terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Exercício de escrita: o povo Ykaräh






O meu mundo de hoje é uma muralha abandonada por um povo de saudade. Ocultando-se por baixo de um véu de luto, a tristeza assume o retrato da paisagem. O sorriso só é concedido em escassos momentos de delírio, quando a realidade não mostra mais a sua face. Não me lembrara de nenhum sorriso entre os que conheço da aldeia. Já tentei forçar alguns mas a rotina e o hábito não o souberam desenhar no meu rosto. Envergando um cesto de maçãs para vender ouvi o galope de cavalos, um grupo de homens vergando um traje das gentes do norte. O seu aspecto não era muito diferente do nosso, sendo certo, que a sujidade dos seus corpos e das vestimentas escondiam os traços da sua honestidade, se a tivessem. 

Era comum a passagem de patrulhas pela aldeia, ainda que, daqui nada houvesse de interessante, apenas o comércio obscuro e troca de material roubado. Como vim eu aqui parar? O lugar onde nascemos é a rota do nosso destino e lugar onde se assume uma demanda desconhecida. Por qualquer razão existe um caminho de partida que nos levará até mundos insondáveis. O coração dizia-me que aquele não era o meu.

O meu coração batia cada vez rápido sempre que a vontade de fugir me fervia no sangue. Eu queria fugir desta vida, queria olhar um outro mundo, procurar para lá de um mar perdido algures no horizonte, eu queria que o vento me arrastasse com ele no seu voo astuto e rápido. Quando senti a brisa pegar em mim, a minha prima pegara-me despejadamente pelo braço e puxou-me para dentro da barraca onde vivíamos, ao todo 8 pessoas.

O jantar soou de novo num jejum frio perante um fogo farto. Nem com a fraqueza do corpo conseguira-me controlar do susto que tomou-me abruptamente quando um grupo de homens entrou pela barraca agarrando todas as mulheres pelo braço rasgando a manga do vestido procurando algo. Reparei que aqueles eram os homens que chegaram naquela tarde à aldeia.

Um desses homens dirigiu-se a mim, olhou-me num olhar profundo de procura, de saudade, de encontro. Pegou-me respeitosamente no braço, levantou a manga rasgada do vestido e num espanto alegre tocou-me num sinal que marcava a minha pele, um símbolo estranho, de forma circular com umas insígnias que nunca entendi, voltou a tapar-me o braço. Suspirei de controlo e recuei um pouco mas o homem pegou-me ao colo e levou-me dali. Não consegui ripostar, a forma como ele me olhava e cuidava de mim deixaram-me narcotizada. 

Algo muito forte me atraí nele, algo que ultrapassa qualquer limite da razão. Atrás de mim ficaram os gritos e as pragas. A patrulha seguiu urgente por trilhos que nunca percorri. Ao meu olhar assustado aquele cavalheiro confortava-me um meio sorriso. 
 
Chegados à orla de um emaranhamento de fetos e árvores numa floresta bem-recebida, preparámo-nos para passar a noite numa gruta de habitual estadia.

- Toma, come qualquer coisa. Não estejas assustada. Ninguém te vai fazer mal – sussurrava-me num olhar demasiado carinhoso.

- Quem sois vós? Porque me trouxeram para aqui?
- Talvez seja um pouco cedo de mais para to dizer. Agora descansa, o caminho ainda é longo.

Antes de fazer mais alguma pergunta, aquele homem levantou-se, rodou num retiro perfeito e saiu da gruta num porte altivo e atlético de um guerreiro destemível e experiente. Antes o seu olhar me mostrava um homem de bondade, um guardião de sonhos e de mundos misteriosos por onde eu anseio tanto percorrer.
Adormecera num sono profundo como nunca me lembrara. Naquela noite senti-me vaguear por uma floresta repleta de uma ramagem plena e saudável. Os cheiros da resina e do pinho misturam-se no ar enamorando a neblina de uma forma saborosa. Naquela noite senti-me livre e ousada num corpo que não parecia o meu. Acordei sobressaltada pelo som do metal que se desferia pretensioso. 
 
Rekëar? Gritou um dos homens da patrulha ao homem por quem eu, desajeitadamente me apaixonei. Rekëar lutava contra três homens enquanto a restante patrulha tentava salvar-se para ajudar o seu chefe. Por cima da gruta um homem gritou “ela está ali apanhem-na”. O meu coração começou aquecer, o medo tremeu pelo corpo de forma bruta e selvagem. Senti um ardor no braço. Esse ardor em instantes percorreu-me o corpo, o sangue bombeava demasiado rápido no meu corpo. 

Senti que ia desmaiar pelo mau estar, quando soltei um rugido. Não foi um grito mas sim um rugido. E não foi a minha parte humana que atuou mas a minha parte animal. A minha pose de ataque desfilou sublime em campo aberto, onde as mandíbulas abriram-se num rosnado longo, sério e intenso. Olhei cada um dos homens que atacavam Rekëar como que preparada para apanhar a presa. Rekëar olhou-me perplexo e um atacante aproveitara a vantagem e deferiu-lhe um golpe. Quando Rekëar caiu no chão ferido, saltei para cima daqueles homens e vinguei-me. A minha parte animal não conhecia a dor humana e não a respeitou por isso. 

Simplesmente aniquilou os que eram fracos, fracos de coração e de honra. Avancei aos restantes invasores que temendo pelas suas vidas, correram monte abaixo. A patrulha estagnou aguardando o que eu iria fazer de seguida. Apercebi-me que havia algo de errado comigo, mas que me soava familiar com os meus sonhos, pelo que, corri até ao pequeno ribeiro. Chegada lá, o espelho da água mostrou-me a minha verdadeira face. O meu olhar cinzento gelado num azul límpido, a tonalidade de um preto puro alisado num pelo escovado e brilhante.

- Estás bem Breda? – sussurrou-me Rekëar.

Olhei-o assustada, escondendo-me atrás de uma árvore.

- Calma, onde vais? Eu não tenho medo de ti, sei que não me vais fazer mal. Como poderias fazer-me mal a mim? Mais medo tenho eu de não suportar a distância entre nós os dois. Em tempos corremos juntos pela extensa floresta do norte, não te lembras? Como foi que a adormeceste esta magia em ti? Recuso-me a deixar-te naquela aldeia à espera de um comprador que te torne numa diversão para medíocres. És tu Breda, esse sinal que tens gravado, és uma dávida da magia dos Deuses. Vem volta para casa comigo. Volta para o nosso povo, eles aguardam por ti.

Os meus olhos luziram numa felicidade que foi crescendo tomando-me por completo um turbilhão de memórias e sensações e um largo sorriso rasgou-me o rosto. Um sorriso honesto, feliz, acompanhado de umas gargalhadas que destruíram o bloqueio da minha entidade. Rekëar acarinhou-me o rosto, sorriu-me e beijou-me ternamente. 

A patrulha rodou-nos, entreolhámo-nos e a natureza se assumiu, todos nos transformámos na formosa pantera do norte, chamadas de Ykaräh, filhos da Deusa da neblina. Juntos percorremos os trilhos que nos levarão de volta às terras do norte, de volta a uma floresta imensa onde este mundo e o outro se misturam deliciosamente.

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