terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Rio do destino

"Rio do destino"...

A vida surge e manifesta-se em sonhos arrojados. Se é o destino que os assume, ou se é o desejo incontornável do homem querer evoluir, não saberei dizer. Julgo que a vida é um suplemento de coragem ao desafio que é viver. Viver sim, é o julgamento da alma, o testo ao livre arbítrio, o pagamento dos erros e aprovação ou não do aperfeiçoamento do ser.

Na aldeia de Ghyrt a sul das montanhas, beijando um céu imponente, o julgamento não chegara tão cedo, antes esperou que um destino fosse posto à prova. A vida da aldeia era uma página suspensa no livro inacabado de Sëlmna. Aquela a quem o destino marcou.

Sëlmna era uma menina muito ávida, vivia preenchida de uma energia que brotava em força dentro dela. Vivia naquela aldeia rodeada de extensas árvores tão antigas quanto as velhas histórias do seu povo. A lenda do grande barco perdido nos mares sombrios das ilhas irreverentes, trazendo o primeiro homem a pisar aquele solo seu senhorio. Esta menina de fugaz coragem e amor incomparável, crescera em volta de vontades contrariadas, de sonhos esquecidos, guardados num coração preso, ocultando o desejo de cumprir o seu arbítrio.

Num deslumbrante dia de sol, Sëlmna passeava pela extensão da aldeia direito ao rio Chgë seu ouvinte mais fiel. Os atalhos da floresta eram um horrível trilho de percorrer, as árvores cheias de ramos indecisos cruzavam-se no caminho do tempo e dos passos que o marcaram. O arvoredo espreguiçava-se escondendo os seus obstáculos. Ali, floresciam as plantas frescas na sombra transmontana, de uma vaidade sã encorajada por um raio de sol tímido. Os seus pés gelados percorriam a erva dura e ensopada da noite maldisposta. Aos poucos, ignorando a rigidez dos movimentos, colhia as bagas que só agora ganhavam cor, estavam deliciosas. No seu saco, pouco mais cabia, entre as giestas, a alfazema e o alecrim, as suas ervas para preparar unguentos e pomadas, as bagas aninham-se no cantinho improvisado. Sentido a brisa húmida do rio, Sëlmna desceu o trilho. Sentada na folhagem aventureira namorando as flores do campo, belas e ariscas, olhava o horizonte da sua mente.

Do outro lado da margem do rio, Sëlmna personificara os seus sonhos. Conseguia vislumbrar a casa de pedra e barro com o telhado de colmo que se estendia em franja num pequeno alpendre. Nele, ninhos de andorinhas cantavam à primavera recente num cenário tão tranquilo. Uma paz que lhe abraçara por completo. Ao lado da sua casa erguia-se um belo rapaz, forte, ombros largos e atlético, movendo os seus músculos num exercício treinado, levantando com agilidade o seu machado sobrepondo aquela força num grande tronco trazido da floresta. Os seus cabelos agitavam-se num vento clandestino num tom de castanho avelã tão vivo quanto o seu sorriso, que se estendera num rosto amante. Sëlmna podia senti-lo ali mesmo, do outro lado da margem. Olhando mais atentamente, podia vislumbrar-se no interior da casa à janela, onde balouçava com o seu filho ou filha que tanto desejava ter. Em redor da sua casa, decorada com trepadeiras floridas concorrendo pela melhor vista, a sua aldeia encontrava-se iluminada de um brilho especial. Os homens que até então marchavam para a guerra, estavam agora presentes com as suas famílias, de rosto tranquilo e saudável. As colheitas davam seus frutos, os animais cresciam em número, as crianças abundavam junto das mães alegres. Aquela visão, embora harmoniosa, soltara em Sëlmna uma tristeza sincera, profunda. Inevitavelmente as lágrimas derramaram longas e penetrantes no seu rosto esperançoso. Não por uma alegria possível, antes por uma tristeza presente, por uma saudade vincada pelo seu amado ter partido à 3 solstícios para as terras a norte do vale, numa derradeira jornada com o exército do chefe tribal Eskwell ao encontro das terras assaltadas junto da “montanha do dragão”, assoladas já tantas vezes pelo povo Twerllegh que vive do outro lado daquela madrasta parede rochosa, igualmente tantas vezes poupadas por Sorghöt, seu pai, motivos os quais apenas desconfiava.

No seu coração Sëlmna conseguia ouvir o gume das espadas embaterem nos escudos enfraquecidos, os gritos vindos do fundo dos seus corações, que cheios de adrenalina, tentavam afastar o medo e enchê-los de esperança, nunca esquecendo o motivo do seu sacrifício.

