As águas do rio batem ferozes contra as paredes da
ponte, mesmo por debaixo dos meus pés. Sinto o vento cortante em chicote no meu
rosto destemido. Retiro calmamente o relógio de bolso e olho as horas: 6 horas
em ponto.
Enquanto o sino toca marcando a hora exacta, a chuva começa a cair
impiedosa ocultando os ponteiros que soam jubilados à minha vontade, à minha
demanda - tic tac tic tac tic tac - como que perguntando: “estás pronto Alec?”.
Um raio de sol rompeu a esquina num horizonte ainda
longínquo. Um rosnar intenso soou em eco pela cidade, batendo em cada parede
fazendo ricochete até me chegar ao peito. Um aviso louco da criatura farta. O
pensamento estridente não se calava: “ainda tens tempo de fugir. É isto que
queres?”.
Sem hesitação convencionei a intenção enquanto
vislumbrei a presença da besta. O silêncio que abraça agora a cidade
arrepia-me. Kharragär caminhava perspicaz pelas ruas voltando da matança. Kharragär
era um espécime não humano, um cruzamento de lobisomem com vampiro. Caça de
noite porque a luz do sol queima-lhe o corpo, ainda que não o matando,
enfraquece-o.
- “v’arghul” - sussurrou-me meu pai antes do anjo da
morte o levar para outro mundo. Levaria muito tempo a descobrir que V’arghul é
uma flor que só existe nos confins do mundo, no vale de um submundo pernicioso
onde a morte é o regaço de um conforto pedinte. Levaria 17 anos a ir e voltar
para obter aquela planta para vingar a morte de meu pai. Esta planta é
constituída de espinhos altamente afiados. Dentro da planta existe um líquido
mortal, um veneno demasiado poderoso. Basta o cheiro para matar o mais forte do
homem. E ali estava eu, com um frasco de tintura queimada de V’arghul na bolsa
para matar Kharragär.
Quanto o vi contornar a última esquina espalhei no ar
um pó com odor de sangue fresco. O odor atraiu imediatamente a fome sempre
sedenta e Kharragär avançou afoito até mim. Corria pelas paredes dos edifícios
deixando brechas nas paredes e saltando de edifício para edifício ronronava num
desejo de matança, enquanto a minha boca desenhou um esgar. Chegado à ponte,
frente a frente a mim do outro lado do rio, Kharragär levantou-se da sua
posição quadrúpede e rosnou. Toda a cidade tremeu. Não eu.
Kharragär lançou um olhar atento e nervoso para o raio
de sol que trespassava o edifício paralelamente à longa extensão de rio que
separava os edifícios rasgando a escuridão. Não perdeu tempo. Saltou para o meu
alcance lançando as mandíbulas à minha cabeça. Desviei-me podendo reparar na
criatura alta e robusta que era. Retirei a adaga do cinto e ele lançou-me um
olhar confuso.
Com a adaga bem afiada lancei-me à besta apanhando-o no
dorso peludo e quando este se voltou, puxou-me cravando as garras nas minhas
costas. Repostei. Kharragär agitou-me no ar pegando-me em cada ponta do meu
corpo como se fosse partir-me em dois. Com enorme esforço debati-me contra
aquela força, aproveitando qualquer oportunidade para me soltar, e enquanto não
o conseguia, tentei por diversas vezes atingir alguma parte do corpo de
Kharragär, até que, finalmente espetei a adaga na sua espinha horripilante.
A criatura rosnou bem alto e largou-me lançando-me no
ar. Atingi a parede da ponte do outro lado no rio, e apoiando-me nos tijolos
soltos da ponte, as minhas pernas debatiam-se na água gélida para não perder o
apoio e numa dor cortante, reparei num profundo golpe das garras de Kharragär
na minha coxa. Reuni todas as minhas forças e subi a parede escorregadia.
Contorcendo-me no chão de dor reparei Kharragär que estuava cego com as dores
do golpe. Custava-me andar mas não podia desistir. Foi com um ato de fé que
aprontei as últimas forças. Quando vi o raio de sol a transbordar pela cidade,
correndo rápido pelo rio com um barco irado, saltei para o marco e com o
balanço lancei-me para o outro lado. Pontapeando Kharragär nas pernas, fi-lo
cair. Agarrei no frasco retirando-lhe a rolha com a boca e saltei para as
costas de Kharragär.
Entranhando os meus dedos na sua ferida aberta, Kharragär
abriu a boca em protesto de dor, permitindo-me despejar o veneno de V’arghul
para dentro daquele corpo maldito e sem demora os raios de sol atingiram-no
numa velocidade condenável. Enquanto V’arghul queimava Kharragär por dentro, o
calor da luz esconjurou-o por fora, declarando a sentença final.
Impiedosa era a minha morte demorada, com o cheiro e
sabor do veneno a queimar-me as veias, prolongava-se o juízo final.
Ajoelhei-me no chão silencioso ordenando a aceitação do
meu fim. A morte de meu pai estava vingada, assim como, todos daqueles que
morreram por causa por Kharragär.
A minha demanda terminara.
O relógio soou a nova hora.
Resta-me esperar pelo anjo da morte.

Olá amiga,
ResponderEliminarComo sabes tive o prazer de ler e comentar todos os teus exercícios e para quem não sabe foram feitos baseados na imagem da capa de um grupo do FB, onde semanalmente ia colocando imagens novas e sempre as fizeste com enorme rapidez e claro com gosto e isso nota-se.
