quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Javali, Vapor, Arquiduque, Trincheira e Trasgo



 - Silêncio, silêncio - O juiz javali gritava num alarme imenso para um exigível silêncio daqueles animais histéricos, das inúmeras raças que assistiam ao julgamento – ordem na sala, silêncio – terminava a ordem com um bater de martelo na mesa.
A sala abraçou um silêncio interceder, a sentença ia ser proferida.


- Arquiduque Zé esquilo foste chamado à barra deste tribunal para seres julgado pela prática do crime de difamação. Foste contratado apenas como professor e não para andares por aí a conspirar os teus alunos contra a minha lei.


- Meritíssimo juiz javali, não é verdade que andei a conspirar contra si. Simplesmente sou justo e não concordo com a sua lei. As palavras são elos de ligação entre todos os seres, uma ligação para uma socialização saudável e justa. A forma como as utiliza para fazer lei é incorreta e pende sempre a favor dos seus desejos. Eu só ensino os meus alunos a pensarem no que é a justiça, avaliar e debater o que tal termo significa.

- Tu colocaste em causa as minhas ordens – acusava o Juiz javali levantando-se da cadeira na sua forma gorda e altiva – quem és tu para me colocar em causa? Eu é que sou o juiz da floresta e faço as leis conforme eu bem quiser.


- Podeis prender-me senhor, mas sereis vós quem devia de ser preso por usurpação de poder e obstrução da verdade. Ontem a coruja correio voou com uma carta para o superior juiz do país. Creio que em breve irás ser chamado à barra do tribunal.


- Arquiduque Zé esquilo condeno-te a uma pena de prisão perpétua na gaiola do trasgo, onde irás comer pão rançoso e todos os dias irás arrepender-te por me teres enfrentado – bateu três vezes com o martelo e saiu, com os seus dentes rosnando, enquanto a vida animal assistia incrédula e silenciosa à decisão bárbara.


Podia-se considerar que o juiz javali saíra para se recompor, mas antes, pode o Arquiduque Zé esquilo ver pela sua curta janelita da prisão, que não era mais, que uma falha na construção, que o maldito fugira de um destino justo, e que sobre este, não há contornos possíveis e que certamente o apanhará na próxima encruzilhada do seu caminho.

Desajeitado e irrequieto na jaula, o Arquiduque Zé esquilo foi surpreendido por uma silhueta que se aproximava. Uma pantera – nebulosa encostou-se à jaula vendo o Arquiduque Zé esquilo refugiado numa injustiça demente.

- Vem comigo Arquiduque Zé esquilo, vou levar-te daqui.


- Que estás a fazer? Quem és tu? É perigoso vai-te embora ou vou-te causar problemas sem querer.


- Salvaste-me a vida, era eu que devia estar aqui e não tu. Tenho sido eu o verdadeiro conspirador contra o governo do Juiz javali. Vou levar-te para um lugar digno.
A pantera – nebulosa roeu toda a noite três paus de madeira e quando finalmente os desgastou o suficiente, o Arquiduque Zé esquilo escapuliu-se da prisão. Ajeitou o seu casaco, reajustou os seus óculos e endireitou os bigodes. Puxou do seu saco agarrando mesmo a tempo um livro que curioso saltava para o mundo cá fora. 
A pantera soltou um suspiro de alívio. Moldando-se na escuridão o Arquiduque Zé esquilo agarrara num pequeno archote e lá seguiram pelo túnel da prisão de efeito circular composto de paredes de terra e raízes de antigas árvores que conscientemente não concordavam com tal emprego.

 
Passaram cuidadosamente pela guarda garça que roncava num sono profundo e longínquo de sonhos com asas batendo ao luar e banhos num rio de água fresca. A pantera calculava os seus passos silenciosos e o Arquiduque Zé esquilo estremecia naquela aventura que ultrapassava a sua imaginação.