Naquela visão que Sëlmna sentia em todo a sua legítima ferocidade, levantou-se num desespero sentido e tentou alcançar a outra margem. A sua coragem e vontade de agir crescia demasiado rápido e com demasiada força para caber no seu peito. Ela podia fazer alguma coisa para mudar o rumo daquela gente, ela devia fazer alguma coisa por eles. Então, o céu anteriormente reluzente de um céu amigo, tornara-se num desafiador de vontades, súbitas nuvens negras alcançaram em grande velocidade o seu plano e as águas do rio tornaram-se turvas, de correntes fortes, perigosas. Sëlmna tentava a todo o custo alcançar a outra margem e agarrar aquela realidade possível e trazê-la para o seu mundo.

Pensou em nadar, mas a corrente era demasiado forte, não conseguiria alcançar a longínqua margem do rio. Morreria arrastada com a força da corrente. Pensara numa pequena barca, mas olhava em redor e tudo o que encontrava era uma floresta triste, sem qualquer sinal de vida. Então chorou levando as mãos ao seu rosto puro e pensou no quanto tinha sido ingrata e egoísta para com Lukäh, pelas palavras que ele tinha partilhado com ela, o seu sorriso, o seu olhar tão apaixonado, tranquilo, sonhador. Lembrou-se das vezes que ele lhe roubou um beijo na sua pequena mão, das flores que sorrateiramente deixava na ombreira da porta do seu quarto, dos sorrisos ternos tão cheios de amor que lhe lançava quando se cruzavam. Ele esperava uma resposta sua. Ele esperava por ela e amava-a desde que eram crianças de brincadeiras partilhadas. Porém, Sëlmna era uma menina com um destino marcado de conveniência que nunca pensara em corresponder-lhe com o mesmo sentimento. As suas vontades e os seus sonhos não podiam ser realizados. Antes submetia-se ao que os outros decidam por e para ela. Seria para sempre assim, era o seu estatuto. E todo o povo da aldeia sabia-o, a aproximação à sua sombra era proibida. As crianças não cresceram junto com ela, com o seu sorriso, os seus sonhos, os seus ideais. Os tantos homens e mulheres que conheciam a sua bravura escondida, a sua simpatia disfarçada desejavam-na finalmente para o seu cargo. Acabar-se-ia então com a fome, com a tristeza, com as perdas desnecessárias de tantos homens bravos de sonhos nunca cumpridos, por guerras vãs resultantes de chantagens ambíguas, interesses sem benefício.

Então, naquele momento revelador, Sëlmna achou que a sua vida tinha mais valor para ela própria, para aquele homem que tanto amava e desesperava por ter e para o seu povo, mais do que para os outros, que de forma medíocre, não aceitavam as suas escolhas tão necessárias. “Eles precisam de mim” pensara Sëlmna tão ternamente, falando ao vento mensageiro entregou ao destino o seu caminho, “longe as lágrimas desfilam no meu rosto, cristalinas de pleno luar, abrando no tempo e deslizo numa saudade que permanece, não se estica nem evolui, antes se consome na dor aguda. A saudade não se cria na distância, mas sim, da força da querença de viver o momento, ela não alivia o sofrimento nem cria vinculo com o passado, antes suporta o que um dia eu chamei de felicidade. Arquiva numa caixa de madeira onde o mestre dos sonhos tranca e abre sempre e só quando ele toca o sino. Sorrindo, parece que se alimenta da desilusão, mas não, antes, orgulha-se do crescimento que floresce e se acomoda. Se cresci passei no teste. Se sofri então foi só uma forma diferente de saborear o desafio. Não crio desgosto nem confesso a liberdade, antes aceito-a, deixando surgir, bem devagarinho, deixando-a transformar a noite num amanhecer estrondoso. Depois do mistério, depois da meditação, surge a aurora, o reconhecimento, a hora da prova. E eu gosto desse momento, quando me levanto, brandindo a espada na bruma que se afasta, com o sorriso que me veste, a postura que permaneço. Eu estou pronta para lutar. Eu sei que vencerei. Sejam quais as cicatrizes que restarão no meu corpo e na minha alma, os minutos que respirarei até ao último momento, eu serei brava e destemida. E então, por fim, o meu nome será desenhado no livro dos heróis. Não de um tempo perdido, mas do destino que é manhoso, de mapas onde os seus trilhos são cobertos de neblinas e oásis perdidos”.

Naquele momento Sëlmna teve a certeza que merecia conduzir a sua própria vida e que o conseguiria fazer se não vacilasse. Sabia que teria de lutar contra os ideais do seu pai, que teria de lutar contra o tempo e teria de plantar uma esperança superior a qualquer outra que conhecia. E então lutaria. Por Lukäh lutaria contra tudo. Profunda e honestamente estaria a lutar também por ela. Afinal de contas não vivia sem ele e o povo precisava dela, já não teria de se esconder, ocultar a sua presença nas visitas às famílias da aldeia, e do tanto bem que sabe que tem feito àquela gente, a sua gente.

