A ilha do dragão de ouro
O sonho debatia-se com a realidade. Em constante
aviso, as palavras, o mistério revoltavam-se no meu inconsciente. Entre dúvidas
e receios, o destino mostrara-me uma visão. Vislumbres que não tenciono
aprofundar, por decerto, estar a vislumbrar o meu próprio futuro. Resenhas de
um barco, homens encurralados e a imagem de um dragão de ouro, o seu rosto
encontrando-me e esperando engolir-me, o sonho acaba sempre ali e eu acordo
entre suores frios. Era a terceira noite que tal sonho me visitara com o mesmo
filme de imagens.
Aos poucos voltei à realidade, ouvindo o povo lá fora
nos trabalhos da lavoura com o sol madrugador. Observando-os pela janela invoco
ao espírito a tranquilidade para o começo de um novo dia. Os doentes da aldeia
esperam-me.
Saio para o exterior quente e olho o céu. As nuvens
estendiam-se estranhamente em linhas ondulantes e irregulares. Nuvens de um
frio cortante que senti imediatamente na pele apesar da temperatura quente. “O
mar, algo está acontecer no mar”, disse para mim num terror sentido.
- Lilaer estás a falar sozinha? – pergunta meu pai,
beijando-me a testa dando a bênção.
- Tenho sonhado. Sempre a mesma visão. vamos ter
visitas em breve. Aproxima-se um nevoeiro estranho na ilha, com ele, chegará um
barco.
Se o seu rosto indicara o que realmente eu mesma senti
então também meu pai sentiu o frio gelado no seu corpo.
Um barco trazido pelo mar. Que destino ousas trazer à
nossa terra, a uma ilha com um pequeno povo que cresce do alimento que planta
na terra, da carne que cria nos campos. Que desígnios imperam nesta visão?
A tarde já somava avançada quando uma neblina desafiou
a ilha e surgiu tapando tudo, meu pai olhou-me ao longe e deu uma ordem aos
homens. Se o tempo foi demorado ou desonesto, eu não soube avaliar. Apenas vi
vislumbres de homens vestidos de preto, rápidos e eficazes entre gritos de
mulheres, homens e crianças. Estava confusa, estava cega no meio da neblina.
Então eu senti pegarem em mim, gritei, pontapeei, e só embatia em nada. Não
percebi quem me levava ou o que estava acontecer. Aos poucos a ilha calou-se e
senti o mar molhar-me as saias. “piratas”, sussurrei estridente.
O barco mantinha-se aterrador e altivo num mar
obediente à sua força, as velas negras dançavam no vento clandestino. Quatro
homens, feios, sujos, satisfeitos da matança olharam-me perversos e um sorriu.
Tinham um acampamento montado na praia, fogueiras espalhadas por toda a costa.
Numa conversa com quem parecia ser o capitão do navio debatiam furiosamente
sobre a minha presença.
O meu coração parou abruptamente e o homem percebeu que
eu entendia aquele idioma.
- Quem és tu rapariga? Como conheces a nossa língua?
Responde ou é preciso forçar-te? – ralhava-me enquanto me puxara com força no
braço.
- O meu nome é Lilaer, sou a curandeira da aldeia.
- Curandeira? não sabia que as curandeiras conheciam o
idioma dos piratas, responde a verdade ou atiro-te ao mar.
- Os meus conhecimentos nada têm a ver com a minha ou a
vossa origem, se pretendes matar-me é melhor fazê-lo já, prefiro morrer a ser
levada num barco cheio de homens impuros, assassinos e ladrões.
- Espera disseste curandeira? ah, bem. Então és tu?
Como o mundo é tão pequenino. Ouvi uma história em Werokger, dum rapaz que
deixou o seu grande amor na sua ilha, essa rapariga seria a curandeira do povo.
Oh esse rapazinho sente muito a falta dessa rapariga, e logo por acaso, esse
rapazinho tornou-se um pirata – dizia aquele homem olhando-me trocista – talvez
te tenha mudado o destino rapariga. Agora ele vai obedecer-me e é se te quiser
viva. Levem-na para os ferros.
Os meus pés tropeçavam nos do pirata que me levava
forçada à pressa. O pirata atirou-me para a jaula improvisada na areia confusa
e cortara-me as cordas, deixando à vista a marca do sangue na pele picada,
rasgou-me as saias pelos joelhos e passou-me umas calças – “toma veste isto,
vais precisar” – desapareceu na praia rosnando.
- A última sobrevivente da ilha Jhegwar? Uau, nunca
pensei que ele fosse mesmo capaz de tamanha maldade.
- Porque te importas com isso? Afinal de contas não és
também um pirata? És tão culpado quanto eles, quer nos seus crimes, quer nas
tuas omissões.
- Lamento que penses isso de mim, em tempos não me
apontarias assim o dedo. Só passaram 3 anos Lilaer.
