terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Exercício de escrita: A floresta dos gigantes




No limiar de um sonho a mente não rejeita o irreal, antes conserva a sua imagem para a saborear no mundo real. 

Por isso, eu gosto de sonhar e conhecer outros lugares.

Durante o dia corria para a biblioteca do avô e nos móveis imensos eu tocava nas capas velhas dos livros que se estendiam em prateleiras sedentes sussurrando-me para ler as histórias que elas carregavam. Lá me sentava num pequeno canto, iluminado por uma das grandes janelas da biblioteca, o vento começava a cantar, e os ramos das árvores arriscavam uma dança para que eu entrasse no mundo dos livros.

Quando dava por mim, estava adormecido junto das páginas abertas de um livro.

Esta vez não seria diferente de tantas outras, por isso, não havia nenhum ritual ao ler um livro, bastava folhear as suas páginas e voluntariamente entregava-me às brumas de um mundo fantástico para lá daquele que existe lá fora.
Já percorrera oceanos nas escamas de uma sereia, já percorrera as montanhas sob a montada de um insecto, já combatera abelhas numa guerra contra as formigas, já voara nas asas de um dragão, já conhecera as gloriosas ilhas num mundo para lá da linha do horizonte, já conhecera heróis místicos. Mas desta vez, quis a brisa levar-me para outro lugar. Lugar este, onde senti o pulsar da magia.

Quando acordei no sonho, vi-me emaranhado numa floresta vibrante, onde tudo era gigante, desde as árvores, as plantas e os insectos. As nuvens ficavam tão longe que julguei que aquela floresta não teria fim. O ar estava cheio de uma fragrância das bagas silvestres já maduras. Gigantes cogumelos trepavam nas soberbas árvores, aconchegados de longos fetos, onde com a humidade das suas folhas caindo no solo em gotas, era visto por mim, como cristalinas cascatas que reluziam as cores dos elementos daquele lugar. Caminhando pela floresta escura, iluminada por um candeeiro a óleo, sentei-me numa folha madura e com um pequeno impulso, escorreguei com ela por um trilho de raízes e lama até chegar a um baixo vale.

Nos grandes troncos das árvores haviam janelinhas acesas por toda a imensidão da floresta, formavam pequenos pontos nos carreiros fartos de arvoredo. Nelas viam-se animais atarefados nas suas funções, pequenos insectos na sua morada. A folha foi escorregando pela humidade do caminho até embater numa outra árvore com imensas raízes serpenteando até ao céu. Escalei até ao cimo daqueles ramos, longas e altas estradas, até encontrar o que para mim representava uma imensa gruta, ali naquele mundo, não seria mais do que uma pequena fenda na madeira antiga. Levantei a lanterna, e uns olhos curiosos fixaram-se em mim. Um gigante da árvore ou uma pequena coruja no seu mundo?

- Olá pequeno humano. Vejo que libertaste os teus sonhos pelo vasto mundo das cores. Não tens medo de te arriscar por mundos que não conheces?

- Eu não tenho medo. É só um sonho, e no sonho não há sofrimento infinito ele acabaria quando o sonho assim terminasse. E eu gosto destas novas cores, destas novas imagens, destas aventuras que ali no meu mundo real eu não consigo viver. Só os livros do avô conhecem estes mundos sábios cheios de uma simplicidade complexa.

- És um pequeno valente com uma alma tão grande e corajosa, e ela tem fugido um pouco para novos mundos. Sabes porque sonhas pequeno? Porque a alma está a tentar-te dizer isso mesmo, que existem outros mundos fantásticos para viver, e que não deves permitir viver na pequena janela que é o mundo onde pensas viver, naquele pequeno espaço que apenas conheces, que tu podes ser tão grande quanto a magnificência de um mundo fantástico. Amadurece o teu carácter humilde e bondoso e ver-te-ás a viver no mundo maravilhoso.
A simplicidade do mundo real, revela a existência de outros mundos, de tantas aventuras que também nele, podes viver. Os sonhos levam-te até eles e ajudam-te a fazer crescer, acreditar que existe tantas coisas maravilhosas para se viver, impulsiona-te a ganhar coragem e inspiração para criares grandes obras no teu mundo e vida real. Os livros caro amigo são viagens que a alma carrega no coração, caminhos já percorridos ornamentados pelas nossas vivências. Por isso são tão importantes para nós. Testemunhos de outras paragens, sonhos e desejos, amigos fieis das nossas viagens.
Queres que te mostre um pouco desta floresta?

O pequeno rapaz saltou para as asas calorosas da coruja e esta levantou voo, voando na brisa fresca no seio da floresta repleta de gigantes, entendi que não eram mais que gigantes sonhos e gigantes desejos de viver aventuras sem fim em prol de um conhecimento desejado.
Naquele voo reconfortante a criança adormeceu no sonho e acordou no mundo real. A janela ainda iluminada pelo sol mostrava agora um vento longínquo, as árvores silenciosas e adormecidas.

Fechou aquele livro que abraçou e correu a outra estante. um pequeno insecto pousou no seu ombro e o rapaz sorriu para ele. 

Retirou um novo livro, voltou a sentar-se aquele cantinho e tudo começou de novo, uma outra aventura.

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