terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Exercício de escrita: Regresso a casa


Eu era um simples guarda real. Mas o que eu vivi e assisti tornou-me num ser humano mais perspicaz e num guerreiro mais forte, que tanto me encheu o peito de orgulho como de afogo. O sangue que foi derramado nas minhas mãos não ficará esquecido, e a vida irá exigir-me o respetivo pagamento das vidas perdidas por causas contrárias àquelas que cada homem que lutou no campo de batalha sentia.


Eram as ordens dos reis respetivos e quando um homem parte para uma batalha, leva consigo a certeza de que não volta, guardando na bolsa o pagamento para o homem da barca. Mas a morte não me tinha escolhido e naquele dia, naquele dia, só havia motivo de celebração. Estávamos a chegar a casa. Um regresso a casa muito desejado por quem se vê forçado a abandonar a sua família e entregar-se nos braços do inimigo.

Sofremos todos juntos. Tanto os que batalharam bravamente como aqueles que orarem pela vida dos seus. Junto a mim seguiam outros companheiros de viagem. Com eles partilhei a agonia e a esperança de sairmos vivos daquela batalha que acabou há tão pouco tempo.


O silêncio era o mais sublime discurso ao que vivemos, e nele incluía as graças da vida.

A agora rainha, uma mulher corajosa e sábia, que lutou sempre junto aos seus homens no campo de batalha, espreitava pela janela da carruagem. Eu e os meus companheiros éramos os sobreviventes da batalha mortal e agora a pequena patrulha trazia a rainha de volta a casa.


No meu sussurro incessante atrevi-me a olhar para a senhora. No seu olhar de soberana trazia uma esperança viva no olhar, enquanto este se estendia num horizonte indefinido e que ansiosamente desejava alcançar, ocultando nas suas lágrimas obedientes a angústia e tristeza pelas inúmeras perdas. Confrontar o olhar dos parentes dos mortos seria a tarefa mais difícil na sua qualidade de rainha.


O sol rebentou por detrás das colinas altas que marcavam o horizonte. 


Atrás da luz soberba estaria a vista mais bela e mais esperada pelos nossos corações. Então, um rasgo de luz nos celebrou e o reino se mostrou. Os dois montes que enamoravam-se até um céu bem-vindo. 

Em cada um deles sustinha-se uma parte do reino. Num lado, tínhamos o mosteiro onde vivia a família real e no outro, a extensa aldeola onde se estabelecia o povo. Na hora da lavoura as colinas enchiam-se das nossas gentes.



E se as bandeiras erguiam-se orgulhosas ao vento, foram os tambores que agitaram o bater do meu coração. A rainha era esperada. As notícias eram esperadas. E eu, esperava ansiosamente abraçar a minha família. Por tudo isto e por tudo o que vivi, gozo todos os dias que restam da minha vida com um sabor diferente. Valeu a pena sobreviver mais um pouco para sentir o carinho de todos. A trombeta suou e a minha família sorriu correndo ao meu abraço. É tão bom chegar a casa.
 

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