Eu era um simples guarda real. Mas o que eu vivi e
assisti tornou-me num ser humano mais perspicaz e num guerreiro mais forte, que
tanto me encheu o peito de orgulho como de afogo. O sangue que foi derramado
nas minhas mãos não ficará esquecido, e a vida irá exigir-me o respetivo
pagamento das vidas perdidas por causas contrárias àquelas que cada homem que
lutou no campo de batalha sentia.
Eram as ordens dos reis respetivos e quando um homem
parte para uma batalha, leva consigo a certeza de que não volta, guardando na
bolsa o pagamento para o homem da barca. Mas a morte não me tinha escolhido e
naquele dia, naquele dia, só havia motivo de celebração. Estávamos a chegar a
casa. Um regresso a casa muito desejado por quem se vê forçado a abandonar a
sua família e entregar-se nos braços do inimigo.
Sofremos todos juntos. Tanto os que batalharam
bravamente como aqueles que orarem pela vida dos seus. Junto a mim seguiam
outros companheiros de viagem. Com eles partilhei a agonia e a esperança de
sairmos vivos daquela batalha que acabou há tão pouco tempo.
O silêncio era o mais sublime discurso ao que
vivemos, e nele incluía as graças da vida.
A agora rainha, uma mulher corajosa e sábia, que
lutou sempre junto aos seus homens no campo de batalha, espreitava pela janela
da carruagem. Eu e os meus companheiros éramos os sobreviventes da batalha
mortal e agora a pequena patrulha trazia a rainha de volta a casa.
No meu sussurro incessante atrevi-me a olhar para a
senhora. No seu olhar de soberana trazia uma esperança viva no olhar, enquanto
este se estendia num horizonte indefinido e que ansiosamente desejava alcançar,
ocultando nas suas lágrimas obedientes a angústia e tristeza pelas inúmeras
perdas. Confrontar o olhar dos parentes dos mortos seria a tarefa mais difícil
na sua qualidade de rainha.
Atrás da luz soberba estaria a vista mais bela e mais
esperada pelos nossos corações. Então, um rasgo de luz nos celebrou e o reino
se mostrou. Os dois montes que enamoravam-se até um céu bem-vindo.
Em cada um
deles sustinha-se uma parte do reino. Num lado, tínhamos o mosteiro onde vivia
a família real e no outro, a extensa aldeola onde se estabelecia o povo. Na
hora da lavoura as colinas enchiam-se das nossas gentes.
E se as bandeiras erguiam-se orgulhosas ao vento,
foram os tambores que agitaram o bater do meu coração. A rainha era esperada.
As notícias eram esperadas. E eu, esperava ansiosamente abraçar a minha
família. Por tudo isto e por tudo o que vivi, gozo todos os dias que restam da
minha vida com um sabor diferente. Valeu a pena sobreviver mais um pouco para
sentir o carinho de todos. A trombeta suou e a minha família sorriu correndo ao
meu abraço. É tão bom chegar a casa.

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