O
ato de nascer é uma sublime bênção da vida. Quando o conforto de um
berço dentro do corpo da mãe dá lugar a uma brisa fresca numa saudação
de boas-vindas ao mundo, há um sentimento que cresce de um orgulho
sincero por nascer. Depois vem um beijo, uma carícia e se cria um elo único e eterno para todo o sempre, a nossa mãe.
Senti correr no sangue anos e anos de história sobre a minha gente, os estímulos e forças de um lobo. Os cheiros ganharam intensidade e sentia pulsando o sangue com tal força que já me sentia tão vivo. Os sons no início eram confusos, cruzados, até que, com a calma do tempo consegui separá-los e compreende-los. Todos os dias era uma novidade e era tão bom aprender. O mistério da vida era inesperado e eu adorava aquela surpresa.
A minha mãe era terna e cuidadosa e sempre que se ouvia o
perigo, ela levava-me para um qualquer esconderijo numa árvore ou numa
toca voltando depois para me vir buscar.
Até ao dia que eu compreendi que caminhamos sozinhos pela estrada da vida, que há quem apenas caminhe connosco na mesma direção, ainda que, cuidando apenas de nós. Triste realidade eu compreendera naquele dia, mas que me tornou mais forte e mais atento.
Um estrondo diferente estendeu-se no ar e sons estranhos rodearam na floresta. Tiros. Hoje eu sei que foram tiros. Os homens procuravam na floresta qualquer coisa que não sei, mas a minha mãe nesse dia não voltou mais para me buscar. Mas não querendo desiludi-la cumpri as suas ordens: “fica aqui filhote, eu virei-te buscar”.
Até ao dia que eu compreendi que caminhamos sozinhos pela estrada da vida, que há quem apenas caminhe connosco na mesma direção, ainda que, cuidando apenas de nós. Triste realidade eu compreendera naquele dia, mas que me tornou mais forte e mais atento.
Um estrondo diferente estendeu-se no ar e sons estranhos rodearam na floresta. Tiros. Hoje eu sei que foram tiros. Os homens procuravam na floresta qualquer coisa que não sei, mas a minha mãe nesse dia não voltou mais para me buscar. Mas não querendo desiludi-la cumpri as suas ordens: “fica aqui filhote, eu virei-te buscar”.
Talvez eu não compreendesse o risco de permanecer naquele local durante tanto tempo, tanto tempo até que senti a fome a comer-me a mim.
Saí da toca onde estava escondido e corri sorrateiramente à procura do cheiro de minha mãe, corri, corri até à orla da floresta, onde terminava num descampado. No cimo do mesmo, a brisa encontrou-me com maior velocidade e eu recuei, sentido como se o vento me mandasse de volta para casa, “aqui é perigoso”. Lá em baixo, eu via coisas a caminharem muito depressa nas estradas, homens numas coisas estranhas.
Percebi
que estava sozinho e então voltei atrás e caminhei errante durante dias
na floresta, alimentando-me de pequenos seres como ratos, tentando
sempre encontrar o cheiro da mãe algures. Caminhei, caminhei até a
solidão já se tornar tão própria como eu. Andava mal alimentada,
sentia-me só e o perigo visitara-me tantas vezes.
Num
dia enquanto dormia debaixo do arvoredo seco de uma árvore, algo me
apanhou. Quando abri os meus olhos estava nas mãos de um homem que me
agitava no ar como se eu fosse um prémio. Falavam numa língua estranha
que não compreendi. Mas senti que era perigoso e que não confiava em tal
animal.
Então um lobo adulto se revelou do meio dos fetos e atacou o homem que me agarrara. Mais uns sons como aqueles que ouvi no dia que perdi a minha mãe soltou-se no ar e encolhida na mata, revivendo o trauma, ali fiquei à espera de qualquer coisa que surgisse. Então os homens fugiram e o lobo que me salvou procurou-me:
- Oh pequeno já passou. Vem, sai daí.
- Quem és tu?
- Sou um amigo, sabes o que isso é? – o lobito abanou a cabeça – um amigo é um companheiro de viagem, uma viagem que se chama vida. Ele caminha contigo seja quando estiveres triste ou feliz, quer estejas errado ou certo. Um companheiro que só quererá o teu bem e fará o mais possível para que isso aconteça.
- Uau, eu também posso ser amigo de alguém? – perguntou o lobito no seu olhar carregado.
- Claro que sim, poderás de ser amigo de quem quiseres. Ao cresceres verás se esse amigo merece a tua amizade. Mas nunca deixarás de ser bom amigo por tentares sempre o melhor do outro. Os amigos vivem aventuras juntos, sorriem juntos, choram juntos e estão sempre por perto quando precisamos. É o maior tesouro que podemos ter. Um amigo é aquele que fica para toda a vida mesmo que esteja longe. E porque estás aqui sozinho?
- A minha mãe foi levada pelo homem. São tão maus. Porque nos andam a caçar? Minha mãe nunca me ensinou que o homem era o nosso alimento. Se não lhes fazemos mal algum porque nos atacam eles?
- Oh meu pequeno lobo, é verdade. Infelizmente o homem é um animal muito ambicioso.
Não precisa de carne de lobo para o seu alimento, mas este
animal ambiciona a riqueza. Mas não falemos nisso agora. Vem, tenho uma
caçada fresca escondida e não consigo dar-lhe conta sozinho.
A partir daquele dia, os dois lobos correram juntos pela floresta, o lobo ensinou a cria a caçar, a defender-se e todos os dias o lobo contava-lhe uma história. Os seus dias tornaram-se numa bela surpresa e agora ele sorria com brio e as lágrimas já se soltavam alegres.
Mas a vida é um milagre, e por vezes, as surpresas são autênticas graças.
O lobito estava à beira do rio quando o uivo solto no ar lhe chamou atenção. Um uivo que ele reconhecera senão fosse fruto do seu nascimento. Correu sem hesitar pela estirpe acima até encontrar na enseada uma loba confusa e cansada. Se os seus olhos não a reconhecessem, o seu coração falaria por si.
- Mãe?
Mão e filho juntaram-se na felicidade do encontro.
- Meu querido filhote, oh receei tanto que os homens te pudessem levar. Fugi deles, levei-os até ficarem longe de ti, mas ausentei-me para demasiado longe. Quando voltei ao esconderijo não estavas lá. Oh meu filho.
Quando a loba e o filhote se voltaram para caminharem juntos de volta à floresta, o lobo apareceu no rio.
- Quem é filhote?
- Um amigo mãe, eu tenho um amigo – contava aos saltos tão alegre que quando o lobito se voltou para o chamar, as palavras ecoaram na sua mente “Um amigo é aquele que fica para toda a vida mesmo que esteja longe”.
Então o lobo desapareceu correndo velozmente pelos campos abertos. O lobito sorriu.
- Até um dia amigo. Agora percebo o que é ter um amigo e o que é ser amigo. Eu sempre fui e serei teu amigo minha mãe, estejas onde estiveres. Ser amigo é amar alguém ou alguma coisa que achamos importantes e especiais na nossa vida.

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