- Silêncio, silêncio - O juiz javali gritava num alarme
imenso para um exigível silêncio daqueles animais histéricos, das inúmeras
raças que assistiam ao julgamento – ordem na sala, silêncio – terminava a ordem
com um bater de martelo na mesa.
A sala abraçou um silêncio interceder, a sentença ia
ser proferida.
- Arquiduque Zé esquilo foste chamado à barra deste
tribunal para seres julgado pela prática do crime de difamação. Foste
contratado apenas como professor e não para andares por aí a conspirar os teus
alunos contra a minha lei.
- Meritíssimo juiz javali, não é verdade que andei a
conspirar contra si. Simplesmente sou justo e não concordo com a sua lei. As
palavras são elos de ligação entre todos os seres, uma ligação para uma
socialização saudável e justa. A forma como as utiliza para fazer lei é
incorreta e pende sempre a favor dos seus desejos. Eu só ensino os meus alunos
a pensarem no que é a justiça, avaliar e debater o que tal termo significa.
- Tu colocaste em causa as minhas ordens – acusava o
Juiz javali levantando-se da cadeira na sua forma gorda e altiva – quem és tu
para me colocar em causa? Eu é que sou o juiz da floresta e faço as leis
conforme eu bem quiser.
- Podeis prender-me senhor, mas sereis vós quem
devia de ser preso por usurpação de poder e obstrução da verdade. Ontem a
coruja correio voou com uma carta para o superior juiz do país. Creio que em
breve irás ser chamado à barra do tribunal.
- Arquiduque Zé esquilo condeno-te a uma pena de
prisão perpétua na gaiola do trasgo, onde irás comer pão rançoso e todos os
dias irás arrepender-te por me teres enfrentado – bateu três vezes com o
martelo e saiu, com os seus dentes rosnando, enquanto a vida animal assistia
incrédula e silenciosa à decisão bárbara.
Podia-se considerar que o juiz javali saíra para se
recompor, mas antes, pode o Arquiduque Zé esquilo ver pela sua curta janelita
da prisão, que não era mais, que uma falha na construção, que o maldito fugira
de um destino justo, e que sobre este, não há contornos possíveis e que
certamente o apanhará na próxima encruzilhada do seu caminho.
Desajeitado e irrequieto na jaula, o Arquiduque Zé
esquilo foi surpreendido por uma silhueta que se aproximava. Uma pantera –
nebulosa encostou-se à jaula vendo o Arquiduque Zé esquilo refugiado numa
injustiça demente.
- Vem comigo Arquiduque Zé esquilo, vou levar-te
daqui.
- Que estás a fazer? Quem és tu? É perigoso vai-te
embora ou vou-te causar problemas sem querer.
- Salvaste-me a vida, era eu que devia estar aqui e
não tu. Tenho sido eu o verdadeiro conspirador contra o governo do Juiz javali.
Vou levar-te para um lugar digno.
A pantera – nebulosa roeu toda a noite três paus de
madeira e quando finalmente os desgastou o suficiente, o Arquiduque Zé esquilo
escapuliu-se da prisão. Ajeitou o seu casaco, reajustou os seus óculos e
endireitou os bigodes. Puxou do seu saco agarrando mesmo a tempo um livro que
curioso saltava para o mundo cá fora.
A pantera soltou um suspiro de alívio. Moldando-se
na escuridão o Arquiduque Zé esquilo agarrara num pequeno archote e lá seguiram
pelo túnel da prisão de efeito circular composto de paredes de terra e raízes
de antigas árvores que conscientemente não concordavam com tal emprego.
Passaram cuidadosamente pela guarda garça que
roncava num sono profundo e longínquo de sonhos com asas batendo ao luar e
banhos num rio de água fresca. A pantera calculava os seus passos silenciosos e
o Arquiduque Zé esquilo estremecia naquela aventura que ultrapassava a sua
imaginação.
“Fugindo Zé esquilo, olha tu a fugires que nem um
cobarde, pensava o Arquiduque Zé esquilo num arrependendo-se daquele pensamento
que só durou 3 segundos, “Eu não sou um cobarde e muito menos cometi qualquer
crime. O prior crime é aquele que aceitamos e nos rebaixamos à maldade dos
outros”, debatendo e sentindo-se num esquilo um pouco maior e mais forte, como
os heróis daqueles livros que ele trazia na bolsa.