Sempre te disse que estes exercícios eram para mim uma das mais valias do grupo e penso que mais ouve em que participaste, lembro-me daqueles em que te deixava 5 palavras e fazias o exercicio :D
Só te posso dar os parabens, sei que gostas de desafios, logo aqui te deixo 5 palavras para caso queiras fazeres e publicares aqui no teu blog :D
Fogo, Ilha, Raposa, Curandeira e Arco
Diverte-te e continua sempre a escrever ;)
Bjs
ah ah..muito bem..sempre a deixar-me pequenos pergaminhos com desafios interessantes.
ResponderEliminarÉ verdade, muitos têm sido os exercícios que publicaste no Cantinho do Corvo Fiacha, e dos quais, conseguis-te incentivar, não só a mim, mas também à nossa amiga São para mostrar o nosso gosto pela escrita.
Confesso que estes exercícios são o treino para melhores aventuras. Têm sido exercícios onde permitem que as palavras se soltam finalmente da ânsia da minha imaginação e se mantêm sempre corajosas para revelar o seu conteúdo.
Será mais um exercício que farei com muito gosto e com o devido tempo deixarei aqui para avaliação.
Mais uma vez, obrigado pelo teu incentivo sempre importante e positivo..:D
Olá,
EliminarSabia que ias gostar do desafio, ainda bem que foram um incentivo para que voltasses a escrever e claro para que sejam um treino para aventuras melhores, podes contar aqui com o amigo corvo e tenho a certeza com a amiga caminhante, por nós amigos tambem conhecida como *a que brilha* e quem sabe mesmo ela propria não venha a fazer o mesmo exercicio eheheh
Seja como for, venham lá coisas novas :D
Bjs
Os teus desafios são sempre dignos de concretização, bem mereces que os possa cumprir ;)
EliminarObrigado Fiacha por tudo, porque graças a ti partilho os meus textos e os escrevo..:D
Sim, tens razão, A Caminhante é sábia e tem um dom para contar histórias dignas de canções épicas, espero ler mais exercícios dela também..:D
Beijinhos
Olá Carla
ResponderEliminarGostaria de ter vindo comentar mais cedo, mas tive uma semana difícil...
Pois fico muito contente de reler novamente estes belos exercícios que fizeste. São dignos de um espaço próprio e ficam lindamente neste blog (também ficam bem no cantinho do nosso amigo, é preciso dar graxa senão ele zanga-se connosco :D ).
Deixa correr sempre esta veia da escrita em ti e vai-nos presenteando com estes belos textos.
Mais um exercício :) o amigo corvo não descansa, eh eh
muito sucesso para o teu blog
beijinho grande amiga
(também ficam bem no cantinho do nosso amigo, é preciso dar graxa senão ele zanga-se connosco :D )
EliminarFaz de conta que não li isto :D
Faço minhas as tuas palavras é um prazer ler os textos desta nossa amiga, sem duvida um diamante, agora resta dar uma pulidela aqui outra ali e eis que o pisco voa bem alto ;)
A ver se te recompões e fazes este exercício, gostava de ver...e tem animais e tudo :D
Ah ah :D estávamos a brincar amigo Fiacha..:D
EliminarMais uma vez obrigado. Sempre que quiseres podes deixar um desafio para eu fazer :D
Eu sei, também estava eheheh
EliminarPodes contar com isso e claro depois será comentado ;)
Obrigado pelo carinho amiga, as suas palavras têm sempre um toque de animo ^_^
ResponderEliminarÉ verdade não esquecer o fantástico cantinho do nosso amigo Fiacha..:P e claro sempre a puxar por nós, um corvo misterioso e muito amigo.
Seja muito bem-vinda A Caminhante, é com muito gosto que partilho o espaço consigo e obrigado por tudo..
beijinhos <3
lol são vocês que dão cor e vida ao cantinho com o vosso talento eheheehehe
EliminarSó estou a tentar colocar o melhor que ambas tem cá para fora, dois belos diamantes que mais cedo ou mais tarde vão brilhar bem alto, é uma questão de tempo ;)
E duas belas amigas, quer a sábia caminhante (não digas a ninguem mas é uma raposa) e quer o pisco que pode parecer frágil mas é muito forte sem duvida ;)
Vá fico à espera de ver o vosso talento :D
Bjs
Um trio interessante, um corvo, uma raposa e um pisco..:P já estou a ver-nos numa aventura épica com uma espada e pergaminhos a voar da bolsa, com canções em honra das nossas peripécias...:D
ResponderEliminarOlha amiga pisco, por mais sábia e astuta que a raposa seja, nunca confiar, ainda nos come aos dois :D
Eliminarnós temos asas...:P fugimos bem rápido para cima de um ramo..eh eh
EliminarEsqueces a astucia da raposa, amiga cuidado, nunca ouviste falar na astucia da raposa e na força do javali.....poder incalculável :D
EliminarNão durmas, ou se o fizeres em cima da arvore ehehe
nunca desprezem a astúcia de uma raposa, eh eh eh
ResponderEliminaresta possui um dom muito especial, que alguém apelidou de manha e como tal transforma-se noutro animal e persegue-os aos dois pelos ares...
eh eh
quanto à graxa, amigo corvo era brincadeira, fazer exercidos é sempre bom, seja no cantinho, seja onde for. E nunca me esquecerei do cantinho uma vez que foi ele que me proporcionou conhecer bons amigos :)
Minimë é com todo o gosto que continuarei a seguir as tuas aventuras.
Muito bem, que assim seja, e que possamos sempre conviver alegremente como temos feito até agora e se possível ainda melhor e mais no futuro :D
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