- 3 anos que te mudaram, que te levaram para tão longe
de mim. Hoje és um pirata e não um simples rapaz que cuidava dos cavalos. Por
isso, não me julgues, não exijas de mim a compreensão que julgas merecer,
porque fui eu que fui abandonada.
- Eu não quis, não sou pirata por minha escolha,
foram os meus erros que me levaram até aqui – dizia-me enquanto agarrava nos
ferros que nos separavam, olhando-me aflito e magoado – eu, oh eu, eu parti
sim, eu fui à procura de uma vida melhor, nunca quis ser tudo aquilo de que me
acusas.
- Podias ter voltado para casa. Cá tinhas tudo o que
precisavas – olhei-o nas minhas lágrimas honestas - deixa-me kerso,
esqueceste-me uma vez. Não deve custar-te fazê-lo novamente.
- Não fales assim, eu senti a tua falta. Olhando
agora para ti, tão bela e corajosa como sempre, arrependo-me profundamente do
que fiz, por ter rejeitado a vida que planeamos para nós os dois juntos. Além
disso, precisamos de sair vivos daqui. Prenderam-te para chantagear-me. Os
piratas querem roubar um tesouro da ilha.
- Tesouro? Qual tesouro? A ilha é tão pequena, de
terrenos uns planos outros irregulares onde só existem rochas e árvores
abandonadas.
- Achas mesmo Lilaer? Logo tu que tens alta perceção
das coisas? Não vais dizer-me que não te apercebeste dos vários barcos que
pararam na ilha?
- Barcos, quais barcos Kerso? Nunca fomos visitados
por ninguém.
-Como achas que saí da ilha? Claro que fomos
visitados, eu próprio cheguei a sair e voltar à ilha várias vezes.
- E não tiveste a coragem de voltar?
- Há um tesouro na ilha Lilaer – dizia mudando de
assunto - um tesouro que eu descobri. Falei disso com a pessoa errada e essa
pessoa é hoje o meu patrão. Sou pirata porque quis evitar que o meu erro fosse
crasso para a ilha. Mas ele percebeu a minha intenção e mantém-me preso. Não te
lembras da história do dragão? Em tempos habitou nesta ilha o último dragão, a
sua escama reflectia uma brilhante cor de âmbar e quando morreu, a Deusa da
ilha atirou-lhe um feitiço e o dragão transformou-se em ouro. Esse dragão está
numa gruta mesmo no pico da ilha.
- Eu conheço toda a ilha, não me lembro de qualquer
gruta no pico.
- Estás enganada. Mas isso agora não importa. Se
eles roubarem o dragão vão acordar forças que não me atrevo a ofender. Vão
acordar a Deusa. Já começou. Foi a Deusa que chamou a neblina e foi a maldita
neblina que chamou atenção do meu patrão.
- Mas que vais fazer? Não podes levá-los ao dragão.
- É exactamente o que quero fazer. Eu conheço aquele
lugar. Entrego a justiça nas mãos da Deusa. Não posso julgar os homens, não
tenho direito para o fazer. Tentarei remendar o mal que isso possa trazer à
ilha. Mas eu sou um mero humano.
A neblina recuou até ao mar, circundando apenas a
ilha. Os piratas amarraram-nos as mãos e colocaram-nos à frente para mostrar o
caminho até à gruta onde estaria o dragão adormecido. A caminhada foi agreste
por meio de carreiros de rochas, árvores e ramos desgrenhados. Passagens
desconhecidas do povo. Chegados à orla do pico o pirata teve de cortar as
cordas que prendiam os meus pulsos, bem como, os de Kerso, uma vez que, para
chegar ao pico tivéramos de trepar uma parede rochosa. Uma chuva miúda e
persistente tornou-se constante no caminho. Eu sentia-me cansada, tensa,
ansiosa. Sempre que olhava Kerso ele sorria ternamente piscando um olho para
mim, dando-me confiança. Ainda assim, estava receosa. Certamente seriamos
mortos depois dos piratas levarem o tesouro.
O ar era cada vez mais pesado e húmido, dificultando
respirar. Kerso pegara-me na mão e puxou por mim. Não ia aguentar muito mais.
Antes de chegar ao cerne do pico, Kerso mandou-nos parar. Suspensos numa parede
rochosa e inclinada, Kerso apalpou a rocha, mostrou-nos uma ranhura larga, não
percetível ao longe e caminhámos na direção daquela falha. Entrámos na racha da
parede, curta e longa onde demos a uma gruta. Kerso voltou a sorrir-me e de
seguida sorriu outra vez ao ver o meu ar de espantada.
Éramos no total 11 pessoas dentro da gruta. O ar não
era menos pesado lá dentro, ainda mais porque no centro da gruta havia um
buraco no chão, um buraco profundo. Quando Kerso acendeu uma tocha, o buraco
mostrava uma penetrante escada em círculo.
- Kerso: se queres o tesouro temos de descer até à
sala que se encontra na parte mais larga da montanha.