Neste instante, Sëlmna levantou-se determinada. Procurou junto à entrada da aldeia onde morava, as grandes pedras que se estendiam no monte desorganizado num canto sujo. Carregou cada pedra com esforço e sacrifício, com as lágrimas derramadas sem misericórdia num rosto pedinte, orando em toda a sua crença. Sëlmna depositava uma a uma no rio, cada pedra sinal do que teria de fazer para atingir a outra margem. “Uma pedra para o sacrifício, uma pedra para a esperança, uma pedra para a luta, uma pedra para o desafio, uma pedra para a bondade, uma pedra para o alento”… e assim foi citando em cada pedra o seu significado e os seus planos para o futuro. Quando se apercebeu, estava do outro lado da margem. Com as pedras tinha construído uma ponte sobre as águas do rio, uma passagem forte, segura, permanente e de completa maturidade, que não iria vacilar naquelas águas tutoras. Sentia o seu corpo tenso e cansado. Então os seus olhos vermelhos e húmidos foram vencidos com um sorriso aliviado e fresco. O céu encolheu-se e um raio de sol trespassou as nuvens derrotadas e iluminando-a, felicitou-a da sua força e coragem. O rio era agora um lugar pacífico, de águas límpidas e calmas.

O horizonte abandonou a mente de Sëlmna sorrindo num orgulho cruzado. Aos poucos regressou à realidade, a visão desvanecera aos poucos na sua mente, nunca desaparecendo por completo, deixando o rasto das emoções para a não fazer esquecer da mensagem. O rio à sua frente estava tão sereno, cheio de mistério e audácia. Um raio de sol brilhava estrondosamente no outro lado da margem e Sëlmna percebeu. Teria de agir. Ela sabia exactamente do que precisava para salvar a sua vida e a vida de daquele a quem entregara o seu amor.

Correu como nunca à sua aldeia passando pelas pedras que na sua visão carregara para o rio, entrou na casa grande direita ao seu quarto frio. Vestiu as calças que usava quando praticava as usas lições de arco e montada, com uma túnica comprida e um cinto na cintura, no qual, depositava um médio punhal, decorado em prata com os símbolos que Lukäh elaborara para ela. Calçou as botas de montada, colocou o arco e provisões de setas às costas e correu escadas abaixo. Sëlmna percebeu que, quando fazemos as nossas escolhas, temos de as abraçar, sejam quais forem as suas consequências. Se temos sonhos para cumprir temos de ser nós conduzir o nosso caminho e concretizá-los. Que a vida não espera por nós, antes avança num tempo sem fim, não confia guarda às nossas escolhas nem as escolta para um lugar pacífico. Antes, ela coloca-nos suspensos num cantinho resguardado para não nos faltar as forças para avançar. A vida desabrocha dentro de cada um de nós com uma força imbatível e desafiadora e a adrenalina de viver é a lição do quanto é importante para nós caminharmos pelo destino que nos abraça e que nos espera nas suas lições ousadas.
É necessário que nos corrijamos e lutemos por tudo aquilo que somos e nos foi premeditado. Por vezes, os métodos mais fáceis não nos conduzem à felicidade nem nos conduzem à honra ou à vitória com humildade exigida no contrato com a perfeição da alma.

Que a barca significa que Sëlmna não podia levar a sua vida conduzida por outras forças, por outras pessoas que a rodeavam tomando a rédea das suas próprias escolhas e influenciado as suas acções. Que se nadasse até ao outro lado da margem seria atirar-se do precipício, que não podia ser imprudente sem calcular os danos das suas acções e omissões. Que a sua vida assemelhava-se àquele aglomerado de pedras perdidas, desorganizado sem utilização. Que aquela floresta sem vida era ela própria. O seu destino estava bloqueado por ela mesma. Escolheu as pedras porque cada uma significava as suas vontades, os seus sonhos, a sua forma de os concretizar e os seus resultados, que vingariam porque brotavam da sua própria força e sacrifício. Tudo isto porque o resultado valia a pena.

Mais tarde Sëlmna voltava à sua aldeia montada no seu cavalo, acompanhada do seu amado. Ambos vencedores de um amor sofredor e de uma guerra que finalmente se converteu em paz. Sëlmna era a filha de um chefe tribal crucial para que os dois povos em guerra se unissem. A sua presença no batalhão foi a ordem intransigente para convencer seu pai a fazer parte do grande conselho, e aceitando as condições apresentadas por Sëlmna para a paz entre os dois povos, selou o tratado de paz com o povo de Twerllegh.

Bravamente Sëlmna abandonou o mundo que conhecia e trouxe um outro novo, aquele em que ela realmente sentia-se viva, sentia-se feliz e capaz, trazendo a paz ao seu povo, à sua casa e ao seu coração.
Hoje, Sëlmna guarda carinhosamente as pedras que carregou. Olhando a sua aldeia viva e saudável, abraçou a sua coragem e um sorriso para o luar ganhou intensidade. Pediu que por cada sorriso do seu amado uma pedra se transformasse numa estrela cadente, 

“Tantas estrelas carrega o céu esta noite”….

2012 – Carla Pisco

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