A noite não escondia os medos e não escondia os
perigos. E se a luz é a fonte de esperança, também ela, dá visibilidade de
eventuais perigos, e naquele momento, não sei qual prevaleceu. Uma sombra que
completava as duas paredes do túnel foi preenchendo o lugar. A luz do archote
diminua perante o tamanho daquela sombra que se aproximava. O Arquiduque Zé
esquilo tremia que nem varas verdes e a pantera agachava-se defensivamente.
Ambos recuaram para trás de uma raiz demasiada grande e liberta do subsolo.
Um trasgo surgiu estúpido e coxo, roncando enquanto
limpava o nariz imundo ao punho enquanto a outra mão trazia à boca torta uma
caneca de cevada fervida, babando-se e arrotando que nem uma besta.
- Garça estúpida, acorda – rastejou-se
preguiçosamente até ao guarda sonolento.
A garça agitou-se no ar, colocando-se em posição
enquanto os seus grasnos acompanhavam três ou quatro penas que se soltaram das
suas asas.
- Estavas a dormir em serviço, vou dizer ao patrão.
- Trasgo, trasgo – grasnava a garça e calou-se
lembrando-se do tamanho e força do trasgo.
A pantera reluziu um olhar brilhante por entre a
escuridão e o trasgo viu brilho. Estúpido disse:
-Olha gambozinos, vou apanhar-te – rindo-se
dirigiu-se ao brilho.
Arquiduque Zé esquilo encolheu-se no seu curto
tamanho. Então a pantera rodou o companheiro e colocando-o na sua montada
saíram dali a correr. A garça lançou o sinal enquanto o trasgo os perseguia na sua
forma desajeitada e lenta carregando uma moca velha e ensanguentada.
- Agarra-te bem Arquiduque Zé esquilo, mas não me puxes
tanto o pelo.
- Oh perdão pantera – nebulosa.
Os capangas do juiz javali olhavam absortos os
fugitivos esgueirando-se pelo meio da multidão. O corvo grasnou e o povo abriu
alas. Coiotes, zebras, ursos e duas serpentes, os capangas pessoais do Juiz
javali, seguiram na perseguição para apanhar os fugitivos.
A pantera e Arquiduque Zé esquilo tinham chegado à
fronteira e na orla da floresta estava uma coluna de guardas nas trincheiras
bem posicionadas e protegidas.
- Como é que vamos passar para o outro lado?
- Não te aflijas cara pantera – nebulosa -
Arquiduque Zé esquilo procurou um bom pau fino e enxuto, partiu-o ao meio, colocou
um trapo encostado ao pauzito sobre uma pedra e agitou-o.
- Que estás a fazer Arquiduque Zé esquilo?
- Estou a fazer fogo, este pano está besuntado de
ranho de trasgo. A sua gordura em vez de arder vai produzir um vapor grosso e
desconfortável.
Então uma chama brilhou muito pequena rodeando a
ponta do pano. Arquiduque Zé esquilo correu pequeno até à trincheira e colocou
o pano por baixo dos troncos que se erguiam. Em
instantes toda a trincheira começou a arder e um vapor estranho e malcheiroso
se ergueu no ar.
Arquiduque Zé esquilo e a pantera – nebulosa
previamente protegidos por um lenço em volta do nariz, correram sobre uma
brecha dos troncos passando para a fronteira mesmo antes da trincheira ceder,
obrigando os capangas do juiz javali a recuarem.
Arquiduque Zé esquilo e a pantera – nebulosa
continuaram a correr até a vila mais próxima onde encontraram o superior Juiz
do país, ao qual, denunciaram todas as atrocidades e peripécias do Juiz javali.
O professor Arquiduque Zé esquilo é hoje um professor conceituado trabalhando
ainda como secretário pessoal do superior juiz.
Quanto à pantera – nebulosa, há
quem tenha enviado um bilhete a Arquiduque Zé esquilo dizendo que foi
encontrado o seu rasto numa floresta a norte. “Sempre à procura de novas aventuras”
pensou o Arquiduque Zé esquilo sorrindo.
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