- Pirata: queres-me fazer crer que um dragão conseguiu
meter-se por este buraco e foi para uma sala algures na montanha? - riram-se
todos em seguida ao pirata.
- Kerso: disseste que querias o dragão feito de
ouro. Eu vou levar-te lá. O tamanho importa-te?
O pirata não respondeu e numa careta enraivecida pontapeou
Kerso numa perna e mandou-o andar.
As escadas não tinham fim, estava escuro e havia pouco
ar. Kerso deu-me a mão para não ficar para trás ou desmaiar com falta de ar. Os
piratas reclamavam incessantemente, e escadas eram contínuas. Ali, não havia
qualquer defesa, só passava uma pessoa de cada vez.
Após uma longa descida, uma resenha de luz atravessou
as escadas e uma ligeira brisa rebentou. Chegámos a uma grande abertura. Era
uma sala redonda, bastante larga, com colunas várias circundando a sala,
trepadeiras selvagens trepavam a pedra fria das colunas. Havia uma abertura
para o exterior, de impenetrável passagem. No meio da sala figurava uma fonte
de água, que corria fresca.
Vendo os piratas zangados e ansiosos, Kerso voltou-se
para a parede rochosa, e um enorme ornamento ostentava na pedra lisa. Uma cara
de dragão, toda ela em ouro, que sobressaía da parede, de boca meio aberta e um
olhar penetrante. Era aquela a imagem dos meus sonhos.
Os piratas ficaram extasiados, apalpando aquele ouro
todo.
-Kerso: cuidado pirata. Essa cabeça de dragão é
real. Não enfureças a Deusa ou ela ainda o ressuscita.
- Pirata: superstições agora Kerso? O dragão está morto
há séculos. Vá diz-me como se abre isto? O corpo do dragão está do outro lado
da parede, como se consegue passar?
Kerso recuou levando-me com ele, encostou-me a uma
coluna, olhou-me série e disse “não saias daqui, aconteça o que acontecer
Lilaer, falo asério”. Acenei com a cabeça uma vez largando-lhe a mão e ele
beijou-me a testa. Kerso voltou para perto dos piratas, meteu a mão dentro da
boca do dragão recuou uma pedra e um som estridente saiu da boca do dragão,
como se de um rugido verdadeiro se tratasse. A cabeça do dragão saiu mais da
parede e uma abertura na rocha permitiu-os passar para o outro lado. Uma outra
sala, de chão de areia e uma parede de rochas sem ornamentos. No meio,
sustinha-se uma coluna baixa, e iluminada por um raio de luz estava uma estátua
do tamanho de uma criança. O dragão de ouro.
- Pirata: enganaste-me Kerso, onde está o dragão?
Aquilo é só uma estátua.
- Kerso: aquele é o dragão patrão. A Deusa da ilha
quando o transformou reduziu o seu tamanho para que se mantivesse em segredo na
gruta.
O pirata avançou e kerso recuou. Recuou até a
atenção dos piratas estar inteiramente dedicada à estátua de ouro. Kerso voltou
à outra sala, e quando o pirata levantou a estátua de ouro para a levar, kerso
fechou a porta que acedia ao outro lado.
Kerso ficou sentado, encostado à imagem da face do
dragão e esperou. O dragão acordou, a montanha tremeu e só se ouviram os gritos
dos homens confrontados com o horror e a morte. O ruído foi ensurdecedor com os
gritos dos homens misturados no terror dos rugidos do dragão vivo. Kerso sabia
que se tentassem retirar a estátua o dragão crescia e ressuscitava. Era o
feitiço da Deusa.
O som diminui. Kerso não se atreveu a passar novamente
pela abertura. Os homens estavam mortos. Aquele era um tesouro intocável. A
Deusa vingou-se. Caminhei até Kerso, envergonhado pela morte daqueles homens.
- A culpa não foi tua. Os homens ambicionam mais poder
àquele que merecem.
- Perdoas-me Lilaer? Perdoas-me por ter-te deixado
aqui? Por ter sido fraco em deixá-los vir para a ilha e matarem o meu povo?
- Julgo que irás remendar as coisas. Daquilo que te
posso perdoar eu perdoo. Estás ferido, deixa-me lavar-te a ferida e colocar uma
pomada de calêndula e alecrim, essa ferida vai sarar rápido.
- Não te vou deixar novamente. Vem comigo. Vamos para o
continente. Esta ilha já não tem mais vida. E está muito bem protegida.
- Não Kerso, esta é a minha ilha, não a vou abandonar.
Este lugar pertence aos meus sonhos, ao meu crescimento, devo a minha vida às
suas lições.
- Então eu fico contigo. Comecemos uma vida nova
juntos. Será uma boa forma de remediar os meus erros reconstruindo a aldeia.
A neblina desapareceu.
Quando voltámos à praia o barco
acabava de ser engolido pelo mar.
A Deusa estava satisfeita.
De mãos dadas
começámos de novo a nossa vida, desta vez, juntos.
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