terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Exercício de Escrita: Alec e a criatura


 As águas do rio batem ferozes contra as paredes da ponte, mesmo por debaixo dos meus pés. Sinto o vento cortante em chicote no meu rosto destemido. Retiro calmamente o relógio de bolso e olho as horas: 6 horas em ponto. 


Enquanto o sino toca marcando a hora exacta, a chuva começa a cair impiedosa ocultando os ponteiros que soam jubilados à minha vontade, à minha demanda - tic tac tic tac tic tac - como que perguntando: “estás pronto Alec?”. 

Um raio de sol rompeu a esquina num horizonte ainda longínquo. Um rosnar intenso soou em eco pela cidade, batendo em cada parede fazendo ricochete até me chegar ao peito. Um aviso louco da criatura farta. O pensamento estridente não se calava: “ainda tens tempo de fugir. É isto que queres?”. 

Sem hesitação convencionei a intenção enquanto vislumbrei a presença da besta. O silêncio que abraça agora a cidade arrepia-me. Kharragär caminhava perspicaz pelas ruas voltando da matança. Kharragär era um espécime não humano, um cruzamento de lobisomem com vampiro. Caça de noite porque a luz do sol queima-lhe o corpo, ainda que não o matando, enfraquece-o.

- “v’arghul” - sussurrou-me meu pai antes do anjo da morte o levar para outro mundo. Levaria muito tempo a descobrir que V’arghul é uma flor que só existe nos confins do mundo, no vale de um submundo pernicioso onde a morte é o regaço de um conforto pedinte. Levaria 17 anos a ir e voltar para obter aquela planta para vingar a morte de meu pai. Esta planta é constituída de espinhos altamente afiados. Dentro da planta existe um líquido mortal, um veneno demasiado poderoso. Basta o cheiro para matar o mais forte do homem. E ali estava eu, com um frasco de tintura queimada de V’arghul na bolsa para matar Kharragär. 

Quanto o vi contornar a última esquina espalhei no ar um pó com odor de sangue fresco. O odor atraiu imediatamente a fome sempre sedenta e Kharragär avançou afoito até mim. Corria pelas paredes dos edifícios deixando brechas nas paredes e saltando de edifício para edifício ronronava num desejo de matança, enquanto a minha boca desenhou um esgar. Chegado à ponte, frente a frente a mim do outro lado do rio, Kharragär levantou-se da sua posição quadrúpede e rosnou. Toda a cidade tremeu. Não eu.

Kharragär lançou um olhar atento e nervoso para o raio de sol que trespassava o edifício paralelamente à longa extensão de rio que separava os edifícios rasgando a escuridão. Não perdeu tempo. Saltou para o meu alcance lançando as mandíbulas à minha cabeça. Desviei-me podendo reparar na criatura alta e robusta que era. Retirei a adaga do cinto e ele lançou-me um olhar confuso. 

Com a adaga bem afiada lancei-me à besta apanhando-o no dorso peludo e quando este se voltou, puxou-me cravando as garras nas minhas costas. Repostei. Kharragär agitou-me no ar pegando-me em cada ponta do meu corpo como se fosse partir-me em dois. Com enorme esforço debati-me contra aquela força, aproveitando qualquer oportunidade para me soltar, e enquanto não o conseguia, tentei por diversas vezes atingir alguma parte do corpo de Kharragär, até que, finalmente espetei a adaga na sua espinha horripilante.

A criatura rosnou bem alto e largou-me lançando-me no ar. Atingi a parede da ponte do outro lado no rio, e apoiando-me nos tijolos soltos da ponte, as minhas pernas debatiam-se na água gélida para não perder o apoio e numa dor cortante, reparei num profundo golpe das garras de Kharragär na minha coxa. Reuni todas as minhas forças e subi a parede escorregadia. 

Contorcendo-me no chão de dor reparei Kharragär que estuava cego com as dores do golpe. Custava-me andar mas não podia desistir. Foi com um ato de fé que aprontei as últimas forças. Quando vi o raio de sol a transbordar pela cidade, correndo rápido pelo rio com um barco irado, saltei para o marco e com o balanço lancei-me para o outro lado. Pontapeando Kharragär nas pernas, fi-lo cair. Agarrei no frasco retirando-lhe a rolha com a boca e saltei para as costas de Kharragär.

 Entranhando os meus dedos na sua ferida aberta, Kharragär abriu a boca em protesto de dor, permitindo-me despejar o veneno de V’arghul para dentro daquele corpo maldito e sem demora os raios de sol atingiram-no numa velocidade condenável. Enquanto V’arghul queimava Kharragär por dentro, o calor da luz esconjurou-o por fora, declarando a sentença final.
Impiedosa era a minha morte demorada, com o cheiro e sabor do veneno a queimar-me as veias, prolongava-se o juízo final. 

Ajoelhei-me no chão silencioso ordenando a aceitação do meu fim. A morte de meu pai estava vingada, assim como, todos daqueles que morreram por causa por Kharragär. 

A minha demanda terminara. 

O relógio soou a nova hora. 

Resta-me esperar pelo anjo da morte.

16 comentários:

  1. Olá amiga,

    Como sabes tive o prazer de ler e comentar todos os teus exercícios e para quem não sabe foram feitos baseados na imagem da capa de um grupo do FB, onde semanalmente ia colocando imagens novas e sempre as fizeste com enorme rapidez e claro com gosto e isso nota-se.

