberantes armaduras de prata, com
insígnias protectoras. No mundo dos tigres tudo era bonito, a relva era verde e
nesse manto verde cresciam belas e variadas flores onde a sua cor reflectia no
céu, o céu era azul e não vermelho, o mar também era azul com peixes de muitas
cores e formas, e as árvores? oh...elas eram tão bonitas, altas, com ramos que
brincavam com as nuvens.
Não conheço toda a história, só tenho estas 2 folhas
com estes desenhos, mas podemos imaginar”. Levantou-se o menino personificando
actos de batalha. “ergue-te cobarde e destruidor da beleza do teu mundo, assume
a responsabilidade das tuas acções, condeno-te a reconstruir o que
destruís-te”. Completava o menino à história na sua inocência de criança.
“sabes meu amigo, diz a lenda, que quem encontrar o rei tigre pode pedir-lhe um
desejo, eu gostava de lhe pedir um”, olhou o menino doce e humildemente para o
gatinho.
O gatinho atento à lágrima sincera do menino miou, voltou a miar, e miou novamente enquanto se erguia, e erguia o volume da sua voz. O menino tentava que este não emitisse tão alto para não chamar atenção. Até que, abafando o gemido do gatinho, um rosnar bem alto, estremecendo o chão deixou o menino paralisado. As nuvens combatiam por espaço, engolindo-se umas às outras, os seus trovões eram fortes e estrondosos. O gatinho saltou para o colo do menino e miou. O menino voltou-se. No céu personificara-se um outro mundo. O grande rei Krokhej fora o primeiro a falar:
- “chamaste-nos nobre guardião” - O gatinho miou.
O gatinho atento à lágrima sincera do menino miou, voltou a miar, e miou novamente enquanto se erguia, e erguia o volume da sua voz. O menino tentava que este não emitisse tão alto para não chamar atenção. Até que, abafando o gemido do gatinho, um rosnar bem alto, estremecendo o chão deixou o menino paralisado. As nuvens combatiam por espaço, engolindo-se umas às outras, os seus trovões eram fortes e estrondosos. O gatinho saltou para o colo do menino e miou. O menino voltou-se. No céu personificara-se um outro mundo. O grande rei Krokhej fora o primeiro a falar:
- “chamaste-nos nobre guardião” - O gatinho miou.
De
seguida 2 grandes tigres e um lince rosnaram e um trovão pareceu assolar o
mundo.
- “criança, de corpo destruído e coração sonhador, que queres de mim?”.
O menino gaguejou, calou-se e voltou a tentar.
- “ tu és o rei dos tigres senhor?”.
Os linces olharam-se e o gatinho lambei a mão do
menino.
- “ sou corajosa criança, não me temes. Admiro a tua
coragem. Talvez sejas o último humano com esse olhar e de puro coração”.
- “rei Krokhej, podes-me concretizar um desejo?”.
O tigre levantou-se, os linces deitaram-se sobre as
nuvens que não teimavam em recuar, aos poucos parecia que queriam engoliam o
menino.
- “os desejos são perigosas vontades criança. O que
pode desejar uma criança? Num mundo destes os teus desejos podem ser perigos
para a tua sanidade”.
A criança baixou a cabeça, olhou o gatinho que o olhava esperto, esperando ouvir o desejo.
- “só desejo que o mundo seja bonito, não importa como e com o quê. Desde que seja bonito”.
Os linces trocavam impressões com os tigres e calaram-se quando o rei Krokhej rosnou baixinho.
- “oh criança, não desejas uma casa, uma família, comida? Não te deves alimentar há muito tempo”.
- “não rei Krokhej, eu sou um dos muitos que desejariam
isso, mas assim, o mundo continuaria mal para os outros. Não me importo de não
ficar cá, nada há aqui. Eu sonho com um mundo bonito e sei o que esse mundo
precisa para ser bonito”.
O tigre sentou-se admirado.
- “sacrificas um futuro desconhecido em prol de
compensar o mundo pelas atrocidades da tua espécie”, disse o tigre numa nobre
voz. “é um desejo muito forte, o teu coração assim o diz. Muito bem eu
concedo-te esse desejo. Mas tu vais conceder-me um a mim”.
Os tigres e os linces olharam o rei levantando-se. O gatinho igualmente o fez.
- “quero que venhas para o meu mundo. Afinal de contas encontras-te e proteges-te um da nossa espécie, um perdido nesse mundo sem retorno, aceitas criança?” a criança sorriu. Assim, a criança subiu no céu até ao rei Krokhej.
Cá em baixo, o mundo dos homens, começou a ser engolido pela mãe natureza, os mares galgaram continentes, as nuvens batalharam com a poluição e tudo foi desaparecendo, as ruínas, o céu cheio de radiações e os corpos dos humanos. Tudo foi limpo. A última visão do mundo dos humanos, fora o corpo adormecido do menino e do gatinho, que bençoadamente e com jeitinho foram levados pelas águas purificadoras.
No céu já não haviam os tigres. O outro mundo ficaria lá longe. Este mundo novo nasceu.
Quem sabe um dia volte a este lugar e tudo possa ter seguido um caminho diferente?
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