“Fugindo Zé esquilo, olha tu a fugires que nem um cobarde, pensava o Arquiduque Zé esquilo num arrependendo-se daquele pensamento que só durou 3 segundos, “Eu não sou um cobarde e muito menos cometi qualquer crime. O prior crime é aquele que aceitamos e nos rebaixamos à maldade dos outros”, debatendo e sentindo-se num esquilo um pouco maior e mais forte, como os heróis daqueles livros que ele trazia na bolsa.
A noite não escondia os medos e não escondia os perigos. E se a luz é a fonte de esperança, também ela, dá visibilidade de eventuais perigos, e naquele momento, não sei qual prevaleceu. Uma sombra que completava as duas paredes do túnel foi preenchendo o lugar. A luz do archote diminua perante o tamanho daquela sombra que se aproximava. O Arquiduque Zé esquilo tremia que nem varas verdes e a pantera agachava-se defensivamente. Ambos recuaram para trás de uma raiz demasiada grande e liberta do subsolo.

Um trasgo surgiu estúpido e coxo, roncando enquanto limpava o nariz imundo ao punho enquanto a outra mão trazia à boca torta uma caneca de cevada fervida, babando-se e arrotando que nem uma besta.

- Garça estúpida, acorda – rastejou-se preguiçosamente até ao guarda sonolento.


A garça agitou-se no ar, colocando-se em posição enquanto os seus grasnos acompanhavam três ou quatro penas que se soltaram das suas asas.


- Estavas a dormir em serviço, vou dizer ao patrão.


- Trasgo, trasgo – grasnava a garça e calou-se lembrando-se do tamanho e força do trasgo.


A pantera reluziu um olhar brilhante por entre a escuridão e o trasgo viu brilho. Estúpido disse:


-Olha gambozinos, vou apanhar-te – rindo-se dirigiu-se ao brilho.
Arquiduque Zé esquilo encolheu-se no seu curto tamanho. Então a pantera rodou o companheiro e colocando-o na sua montada saíram dali a correr. A garça lançou o sinal enquanto o trasgo os perseguia na sua forma desajeitada e lenta carregando uma moca velha e ensanguentada.

- Agarra-te bem Arquiduque Zé esquilo, mas não me puxes tanto o pelo.

- Oh perdão pantera – nebulosa.


Os capangas do juiz javali olhavam absortos os fugitivos esgueirando-se pelo meio da multidão. O corvo grasnou e o povo abriu alas. Coiotes, zebras, ursos e duas serpentes, os capangas pessoais do Juiz javali, seguiram na perseguição para apanhar os fugitivos. 
A pantera e Arquiduque Zé esquilo tinham chegado à fronteira e na orla da floresta estava uma coluna de guardas nas trincheiras bem posicionadas e protegidas.


- Como é que vamos passar para o outro lado?


- Não te aflijas cara pantera – nebulosa - Arquiduque Zé esquilo procurou um bom pau fino e enxuto, partiu-o ao meio, colocou um trapo encostado ao pauzito sobre uma pedra e agitou-o.


- Que estás a fazer Arquiduque Zé esquilo?


- Estou a fazer fogo, este pano está besuntado de ranho de trasgo. A sua gordura em vez de arder vai produzir um vapor grosso e desconfortável.
Então uma chama brilhou muito pequena rodeando a ponta do pano. Arquiduque Zé esquilo correu pequeno até à trincheira e colocou o pano por baixo dos troncos que se erguiam. Em instantes toda a trincheira começou a arder e um vapor estranho e malcheiroso se ergueu no ar.

Arquiduque Zé esquilo e a pantera – nebulosa previamente protegidos por um lenço em volta do nariz, correram sobre uma brecha dos troncos passando para a fronteira mesmo antes da trincheira ceder, obrigando os capangas do juiz javali a recuarem. 

Arquiduque Zé esquilo e a pantera – nebulosa continuaram a correr até a vila mais próxima onde encontraram o superior Juiz do país, ao qual, denunciaram todas as atrocidades e peripécias do Juiz javali. 

O professor Arquiduque Zé esquilo é hoje um professor conceituado trabalhando ainda como secretário pessoal do superior juiz. 

Quanto à pantera – nebulosa, há quem tenha enviado um bilhete a Arquiduque Zé esquilo dizendo que foi encontrado o seu rasto numa floresta a norte. “Sempre à procura de novas aventuras” pensou o Arquiduque Zé esquilo sorrindo.

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