    Sempre te disse que estes exercícios eram para mim uma das mais valias do grupo e penso que mais ouve em que participaste, lembro-me daqueles em que te deixava 5 palavras e fazias o exercicio :D

    Só te posso dar os parabens, sei que gostas de desafios, logo aqui te deixo 5 palavras para caso queiras fazeres e publicares aqui no teu blog :D

    Fogo, Ilha, Raposa, Curandeira e Arco

    Diverte-te e continua sempre a escrever ;)

    Bjs

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  2. ah ah..muito bem..sempre a deixar-me pequenos pergaminhos com desafios interessantes.

    É verdade, muitos têm sido os exercícios que publicaste no Cantinho do Corvo Fiacha, e dos quais, conseguis-te incentivar, não só a mim, mas também à nossa amiga São para mostrar o nosso gosto pela escrita.

    Confesso que estes exercícios são o treino para melhores aventuras. Têm sido exercícios onde permitem que as palavras se soltam finalmente da ânsia da minha imaginação e se mantêm sempre corajosas para revelar o seu conteúdo.

    Será mais um exercício que farei com muito gosto e com o devido tempo deixarei aqui para avaliação.

    Mais uma vez, obrigado pelo teu incentivo sempre importante e positivo..:D

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    1. Olá,

      Sabia que ias gostar do desafio, ainda bem que foram um incentivo para que voltasses a escrever e claro para que sejam um treino para aventuras melhores, podes contar aqui com o amigo corvo e tenho a certeza com a amiga caminhante, por nós amigos tambem conhecida como *a que brilha* e quem sabe mesmo ela propria não venha a fazer o mesmo exercicio eheheh


      Seja como for, venham lá coisas novas :D

      Bjs

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    2. Os teus desafios são sempre dignos de concretização, bem mereces que os possa cumprir ;)

      Obrigado Fiacha por tudo, porque graças a ti partilho os meus textos e os escrevo..:D

      Sim, tens razão, A Caminhante é sábia e tem um dom para contar histórias dignas de canções épicas, espero ler mais exercícios dela também..:D

      Beijinhos

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  3. Olá Carla
    Gostaria de ter vindo comentar mais cedo, mas tive uma semana difícil...
    Pois fico muito contente de reler novamente estes belos exercícios que fizeste. São dignos de um espaço próprio e ficam lindamente neste blog (também ficam bem no cantinho do nosso amigo, é preciso dar graxa senão ele zanga-se connosco :D ).
    Deixa correr sempre esta veia da escrita em ti e vai-nos presenteando com estes belos textos.
    Mais um exercício :) o amigo corvo não descansa, eh eh
    muito sucesso para o teu blog
    beijinho grande amiga

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    1. (também ficam bem no cantinho do nosso amigo, é preciso dar graxa senão ele zanga-se connosco :D )

      Faz de conta que não li isto :D

      Faço minhas as tuas palavras é um prazer ler os textos desta nossa amiga, sem duvida um diamante, agora resta dar uma pulidela aqui outra ali e eis que o pisco voa bem alto ;)

      A ver se te recompões e fazes este exercício, gostava de ver...e tem animais e tudo :D

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    2. Ah ah :D estávamos a brincar amigo Fiacha..:D

      Mais uma vez obrigado. Sempre que quiseres podes deixar um desafio para eu fazer :D

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    3. Eu sei, também estava eheheh

      Podes contar com isso e claro depois será comentado ;)

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  4. Obrigado pelo carinho amiga, as suas palavras têm sempre um toque de animo ^_^

    É verdade não esquecer o fantástico cantinho do nosso amigo Fiacha..:P e claro sempre a puxar por nós, um corvo misterioso e muito amigo.

    Seja muito bem-vinda A Caminhante, é com muito gosto que partilho o espaço consigo e obrigado por tudo..

    beijinhos <3

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    1. lol são vocês que dão cor e vida ao cantinho com o vosso talento eheheehehe

      Só estou a tentar colocar o melhor que ambas tem cá para fora, dois belos diamantes que mais cedo ou mais tarde vão brilhar bem alto, é uma questão de tempo ;)

      E duas belas amigas, quer a sábia caminhante (não digas a ninguem mas é uma raposa) e quer o pisco que pode parecer frágil mas é muito forte sem duvida ;)

      Vá fico à espera de ver o vosso talento :D

      Bjs

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  5. Um trio interessante, um corvo, uma raposa e um pisco..:P já estou a ver-nos numa aventura épica com uma espada e pergaminhos a voar da bolsa, com canções em honra das nossas peripécias...:D

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    1. Olha amiga pisco, por mais sábia e astuta que a raposa seja, nunca confiar, ainda nos come aos dois :D

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    2. nós temos asas...:P fugimos bem rápido para cima de um ramo..eh eh

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    3. Esqueces a astucia da raposa, amiga cuidado, nunca ouviste falar na astucia da raposa e na força do javali.....poder incalculável :D

      Não durmas, ou se o fizeres em cima da arvore ehehe

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  6. nunca desprezem a astúcia de uma raposa, eh eh eh
    esta possui um dom muito especial, que alguém apelidou de manha e como tal transforma-se noutro animal e persegue-os aos dois pelos ares...
    eh eh

    quanto à graxa, amigo corvo era brincadeira, fazer exercidos é sempre bom, seja no cantinho, seja onde for. E nunca me esquecerei do cantinho uma vez que foi ele que me proporcionou conhecer bons amigos :)

    Minimë é com todo o gosto que continuarei a seguir as tuas aventuras.



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  7. Muito bem, que assim seja, e que possamos sempre conviver alegremente como temos feito até agora e se possível ainda melhor e mais no futuro :D


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