As areias cortantes dançam nos remoinhos ao longo do
umbral do deserto, o vento não perdoava o vazio. Os grãos pequeninos, que
mirando o horizonte, viajam por montes iguais rodando num calor imenso. Quando
me propusera cumprir a minha palavra, jamais pensei que quando aceitamos
desempenhar uma tarefa, que o sacrifício fosse comandar em tamanha parte a
nossa missão. E então, por minha escolha lá estava eu, sozinha num extenso
manto dourado. O meu véu tapava-me o corpo e protegia-me a face dos ventos, que
apressados, exigiam a minha efectiva diligência.
O véu teimava em voar com o vento, juntando-se aos grãos que sussurravam-me experiências de longas viagens, cantando aventuras, levando para longe as que eu contava para não enlouquecer:
O véu teimava em voar com o vento, juntando-se aos grãos que sussurravam-me experiências de longas viagens, cantando aventuras, levando para longe as que eu contava para não enlouquecer:
“Encontra o tesouro Farhävaar, ele vai-te ser revelado pelo fogo, protege os nossos antepassados, resgata-nos dos malditos”. As palavras tornearam-me e a imagem do meu povo quase dizimado tornou-me a relembrar do meu propósito. Longos eram os tempos da guerra com o povo da lua branca. Um povo que vivia nas montanhas geladas do cume da montanha de Kurrogör. Sempre que os Deuses nos concedem um verão longo e quente, o povo da lua branca desce das montanhas para roubar as nossas colheitas, o nosso gado, os nossos filhos. Quando o antigo tesouro da nossa aldeia, do povo Esmer’adar, foi roubado pelo povo da lua branca, no longo inverno que nos roubou metade do povo, os Deuses lançaram um raio sobre as montanhas e esta rugiu abrindo-se ao meio. Não podendo voltar às montanhas, o povo da lua apoderou-se das nossas terras. O povo de Esmer’adar juntou-se para garrear pela paz, expulsando o povo da lua branca das nossas terras, mas as nossas forças são manifestamente inferiores aos dos raptores.
Quando a morte nos chicoteou com tamanha brutalidade, o círculo de Deuses mostrou-se e concedeu-me uma revelação: “Encontra o tesouro Farhävaar, ele vai-te ser revelado pelo fogo, protege os nossos antepassados, resgata-nos dos malditos”. Foi-me revelado o tesouro e o seu lugar. Por 3 semanas tenho caminhado até ao deserto. A fome já não é mais uma dor. Antes a esperança que me é roubada pelo tempo enfraquece-me o corpo e mente, agora ter esperança dói. Porque está tão longe. Os lábios rasgam-se numa secura sem misericórdia, a pele enruga-se numa pobreza marcante. Sempre que penso em desistir, uma silhueta se deslumbra no vento distorcendo a realidade, mas dá-me o alento que me impulsiona a caminhar.
O meu coração podia ver os corpos batendo-se em campo, podia ouvir o metal contrapondo-se rasgando os corpos desprotegidos, silenciando os gritos dos mais fracos e amaldiçoando os rugidos dos mais fortes. A lua não voltara durante três dias, os Deuses concedem-nos o valimento. Estaria a procurar o tesouro num deserto sem fim. E quando tudo se começou a desvanecer da minha visão, julgando eu que aquele era o meu fim, julgando-me visível apenas a miragens astuciosas, a luz que reluziu bem lá ao longe acordou-me. Uma chama de um fogo sedento da espera reluziu bem alto bem distorcido na visão entre o vento e o calor. Então os grãos de areia se afastaram até se revelar uma caixa. Ajoelhei-me e varri com as mãos a areia que ainda a ocultava num segredo bem guardado. Retirei-a do berço e coloquei-a sobre o meu regaço. O vento parou, os grãos dourados sustaram-se num silêncio total. Destranquei o fecho e abri a caixa. A luz esverdeada reluziu lá de dentro com uma força que pareceu rasgar o céu até ao Olimpo.
Retirei o colar redondo, ostentando uma bela faixa em toda a extensão delineado em bruto ouro que rodeava imensas pedras avermelhadas, o seu símbolo formava uma águia. No centro do soberbo colar estendia-se uma esmeralda onde eu pude ver o meu reflexo. De repente o colar desapareceu das minhas mãos para o fazer rodar no meu pescoço, aquelas mãos eram doces memórias. Então eu vi-o, o meu desaparecido marido, sorria-me para se desvanecer de seguida.
Derramei uma lágrima. Quando me levantei senti. Que
tesouro magnifico. Transformou-me com uma rapidez insondável, levando-me por
estímulos sem questionar. Eu voava rápida e eficaz pelos céus de um bruto azul,
conduzida por um vento ansioso que me levava até ao campo de batalha. Outras
águias uniram-se a mim, juntando-se à nossa semelhança.
Quando sobrevoei o campo de batalha, via os corpos
estendidos e outros esgotando-se numa esperança já pouco presente, lancei um
aviso com a minha nova voz adornada por um raio dos Deuses. A luz da Esmeralda
reluziu transformando a cor do céu. O povo da lua branca parou preparando-se
para fugir. Quando aterrei transformei-me de novo na simples rapariga que
nasci. O fogo saiu dentro de mim. Em meu redor formou-se uma corrente em chama
esverdeada resultante do brilho que saiu da esmeralda, que se estendeu por toda
extensão das nossas terras, alcançando todos os que pertenciam ao povo da lua e
sugou cada membro para serem engolidos para dentro da Esmeralda.
As montanhas rugiram estremecendo o chão e os montes voltaram-se a unir. Levantei voo assumindo a forma animal de águia e vi, o nosso povo raptado descia pelas montanhas, sãos e salvos para voltar para casa. No meio da multidão uns olhos alcançaram-me e abraçaram-me, o meu marido estava vivo e voltava para mim.
Olá,
ResponderEliminarOra cá está um dos vários exemplos de exercicios de escrita realizados, realmente acho um jogo curioso e acredito que para quem, como tu, gosta tanto de escrever devem dar-te um prazer enorme estes desafios.
Uma mais valia para o teu blog sem duvida ;)
Bjs
E que possas continuar a deixar-me desafios para os escrever...:P
ResponderEliminarAprendi que para alcançarmos a verdadeira felicidade, o sacrifício é o caminho a percorrer, nele encontramos a sabedoria, a força e coragem que precisamos para continuar. Talvez aqui o tesouro não fosse apenas um colar oferecido ou revelado pelos Deuses, mas a fé e coragem com que vivemos as demais incertezas do destino.
Obrigado
Podes contar com isso, alias deixei-te recentemente um e aguardo com espetativa o resultado :D
ResponderEliminarSem duvida ;)
Assim que me for possível, já sabes que irei fazer, tanto esse das palavras, bem como, aquele que uma certa voz me pediu..:P
ResponderEliminarlol,
ResponderEliminarMuito bem, esse da voz, será publicado também no meu blog se tiver permissão :D
A ver se a missão é bem sucedida ehehehe